MINHA OUTRA FACE
46 Confronto final
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═══🎭✦✧ Fazenda ✧✦🎭═══
Antes mesmo de chegar ao carro estacionado em frente à casa, Rodrigo percebeu algo estranho.
Mais adiante, havia outro veículo.
Ele parou imediatamente.
— Que carro é aquele ali?
Seu coração disparou.
— Deu merda.
Olhou ao redor, tentando identificar quem havia chegado.
— Tenho que levantar acampamento.
Sem perder tempo, voltou apressado para o paiol.
Enquanto isso, Gabriel já estava lá dentro.
Ajoelhado diante de Daiana, tentava desfazer os nós das cordas.
— Vamos sair daqui, meu amor. Antes que esse psicopata faça alguma coisa com você.
Daiana olhou pelas frestas da madeira.
Seu rosto perdeu a cor.
— Gabriel...
— Calma. Já tô soltando você.
— Gabriel, rápido! Esconde! Ele tá voltando!
Os passos acelerados de Rodrigo já podiam ser ouvidos do lado de fora.
Gabriel largou as cordas imediatamente.
Correu para trás de algumas caixas velhas e se escondeu entre ferramentas enferrujadas e garrafas empilhadas.
No segundo seguinte, Rodrigo entrou.
Seu rosto estava tomado pelo nervosismo.
— Bora!
Daiana o encarou.
— Vamos pra onde?
— Pra onde eu quiser.
Ele apontou a arma para ela.
— E você trate de ficar caladinha.
Aproximou o cano em seu rosto.
— Porque eu posso estourar os seus miolos com um simples clique.
Escondido, Gabriel cerrava os punhos.
Olhou para o lado.
Havia um pedaço grosso de madeira apoiado junto à parede.
Mas qualquer movimento o denunciaria.
Foi então que um som distante atravessou a noite.
Uma sirene.
Todos congelaram.
Rodrigo arregalou os olhos.
— Que isso?
A sirene cada vez mais próxima.
— Não... não! Maldição! Agora a polícia tá chegando também!
Voltou para Daiana.
— A gente precisa sair daqui. Agora!
Quando se abaixou para pegar as cordas, percebeu algo.
Os nós estavam frouxos.
Seu olhar escureceu.
— Que porra é essa? Alguém mexeu nisso.
Levantou-se lentamente.
A arma voltou para sua mão.
— Você não conseguiria fazer isso sozinha.
Então agarrou Daiana pelo pescoço e a puxou contra o próprio corpo. Levantando-a e usando-a como escudo.
Rodrigo começou a girar devagar pelo paiol.
A arma apontava para todos os cantos.
— Eu sei que você tá aqui! APARECE!
Nada.
— Se não aparecer, eu mato ela!
Luzes vermelhas e azuis começaram a atravessar as frestas.
A polícia havia chegado.
Lá fora, as viaturas cercavam a propriedade.
Will foi o primeiro a saltar do carro.
Tony veio logo atrás.
— Cerquem tudo! — gritou Will. — Ele não pode escapar!
Os policiais se espalharam pela fazenda.
Alguns correram para a casa.
Dentro do paiol, Rodrigo virou o rosto instintivamente ao ouvir a movimentação.
Foi o instante que Gabriel precisava.
Ele agarrou o pedaço de madeira.
E avançou.
O golpe acertou em cheio a lateral da cabeça de Rodrigo.
— AAAAH!
Ele cambaleou.
A arma escapou de sua mão, bateu no chão e deslizou para debaixo de um velho armário de ferramentas.
Gabriel não esperou.
Correu até Daiana. Agarrando-a pelo braço.
— Vem! Vamos sair daqui!
Os dois dispararam para fora do paiol.
Mas, no mesmo instante, foram iluminados pelos faróis e lanternas da polícia.
Will reagiu imediatamente.
— PARADO!
Gabriel congelou.
— Mãos na cabeça! Agora!
— Não! Espera! Eu sou o...
— NA PAREDE! Sem gracinha!
Dois policiais avançaram e o agarraram.
Daiana tentou intervir.
— Delegado, não! Esse é o...
