MINHA OUTRA FACE

11 Rosto Conhecido, Alma Estranha


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═══🎭✦✧ Casa dos Meireles ✧✦🎭═══

Diná caminhava ao redor, servindo o café. Angelina e Meireles estavam sentados conversando casualmente. Fabinho estava concentrado no celular. Daiana chegou, cumprimentando a todos com um sorriso.

— Bom dia! — disse com entusiasmo.

Angelina ergueu o rosto e a recebeu com ternura.

— Bom dia, minha filha!

— Bom dia, filhota! — Respondeu Meireles.

Daiana lançou um olhar brincalhão a Fabinho, que sequer levantava os olhos da tela.

— Bom dia pra você também, garoto. Tá distante, hein?

Fabinho desviou os olhos do celular com certo constrangimento

— Desculpe, Daiana.

— O que foi, meu filho? — Perguntou Angelina.

— Coisa minha, deixa quieto.

Meireles soltou uma risada curta, tentando quebrar a tensão.

— Isso eu conheço, é coisa do coração.

Fabinho revirou os olhos, fazendo um gesto exagerado de deboche.

— Tá por fora, coroa.

— Humm! Mudando de assunto. — disse Daiana. —Ontem eu fui lá no orfanato que vamos ajudar através da ONG.

Angelina se animou, interessada.

— Que maravilha! E aí, o que você achou?

Daiana fez suspense. Levantou o olhar e sorriu de lado.

— Aí que vocês não vão acreditar em quem eu encontrei por lá. O Gabriel, o irmão gêmeo do Rodrigo.

Fabinho, até então distraído, congelou. Parando imediatamente de mexer no celular, surpreso.

— O Rodrigo tem um irmão gêmeo?

Meireles respirou fundo.

— Essa é uma longa história, meu filho.

— Verdade, agora tô me lembrando mesmo que o endereço dele era de um orfanato. Daiana, toma cuidado. A gente não sabe as intenções desse rapaz. — Disse Angelina, preocupada.

— Sinceramente, mãe... — continuou Daiana. —Depois de conhecer o Gabriel, eu tive mais certeza da culpa do Rodrigo. Ele é um doce de pessoa. Gentil, educado, um poeta nas palavras. Totalmente o oposto do Rodrigo. Duvido muito que ele tenha sido capaz de matar o Antunes. Já o Rodrigo a gente já conhece bem, né? Um traidor. Não dá pra confiar no Rodrigo.

Angelina respirou fundo, tentando encontrar as palavras certas.

— Minha filha... Toma muito cuidado, viu? Você pode tá misturando as coisas. Não pode deixar sua raiva pelo o Rodrigo falar mais alto que o seu senso de justiça. O pobre coitado juntamente com a mãe dele comeu o pão que o diabo amassou nas mãos do Antunes.

— Mais um motivo dele ser o culpado. — rebateu Daiana, sem hesitar. — Quando a senhora conhecer o Gabriel mãe, a senhora vai ver que eu tenho razão.

Fabinho olhou Daiana de canto, curioso.

— Pera aí, tô entendendo bem? Você já tá aí toda encantada pelo o irmão do Rodrigo, é isso?

Ela balançou a cabeça, tentando procurando negar qualquer evidência.

— Não viaja garoto, ninguém aqui tá encantado por nada. Apenas estou fazendo uma observação. Os dois são bem parecidos fisicamente, é até assustador o quanto os dois se parecem. Mas são totalmente o oposto. Vocês não estão entendendo, vocês tem que conhecer o Gabriel.

— Ok, vamos tomar o nosso café em paz? E a senhora mocinha, abre o seu olho. — Disse Angelina, intrigada.


═══🎭✦✧ Rodrigo estava em seu carro estacionado na rua... ✧✦🎭═══

Soraia apareceu e entrou rapidamente pela porta do passageiro, fechou com força e imediatamente se jogou em cima de Rodrigo, beijando-o com intensidade.

Ele tentou se desvencilhar, as mãos erguendo-se em tentativa de afastamento.

— Calma, calma!

Soraia riu, os olhos ardendo em paixão.

