MEMÓRIAS
14 CAPÍTULO 13 - Entre duas vidas
Sarah chegou à casa dos Clearwater pouco depois das onze da noite.
Harry e Sue estavam acordados.
Nenhum dos dois perguntou por que demorara.
Nenhum dos dois fora dormir.
Harry estava sentado no sofá com um livro aberto que evidentemente não lera. Sue tinha uma xícara de chá frio sobre a mesa e levantou-se assim que ouviu a porta.
— Sarah?
Ela entrou.
Fechou a porta.
Permaneceu alguns segundos de costas para os pais.
Ainda sentia a pequena lua sobre o peito.
Parecia mais pesada.
Quinze anos carregando um objeto cuja história desconhecia.
Naquela noite, descobrira que aquele pequeno pingente pertencera a Sarah Black.
A mãe de Jacob.
E fora entregue a outra menina.
Sarah Cullen.
Sue percebeu primeiro.
— Aconteceu uma coisa.
Sarah virou-se.
Harry levantou.
— O quê?
Ela não sabia por onde começar.
Então fez aquilo que sempre fazia quando a emoção se tornava grande demais.
Organizou os fatos.
— Eu conversei com Jacob.
Harry ficou atento.
— Sobre seu acidente?
— Sobre o dele.
Silêncio.
Sarah caminhou até o sofá.
Sentou.
— Quinze anos atrás, aconteceu um ataque contra a família Cullen.
Harry e Sue trocaram um olhar.
— Carlisle Cullen estava com os três filhos e Jacob Black. Eles fugiram para uma floresta.
Harry ficou imóvel.
Sarah continuou:
— Emmett tinha dez anos. Jacob também. Edward tinha oito.
Parou.
Sue entendeu antes de Harry.
— E havia outra criança.
Sarah olhou para ela.
— Havia.
A voz saiu baixa.
— Uma menina.
Harry sentou-se devagar.
— Quantos anos?
Sarah apertou as mãos.
— Oito.
Sue levou a mão à boca.
Sarah respirou.
— O nome dela era Sarah Cullen.
Nenhum dos dois falou.
Harry empalideceu.
— Sarah...
— Ela era irmã gêmea de Edward.
Sue começou a chorar.
— Meu Deus.
— Durante a fuga, os quatro se separaram. Emmett e Edward foram encontrados por um homem chamado Charlie Swan.
Harry ouvia sem piscar.
— Jacob ficou com a menina.
Sarah sentiu a garganta fechar.
— Eles chegaram a um penhasco.
Harry levantou-se.
— Não.
Sarah olhou para ele.
— O quê?
— Penhasco?
— Sim.
Harry começou a andar.
— Meu Deus.
— Pai?
Ele virou-se.
— Os médicos disseram que seus ferimentos eram compatíveis com uma queda.
Sarah ficou imóvel.
Harry continuou:
— Você tinha lesões que não pareciam ter sido causadas apenas pela correnteza.
Sue chorava.
— Harry...
Sarah sentiu um arrepio.
— Jacob tentou segurar a mão dela.
Harry parou.
— Mas não conseguiu.
A voz de Sarah falhou.
— Ela caiu no rio.
Silêncio.
Harry sentou-se novamente.
— E nunca encontraram o corpo.
Sarah balançou a cabeça.
— Meu Deus.
Harry fechou os olhos.
A lembrança voltou.
Uma pequena mão entre galhos.
Cabelos grudados no rosto.
Lábios arroxeados.
Um corpo infantil quase imóvel.
— Meu Deus.
Sarah observou.
— Você está pensando a mesma coisa que eles.
Harry abriu os olhos.
— Quem?
— Billy. Edward. Emmett. Jacob.
— Eles acham que você é essa menina.
Sarah respirou fundo.
— Eles não sabem.
— Mas suspeitam.
— Existe uma grande possibilidade.
Sue se aproximou.
— E você?
Sarah demorou.
— Eu não sei.
Olhou para os dois.
— Hoje de manhã eu descobri que não sabia quem eram meus pais biológicos. Agora descobri que talvez saiba até o nome deles.
Sue ajoelhou diante dela.
— Sarah...
— Eu estou bem, mãe.
— Você não precisa estar.
Sarah soltou uma pequena risada triste.
— Ainda bem.
Harry permaneceu pensativo.
Então Sarah puxou o colar.
— Tem mais.
Sue olhou.
— A lua?
— Billy reconheceu.
Harry franziu a testa.
— Reconheceu?
— A corrente pertenceu à esposa dele.
Silêncio.
— Sarah Black.
Harry olhou para o pingente.
— A mãe de Jacob?
— Sim.
Sarah virou a lua.
— Tem uma marca atrás.
Harry aproximou-se.
S.B.
Ele empalideceu.
— Isso sempre esteve aí?