— Afasta, senhora!
Em segundos, Gabriel já estava imobilizado contra a parede lateral da casa.
Enquanto todos os olhares estavam voltados para Gabriel, Rodrigo saiu pelos fundos do paiol. Sem fazer barulho, alcançou a cerca e se embrenhou pela mata.
═══🎭✦✧ Estrada da Fazenda ✧✦🎭═══
O carro com Soraia e Bira seguia pela estrada de terra em direção à fazenda.
Ao longe, as luzes vermelhas e azuis das viaturas já iluminavam a noite.
Soraia reduziu a velocidade.
Pouco adiante estava o carro que Gabriel havia deixado.
Ela estacionou alguns metros atrás.
Observou a movimentação policial com um sorriso satisfeito.
— Agora a casa caiu de vez, Rodrigo. Não vai ter como você escapar.
Bira olhou para as viaturas.
— Loucura essa sua de ter vindo pra cá. A gente vai acabar é sendo preso também.
— Cala a boca. Você veio porque quis.
Então sorriu.
— Você acha mesmo que eu ia perder esse espetáculo? E outra coisa. Você mais do que ninguém tem o direito de estar aqui. Essa fazenda era da sua avó. Você é o herdeiro dela.
— O difícil é explicar isso pra polícia num momento desses.
Foi então que algo chamou sua atenção.
Uma movimentação na mata.
Uma silhueta correndo entre as árvores.
Ela reconheceu imediatamente.
— Não acredito... Rodrigo.
Sem perder tempo, abriu o porta-luvas.
Retirou a pistola.
Bira arregalou os olhos.
— O que você vai fazer?
Soraia verificou a arma.
— Não vou deixar o Rodrigo escapar.
— Soraia!
Mas ela já havia saído do carro.
E desaparecido na mata.
Rodrigo avançava rapidamente entre as árvores.
De tempos em tempos olhava para trás, na direção da fazenda.
Foi quando um disparo cortou a noite.
A bala atingiu uma árvore ao seu lado.
Lasca de madeira explodiu perto de seu rosto.
Instintivamente, ele se jogou atrás de um tronco.
— Que droga?!
Outro disparo.
A voz de Soraia surgiu no escuro.
Divertida.
Provocadora.
— Ainda tá vivo, querido?
Rodrigo fechou os olhos por um instante.
— Soraia...
Sacou a arma.
Do outro lado da vegetação, ela riu.
— Sentiu minha falta, bebê?
Rodrigo respondeu com dois tiros.
Soraia mergulhou atrás de uma pedra.
— Você é muito burra! — gritou ele. — O que acha que tá fazendo?
A resposta veio imediatamente.
— Tentando te matar, meu amor!
Os dois começaram a se mover pela mata.
Ela surgia entre as árvores.
Ele desaparecia atrás dos arbustos.
Disparos cruzavam a escuridão.
Galhos quebravam.
Folhas eram arrancadas pelos projéteis.
Até que ficaram frente a frente.
Poucos metros separavam os dois.
Os olhares se encontraram.
Atiraram ao mesmo tempo.
Nenhum dos tiros acertou.
Rodrigo virou e correu.
Soraia foi atrás.
Minutos depois, Rodrigo tropeçou numa raiz exposta.
Seu corpo foi ao chão.
A pistola escapou de sua mão.
Parando alguns metros adiante.
Instintivamente, ele se lançou para alcançá-la.
Mas antes que seus dedos tocassem a arma...
Uma bota pisou sobre sua mão.
Rodrigo ergueu os olhos.
Soraia estava diante dele, ofegante, com a arma apontada para sua cabeça.
— Acabou, Rodrigo.
Mas antes que pudesse apertar o gatilho...
— POLÍCIA!
Lanternas iluminaram a mata.
— ARMA NO CHÃO! AGORA!
Will surgiu entre as árvores com vários policiais atrás dele.
— Mãos onde eu possa ver!
Soraia obedeceu, se agachou e colocou a pistola no chão.
Ergueu as mãos.
Os policiais avançaram rápido, cercando os dois com armas apontadas.
Um deles chutou a arma para longe.
— Não se mexe!
