MINHA OUTRA FACE

20 Inimiga número um


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═══🎭✦✧ Ainda no Shopping... ✧✦🎭═══

Daiana permanecia imóvel diante de Gabriel e Soraia, o olhar fixo nos dois como quem tentava acreditar no que via, ou melhor, no que não queria ver.

Soraia, com seu típico sorriso de deboche, soltou uma risadinha sarcástica.

— Nossa, que coincidência, até parece que tô vivendo um déjà vu.

— Cínica! — disparou Daiana, com os olhos faiscando de indignação.

Gabriel deu um passo à frente, a voz vacilante, tentando costurar alguma explicação.

— Daiana, por favor, podemos conversar? Eu posso explicar...

— Não perca seu tempo. — interrompeu ela com frieza. — Agora tá tudo claro. Te mandei um monte de mensagem perguntando se ainda estava no shopping... você nem visualizou. Claro, estava ocupado demais, né?

Soraia ajeitou o cabelo com desdém, claramente se divertindo com o caos que provocava.

— Estou indo. Depois a gente se fala, Gabriel.

Ela se virou, mas antes que desse dois passos, Daiana a cortou:

— Não precisa. Dessa vez, sou eu que vou embora. Podem continuar a conversinha de vocês. Aliás, se me permitem uma sugestão... — completou, lançando um olhar amargo — tem um motelzinho aqui ao lado. Acho mais apropriado.

Sem esperar resposta, ela girou e saiu. Gabriel tentou uma aproximação:

— Daiana... — sussurrou, indo atrás dela. — Vamos conversar!

— Fique longe de mim! — disse ela, virando-se com desprezo.

E se foi, decidida, sem olhar para trás. Gabriel ficou ali, estático, pensando no que faria dali em diante. Soraia voltou-se para ele com um sorrisinho enviesado:

— Que situação, hein?

— Que ideia foi essa sua de me beijar, Soraia? — perguntou Gabriel, ainda atordoado.

— Para com isso, ela já foi... E eu sei bem que você gostou do meu beijo. — retrucou ela, com um sorriso malicioso. — Impressionante como até nisso você é parecido com o Rodrigo. Era como se eu estivesse beijando ele.

— Chega do seu joguinho agora! — cortou Gabriel, tentando se recompor. — Preciso me entender com a Daiana.

Ele virou-se para sair, determinado a consertar o estrago. Mas antes que se afastasse, Soraia agarrou seu braço com firmeza.

— Pensa bem no que conversamos. — murmurou ela, convicta. — Juntos, podemos implantar provas contra o Rodrigo.

Gabriel respirou fundo, soltando a mão dela com firmeza.

— Depois a gente conversa sobre isso. Agora meu foco é outro.

E partiu apressado, ainda lançando olhares rápidos por cima do ombro, certificando-se de que Soraia não o seguia.


═══🎭✦✧ Mulambo Têxtil ✧✦🎭═══

Meireles estava sentado em sua cadeira de rodas, atrás da mesa, em sua sala. À sua direita, Fabinho permanecia em pé, atento a cada palavra. À sua frente, com os olhos mergulhados em papéis, estava Otávio Xavier, representante da Xavier Global Holdings, um dos principais investidores internacionais da marca.

— Infelizmente, senhor Meireles — disse Xavier — vamos ter que suspender o contrato com a Mulambo.

— Suspender? — repetiu Meireles, contendo a indignação. — Dr. Xavier, nós temos uma parceria de quase dez anos. Essa decisão... agora?

Xavier suspirou, fechando a pasta devagar.

— Justamente por isso. Dez anos de confiança mútua, e agora eu me vejo obrigado a repensar tudo. O mercado lá fora está instável, os investidores estão com medo. E... bem, os últimos acontecimentos não ajudaram.

— Se o senhor está se referindo à morte do Antunes, a polícia já está investigando. Eu também quero respostas!

Xavier se levantou com calma. Pegou sua pasta, ajeitou os punhos da camisa como se encerrasse ali uma reunião comum.

— Claro. Todos queremos. — respondeu. — Mas o senhor sabe, seu Meireles... quando a lama começa a subir, é difícil saber quem está sujo e quem só estava por perto.

A frase ficou suspensa no ar como uma acusação silenciosa.