— Já estava morrendo de saudades de você. Louca pra te ver.

Rodrigo a encarou, analisando-a de cima a baixo.

— Minha nossa! Se você passasse direto, eu nem te reconheceria.

— Gostou? Essa é a Maria. O que eu não faço por você, né, Rodrigo?

— Isso é loucura! Você tá indo longe demais.

— Loucura ou não... — respondeu ela — Foi a forma que encontrei de te ajudar. E, olha, tá tendo êxito. Eu vi a foto da sua mãe no quarto dele. Agora não foi papo de pirralha, não. Eu mesma vi. É uma foto antiga. Sua mãe tá bem jovem.

— Não é possível isso. Aí tem coisa, viu? Esse cara esconde coisa que a gente nem imagina... — Ele fez uma pausa, voltando-se para ela com seriedade. — Mas eu vim aqui mesmo por outro motivo. Quero que você me explique melhor o que a Daiana veio fazer aqui.

Soraia soltou uma risadinha irônica, bem incomodada.

— Ah, claro. Demorou pra enfiar a canelinha de seriema na conversa.

— Por favor, Soraia, eu preciso saber. Então os dois se encontraram, foi isso? Chegaram a se falar? Minha nossa, mas que diabos a Daiana veio fazer aqui?

Ela bufou, impaciente, mas cedeu.

— Pelo que entendi, vão montar um desfile beneficente e escolheram o orfanato como a instituição beneficiada. E como a saco de osso faz parte da agência que vai promover o desfile, ela veio junto. Quer saber mais alguma coisa, meu amor? Quer saber se os dois se beijaram? Talvez não, mas não vai demorar muito. Ficaram os dois horas no jardim batendo o maior papo.

Rodrigo cerrou os punhos e bateu com força no volante, os olhos carregados de fúria e frustração.

— Então é isso? Ela não quis nem me ouvir direito, mas já ficou toda assanhada pro lado dele.

— Ah, não, Rodrigo! — Soraia levantou a voz, ferida. — Sério isso? Cara, eu sou o quê? Tô me arriscando por sua causa, e você não tá nem aí.

Rodrigo abaixa a cabeça, pensativo. Depois, olha para ela com sinceridade.

— Desculpe, Soraia, mas eu nunca te enganei. Eu amo a Daiana, sou completamente apaixonado pela aquela mulher. Sou muito grato por você estar me ajudando, mas não tenha esperanças de coisas que nunca te prometi.

Soraia respirou fundo, visivelmente magoada, mas tentou disfarçar.

— Tudo bem. Já tô acostumada. Não tô te cobrando nada, não. Mas eu tenho certeza de que um dia você vai perceber que sou eu a mulher ideal pra você.


═══🎭✦✧ Mulambo Têxtil ✧✦🎭═══

A sala de reuniões estava cheia. Os investidores murmuravam entre si, claramente preocupados. Meireles, sentado em sua cadeira na cabeceira da mesa conduzia a reunião.

— Bom dia a todos. Obrigado por estarem aqui hoje. Sei que o momento não é dos mais fáceis, mas precisamos conversar francamente sobre os desafios que a Mulambo Têxtil vem enfrentando. — Pausou por um instante, antes de continuar — Como sabem, estive ausente por um tempo por conta de um acidente que, infelizmente, me deixou nessa cadeira. E durante a minha ausência houve certos eventos que trouxeram um impacto significativo à nossa empresa. Primeiro, a trágica morte de Antunes. Um acontecimento inesperado que não apenas abalou todos nós pessoalmente, mas também afetou nossa imagem no mercado. Essa combinação de fatores gerou rumores e instabilidade, o que refletiu diretamente em nossos números e na confiança de nossos parceiros.

Os investidores trocavam olhares, alguns sussurravam entre si. Nesse momento, a porta da sala foi aberta discretamente. Joana entrou, chamando a atenção de todos. Ela parou na entrada, claramente constrangida.

— Perdão pelo atraso. — murmurou, a voz baixa e tímida. — Por favor, continuem.

Meireles fez um gesto com a cabeça indicando que ela poderia se sentar. Joana tomou um lugar próximo à ponta da mesa e começou a observar atentamente.

