Maçã
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Notas iniciais
Nossa, a quanto tempo eu nao escrevo uma historia Yuri '-' Faz tempo... Eu ja tenho duas postadas, essa vai ser a terceira. A ideia surgiu depois que eu estava ouvindo a musica Yield da banda japonesa Sound Horizon. Ta que a musica tem um final tragico, mas como sempre falam de maçãs, eu acabei criando essa historia. Espero que gostem.
Sem mais delongas: Boa Leitura!
Mais uma manha desabrocha no horizonte e os raios de sol invadem minha janela, me fazendo despertar aos poucos. Pisquei diversas vezes antes de finalmente abrir os olhos e mirar a janela. O casal de passarinhos que haviam montado seu ninho na arvore em frente a minha janela foram os primeiros a me dar bom dia com uma linda cantoria. Sorri e me levantei, calçando os chinelos antes de me dirigir ao banheiro para a higiene matinal. Aqui é costume levantar bem cedo, com o raiar do dia.
Depois de um bom banho, prendi meus longos cabelos loiros em um coque e vesti algo que me deixasse confortável. Embora minha mãe não gostasse que eu me vestisse “como um moleque”, um macacão jeans e uma camisa era o ideal para se trabalhar na terra. Seria um desastre se eu fosse arar a terra de vestido, por isso ela apenas resmungava sobre o fato de eu ser uma garota e que deveria me comportar como uma. Meus pais tem uma pequena lavoura de legumes e verduras, eu sou a única que pode ajuda-los, já que eles não são mais tão jovens. Não dava para pagar alguém para ajudar, afinal o dinheiro que ganhávamos vendendo nossas verduras só dava para nós.
Mas eu não reclamava de nada. Nem meus pais. Sabia que, assim como eu, eles amavam aquela terra, aquele lugar e a vida pacifica que tínhamos. Não precisávamos de luxo e conforto exagerado para sermos felizes. A simplicidade das coisas e das pessoas era o que dava um encanto no lugar. Por isso eu trabalhava na lavoura com alegria, sem reclamar ou fazer corpo mole. Depois de terminar o café da manha, dei um beijo estalado na bochecha de minha mãe e sai com meu pai para recolher a colheita que já estava pronta para ser vendida.
Colhemos uma boa parte e enquanto eu separava cada tipo de verdura e legume em uma cesta diferente, meu pai preparava a caminhonete para partirmos para o centro. O centro de nossa pequena cidade não se comparava aos grandes centros da capital, mas era onde o comercio fervilhava e com certeza venderíamos tudo. Assim que coloquei as cestas na caminhonete, corri ate a frente e abri a porta da caminhonete, subindo e já prendendo o cinto de segurança. Meu pai deu a partida e o alto ronco do motor me fez sorrir enquanto saiamos de nosso pequeno sitio.
O caminho era um pouco demorado, cerca de meia hora. Então passei a apreciar a paisagem, os outros sítios ao redor, os animais e os pequenos lagos ao longe. Realmente era um lugar tão bonito que eu desejava nunca sair dali. O vento me abraçava enquanto brincava com meus cabelos e não pude evitar em sorrir outra vez. Logo pude ouvir vozes ficando cada vez mais nítidas e altas, sinal de que já estávamos chegando ao centro. Não demorou para que meu pai passasse por um portal, entrando em uma rua já com certo movimento, procurando um local para estacionar.
Não importa quantas vezes eu venha para cá, sempre fico abismada com a quantidade de pessoas. Tudo é tão tranquilo e silencioso onde moro que não penso que tem milhares de pessoas que moram na região. No centro era sempre uma euforia, um corre-corre, uma falação exagerada, mas toda aquela agitação me deixava animada de certa forma. Assim que meu pai achou um lugar para estacionar, desci do carro e comecei a ajuda-lo a montar a barraca onde venderíamos as coisas. Descia as cestas cheias de verduras e legumes, arrumando-as na barraca e meu pai afagava meus fios loiros em agradecimento.
Pessoas começavam a chegar e olhar a mercadoria, comprando o que queriam. Me mantive ali ajudando meu pai, sempre gentil com os clientes. Era bom ver tantas pessoas diferentes e fazer algo diferente do dia a dia. Depois de um tempo, quando boa parte dos legumes e verduras haviam sido vendidas, meu pai disse para que eu aproveitasse o resto do dia e fosse passear pelo centro. Aceitei, já que ele poderia continuar vendendo sozinho agora e me afastei da barraca, começando a andar entre a multidão, olhando as lojas e outras barracas com atenção.
