MUTANTES & PODEROSOS I - O Segredo dos Poderosos
30 Capítulo 29 - A Vista Deles
Notas iniciais
CAPÍTULO 29
A VISTA DELES
Já estava escuro. A chuva continuava a cair umedecendo tudo em volta. As grossas nuvens cinzas escondidas pela escuridão da noite se transformavam em vários pingos de água. Um desses pingos saiu da nuvem que antes fazia parte e caiu no rosto de Taya, molhando-a.
Luke se aproximou dela e a ajudou a se levantar. Ela cruzou os braços enquanto tentava se esquentar. Em meio à escuridão, Luke pareceu perceber que ela estava com frio. Abraçou-a para passar calor corporal. Seguiram assim até chegar à pedra de pouco mais de um metro. Ele a pulou e ajudou a Mutante puxando-a. Depois continuaram subindo até chegar à cabana.
Aproximaram-se da cabana. Havia luz lá dentro. Isaac e Jessie deviam ter acendido as chamas para iluminar tudo. Os dois se aproximaram da porta.
—Como está se sentindo? Ainda está com frio? – perguntou Luke à Taya, olhando por cima sua silhueta escura ao qual abraçava.
—Nem tanto! Já senti mais frio na vida.
Quando subiram as escadas de madeira e chegaram ao único cômodo além do outro com o forno à lenha, repararam na pequena fogueira que fizeram no centro, com madeira ainda seca, tudo montado sobre pedras para não queimar a cabana. Mas, o que chamava a atenção era que, agachado, Isaac segurava...
—O que é isso? – perguntou Luke, achando estranho.
—Bem, encontramos isso em meio às cinzas da lareira. – respondeu ele.
—Sim, ficamos mexendo nas cinzas como loucos à procura de coisas que revelassem algo sobre esta cabana. – respondeu Jessie, ironicamente. Ela tentava conter um sorrisinho, entendendo o motivo para Luke estar tão próximo de Taya. –Lembram que algumas horas atrás, quando chegamos, senti o cheiro de mulher neste lugar, que parecia ter estado aqui semanas atrás? – eles mexeram a cabeça positivamente. –Achamos outra pista que talvez tenha sido dela: parte de um mapa.
Isaac ainda analisava o mapa quando levantou a cabeça e, sem dizer nada, reparou nos dois à sua frente, que agora estavam de mãos dadas. Não demorou muito para que compreendesse. Ignorando, disse:
—Olhem! É pequeno o pedaço, e a maior parte dele está queimado, mas dá para ver que esta parte compunha o mar no mapa, pelo desenho das ondas e da cobra gigante d´água.
Luke chegou perto e, pegando o pedaço da mão de Isaac, analisou-o.
—E isso quer dizer que...
—Não quer dizer nada! Quer dizer apenas que alguém esteve aqui há algum tempo e é isso. – respondeu Jessie. Parecia que sua ironia estava voltando.
Taya observou bem o papel pintado de cinza em sua maior parte. A parte amarela que não havia sido queimada mostrava exatamente os desenhos que Isaac falou, mas também dava para ver as pontas das perninhas da letra R. “MaR”, concluiu Taya.
—Jessie não consegue sentir o cheiro de mais ninguém neste papel. – disse Isaac, e os dois Mutantes olharam para a Composta.
—O quê? Ele está queimado e não consigo sentir o cheiro de pessoas e coisas com o cheiro das cinzas por cima.
—Acharam mais alguma coisa além...disso? – perguntou Luke.
Isaac mexeu a cabeça negativamente.
—Taya! Me ajude a preparar o resto da carne que ainda não estragou? – perguntou Jessie.
—Claro! – ela respondeu, se afastando do Mutante e indo ajudá-la.
Quando estavam no cômodo com o fogão à lenha, Jessie comentou:
—Vejo que alguém aqui conseguiu vencer o medo!
Taya não respondeu nada, apenas soltou um sorrisinho de lado.
Isaac e Luke terminaram de limpar a cabana e matar alguns bichinhos – incluindo uma barata negra que aparecera correndo no cômodo com o fogão à lenha que fez Taya tomar um susto e gritar – e jogaram as cinzas fora.
Depois do jantar, todos já se preparavam para dormir.
—Amanhã teremos que acordar cedo, como de costume. Pelo que vejo no nosso mapa, essa floresta onde estamos é a última e depois vem mais uma cidade costeira, perto da praia, onde encontraremos o portão limite de Hangária Mindória.