— Além desses problemas internos, enfrentamos questões de percepção pública. — Meireles retomou a fala. — A Mulambo sempre foi vista como uma marca forte, resiliente, mas os acontecimentos recentes nos colocaram em uma posição vulnerável. A confiança é um pilar fundamental no nosso setor, e é isso que precisamos reconstruir.

A reunião seguia, Meireles conduzindo os próximos passos que a empresa tomaria, Joana só observava tudo sem dizer nada.


═══🎭✦✧ Enquanto isso, em um shopping: ✧✦🎭═══

Daiana passeava tranquilamente pelas lojas, entrando e saindo, observando cada vitrine. Do outro lado, Gabriel também caminhava, admirando as vitrines, mas sem grande interesse em comprar nada. Quando seus olhos avistaram Daiana, ele se aproximou.

— Daiana! — chamou, com um tom amistoso.

Ela se virou rapidamente, com expressão de surpresa.

— Rodrigo? — disse, confusa.

— Sou o Gabriel.

— Me perdoe, e que vocês dois são tão...

— Parecidos? — completou ele, sorrindo. — Eu sei. Ouço isso com frequência nesses últimos dias.

Daiana o observou por um momento, como se tentando captar as diferenças.

— Não sabia que gostava de passear no shopping.

— Só olhar mesmo. Meu dinheiro não dá pra comprar essas coisas aqui, são tudo caras demais. Mas dá pra tomar um milk-shake. Que tal? Aceita?

O sorriso de Daiana surgiu espontâneo, feliz pelo o convite.

— Aceito!

Momentos depois, os dois estavam sentados em uma mesa da praça de alimentação, cada um saboreando seu milk-shake enquanto conversavam.

— Eu e o Rodrigo costumávamos vir muito aqui. — disse Daiana, girando o canudo entre os dedos. — A gente adorava ir ao cinema. O Antunes ficava indignado, porque às vezes ele faltava à empresa só pra sair comigo.

— Você gosta muito dele, né?

— Eu não sei mais o que sinto pelo Rodrigo. Depois de ver ele se pegando com a... com a piranha da Soraia, na sala do meu pai... Dá nojo só de lembrar. Ele sequer respeitou a empresa da minha família. — Ela suspirou, olhando para o lado, como se tentasse conter a emoção. — Desculpe, Gabriel, tô aqui desabafando essas coisas com você.

Ele balançou a cabeça, compreensivo.

— Que isso. Fique à vontade. Eu entendo.

Ele fez uma breve pausa antes de continuar, como se procurasse as palavras certas.

— Sabe, eu queria muito me aproximar do Rodrigo, mas tenho medo. Poxa, ele é meu irmão, meu irmão gêmeo ainda. Você tem ideia de como é surreal descobrir isso agora? Mas por outro lado, pensar no que ele foi capaz de fazer. Não sei se essa aproximação seria uma boa ideia.

— Às vezes, eu esqueço disso. — disse ela, pensativa. — Esse tipo de coisa não combina com o Rodrigo que eu amava. Ele não seria capaz de fazer algo tão grotesco como isso, tirar a vida de uma pessoa. Mesmo agora sabendo um pouco da história, e ciente de tudo o que ele e a mãe dele passaram nas mãos do Antunes... é difícil acreditar que o Rodrigo possa ser um assassino.

— Quando a gente está com raiva, Daiana... — disse Gabriel, com a voz serena — Às vezes fazemos coisas que não nos damos conta na hora. Talvez ele tenha agido por impulso, numa briga. Quem sabe?

— Realmente, os dois discutiam muito...

Um silêncio breve tomou conta, até que Gabriel quebrou o momento, mudando o rumo da conversa com um sorriso.

— E a minha mãe? Como ela é? Me fale um pouco dela.

— Você e a Joana ainda não se encontraram?

— Só uma vez, na delegacia. Foi tudo tão rápido. Ela me abraçou emocionada, mas... Eu estava tão atônito que não pude aproveitar o momento. Quero muito encontrá-la de novo.

— E por que não a procurou de novo?

Ele abaixou os olhos.