Rodrigo foi rendido primeiro. Dois agentes, revistaram e algemaram seus pulsos.
Soraia ficou imóvel. Um policial se aproximou por trás, segurou seus braços e a algemou em seguida.
Em poucos segundos, os dois estavam imobilizados.
Will apenas observou enquanto os policiais os colocavam de pé, encerrando a operação na mata.
═══🎭✦✧ Casa dos Meireles ✧✦🎭═══
Daiana entrou em casa acompanhada de Gabriel.
Angelina, Fabinho e Meireles estavam reunidos, em clima de tensão que só se dissolveu no instante em que a porta se abriu.
Angelina levantou-se rapidamente e correu até a filha.
— Meu Deus, minha filha... como você está?
Daiana a abraçou com força.
— Agora acabou, mãe. O Rodrigo finalmente foi preso.
Angelina segurou o rosto dela, conferindo se estava bem.
— Eu falei pro Meireles que tinha alguma coisa errada. Você não é de sumir assim sem avisar.
Meireles apenas assentiu, sério.
— Eu também desconfiei.
Fabinho deu um passo à frente.
— Mas conta aí... o que aconteceu?
Gabriel respirou fundo antes de falar.
— O Rodrigo me abordou lá na igrejinha, quando eu tinha ido me encontrar com a Daiana. Ele usou alguma substância em mim, me fez perder os sentidos.
Fabinho estreitou os olhos.
— Clorofórmio. Certeza...
Daiana completou, ainda abalada:
— Depois disso, ele se passou pelo Gabriel e foi comigo. Mas eu reconheci ele. Diante disso, ele ficou furioso. Apontou uma arma pra mim e me levou até a fazenda. Lá, me manteve em cativeiro dentro de um paiol.
Meireles balançou a cabeça, indignado.
— Esse cara não tem escrúpulos nenhum.
Angelina apertou a mão da filha.
— Mas graças a Deus acabou.
Ela olhou para Gabriel.
— Agora vocês dois vão tomar um banho e descansar. Fabinho, separa uma roupa sua pro Gabriel.
Fabinho assentiu.
— Pode deixar.
Gabriel respirou aliviado.
— Muito obrigado, dona Angelina.
Ela sorriu de leve, com um certo peso na expressão.
— Me desculpe por ter duvidado de você. Eu sempre gostei muito do Rodrigo... e como você era um estranho, foi mais fácil acreditar na culpa sua do que na dele.
Gabriel baixou o olhar por um instante.
— Tudo bem. Eu entendo.
Levantou os olhos novamente.
— Acho que nenhum de vocês que já conheciam o Rodrigo imaginaria que ele fosse capaz de tudo isso.
No dia seguinte...
═══🎭✦✧Casa dos Antunes✧✦🎭═══
Joana estava sentada à mesa tomando café. Milena organizava a louça ao lado.
— Ninguém nessa casa levantou ainda? — perguntou Joana, levando a xícara na boca.
Milena se aproximou ao responder.
— Nem sei, dona Joana. Ontem eu vi dona Soraia entrando aqui bem afoita, acompanhada de um rapaz. Os dois subiram pro quarto e depois saíram. Achei tudo meio estranho... mas a senhora sabe, eu não entendo bem essa relação dela com o seu Rodrigo. Depois disso, não vi ninguém voltando.
Joana franziu o cenho.
— Nem eu entendo. E nem faço questão. Não suporto essa garota.
Antes que a conversa continuasse, Kléber entrou na sala.
— Bom dia.
— Oi, meu amor. Bom dia — respondeu Joana, sorrindo.
Kléber se aproximou e deu uma bitoca em Joana. Respirou fundo, antes de continuar.
— O Rodrigo e a Soraia foram presos.
Joana arregalou os olhos.
— O quê? Como assim, Kléber? O que foi dessa vez?
Ele puxou uma cadeira e sentou, sério.
— Eu tô indo agora pra delegacia entender melhor tudo. Mas o que me passaram é que o Rodrigo sequestrou a Daiana e manteve ela em cativeiro numa fazenda.
Joana levou a mão à boca.