Ao ouvir isso, Jessie deu um leve sorriso de esperança. Cutucando-a com o pé, Taya disse:
—Não se preocupe! Tenho certeza de que ele estará bem.
Jessie deu uma risadinha sem graça de “obrigada”.
Taya estava ao lado de Luke. Ele, tocando seu braço, sussurrou um “boa noite!”, e ela retribuiu abraçando o braço do jovem levemente. Depois, deitou sua cabeça no colo do jovem que estava sentado. Ele também fechou os olhos. Isaac olhou para Jessie, que evitava sorrir demais. Depois, também foram dormir.
Não apagaram a fogueira: ela os esquentava. Apenas viraram a cabeça para o lado oposto ao fogo – apenas Luke não tinha essa oportunidade por estar sentado de frente para ela -. E precisaram do calor, pois frio e chuva caíram com intensidade naquela noite.
—Vamos Tay, acorde! – disse Luke, tocando o seu rosto de leve, fazendo-a acordar.
A jovem gemeu ao despertar.
—Está cedo e frio! – ela reclamou , mas sabia que deveria levantar.
—Eu sei, mas é bom levantarmos e chegarmos à cidade costeira o mais rápido possível. – justificou o jovem.
Ela concordou e levantou sua cabeça do colo dele. Ajeitou os seus cabelos, e Jessie lhe jogou sua luvas. A jovem as colocou e esticou as mangas compridas de sua roupa, disfarçando tudo.
Não demorou a todos estarem prontos. Para Jessie, ficou até melhor permanecer com aquela toca na cabeça, para se esquentar do frio que se impregnara em volta deles. Para Luke também, pois aquela longa capa o esquentou bem.
Do lado de fora, embaixo de uma enorme árvore, Isaac encontrou Ajudante, mas, obviamente, a árvore não conseguiu o proteger muito bem da água da chuva, e o animal estava meio úmido.
Mesmo assim, Luke e Taya seguiram no animal, enquanto os dois iam andando. Precisavam sair do reino de Hangária Mindória logo.
—Olhem lá! – apontou Jessie, fazendo um movimento com a cabeça e mostrando a cidade costeira.
Ela era uma cidade enorme. As construções pareciam ter sido milimétricamente combinadas. Os prédios utilizavam-se de um material amarelado, talvez pedra desértica encomendada de Tarinter. Torres, casas, praças, tudo muito bonito. A cidade era enfeitada com plantas e tudo o mais que podia se fazer. Havia até uma escultura de Yahgh, o pirata caçador de feras do mar. Taya lembrava-se de algumas histórias sobre ele que seus pais lhe contaram. Ele parecia ter sido um grande lutador, apesar de pirata e fora da lei.
Ao lado da cidade, um azul que sumia horizonte a fora: o mar. Era lindo. A brisa do mar e o cheiro de maresia impregnavam o local. A praia era marcada pela presença de muitos navios e barcos. Mas, o verdadeiro problema era que a cidade estava mil metros abaixo deles. Eles estavam em um barranco, e na ponta do barranco. Mas, o precipício era pequeno, e eles podiam ver que, à sua esquerda a paisagem se abria, e a cidade tomava conta de tudo lá embaixo. A parte ao qual eles estavam de frente se espremia entre o precipício e o mar, mas como já descrito, à esquerda o barranco acabava e dava lugar à dezenas de quilômetros de cidade costeira.
Lá no fundo, ao lado esquerdo deles, bem no horizonte, depois da enorme cidade tomar conta de toda a paisagem, eles podiam ver uma enorme mancha: os portões que separavam Hangária Mindória de Tarinter. O verdadeiro desafio era passar por eles.
—Uau! Isso é simplesmente lindo e imenso. – comentou Taya, surpreendida. Nunca havia visto uma cidade tão grande assim. Na verdade, os únicos que haviam visto cidades tão grandes assim eram Isaac (por ser filho de rico comerciante e ter que viajar com ele para vários lugares) e Jessie (que já tinha passado pela cidade após vir de Tarinter, conforme a história já contada dela). Mas ainda assim era surpreendentemente mais bonito de cima.
—E como vamos chegar lá embaixo? – perguntou Jessie. – Voando? Porque eu não sei voar!
—Ei! – disse Luke.