— Por medo de encontrar o Rodrigo.

Daiana ficou em silêncio por um instante. Depois, pegou o celular com decisão.

— Vou mandar uma mensagem pra ela. Quem sabe vocês não se encontram ainda hoje?

— Sério? — Gabriel a olhou, surpreso, os olhos arregalados como os de um menino pego desprevenido. — Eu nem sei o que dizer...

Daiana riu suavemente, enviando a mensagem sem hesitar.


═══🎭✦✧ Em outro ponto da cidade: ✧✦🎭═══

Rodrigo e Soraia permaneciam dentro do carro estacionado em uma rua discreta.

— Eu preciso voltar para o orfanato. — disse Soraia, com um suspiro carregado de tédio. — Se eu ficar muito tempo fora, eles podem desconfiar. Mas bem que a gente podia se divertir um pouco, né? Aproveitar nosso encontro.

Soraia olhou para ele com um sorriso provocador. Mas Rodrigo desviou o olhar, respirando fundo.

— Soraia, por favor, não começa. Não vamos misturar as coisas. Você sabe que eu amo a Daiana. Ter me envolvido com você foi uma loucura, um erro. Isso não vai mais acontecer.

Ela soltou uma risada seca, debochada, como se tivesse escutado uma piada fraca.

— Erro? Erro seria se você não tivesse gostado. E eu sei que você gostou, tanto quanto eu. Qual é, Rodrigo? Não tô te pedindo em casamento, não. Só quero me divertir, como nos velhos tempos. Não se preocupe, não vou tirar nenhum pedaço. A canela de seriema vai te ter por completo. — zombando — Isso, claro, se ela não preferir o Gabriel.

Rodrigo, já impaciente, encarou Soraia com um olhar sério.

— Vire essa boca pra lá! A Daiana não pode se envolver com esse cara. Se ele foi capaz de se infiltrar na Mulambo só pra matar o Antunes, sabe lá o que pode fazer com ela.

O celular de Soraia tocou, interrompendo o clima. Ela olhou o identificador de chamadas e bufou ao ver o nome: "Mãe".

— Aff, é minha mãe! Ela não para de me ligar. Nem vou atender. Quando não é ela, é meu pai.

Rodrigo suspirou, tentando manter a calma.

— Atende. Eles devem estar preocupados.

— Não vou atender nada — respondeu ela, irritada. — Eles têm que entender que eu sou adulta. Não preciso ficar dando satisfação da minha vida.

O celular tocou novamente. Rodrigo balançou a cabeça, claramente incomodado com a teimosia dela.

— Atende logo esse telefone e inventa uma desculpa qualquer. Não pode deixar eles pensando besteira.

Relutante, Soraia atendeu a chamada.

— O que foi, mãe? — perguntou, irritada.

— Soraia, minha filha, pelo amor de Deus, onde você está? — A voz ansiosa de Diná ecoava pelo alto-falante.

— Eu tô viajando, curtindo um pouco a minha vida. Por quê? Não posso?

— Viajando pra onde, minha filha? Com que dinheiro, se você não trabalha?

Soraia bufou, já sem paciência.

— Eu dei o meu jeito. Pare de me tratar como se eu fosse uma criança!

— Você não tá aprontando nada ilegal, né, Soraia? Tá usando drogas não, né minha filha? Pelo amor de Deus...

— Não, mamãe, não se preocupe. Agora, pare de ficar me ligando. Que coisa chata!

— E quando você volta? — insistiu Diná.

— Não sei, não tem previsão. Só me deixe viver minha, vida. Tô pedindo demais? Tchau!

Antes que a mãe pudesse responder, Soraia encerrou a ligação com um toque seco e arremessou o celular, com raiva.

— Tá demais, viu? Meus pais acham que eu ainda sou uma criança.

Rodrigo a encarou, preocupado.

— Escuta, tenta achar logo alguma coisa que comprometa aquele bandido. E depois volta pra casa, pra não ter problema com seus pais.

Ela deu um sorriso malicioso, agora mais contida, ajeitando a peruca, como se retomasse o controle do jogo.