— Aparentemente.
Sue tocou a boca.
— Nunca vimos.
— Nem eu.
Sarah fechou os dedos sobre o pingente.
— Billy disse que comprou a corrente para a esposa. Ela colocou a lua e, anos depois, deu o colar para Sarah Cullen.
Harry sentou-se.
Agora já não parecia uma coincidência.
— Você estava usando isso quando eu encontrei você.
— Eu sei.
— A polícia fotografou.
Sarah levantou os olhos rapidamente.
— O quê?
— Seus pertences foram registrados.
Ela ficou alerta.
— Ainda existem esses documentos?
— Devem existir.
A advogada reapareceu imediatamente.
— Quero tudo.
Harry quase sorriu.
— Imaginei.
— Relatório de atendimento, prontuário, ocorrência, registro dos objetos, local exato onde você me encontrou...
— Sarah.
— Tudo.
— Eu vou procurar.
Ela assentiu.
— E amanhã faremos um exame de DNA.
Sue começou a chorar novamente.
Sarah segurou a mão dela.
— Mãe.
— Desculpa.
— Não pede desculpa.
Sue olhou para ela.
Sarah sorriu.
— Um exame não muda isso.
— Eu sei.
— Se eu for Sarah Cullen, continuo sendo sua filha.
Harry fechou os olhos.
Sarah olhou para ele.
— E sua.
Ele assentiu emocionado.
— Sempre.
Sarah respirou.
— Talvez eu apenas descubra que fui filha de mais pessoas do que imaginava.
Na manhã seguinte, ninguém na Cullen & Black parecia particularmente produtivo.
Emmett entrou na sala de Jacob três vezes antes das nove.
Na quarta, Jacob perdeu a paciência.
— Se entrar aqui outra vez sem motivo, vou tirar sua senha de acesso ao andar.
Emmett sentou-se.
— Isso é abuso de poder.
— Sai.
— Não.
Jacob levantou os olhos.
— O que você quer?
— Saber quando vamos fazer o exame.
— Quando Sarah decidir.
— Ela decidiu ontem.
— Então quando ela marcar.
— Podemos marcar.
— Ela pode marcar.
Emmett bateu os dedos na mesa.
— Você está estranhamente calmo.
Jacob largou a caneta.
— Não estou calmo.
— Parece.
— É treinamento.
Emmett observou.
— Você acha que é ela.
Jacob ficou em silêncio.
— Jacob.
— Eu acho que existem coisas demais que não consigo explicar.
— Isso não respondeu.
— É a resposta que tenho.
Emmett ficou sério.
— Eu quero que seja.
Jacob olhou para ele.
— Eu também.
A admissão saiu baixa.
Emmett não brincou.
Jacob continuou:
— E é exatamente por isso que estou tentando não acreditar antes da hora.
— Porque pode dar negativo.
— Sim.
Silêncio.
Emmett olhou para a fotografia sobre a mesa.
— Eu não sei se aguento perder ela duas vezes.
Jacob desviou os olhos.
— Nem eu.
Não havia romance naquela frase.
Havia duas crianças de dez anos que tinham envelhecido carregando a mesma ausência.
Edward entrou sem bater.
— Sarah chegou.
Os dois levantaram ao mesmo tempo.
Edward olhou para eles.
— Isso foi assustador.
Emmett apontou para Jacob.
— Ele levantou primeiro.
— Cala a boca.
Edward quase sorriu.
— Ela quer falar conosco.
Sarah os esperava numa pequena sala de reuniões afastada do fluxo principal da diretoria.
A porta estava fechada.
Nenhum assistente fora chamado.
Nenhuma reunião constava na agenda.
Aquilo era deliberado.
Jacob deixara claro desde a noite anterior: até que soubessem a verdade, ninguém fora daquele pequeno grupo deveria tomar conhecimento das suspeitas.
Principalmente Irina.
Rosalie não estava.
Isabella não estava.
Irina e Aro, muito menos.
Billy chegaria depois.
Quando os três entraram, Sarah colocou uma pasta sobre a mesa.
— Bom dia.
Emmett sentou ao lado dela.
— Como você está?
— Não sei.
— Resposta justa.
Edward ocupou a cadeira oposta.
Jacob ficou por último.
Sarah percebeu que ele mantinha certa distância.
Diferente dos primeiros dias, quando aquilo a irritaria, agora compreendia.
Jacob estava tentando não interferir.
— Contei para Harry e Sue.
Edward ficou atento.
— Como reagiram?
— Assustados.
— Eles sabiam alguma coisa sobre os Cullen?
— Não.
Jacob observou.
— Harry nunca suspeitou?
— Não. Ele não sabia de onde eu tinha vindo.
— E agora?
Sarah abriu a pasta.
— Agora ele vai procurar todos os documentos da época.