—Não, não e não! – Isaac se intrometeu. – Vocês não podem demonstrar suas mutações, de jeito nenhum.
—Eu já estou ficando com gastura disso tudo. – disse Taya, olhando novamente para a cidade lá embaixo. Com medo, se segurou em Luke.
—Esperem! Pelo mapa de Inimigo, acho que tem como descer até lá embaixo. – disse Isaac.
—Sim! Todos percebemos, pois daqui dá para ver que a floresta atrás de nós desce como morro até lá. – respondeu Jessie. Ela agachou-se e, pegando uma pedra, jogou lá de cima. Eles não viram, mas a pedra quebrou um dos jarros de um comerciante. –Eu sempre quis fazer isso!
—Enfim...- disse Isaac. –Precisamos descer logo e chegar lá embaixo o mais rápido possível. Sem mais delongas!
E lá de cima, puderam ver que a cidade estava proporcionalmente cheia, lotada.
Multidões ocupavam a cidade. Mal haviam saído da floresta e já puderam contemplar uma multidão que se espremia para conseguir andar e dar lugar para todas as pessoas e comerciantes que passavam. Não havia Mutante no meio, não visíveis e expostos.
—Deve estar quente no meio desse pessoal! – comentou Jessie.
—Não se preocupem! Daqui até o portão é uma longa distância e demorará pelo menos um dia inteiro para chegarmos até ele. – disse Isaac.
O sol logo se esconderia atrás das nuvens que vinham em massa da direção do mar. Mas a multidão parecia nem se preocupar.
Antes de entrarem no meio da multidão, Isaac virou para Luke e Taya e disse:
—É melhor saírem de cima do cavalo, pois chamarão muito a atenção. – os dois obedeceram concordando. –E outra coisa essencial: não se afastem nunca. Vocês viram que são quilômetros de multidões até terminar de atravessar a cidade. Não se afastem. Me sigam e sigam Ajudante.
Luke segurou a mão de Taya, não deixando-a se afastar dele, e Jessie acompanhou de perto os outros três, gravando na mente a imagem do cavalo.
O barulho era intenso. Pessoas conversavam e outras gritavam. Jessie fazia o máximo para disfarçar a confusão insuportável de sons que invadiam seus ouvidos escondidos debaixo do capuz. O acessório ajudou um pouco a conter todo o barulho, mas ela ainda ouvia muito alto.
—Peixe fresquinho para você e sua família! – gritou um comerciante em uma barraca, o cheiro do peixe atraindo a Composta. A barraca dele estava cercada de peixes de todos os tamanhos, e moscas voavam em volta.
—Maçãs! Estas nem os seus antepassados comeram. – anunciava outro vendedor.
Pessoas passavam por todos os lados. Pessoas anunciavam a procura de parentes. Um barulho intenso de ferro contra ferro em uma casa baixa feitas de pedras desérticas.
De repente, uma jovem de cabelos castanhos os interceptou em meio ao caminho, como estava fazendo com todos.
—Com licença, meu nome é Kira e procuro o meu irmão Jackie. Ele estava indo para Tarinter em segredo. Tem um cabelo castanho com uma mecha branca. Vocês poderiam me dizer se viram ele? – Isaac respondeu pelo grupo e mexeu a cabeça negativamente.
De repente, uma mulher passou perto de Taya e se arrastou sem querer em seu braço, parecendo nem ver, continuando o caminho. Taya olhou para seu braço ao sentir a brisa fria tocá-la e descobriu que sua luva se destapou um pouco. Com um pequeno gemido, ela chamou a atenção de Luke, que ao ver a situação, sentiu-se tremer. Ela puxou a luva imediatamente tapando-a e olhando em volta para conferir se ninguém tinha visto. Ninguém parecia ter visto com exceção de uma pessoa: a jovem chamada Kira. Ela ficou paralisada olhando séria para Taya. Se aproximou alguns passos e perguntou baixinho:
—Você não é Corriqueira, é?
Com medo, Taya não conseguia se mover. Luke puxou-a para frente, vendo que graças ao Criador, Isaac estava alguns metros à frente deles.
—Desculpe! Não vimos o seu irmão, mas se o vermos, avisaremos que está o procurando. Com licença, mas o nosso amigo já esta lá na frente e não podemos perdê-lo. – justificou Luke. E puxou Taya até Isaac, deixando a estranha jovem paralisada e olhando para eles séria.