— O senhor está insinuando alguma coisa?

— Não estou insinuando nada. — respondeu Xavier, com a mesma polidez glacial. — Apenas dizendo que, até que tudo se esclareça, prefiro manter minha empresa longe desse tipo de manchete.

E sem esperar mais nada, virou-se e caminhou para a porta.

— Com licença, senhor Meireles. Torço para que tudo se resolva.

A porta se fechou e Meireles ficou ali, imóvel. Lentamente, se virou para Fabinho.

— O que foi isso, Fabinho? — perguntou, preocupado. — O que tá acontecendo?

Fabinho respirou fundo, encarando o pai.

— A imagem da Mulambo tá sendo queimada no mercado, pai. Os investidores estão pulando fora. Estão cancelando as parcerias uma por uma.

Meireles olhou para o nada, a voz rouca, quase um sussurro de desespero.

— Isso não pode estar acontecendo...


═══🎭✦✧ Praça da Matriz ✧✦🎭═══

Sentada em um banco em frente à igreja, Daiana chorava silenciosamente. De longe, Rodrigo a avistou. Aproximou-se devagar, como quem teme ser rejeitado.

— Oi, Daiana — disse ele, com voz baixa.

Ela levantou o olhar rapidamente, os olhos faiscando de raiva.

— Eu falei pra você ficar longe de mim, Gabriel!

— Eu sou o Rodrigo — respondeu, com delicadeza.

Ela o encarou por um segundo, então desviou o olhar, voltando-se para o chão.

— Ah... — disse, seca. — E o que você quer?

— Conversar com você — respondeu ele, sentando-se ao lado dela. — Posso saber por que você tá chorando?

— Sabe o que eu percebi? Que você e o Gabriel não são parecidos só na aparência. São iguais na falta de caráter também.

— Isso não é verdade — tentou se defender.

— É muito triste se sentir sozinha — continuou ela. — A gente investe no amor, na felicidade... sonha. E, de repente, dá de cara com o vazio. Com a solidão. Essa sensação que às vezes a gente tem de ter perdido o rumo das coisas, de não confiar mais na nossa própria sensibilidade. Como se tudo que parecia amor fosse mentira. Como se toda confiança fosse só ilusão. Tô me sentindo assim, Rodrigo. Tão sozinha...

Rodrigo engoliu seco, respirando fundo.

— Eu vacilei muito com você, eu sei. Me deixei levar pelo momento, pela fraqueza. E te perdi. Tem coisas que a gente só aprende a dar valor quando já não tem mais.

Daiana riu com ironia, enxugando o rosto.

— Eu sou muito burra mesmo. Cair na mesma lábia duas vezes. E dessa vez ainda achei que tinha encontrado uma versão melhorada sua. Mas era tudo igual. Nem mudou de galinheiro, pegou a mesma galinha.

Rodrigo baixou os olhos.

— Daiana, eu não sou igual a ele. Eu não sou um assassino. E eu gosto de você. Gosto de verdade.

— Quem gosta cuida, respeita. — disse ela, convicta. — Não foi isso que você fez.

— Eu sei. E me arrependo todos os dias. Mas... mas se você me der outra chance, eu juro que vai ser diferente.

Ela o encarou, profundamente.

— Outra chance pra quê, Rodrigo? Pra você brincar com os meus sentimentos de novo?

— Não — respondeu, com a voz embargada. — Pra mostrar que eu posso ser um homem melhor. Que a gente pode recomeçar. Escrever uma nova história.

Os olhos de Daiana marejaram de novo.

— Eu gostava tanto de você. Sonhava em casar, ter filhos, viver ao seu lado. Achava que você também sonhava com isso...

— E eu sonhava, Daiana. Sonho ainda, inclusive. Eu só... eu só fui fraco. Fui um babaca. Por favor, me perdoa.

Um silêncio tenso se instalou entre eles, até que ela o fitou com uma nova gravidade no olhar.

— Então seja sincero comigo. Por tudo o que vivemos, me responde com o coração aberto. Eu sei que o Antunes era um canalha e ele deve ter feito da sua vida um inferno. Eu vou compreender os seus motivos. Mas me responde com toda sinceridade Rodrigo. Você tem alguma coisa a ver com a morte dele?

