Notas iniciais
Como dito antes, este é o segundo prólogo, narrado por outro personagem. Divirtam-se, e boa leitura!

TAYLOR

☀

Quinta-Feira, 17 de Novembro de 2009

O ônibus escolar me busca em meu colégio, como em todos os dias . E assim como quase sempre, me sento em um dos últimos bancos. Vazio e espaçoso, o ônibus se desloca em meio a chacoalhos pelas avenidas principais da cidade. Eu, pela janela fiquei olhando o movimento da cidade. Numa típica temperatura de 15°C em London, Ontário. Estava vestindo uma blusa de frio de moletom, uma touca e calças jeans. O céu de cinza calmo, banhado por nuvens que pareciam estar carregadas.

Não muito longe do centro da cidade, morava com minha mãe e meu irmão, porém, ele falecera a pouco tempo. Considero uma vida até tranquila para quem não conhecia o pai, morando com uma mãe solteira.

── Taylor ── disse o motorista, sinalizando que havia chegado na portaria de meu apartamento, ── já pode descer.

Apenas olhei, ele conhecia meu olhar. A porta do ônibus se abre e com minha mochila, quase vazia, nas costas caminho em passos apressados. Não esperei pelo elevador, fui direto pelas escadas. Moro no terceiro andar, não iria me cansar muito.

── Mãe, cheguei da escola ── falo enquanto adentro o apartamento.

── Parabéns, Taylor! ── Minha mãe exclama ativamente da cozinha.

Aquele, não era qualquer dia, não para minha mãe. Era meu aniversário de doze anos, e como meus parentes moram em outro país, e não sou de fazer amizades, apenas minha mãe está comigo para comemorar o dia.

Com seu encantador e calmo sorriso, ela vem à mim com grande entusiasmo, segurando um pequeno bolo sobre um prato de porcelana. Quase nunca vi minha mãe servir algo em algum desses pratos, acho que nunca tivemos um bom motivo para isso. Mas não poderia desaponta-la, deveria me esforçar para trazer o mínimo de alegria à sua vida.

── Poxa, mãe. Valeu mesmo ──, forjei um sorriso olhando para aquela bomba achocolatada, erguendo minhas mãos para pegar o prato.

── Filho, gostaria de ter uma conversa com você. Já está na idade certa.

Seus olhos mudam completamente sua expressão. Suspiro pensando no que poderia ser, geralmente ela se esforça para emitir felicidade. Não tivemos muitos momentos bons, e em desvantagem tivemos muitos ruins. Para começar: quase não temos ligações com outras pessoas de nossa família. Então, basicamente, nossa família era apenas eu, ela e meu irmão. Sendo que: nem eu e nem meu irmão conhecemos nossos pais.

Meu irmão faleceu no dia de seu aniversário de doze anos, na mesma idade em que eu estava fazendo naquele dia. Logo, não poderia pensar em algo positivo. Nunca soube como realmente aconteceu. Porém, minha mãe disse que fora um acidente de carro, quando ele estava voltando do colégio. Não sei porque, mas até hoje não consigo acreditar totalmente nisso, provavelmente ela quer me poupar de algo. E não compreendo para que me poupar de mais alguma coisa. Até o que sei, e que acredito, somos filhos de pais diferentes.

Coloco aquele prato sobre uma pequena mesa que ocupava uma parte da sala, então sento-me no sofá, ao lado de onde minha mãe sentou.

── Diga, mãe.

── Hoje será o dia em que devo responder algumas de suas perguntas ──, ela suspira, enquanto com o olhar parece tentar buscar as palavras para começar. ── Já ouviu falar em alguns mitos gregos?

── Já sim... ── estava estudando isso em algumas de minhas disciplinas, mas não entendia o que isso tinha a ver, pensei que ela estava tentando usar uma metáfora. ── O que tem, mãe?

── Por acaso, Taylor, já ouviu falar em semideuses?

── Sim. ── Respondo, mas continuo sem entender.

── Então sabe que eles são a união de um deus com um humano... Bom, Taylor, está preparado para saber quem de fato é seu pai?

Não acreditei no que ouvi, ela realmente estava falando de forma séria. Não sou de me importar muito com a desconhecida identidade de meu pai, mas espantei-me com a pergunta. Como ela havia dito aquela metáfora, por um momento pensei que meu pai era alguém da alta sociedade, que apenas pegou minha mãe por diversão. Então, assim como os deuses, não se rebaixaria para ficar com uma mulher como minha mãe, uma mortal de classe média.

── Lógico que quero.

Foi ai que ela disse a frase que futuramente, mudaria tudo, e que também iniciou o real ciclo de minha vida:

── Taylor, você é filho de Apolo.