— Meu Deus do céu... esse menino perdeu completamente o juízo.
Kléber continuou, ainda mais grave.
— E não é só isso. Tem também o caso da morte do Antunes. A polícia já tem provas que ligam diretamente ao Rodrigo. Fora as irregularidades na Mulambo Têxtil... caixa dois, corrupção... e sabe-se lá o que mais.
Joana começou a tremer.
Os olhos encheram de lágrimas.
— Não... não pode ser... Meu filho virou um monstro, Kléber... igual ao pai dele.
- Calma Joana. Eu sei que não vai ser fácil. Ele vai responder por crimes graves, mas eu vou tentar trabalhar na defesa pra reduzir danos. Vou tentar usar o histórico dele, tudo o que ele passou com o Antunes... isso pode pesar na dosimetria da pena. Mas ele vai ter que colaborar. Agora, o comportamento dele na prisão e a sinceridade vão contar muito.
Joana tentava se conter.
— Se ele errou... ele tem que pagar.
As lágrimas desciam sem controle.
— Meu filho é um criminoso, Kléber... e isso... isso dói... Eu me sinto uma fracassada na educação que dei a ele. Mas eu já estava me preparando pra esse dia. Vai lá, faz o que tem que ser feito.
═══🎭✦✧ Lar São Tarcísio ✧✦🎭═══
Assim que Gabriel atravessou o portão do orfanato, foi recebido por uma verdadeira explosão de alegria.
As crianças correram em sua direção.
— Gabriel!
— Gabriel voltou!
— É o Gabriel!
Em poucos segundos ele estava cercado por abraços, risadas e vozes falando ao mesmo tempo.
— Calma, calma! Assim vocês me derrubam. — disse ele, radiando de felicidade.
— Então você é inocente mesmo, Gabriel? — disse Ana. — Eu sabia que tinha alguma coisa errada. Não fazia sentido.
Gabriel sorriu.
— Sou inocente, Aninha. Eu jamais faria uma coisa dessas.
— Logo eu duvidei. — confessou Pedrinho.
Gabriel ergueu uma sobrancelha.
— Ah, duvidou?
— Claro. Você não tem coragem nem de matar uma mosca.
Todos caíram na gargalhada.
— Pois não é...
Foi então que uma voz conhecida surgiu atrás da multidão.
— Deixem um pedaço desse menino pra mim também.
As crianças abriram caminho.
Irmã Rosália se aproximou.
Os olhos estavam marejados.
Gabriel imediatamente abriu os braços.
Ela o abraçou forte.
— Meu filho... Como é bom ter você aqui de novo.
Gabriel fechou os olhos.
— Também senti muito sua falta, irmã.
— Eu rezei tanto por você... Insistentemente todas as noites.
Ela segurou o rosto dele entre as mãos.
— E Deus ouviu minhas preces. Trouxe você de volta são e salvo.
Gabriel sorriu emocionado.
— Agora acabou, irmã. Tô livre de todas aquelas acusações. Parece que tirei um peso enorme das costas.
═══🏢✦✧ Mulambo Têxtil ✧✦🏢═══
Meireles estava em sua cadeira de rodas, diante janela de sua sala.
Fabinho permanecia sentado à sua frente.
— E agora, pai? Como vai ser daqui pra frente?
Meireles soltou um suspiro cansado.
— Agora começa a parte mais difícil.
Ele girou a cadeira na direção do filho.
— Prender o Rodrigo foi apenas o começo. O que vem agora é descobrir o tamanho real do estrago que ele causou. Mas agora a justiça vai investigar tudo. E nós vamos colaborar com o que for preciso.
— E a TexHold?
Meireles apoiou os braços na cadeira.
— A TexHold já está praticamente condenada. As provas mostram que ela foi criada para fraudar a estrutura societária da empresa.
— Então as ações que o Rodrigo comprou irá voltar para o senhor?
— Exatamente. Até mesmo porque o dinheiro usado para comprar minhas ações foi desviado da própria Mulambo.
Antes que Fabinho respondesse, alguém bateu à porta.
— Pode entrar.
Talita apareceu.
— Com licença.