Logo a frente, outra surpresa: na parede de um casa, a imagem de Isaac. “Procura-se”, estava escrito.
—Isaac, olhe! – alertou Taya.
O jovem olhou e se chocou como os outros.
—O meu pai! Faz tanto tempo que fui embora que ele deve ter sentido a minha falta.
—O que vamos fazer? – perguntou a Mutante, pálida de medo.
Jessie foi até o cavalo, e mexendo em uma das bolsas penduradas nele, enquanto Isaac olhava para baixo no objetivo de “esconder” o seu rosto, pegou um pano qualquer o enrolou em volta da cabeça, deixando os olhos expostos apenas. Quase que ele não fora grande o suficiente para o fazer.
—Como estou?
—Parece um integrante dos grupos terrorista das florestas do norte, aqueles que Yahgh derrotou duzentos anos atrás. – respondeu a jovem, mas Isaac não achou graça.
Eles continuaram pela estrada. Pessoas gritavam, carroças passavam. O barulho estava insuportável para a Composta, mas continuaram ainda assim. Controlava-se, pois o barulho era intenso, e o cheiro também. Era cheiro desde os mais gostosos – vindo de um estabelecimento muito arrumado a direita, onde vendia perfumes a uma moeda de ouro -, até cheiros ruins como o de comida estragada – principalmente restos de peixes jogados em barris de madeira, um cheiro que vinha da praia -. Para nós, se sentíssemos o que ela sentia depois de termos experimentado a “corriqueirice” seria estranho e perturbador, mas ela já estava acostumada.
Eles chegaram à uma enorme e ampla praça principal. Novamente a multidão os cercava por todos os lados. Agora Jessie não conseguia nem escutar os sons distantes.
Novamente ofertas e vendas, pessoas gritando por todos os lados. Mas, de repente, os gritos se transformaram em outros gritos: gritos de desespero.
—Socorro! – gritou uma mulher bem alto, e a multidão paralisou-se.
Um grande grupo de pessoas vieram correndo da direção do mar, com espadas e arcos nas mãos, pela rua que vinha do porto. Suas feições não eram boas e em seus olhos havia braveza e coragem. A multidão começou a correr. Pessoas gritavam em desespero. Se alguém caísse – como acontecera – seria pisoteado.
O grande grupo era diferente. Era composto por homens somente, como um exército, e usavam roupas típicas de outro lugar, de outro continente. Usavam algo que diríamos que era uma saia de couro, enquanto o tronco era desnudo ocupado apenas por duas listras de couros, que seguravam a “saia”. Seus corpos e rostos eram pintados e eram, em maioria, musculosos e morenos. Sim, morenos. Eram raras as pessoas morenas no continente de Andryleen, principalmente por ser um lugar frio e, às vezes, passar até semanas sem sol. Sendo assim, as pessoas costumavam ser bem claras. Os cabelos e pelos deles eram totalmente negros, e eram, também em maioria, barbudos.
—Corram! – gritou Isaac, assustado. – Corram para o outro lado da praça.
Eles começaram a correr, correr tão rápido que nem viam onde estavam pisando. Os pulmões de Jessie e suas narinas ardiam, enquanto ela começou a suar. Seu coração e o lado direito de seus tronco magro começaram a doer.
Quando chegaram do outro lado da praça, adentraram a rua principal e continuaram correndo. De repente, Isaac gritou.
—Por aqui! Por aqui!
Ele entrou dentro de uma rua que derivava da principal, e então eles o seguiram. Aquela ruela era estreita e não havia ninguém nela. Fora o tempo para recuperarem o fôlego.
—O que faremos? -perguntou Luke, respirando ofegantemente, com as mãos nos joelhos.
—Isso não é inteiramente ruim, pois os guardas do portão vão se distrair com eles, o que nos permitirá passar talvez pela guarita do guarda ou mesmo se eles manterem os portões abertos. – concluiu Isaac.
—Acho difícil! – afirmou Jessie. – Mas tem como.
—O importante é corrermos rápido até o portão. Poderemos parar por um minutinho, mas temos que voltar a correr. – disse Isaac.
—O que são eles? – essa pergunta expressa por Luke era a mesma de todos.
—Acho que eles são uma tribo vinda de outro continente. – respondeu Isaac.
—Gente, temos um problema. – disse Jessie, interrompendo-os. – Bem...Cadê Taya?
Eles olharam em volta e não acharam a jovem.
Taya havia sumido.
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