— Se tem algo pra ser encontrado, tá naquele quarto dele. Mas não se preocupe, meu amor, eu vou dar um jeito.


═══🎭✦✧ Mulambo Têxtil ✧✦🎭═══

Angelina e Joana caminhavam pelos corredores da empresa, enquanto conversavam.

— Achei bom você ter vindo, Joana. — disse Angelina, com um tom acolhedor. — Afinal, essa empresa também é sua.

— Eu não levo o melhor jeito pra isso aqui. Mas pensei muito quando você me chamou pra participar da reunião. Achei que seria uma boa ideia vir.

— E fez muito bem. As coisas aqui são um pouco complicadas mesmo, mas com o tempo você aprende. Eu também não levava jeito, e acabei sendo obrigada a aprender tudo, e depressa. Com o acidente do Meireles, eu e o Fabinho tivemos que tomar frente dos negócios. — Ela tocou levemente o braço de Joana, em gesto de apoio. — Não se preocupe, viu Joana? Qualquer dúvida que você tiver por aqui, pode me procurar.

Joana parou por um instante, de olhos fixos em Angelina.

— Na verdade, eu queria mesmo era vender as minhas ações. Não tenho cabeça pra lidar com isso aqui.

Angelina parou também. Respeitosa, respondeu com calma:

— Eu te entendo. Te garanto que o Meireles pagará um preço bem justo, se você decidir vender.

— O problema é o Rodrigo. Ele não quer abrir mão dessas ações de forma alguma.

— Joana... — disse, ponderando — com a morte do Antunes, você herda metade das ações dele. Claro, não entendo completamente sobre essas questões de herança, mas você pode confirmar isso com seu advogado. Pelo que sei, se vocês eram casados em comunhão parcial de bens, você pode herdar até mais da metade. Ou seja, você pode vender sua parte das ações e deixar que o Rodrigo decida o que fazer com as dele.

— Eu vou conversar com o Kléber sobre tudo isso e ver o que é melhor pra mim.

— Claro. Isso também vai levar um tempo. Ainda é preciso esperar o inventário. — Completou Angelina.

— Mas já pode pedir para o seu Meireles calcular tudo direitinho. Quero passar essas informações para o meu advogado.

— Pode deixar, eu vou falar com ele.

Joana faz uma pausa e suspira profundamente.

— O Rodrigo não vai gostar nada disso. Mas, depois de tudo o que aconteceu, acho que o melhor a fazer é vender.


═══🎭✦✧ Shopping ✧✦🎭═══

Daiana e Gabriel continuavam sentados em uma mesa na praça de alimentação. Gabriel estava inquieto, as mãos mexendo no canudo do copo do milk-shake, os olhos perdidos em lembranças. Daiana observa com um olhar de empatia.

— Eu sempre quis entender minha história. — começou Gabriel. — Por que eu fui parar no orfanato? Eu não era como as outras crianças, sabe? Elas sonhavam em ser adotadas, ter uma família nova, pai, mãe, irmãos... Eu não.

— E o que você sonhava?

Gabriel ergueu os olhos, e neles havia um brilho molhado, prestes a transbordar.

— Minha mãe. Minha família biológica. Eu só queria olhar nos olhos dela e perguntar: Por que você não me quis? O que aconteceu pra você me deixar naquele lugar?

— Mas... você não gostava de viver no orfanato?

— Pelo contrário, eu sempre amei aquele lugar. O orfanato é minha casa. Só que no fundo, eu acreditava que, se minha mãe tivesse me deixado lá, era lá que ela ia me procurar. Por isso, nunca quis ser adotado. Toda vez que uma família aparecia interessada, eu fazia de tudo pra espantar eles. Bagunça, birra, má-criação...

Daiana sorriu, divertida.

— Ou seja, você sabotava as adoções?

Gabriel também sorriu com a observação de Daiana.

— Acho que de uma certa forma, sim. Irmã Rosália ficava louca comigo, mas no fundo, ela entendia. Ela sempre entendia. Aquela mulher é uma santa, sempre me tratou com tanto cuidado, com tanta delicadeza. Ela procurava de toda forma preencher o vazio que nós tínhamos de nossa mãe. No entanto, nunca seria a mesma coisa.