Ela lançou um olhar para Fabinho.
— Fabinho, a Ludmila tá na recepção.
Fabinho fechou os olhos imediatamente.
— Ah, não...
— Ela disse que precisa falar com você. Que é um assunto muito sério.
— Mas era só o que faltava. Eu não vou falar com ela não, Talita. Se ela insistir, chama a segurança.
Meireles interveio.
— Vai sim. Se ela teve o trabalho de vir até aqui dizendo que é urgente, o mínimo que você pode fazer é ouvir.
— O senhor não viu o que essa garota aprontou? Ela passou a noite inteira acampada na frente de casa. Ela não tem limite.
Talita então acrescentou:
— Acontece que desta vez ela não veio sozinha. O pai dela tá junto.
A irritação de Fabinho diminuiu um pouco.
— O Juca também tá aí?
Talita assentiu.
— Sim.
Fabinho passou a mão pelo rosto, e seguiu Talita.
═══🎭✦✧ Casa dos Meireles ✧✦🎭═══
Charles, Diná e Angelina estavam reunidos na sala.
O assunto era inevitável.
— Se você quiser ir lá na delegacia, Diná, pode ir tranquila. A Maristela prepara o almoço. Vai lá com o Charles. — disse Angelina.
Diná balançou a cabeça.
— Não, dona Angelina. Vou continuar cuidando do meu serviço. Eu já lavei minhas mãos em relação à Soraia. Essa menina faz besteira atrás de besteira. Tá onde merece estar.
Charles concordou.
— É frustrante, mas eu penso parecido. A gente já pelejou tanto com essa menina que parece que ela não cansa de arrumar confusão.
Balançou a cabeça, indignado.
— Ela pensou o quê? Que estava num filme de bangue-bangue? Trocando tiros com um bandido no meio da mata?
Angelina apoiou a xícara sobre a mesa.
— Eu conversei com o doutor Kléber, advogado da família Antunes. Como ele está cuidando do caso do Rodrigo, acabou assumindo também a defesa da Soraia. E ele me explicou que ela vai responder em liberdade.
Diná ergueu os olhos.
— Ah, vai?
Angelina assentiu.
— Ela não tem antecedentes, tem endereço fixo, não tentou fugir e foi justamente ela quem avisou a polícia sobre o cativeiro da Daiana.
Fez uma breve pausa.
— Além disso, a Justiça entendeu que ela não representa risco para a investigação nem para a sociedade.
Diná levou a mão ao peito.
— Glória a Deus... Como mãe, eu fico aliviada de saber que minha filha vai ser solta. Muito aliviada.
Então ela respirou fundo.
— Mas vou falar uma coisa... Eu não me iludo mais. Passei a vida inteira esperando a Soraia criar juízo. Achei que depois de cada tombo ela fosse mudar. E nunca mudou.
Diná enxugou uma lágrima.
— Eu amo minha filha. Vou continuar amando até o último dia da minha vida. Mas amor de mãe não muda os fatos. Tem hora que a gente precisa aceitar que pau que nasce torto... morre torto.
═══🏢✦✧ Mulambo Têxtil ✧✦🏢═══
Fabinho parecia incapaz de processar a informação.
— Grávida? Você tem certeza disso? Não pode estar enganada?
Ludmila pegou o teste e entregou pra ele.
— Fiz dois testes de farmácia e depois um exame de sangue.
Respirou fundo.
— Infelizmente é verdade. Eu tô grávida.
Fabinho passou a mão pelos cabelos.
— Meu Deus...
Caminhou alguns passos pela sala, olhando o exame.
— Isso é loucura. Eu não tava preparado pra isso.
Ludmila balançou a cabeça, desapontada.
— Olha, se você tá duvidando que o filho é seu, a gente pode fazer exame de DNA. Eu ouvi dizer que dá até pra fazer antes da criança nascer.
Fabinho a encarou.
— Convenhamos que eu teria motivos pra pedir isso, né?
Ela apontou o dedo para ele.
— Olha aqui, garoto... Eu não preciso disso. E se você tá achando que eu tô usando essa gravidez pra forçar alguma aproximação entre nós dois, tá muito enganado. Eu nem queria vir aqui. Meu pai praticamente me obrigou.