Parei em uma loja de laços e fitas, observando a vitrine que mostrava novas cores que haviam chegado há pouco tempo. Embora não parecesse, eu gostava de coisas bonitas e fofas como essa. Quando havia alguma festa, eu não hesitava em colocar um vestido bonito e prender meus cabelos com uma linda fita. Gostava de dançar e ser notada nessas ocasiões. Desviei minha atenção, pois algo que refletia no vidro da vitrine me fez virar para trás, piscando algumas vezes como se não acreditasse no que eu estava vendo.
Uma garota que devia ter a mesma idade que eu passava entre a multidão, me fazendo acompanha-la com o olhar. Era uma bela garota... Acho que a mais bonita que já vi em toda minha vida. Tinha cabelos castanhos compridos, preso em duas tranças que caiam a frente do corpo e chegava à altura do colo. Os olhos eram verdes claros e a pele era branquinha como a lua. Estava com um vestido de alça que chegava ate os joelhos, num tom laranja estampado com pequenas flores brancas. Nos braços, carregava duas cestas de maçã, vendendo a fruta para as pessoas ao redor.
A beleza simples da garota atraiu a minha atenção e passei a caminhar atrás dela sem perceber. Cada vez que ela parava para vender seus frutos vermelhos, eu parava também para observar seus gestos. A cada olhar e pequeno sorriso gentil ao entender as maçãs me fazia suspirar. Pensei que não havia sido notada por ela, mas me enganei, pois assim que virei uma curva onde ela havia entrado, dei de cara com ela que estava de braços cruzados, me encarando com uma expressão desconfiada.
- Por que esta me seguindo?
- Me... Me desculpe, foi sem querer. – respondi sem jeito, engolindo em seco por ter sido pega.
- Se fosse um homem, eu teria chamado a policia. Não fique seguindo as pessoas assim. – ela alertou, ainda com a expressão fechada.
- Me desculpe mesmo... Eu... Ah, gostaria de uma maçã. Quanto é?
Era claro que eu estava tentando mudar de assunto ou me justificar, ainda mais com o sorriso encabulado que dei a ela. Mesmo assim ela pareceu relaxar, estendendo uma das maçãs para mim e dizendo o preço. Tirei algumas moedas do bolso, o que dava para pagar o fruto e dei o dinheiro a ela, agradecendo. Ela me deu as costas e foi embora antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa e suspirei, abaixando o olhar. O que eu esperava? Havia deixado uma péssima impressão nela por tê-la seguido.
Decidi voltar para a barraca de meu pai enquanto comia a maçã, me deliciando com o sabor do fruto maduro e doce. Assim que cheguei, vi que meu pai estava terminando de vender as ultimas mercadorias e logo poderíamos ir embora. Assim que terminei de comer, fui colocar as cestas, agora vazias, dentro da caminhonete e por fim, desmontei a barraca com meu pai. Tinha sido um ótimo dia de vendas, meu pai estava animado por poder voltar pra casa com um bom dinheiro. Já eu estava com a cabeça na linda vendedora de maçãs que agora nem deve se lembrar de mim.
--- X ---
Um novo dia, uma nova colheita estava por vir. A terra estava semeada e aos poucos nossos legumes e verduras cresciam de novo. Meu pai me dispensou do serviço já que tudo o que precisava fazer era regar o terreno. Decidi fazer um passeio, pegando minha bicicleta na garagem e pedalando sem rumo pelos campos próximos ao nosso sitio. Novamente o vento me acolhia enquanto batia contra o meu rosto e eu podia ouvir somente o barulho das rodas em atrito com o chão de terra.
Encontrei uma pequena trilha quando parei para comer algumas amoras no pé da estrada e fiquei curiosa para saber onde poderia dar. Passei a pedalar seguindo a trilha e subindo por uma colina ate encontrar um pequeno sitio que, a primeiro momento, parecia abandonado. Mas qual não foi minha surpresa ao ver minha bela dama da maçã – acabei dando esse nome a ela – saindo da casa com uma grande cesta em mãos. Não consegui controlar um sorriso e pedalei um pouco mais para me aproximar.
- Bom dia, bela dama.
- Que...? Ah, você... – ela parecia me reconhecer, ficando surpresa e desconfiada com minha presença ali – Está me seguindo de novo?
- Juro que não. Foi coincidência eu ter vindo parar aqui. – fui o mais sincera possível com ela, descendo de minha bicicleta enquanto a encostava perto da casa – Me desculpe por aquele dia novamente, eu não queria fazer mal algum.
- Hm... Está certo. E por que me chamou de bela dama?
- Por que você é muito bonita. – ela pareceu surpresa com o que eu disse – A mais bonita garota que já vi.
- Você é estranha... – negou com a cabeça, me dando as costas enquanto voltava a caminhar.