── Quê?! ── Não acreditei no que ela tinha falado. Como eu poderia acreditar ser filho de um deus grego se até então eles não existiam para mim? Não sabia que tipo de metáfora era aquela, mas não poderia acreditar nas palavras de minha mãe, não naquele momento.

── Taylor, me escute: pode não estar acreditando em mim, mas deve pegar suas coisas e ir ao acampamento meio-sangue. Um acampamento para semideuses, como você.

Pela minha cabeça se passa um monte de gente estranha em uma colônia de férias. Não consigo acreditar em minha mãe. Isso é um tipo de coisa que não dá para acreditar de primeira, afinal, não acho muito normal as mães chegarem falando "Oi Filho, sabia que você é o filho de um Deus mitológico Grego?".

Me perco rapidamente em meus pensamentos, mas volto a realidade quando, de forma súbita, um estrondo se propaga em todo o ambiente. A janela da sala se quebra no mesmo instante. E minha mãe, com um olhar não tão surpreso me pega pelo pulso e me puxa para baixo.

── O que está acontecendo aqui?! ── Exclamo, soando pouco desesperado.

É muita emoção para apenas um momento. E uma voz esganiçada, como de alguém berrando de dor começava a irritar meus ouvidos. Uma mulher, ou pelo menos parte de uma, quebrou a parede em que ficava a janela da sala, de frente para a rua. Ela tem cabelos negros e bagunçados, jogados de qualquer forma. Não estava vestida, e não precisava estar, pois parte de seu corpo era revestido por penas. Ao invés de braços, possuí grandes asas, e ao invés de pernas humanas, as suas se assimilavam com as de uma ave. Seu rosto, horrível, emitia ódio e desespero.

── É uma benevolente ── diz minha mãe, que por um momento parou olhando para aquela horrível criatura. Mas não demorou muito para que me puxasse para seu quarto, trancando a porta com desespero. Junto dela, empurro sua penteadeira para tentar bloquear ao máximo a porta.

De forma apressada, ela abre uma gaveta de sua estante, e dela tira um velho e desgastado papel enrolado, preso por uma corda com um pingente brilhante, que parecia ser um colar.

── Pegue isto filho, e siga este mapa o mais rápido que puder. Corra! ── Ela me entrega o papel e sorriu para mim, um sorriso encorajador, nunca me esquecerei de tal. Do bolso, tira uma pequena quantia em dinheiro e coloca no bolso de minha calça.

── Mãe, como assim?! Você não pode ficar aqui!

Batidas contra a porta impacta a situação, e apenas emitia mais agonia, junto daqueles berros estridentes. Minha mãe olha para mim como se fosse a última vez que nos veríamos, e então beijou minha testa.

Rapidamente ela começa a reunir os lençóis e forros de cama que estavam guardados em seu armário. Novamente não entendo o que ela pretendia, mas não queria continuar sendo um inútil, então fui ajuda-la. Então, começamos a amarrar as pontas dos lençóis e forros, uns nos outros, foi então que começo a entender o que ela estava pensando. Era de fato uma ideia louca, mas para este dia estava até sendo algo normal.

Apenas continuo ajudando-a, até que os lençóis e forros se transformaram em uma grande corda, a qual amarramos uma ponta no pé da cama, e a outra jogamos pela janela.

── Ande, filho!

Não tive nem mesmo tempo para uma reação lógica ── bom, nada estava sendo lógico ──, apenas agarro-me nos lençóis e inclino meu corpo para passar pela janela. Quando já estava pendurado, olho para baixo e vi que os lençóis não chegavam até o chão, na verdade, só chegavam até o segundo andar. Foi também quando percebi que minha mãe não tinha descido junto.

── Mãe?!

── Continue Taylor, posso fazer mais por você ficando aqui! ── Ela gritou aparecendo pela janela. Logo em seguida, ouço um estrondo que faz minha mãe olhar para trás, assim me indicando que a criatura conseguira abrir a porta. Esse seria um momento que guardaria com grande rancor em minha vida, não consigo explicar, mas eu adoraria poder lutar contra aquela criatura, mas naquele momento eu ainda não sabia do que eu sou capaz ou sequer do que pensar em fazer para ajuda-la.

Me apressei descendo rapidamente os lençóis, segurando aquele papel amarrado com o pingente que minha mãe havia me dado. Por sorte, a janela da vizinha do andar debaixo estava aberta, então fora fácil de me inclinar e entrar no apartamento. A vizinha estava com seu marido assistindo a TV, quando entrei de súbito em sua casa, foi quando ouvi seu grito.

── Desculpa ai! ── Exclamo enquanto corro, atravessando a sala e abro a porta fugindo do local.