Pegou a bolsa.
— Mas pode ficar tranquilo. Eu crio meu filho sozinha.
Ela se levantou para sair.
— Ludmila, espera.
Ela parou, sem se virar.
— Não é assim que as coisas se resolvem.
Fabinho se aproximou.
— Eu sou homem. Não sou nenhum moleque.
Ludmila virou o rosto para ele.
— Se você tá dizendo que esse filho é meu, eu acredito. E vou assumir minhas responsabilidades. Você não tá sozinha nessa.
Por um instante, os olhos dela se encheram de esperança.
— Só que uma coisa precisa ficar bem clara. Eu sou pai dessa criança. Vou dar amor. Vou dar carinho. Vou cuidar da parte financeira. Vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance. Mas o meu compromisso é com a criança. Nós não temos nada.
Ludmila baixou os olhos. Aquelas palavras doeram mais do que ela gostaria de admitir.
— Nossa...
Ela forçou um sorriso.
— Você tá bem chateado mesmo comigo, né?
— Não é pra menos. Você sabe muito bem o que você fez.
— Eu sei.
Os olhos começaram a marejar.
— E eu tô sofrendo com tudo isso, sabia? Você pode até não acreditar... Mas eu tô completamente apaixonada por você. E agora tô me sentindo mais perdida do que nunca.
Fabinho desviou o olhar por um instante. Depois a encarou novamente.
— Que pena que você descobriu isso tarde demais. Ludmila, eu tô no horário de trabalho. Depois eu te procuro e a gente conversa melhor sobre o nosso filho.
Fez questão de enfatizar:
— Somente sobre ele. Porque é só isso que me interessa agora.
Ludmila saiu da sala sem olhar para trás.
— Insensível.
Fabinho permaneceu parado, observando.
═══🎭✦✧ Casa dos Antunes ✧✦🎭═══
Kléber chegou em casa acompanhado de Soraia.
Joana estava sentada no sofá, com o olhar distante, claramente sem cabeça para o dia.
— E aí, meu amor... pensei que você estivesse no restaurante. — disse Kléber.
— Não tive cabeça pra ir trabalhar hoje. Avisei os meninos. Se tiver qualquer problema, eu vou mais tarde.
Kléber assentiu, compreensivo.
Antes que a conversa avançasse, Soraia se aproximou, com um leve sorriso no canto da boca.
— Imagino como tá sua cabeça. E olha que você ainda nem descobriu a maior das pilantragens do seu filho...
Soraia virou-se para Kléber.
— Mas acredito que o doutorzinho aqui vai te explicar. Aliás, obrigada por ter aliviado meu lado na delegacia.
Kléber respondeu seco:
— Eu fiz apenas o meu papel de advogado. Mas a minha vontade era que você continuasse lá.
Soraia deu de ombros.
— Desencana. Você sabe muito bem que, pela lei, o ideal era eu responder em liberdade.
Ela se afastou alguns passos.
— Agora, com licença... vou colocar meu biquíni e tomar um banho de piscina. Tive uma noite péssima.
Joana levantou-se imediatamente.
— O que você vai fazer é arrumar suas coisas e sair dessa casa.
Soraia virou lentamente o rosto para ela.
— Ficou maluca?
Abriu um sorriso provocador.
— Eu casei em comunhão total de bens com o Rodrigo. Portanto, essa casa também é minha. E daqui eu não saio.
Joana riu baixo.
— Ah, você sai. Tem um detalhe que você ainda não sabe.
Soraia estreitou os olhos.
Joana continuou.
— Quando o Rodrigo comprou a minha parte nas ações da Mulambo, ele abriu mão da parte dele nesta casa. Ou seja... o Rodrigo não tem mais direito a nada aqui.
A voz dela agora vinha carregada de raiva contida.
— Eu ainda estava aturando você aqui porque, querendo ou não, ele é meu filho.
Olhou diretamente nos olhos de Soraia.
— Mas agora que o meu filho tá preso... Eu não tenho mais que olhar pra essa sua cara de cínica.
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