Rodrigo sustentou o olhar dela, sem piscar.

— Claro que não. Eu sou inocente, Daiana. E tudo o que eu quero agora é provar isso.

Ela hesitou. O coração dividido entre mágoa e esperança.

— Não sei se devo confiar...

Rodrigo se aproximou um pouco mais.

— Vem comigo. Deixa eu te mostrar o conteúdo daquela maleta. Tem muita coisa ali, Daiana... o Gabriel sabia muito mais do que dizia. O assassinato do Antunes foi premeditado. Não foi por acaso que ele foi trabalhar na Mulambo.

Ela respirou fundo mais uma vez, pensando seriamente.

— Então, tá. Vamos — disse, decidida. — Quero ver o que você tem pra me mostrar.

Os dois se levantaram, e seguiram juntos até o carro do Rodrigo que estava do outro lado da rua.


═══🎭✦✧ Lar São Tarcísio ✧✦🎭═══

Epaminondas chegou ao escritório do orfanato, onde Irmã Rosália organizava alguns papéis. Bateu levemente na porta entreaberta.

— Com licença, irmã... posso entrar?

— Claro, Epaminondas. Aconteceu alguma coisa?

Ele se aproximou, visivelmente inquieto.

— Às vezes, esconder a verdade parece mais seguro do que revelá-la. — disse, com a voz carregada de culpa. — Mas agora... agora não posso mais sustentar o que nunca foi inteiro.

Irmã Rosália ergueu os olhos, tentando entender o que ele queria dizer.

— Sente-se, Epaminondas, por favor. — pediu com gentileza. — Eu não tô entendendo o que exatamente você tá querendo dizer. Você deixou de contar alguma coisa importante, foi isso?

Ele sentou devagar e continuou:

— Eu menti, irmã. Quando a senhora me perguntou se o Gabriel já sabia do nosso parentesco, eu disse que não. Mas ele já sabe há um tempo.

Irmã Rosália franziu a testa, chocada.

— E por que você preferiu mentir?

— Eu não sei — suspirou. — Agi por impulso. Talvez tentando proteger o Gabriel. Ou a mim mesmo. Eu menti pra senhora... e também menti pra polícia.

Irmã Rosália o olhava agora com olhos aflitos.

— Epaminondas...

— Eu dei ao Gabriel uma maleta — continuou ele. — Era uma maleta antiga, onde eu guardava algumas lembranças do pai dele. Coisas que eu guardei com carinho por anos: cartas trocadas entre ele e Joana, fotos... presentes que eles deram um ao outro. O Gabriel passou a guardar essa maleta cuidadosamente em seu quarto, como se fosse um relicário.

— Então é por isso que ele sempre foi tão reservado com aquele quarto... — murmurou irmã Rosália.

— Exatamente. — confirmou ele. — Mas o que me preocupa agora é que essa maleta sumiu. E o Gabriel me disse, mais cedo, que ela foi parar nas mãos do irmão dele.

— Mas o que tem de grave nisso?

— Irmã Rosália, não foi por acaso que o Gabriel foi trabalhar na Mulambo. Foi uma forma que ele encontrou de tentar se aproximar da mãe. O Gabriel já tinha conhecimento de muita coisa. Inclusive, que o Antunes era marido da mãe dele.

Irmã Rosália ergueu-se de um pulo da cadeira, os olhos arregalados.

— Epaminondas... pelo amor de Deus... O Gabriel tem alguma coisa a ver com a morte desse homem?

Houve um silêncio. Ele demorou a responder.

— Quanto a isso... não posso garantir. Mas... — suspirou profundamente. — Sempre desconfiei que sim.

— Meu Divino Pai Eterno, isso não pode ser verdade.


═══🎭✦✧ Casa da Diná ✧✦🎭═══

Em pé próxima ao fogão, Diná fechava a garrafa térmica de café, enquanto Charles estava sentado à mesa com a expressão endurecida.

— Meu Deus do céu, Charles... — disse ela, colocando a garrafa sobre a mesa. — Você não fez isso, né? E se essa menina enfezar e resolver sumir de vez?

Charles sequer ergueu os olhos. Pegou a caneca e serviu-se do café.