Desço as escadas correndo, e logo saio do prédio. Não paro de correr e nem olho para trás.

☀

Após um tempo correndo, cansado paro em frente a uma avenida muito movimentada. Me dirijo a uma estação de ônibus, e sentando no assento da parada abri aquele desgastado papel. Não era apenas um papel, mas sim um mapa, como aqueles de tesouro mostrados em filmes. As legendas do mapa estavam em uma língua diferente, parecia ser grego. Como mágica, os algarismos começam a se realinhar e passam a ser legíveis. Apenas ignoro tal ocorrência, e começo a lê-lo.

O mapa leva para aquele acampamento que minha mãe havia dito, o acampamento meio-sangue. E, o engraçado é que o ponto "você está aqui" do mapa é justamente a parada onde eu estou ── Coincidência ou mágica? ── Novamente ignoro.

Suspiro e levanto-me, um pouco descansado, porém com medo daquela criatura voltar, começo a seguir a trilha do mapa. Coloco aquele pingente, que na verdade descobri que é um colar, em meu pescoço, então percebo que também tem um anel, então o coloco: em meu dedão da mão direita.

O mapa me leva até o aeroporto da cidade. O próximo ponto era em Long Island, New York. Percebo então para que minha mãe havia me dado aquela quantia em dinheiro: para comprar uma passagem. Pego o dinheiro em meu bolso e vou até a recepcionista. Pelo horário, de tarde, o aeroporto provavelmente não estaria tão cheio.

── Boa tarde. Poderia me informar seu nome? ── A recepcionista pergunta de forma educada, sem tirar os olhos de seu computador.

── É... Taylor Atalla ── falo com um pouco de receio.

── Bom, sua mãe esteve aqui nesta semana e deixou sua passagem reservada, só está faltando o pagamento. ── Ela fala após pesquisar um pouco. Era incrível como minha mãe presumiu tudo isso.

Entreguei o dinheiro à ela, então ela carimba alguns papeis e me entrega uma passagem. Apenas a pego e vou em direção ao setor onde embarcaria.

☀

Após algumas horas de voo, chego já de tardinha, com o sol se pondo. Saio do aeroporto já seguindo o mapa.

Realmente não espero o que estaria por acontecer. O mapa estava me levando para o meio do mato. Logo levando à uma colina. Cansado, tenho medo de acabar me perdendo ou caindo ali mesmo, mas não posso chegar tão longe para nada. Como vi o que vi, pelo o que vivi nesse dia, eu me sinto obrigado em acreditar que o mapa me levaria à algum lugar. Com este pensamento, continuei andando pela colina.

Assim que cheguei ao topo, deparei-me com um enorme pinheiro, e uma placa, na qual estava escrito o nome do acampamento. Sinto momentâneo alívio que senti naquela hora. Os últimos raios de sol banham meus cabelos castanhos escuros, quase negros, e acentua minha pele de tom bronzeada. Sempre me perguntei como eu conseguia ser bronzeado morando naquela cidade, onde a maioria das pessoas tem apele clara. Aquele banho de sol é revigorante, os raios do sol nunca havia me atingido de tal forma.

Porém, novamente sou surpreendido por aquele berro estridente. Olho para trás, e aquela horrenda criatura esta lá, direcionando um rasante contra mim. Não tenho ideia do que fazer. E neste exato momento, ouço ele pela primeira vez.

── Taylor, use o colar e o anel. Então diga o nome entalhado nos mesmos ── Uma voz soa em minha mente, um tom majestoso.

Os raios de sol aumentam e se fortalecem, e ao invés de sua luz me atrapalhar, sinto meus sentidos mais aguçados e preparado para um combate. Puxo o colar do pescoço, e sua pequena pedra de cor âmbar brilha em um tom intenso. Assim, fecho meus olhos e exclamo:

── Avëgerinós!

Assim, a corda do anel se estende, e a pedra dá lugar a um lindo arco dourado. Tira o anel de meu dedo, então em minhas mãos o mesmo se torna uma aljava carregada de flechas. Apenas uma palavra para descrever aquilo: incrível.

Instintivamente aponto o arco para a criatura, o carregando com uma flecha, e logo como nunca antes havia feito, miro perfeitamente ao ponto que normalmente é vital para todos os seres: o coração. Disparo a flecha. A criatura, que estava vindo em minha direção é acertada em cheio.

É surpreendente ver a flecha que disparei atravessar o corpo daquele monstro, e o derrubar colina abaixo.

Assim, desço o outro lado da colina, chegando ao acampamento meio-sangue.

Notas finais
Este foi o prólogo de Taylor, que procedeu o de Miya. Estes, nada mais foram do que a história destes personagens de quando entraram para o acampamento.