Daiana o olhou com mais carinho do que antes. Sentia, atrás de cada palavra dele, uma dor moldada ao longo dos anos, uma saudade que nem nome tinha.

— Entendo. Você viveu sua vida inteira carregando esse vazio, como se algo estivesse sempre faltando.

Gabriel balançou a cabeça, encarando-a por um instante.

— Era exatamente isso, Daiana. Um buraco no peito. Eu precisava saber quem eu era, pra entender quem eu poderia ser...

O celular de Daiana vibrou sobre a mesa. Ela o pegou e leu rapidamente a mensagem. Seu rosto se iluminou.

— A Joana respondeu!

Gabriel ergueu os olhos, e por um instante, parecia uma criança à beira do impossível.

— E o que ela disse?

— Ela quer muito te ver — disse Daiana, com um brilho nos olhos.

O tempo congelou para Gabriel. Ele piscou, atônito, como se lutasse para acreditar no que ouvira.

— Minha mãe...? Eu vou poder ver minha mãe?

— Sim — respondeu Daiana, apertando sua mão com delicadeza. — Vamos? Combinei com ela na praça da igreja aqui ao lado. Acho que lá vocês poderão ficar mais a vontade.

Gabriel levou a mão à boca, como quem segura uma emoção que ameaça transbordar.

— Eu... eu nem sei como te agradecer...

Daiana apertou sua mão um pouco mais.

— Não precisa. Vocês merecem isso.


═══🎭✦✧ Lar São Tarcísio ✧✦🎭═══

Irmã Rosália se aproximou da porta, e ao abrir se surpreendeu ao encontrar o delegado Will e o inspetor Tony do lado de fora.

— Delegado? — disse ela, esboçando um sorriso contido. — Não sabia que o senhor viria hoje. O Gabriel não está.

Will respondeu com seriedade e objetividade:

— Desta vez, não vim falar com o Gabriel. Estou aqui para conversar com Epaminondas Siqueira.

Irmã Rosália franziu ligeiramente a testa.

— Com o Epaminondas?

— Ele não mora aqui? — insistiu Will, mantendo o tom cortês, mas firme.

— Sim, mora... é nosso jardineiro.

— Poderíamos falar com ele?

— Claro. Entrem. Vou levá-los até ele.

Will e Tony entraram e acompanharam irmã Rosália até o jardim, onde encontrou Epaminondas cuidando de algumas plantas. Rosália elevou a voz para chamar sua atenção.

— Epaminondas, esses são o delegado Will e o inspetor Tony. Eles gostariam de conversar com você.

Epaminondas levantou-se devagar, limpando as mãos sujas de terra no avental. Seus olhos mostravam surpresa e uma pitada de desconfiança.

— Polícia? Não me lembro de ter cometido nenhum crime.

Tony interveio com calma:

— Estamos apenas investigando um caso.

Will manteve o tom cordial, mas incisivo:

— Podemos conversar um pouco?

Epaminondas assentiu, desconfiado.

— Tudo bem... Vamos até o meu quartinho. É mais reservado.

Irmã Rosália, educadamente, recuou um passo.

— Vou deixá-los à vontade. Com licença.

Ela se afastou, voltando para a casa. Os policiais acompanharam o jardineiro por um caminho estreito até um pequeno anexo nos fundos. O quartinho era modesto: uma cama de solteiro com lençóis simples, um armário antigo, uma mesa com alguns utensílios de cozinha e um sofá coberto por uma capa puída. Apesar da simplicidade, o espaço era limpo e organizado.

— Sentem-se, se acomodem — disse Epaminondas, tentando parecer à vontade. Permaneceu de pé próximo a uma prateleira de madeira. — Os senhores querem beber uma água, um café, um suco, alguma coisa?

Tony recusou, de forma direta:

— Não queremos nada.

Will encarou Epaminondas com um olhar firme, penetrante:

— Seu Epaminondas, eu gosto de ser direto ao ponto. Qual era a sua ligação com o senhor José Antunes?

A expressão de Epaminondas endureceu, e ele desviou o olhar por um instante.

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