— Pois ela que suma. — respondeu, seco. — Eu é que não vou atrás.

Diná puxou a cadeira e se sentou ao lado do marido, preocupada.

— Ela é nossa filha, homem. Por bem ou por mal, a gente é que tem que acolher ela.

— Eu me pergunto onde foi que eu errei com essa menina. Talvez se eu tivesse dado umas boas palmadas quando ela ainda era pequena, não estaria desse jeito agora.

— Não seja bruto — retrucou Diná, com o olhar aflito. — A Soraia tá perdida, trocando os pés pelas mãos. Eu tenho tanto medo no que isso vai dar. Esse Rodrigo já deixou bem claro que não quer nada com ela, e mesmo assim ela se arrasta atrás dele como se fosse o último homem da face da terra.

Charles bufou, recostando-se na cadeira.

— Pois deixa quebrar a cara. Uma hora ela aprende.

— E se não for só a cara que ela quebrar? — rebateu, a voz falhando de leve. — Você não vê? Esse cara pode ser um assassino. Pode fazer algo contra a nossa filha. E aí, hein? O que a gente vai fazer se for tarde demais?

— E o que você quer que eu faça? — devolveu Charles, encarando a esposa. — Que eu amarre a Soraia dentro de casa?

— Se for preciso, sim! Prefiro ela aqui, reclamando, do que nas mãos de um marginal.

— A Soraia não é mais criança, Diná. Já passou da hora de você parar de passar a mão na cabeça dela. É por isso que ela vive achando que pode tudo — ele terminou o café e colocou a xícara sobre a mesa. — Pois digo e repito, a minha palavra continua a mesma: passou da hora dessa desocupada arranjar um emprego.


═══🎭✦✧ Na rua, próxima a praça da Matriz ✧✦🎭═══

O carro do Rodrigo estava estacionado sob a sombra de uma árvore. Lá dentro, Daiana, sentada no banco do passageiro, tinha os olhos vidrados sobre o conteúdo da maleta que estava aberta entra ela e ele.

— Minha nossa... — murmurou, os dedos tocando um recorte de jornal. — Aqui tem muita coisa... olha isso... "Rita de Cássia Santos acusada pela morte de Jurandir"... Quem é essa mulher?

Rodrigo, com o olhar fixo nela, respondeu com voz firma.

— Era a dona da casa onde a gente nasceu. Quando a polícia chegou no local... ela estava lá, sozinha. Foi presa no lugar do verdadeiro culpado: o Antunes.

Daiana arregalou os olhos, absorvendo o impacto.

— E o Gabriel... ele já sabia disso tudo?

— Bem antes de começar a trabalhar na Mulambo. — confirmou Rodrigo, pegando outro recorte e o entregando a ela. — Olha esse aqui.

Ela pegou o papel com cuidado. A foto em preto e branco mostrava um grupo sorridente em frente a um prédio recém-inaugurado. No centro, estava o Antunes, abraçado à esposa e do lado um menino franzino, quase apagado pela sombra.

— Esse jornal... — sussurrou Daiana.

— Eu devia ter uns quinze anos na época. Esse jornal foi publicado no dia da inauguração da Mulambo. Meu pai... — ele corrigiu, com amargura. — quer dizer o traste do Antunes, assumindo como sócio da empresa.

Daiana abaixou o recorte, os olhos entristecendo.

— Foi nesse dia que a gente se conheceu.

Rodrigo virou o rosto devagar para ela, seus olhos encontrando os dela com uma ternura.

— Sim. E acho que, desde esse dia, eu já comecei a me encantar por você.

Ela desviou o olhar, ainda sem querer acreditar.

— Isso tudo pra mim é tão confuso — disse ela. — Você pode estar certo. Diante disso aqui, vejo que o Gabriel sabia de muita coisa. Isso é muito suspeito.

Rodrigo inclinou-se levemente, buscando sua atenção.

— Eu sei que tinha todos os motivos do mundo pra matar o Antunes. Ele fez muito mal pra mim e pra minha mãe. Mas eu não cometi esse crime, Daiana. Acredite em mim, meu amor. — Ele tocou de leve sua mão. — Esse Gabriel... ele pode ser muito mais perigoso do que parece.