- É, eu também acho. Mas então, qual é o seu nome?
- Não vou dizer meu nome para alguém que esta me perseguindo.
Acabei por rir, dando de ombros. Realmente havia causado uma péssima impressão nela. Mesmo assim decidi acompanhá-la, não me importando dela achar que era perseguição minha. De certa forma, era isso mesmo. Queria ficar perto dela, sabem quem ela era. Uma curiosidade muito estranha, admito. Mas eu não podia controlar isso. Só então notei que haviam lindas macieiras que cercavam o pequeno sitio, sorrindo ao perceber de onde ela pegava os frutos tão belos e deliciosos.
- Vai ficar me seguindo mesmo? – ela virou para me encarar novamente, com uma sobrancelha arqueada.
- Estou te perseguindo, não estou? Então sim. – brinquei, rindo divertida com sua expressão – Quer ajuda pra colher as maçãs?
- Não preciso!
Ela parecia irritada com minha presença, mas isso só me fazia achar ela mais fofa, já que estava uma graça toda emburrada. Havia uma escada perto da primeira árvore e ela logo ajeitou a mesma no tronco para subir e já começar a colher. Eu fiquei parada a certa distancia da arvore, observando-a colher os frutos maduros. Estava tudo tranquilo até que ela pisou em falso num dos degraus da escada e eu saiba que ela iria cair no chão. Corri para segurá-la e evitei sua queda, envolvendo-a em meus braços. Podia ver o susto na expressão dela e seu coração havia disparado no peito. O meu também, mas não era de susto...
O fato de tê-la tão próxima a mim era algo que me deixou estranhamente desconcertada. Podia sentir claramente o calor do corpo pequeno e esguio colado no meu, o que me fez morder os lábios. O vestido que ela usava deixava os ombros a mostra e antes que eu me desse conta, já estava deslizando a ponta do nariz por sua pele, subindo pelo pescoço e sentindo seu doce perfume... Maçã. Até o cheiro do fruto ela tinha. Ela virou o rosto e nos encaramos com os rostos a centímetros um do outro. Vermelha como o fruto maduro, era assim que ela estava.
- Você esta bem? – perguntei, finalmente soltando-a.
- Sim... Obrigada. – ela ajeitou o vestido, ainda sem jeito com o que tinha acontecido.
- Acho que é melhor eu segurar a escada pra você, antes que aconteça mais alguma coisa. – suspirei, me aproximando da escada.
- Não precisa! – ela segurou meu ombro e me encarou em silencio por alguns minutos antes de voltar a falar – É Milena.
- Como?
- Meu nome... É Milena. – ela explicou, levemente vermelha.
- É um prazer em conhecê-la. Meu nome é Elize. – me apresentei também com um grande sorriso.
Depois das devidas apresentações, passei a ajuda-la a recolher as maçãs, mesmo que no começo ela fosse contra. Juntas, o trabalho foi bem mais rápido e pudemos conhecer melhor uma a outra. Soube que ela morava sozinha no sitio, já que os pais haviam morrido a alguns anos, mas se esforçava ao máximo para manter a propriedade e principalmente as macieiras, que era sua fonte de sustento e sua maior paixão. Me encantei com sua força e dedicação para com sua terra e ao fruto, então prometi que sempre viria ajuda-la.
A cada nova colheita, a cada nova estação, eu pedalava ate o sitio de Milena para ajuda-la com as maçãs. Às vezes nem era época de colheita, mas lá estava eu, “perseguindo” a garota por todos os lados enquanto nos divertíamos juntas. Eu podia notar que a cada vez que a via, meu coração pulsava mais alto e meus sentimentos transbordavam em sorrisos e olhares. Mas eu não conseguia ficar satisfeita com isso. Talvez seja por isso que a envolvi em meus braços debaixo da macieira e colei nossos lábios, colhendo o doce sabor que eles continham.
- O que isso significa? – ela sussurrou entre meus braços, incrivelmente vermelha.
- Significa que eu amo você.
Meu sorriso envergonhado com minhas próprias palavras fez com que ela sorrisse também, tão vermelha quanto antes. Seus braços voltaram a me envolver enquanto eu colava nossos lábios mais uma vez, fazendo do segundo beijo algo muito mais intenso e necessitado. Queria estar com ela para sempre, não importava o que acontecesse. Aquele lugar havia me dado mais um motivo para ama-lo, com certeza o melhor motivo de todos. E não é estranho afirmar que a Maçã se tornou meu fruto favorito depois que me apaixonei. Que venha os frutos desse amor, tenho certeza que serão os mais belos e deliciosos que colherei na vida.
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