— Eu estive no orfanato — respondeu Daiana, com voz trêmula. — Eu vi a forma carinhosa dele com as freiras, o cuidado com as crianças. Isso que você tá dizendo, não combina com ele. Eu não posso ter me enganado tanto assim com uma pessoa.

Rodrigo respirou fundo, sua expressão endurecendo.

— Essa é a principal característica de um psicopata. Eles são carismáticos, cuidadosos, aparentam ser o que não são. Eu, você já me conhece, sou estourado, impulsivo... Mostro logo de cara quem eu sou. Mas o Gabriel? Ele é frio, calculista. Esse cara passou anos remoendo mágoas, feridas abertas pela ausência de uma família. E quando se viu diante do homem que causou tudo isso... ele não pensou duas vezes. Ele eliminou.


═══🎭✦✧ Restaurante ✧✦🎭═══

Ludmila mexia na salada com o garfo, distraída, enquanto Carla devorava seu prato sem cerimônia.

— Que cara é essa, piranha? — perguntou Carla, semicerrando os olhos para a amiga.

— O Fabinho ficou tão frio comigo ontem.

Carla revirou os olhos, como quem já previa o drama.

— Mas também, né, Ludmila? O cara ficou todo desconfiado. Agora vou te dizer uma coisa: você tá vacilando. Decide logo, puta. Ou é Fabinho, ou é Glauber.

Ludmila cruzou os braços, balançando o pescoço com um gesto impaciente.

— E por que que eu tenho que escolher entre um dos dois? E se eu não quiser nenhum? Eu hein...

— Então seja clara com eles. Ficar brincando com o sentimento dos outros não dá, né, Ludmila?

— Eu não tô brincando com ninguém! — rebateu Ludmila. — Até porque, entre eu e o Fabinho, não foi oficializado nenhum tipo de relação.

Carla arqueou a sobrancelha, debochada.

— Ah, não? E ele sabe disso?

Ludmila bufou.

— Um fresco. Se desse conta do recado, não deixava espaço vago pra outro ocupar.

— Olha só, você faz da sua vida o que quiser. Só não vem me arrastar pros seus rolos. Já vou te dar a letra: o Edson não gostou nadinha das mentiras que inventamos pro amigo dele. E eu tô gostando dele, viu? Não quero que os seus dramas atrapalhem meu namoro.

Ludmila sorriu maliciosa, encostando-se na cadeira.

— Humm... "namoro". Que chique!

— Meu amor... Se o seu namoro não engrena, não tenta desengrenar o meu.

— Aí sim, hein! Botei fé. — Ludmila deu uma risadinha e depois ficou curiosa. — Vem cá, você chegou a perguntar pro Edson sobre aquele negócio do Glauber?

— Perguntei, curiosa do jeito que sou. — respondeu Carla, bebendo um gole do suco. — Disse que não conhece bem o Glauber, que só vê ele lá na boate mesmo.

— Então o Glauber pode ser do job, mesmo... — murmurou Ludmila, pensativa.

— Ou então... o coroa é um caso fixo dele.


═══🎭✦✧ Casa dos Antunes ✧✦🎭═══

Joana e Kléber estavam sentados, concentrados na papelada que estava sobre o colo de Joana, quando o som da porta se abrindo chamou a atenção dos dois. Era Rodrigo, que entrou com a maleta discretamente acomodado debaixo do braço.

— Boa tarde! — disse, sem muito entusiasmo.

— Boa tarde, Rodrigo — respondeu Kléber, com a formalidade de sempre.

Joana se levantou de imediato, estendendo a pasta para Rodrigo.

— Olha isso aqui, meu filho — disse ela.

Rodrigo arqueou as sobrancelhas, apoiou a maleta sobre o sofá e pegou a pasta, abrindo-a cuidadosamente.

— O que é isso aqui? — perguntou, curioso.

— A proposta do seu Meireles pra compra das nossas ações — respondeu Joana, esperançosa.

Rodrigo deu um sorriso curto, quase debochado, e devolveu a pasta para a mãe.

— Eu não vou vender minhas ações pro Meireles. Já deixei isso bem claro. Não vou me desfazer de um patrimônio valioso pra investir num "restaurantizinho" qualquer.

— Mas você nem olhou direito, meu filho... — Joana insistiu, frustrada.

— Não interessa a proposta. Minhas ações não estão à venda. Fim de papo.

Kléber pigarreou, tentando entrar com alguma sensatez naquela discussão acalorada.

— Olha, Rodrigo... eu dei uma boa estudada nas simulações que o seu Meireles enviou. Sinceramente, você não sairia perdendo. A proposta dele é generosa, até acima do valor de mercado.

Rodrigo o encarou com dureza.

— Tô fora. Eu não abro mão da minha parte na Mulambo. E o inventário... sai quando mesmo?

— Ainda essa semana — respondeu Kléber, após um suspiro. — Só preciso confirmar o dia direitinho.

— Ótimo — disse Rodrigo, ajeitando a maleta de volta debaixo do braço. — Assim que eu estiver com minhas ações em mãos, volto pra Mulambo. Aquela empresa já ficou tempo demais sob domínio exclusivo do Seu Meireles.

— Eu acho — ponderou Kléber — que o mais sensato seria esperar a investigação terminar antes de tomar qualquer atitude.

Rodrigo soltou um sorriso enviesado, sem humor.

— Eu tenho pra mim que isso tudo vai se resolver muito em breve.

Virou-se para subir para o quarto, quando a voz da mãe o parou.

— Que maleta é essa, meu filho?

— Coisa minha. Mas logo vocês vão ficar sabendo. Agora com licença, vou tomar um banho que ainda preciso resolver algumas coisas.

Ele subiu, deixando Joana preocupada.

— O que esse menino tá armando, Kléber?

— Espero, sinceramente, que não seja nada que complique ainda mais a situação dele.


═══🎭✦✧ Casa da Diná✧✦🎭═══

Sentada na beirada da cama, Soraia murmurava para si, com os dentes cerrados:

— Eu preciso dar um jeito de pegar aquela maleta de volta antes do Rodrigo levar pra polícia. Se ele me quer como inimiga, ele vai me ter como inimiga. Agora vou fazer o que for preciso pra colocar aquele desgraçado atrás das grades.

Mal terminou a frase e a porta se escancarou. Diná entrou sem bater, Soraia levou um susto e virou-se bruscamente.

— Ai, que susto, mãe! Já ouviu falar em bater antes de entrar?

Diná fingiu ignorar o tom ácido da filha.

— Eu ando tão preocupada com você, minha filha...

— Ah, não começa, mãe! Já basta o meu pai me azucrinando.

Diná se aproximou com cautela, como quem pisa em campo minado.

— Ele me falou que vocês discutiram. O seu pai só quer que você encontre um rumo... que arrume um emprego. Ele não quer o seu mal.

— Ele te falou que, se eu não arrumar emprego até o fim do mês, vai me colocar pra fora?

Diná suspirou fundo, se aproximou e sentou ao lado da filha.

— Ele não vai fazer isso. Eu não vou deixar. Mas você também precisa se mexer, Soraia. Não dá mais pra continuar acomodada.

Soraia soltou uma risada seca, sem humor.

— Engraçado, né? O velho enche o peito pra dizer que vai me expulsar de casa... Que casa? Esse barraco no fundo da casa do patrão? Um homem da idade dele, que trabalhou a vida inteira, e não conseguiu nem comprar um teto pra família. E depois a acomodada sou eu?

— Por favor, para com essa brigalheira com seu pai. Tá bom, você tá certa, já era pra nós ter nosso cantinho. Mas ainda não temos. Quem sabe, se você trabalhar, as coisas não melhoram?

Soraia se levantou devagar, caminhou até o espelho e se olhou por um instante. Depois, virou-se com um sorrisinho debochado.

— Vocês acham que eu vou trabalhar pra comprar casa pra vocês? Só pode ser piada! Mas fica tranquila, mãe. Minha vida vai dar uma guinada. Não vou mofar nesse muquifo aqui pra sempre.

— O que me preocupa — disse Diná, com os olhos marejados — são os meios que você vai procurar pra isso.

Soraia sorriu com os lábios, mas não com os olhos.

— Os meios... pode ter a certesa de que serão os mais sórdidos possíveis.

Piscou com malícia. E, com um estalar de língua, virou-se de costas, olhando novamente para o espelho.

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