Edward imediatamente perguntou:
— Prontuário?
Sarah assentiu.
— Relatório policial, hospital, objetos encontrados comigo, tudo.
Emmett sorriu.
— Advogada.
— Sempre.
Jacob finalmente sentou.
Sarah olhou para Edward.
— E o DNA.
Edward ficou imóvel.
— Quando?
— Hoje, se conseguirmos.
— Conseguimos.
Emmett levantou a mão.
— Eu também faço.
Sarah franziu a testa.
— Não precisa.
— Não perguntei se precisa.
Edward olhou para ele.
— Comigo já basta para estabelecer parentesco.
— Eu sei.
— Então por quê?
Emmett deu de ombros.
— Porque eu quero.
Sarah ficou olhando.
Ele sorriu.
— Se vamos traumatizar um laboratório, vamos fazer direito.
Ela riu.
Jacob balançou a cabeça.
— Impressionante como você consegue ser idiota em qualquer situação.
— É dom.
Sarah olhou para Jacob.
— Você também.
Ele franziu a testa.
— Eu também o quê?
— Vai fazer.
A sala ficou quieta.
Jacob respondeu:
— Meu DNA não serve para confirmar se você é Cullen.
— Eu sei.
— Então por quê?
Sarah sustentou seu olhar.
— Porque você estava lá.
Ele ficou imóvel.
— Sarah...
— Edward e Emmett podem confirmar se sou irmã deles.
Ela respirou.
— Mas, se eu for aquela menina, você também faz parte da história.
Jacob entendeu.
Não como irmão.
Não como qualquer outra coisa que precisasse ser definida naquele momento.
Mas como a criança que segurara sua mão até o último segundo.
— Está bem.
Billy chegou meia hora depois.
Sarah contou que Harry e Sue iriam acompanhá-la ao laboratório.
Billy assentiu.
— Harry deve estar passando por muita coisa também.
Sarah olhou para ele.
— Vocês já se conheciam antes de tudo isso.
— Sim. Há anos.
— Ele comentou.
Billy sorriu levemente.
— Nós nos encontramos em eventos empresariais e por causa da fundação. Não somos amigos íntimos, mas conheço Harry há bastante tempo.
Jacob observou o pai.
— E foi por isso que vocês conseguiram conversar ontem sem levantar suspeitas.
Billy assentiu.
— Exatamente.
Sarah franziu a testa.
— Conversaram ontem?
Billy percebeu que precisava explicar.
— Encontramos-nos no almoço da fundação.
— E falaram sobre mim.
— Seu pai mencionou que você trabalha conosco.
Sarah olhou para Jacob.
— Mais uma reunião secreta da família Black?
Billy sorriu.
— Dessa vez, coincidência de verdade.
— Essa palavra já perdeu completamente a credibilidade para mim.
Emmett riu.
Billy ficou sério novamente.
— Há outra coisa.
Todos olharam.
— Se vamos fazer esse exame, precisamos decidir quem saberá.
Jacob respondeu imediatamente:
— Ninguém.
Sarah ergueu as sobrancelhas.
— Tecnicamente, eu.
Jacob olhou para ela.
— Você entendeu.
Ela assentiu.
Edward falou:
— Rosalie e Isabella não precisam saber por enquanto.
Emmett concordou, embora não parecesse gostar de esconder algo de Rosalie.
Billy completou:
— E Irina não pode sequer suspeitar.
Sarah ficou séria.
— Por quê?
Jacob respondeu:
— Porque, até sabermos exatamente o que aconteceu quinze anos atrás, não sabemos em quem confiar.
— Vocês realmente desconfiam dela.
— Sim.
— A ponto de esconder um exame de DNA?
— Principalmente um exame de DNA.
Sarah sustentou seu olhar.
— Está bem.
Jacob pareceu surpreso com a facilidade.
— Só isso?
— Eu sou advogada, Jacob. Sei preservar informação confidencial.
Emmett murmurou:
— Às vezes esqueço que ela pode acabar com todos nós juridicamente.
Sarah sorriu.
— É bom não esquecer.
O laboratório particular conseguiu atendê-los naquela tarde.
Escolheram uma unidade distante da empresa e fizeram o agendamento diretamente, sem passar pelas assistentes da Cullen & Black.
Nenhum motorista da companhia foi utilizado.
Nenhum compromisso foi lançado nas agendas corporativas.
Jacob não queria deixar rastros desnecessários dentro da empresa.
Harry e Sue chegaram primeiro.
Billy chegou pouco depois.
Quando Harry o viu, levantou-se.
— Billy.
— Harry.
O cumprimento não tinha qualquer constrangimento de apresentação.
Os dois já haviam dividido mesas de eventos, reuniões da fundação, jantares empresariais e conversas protocolares ao longo dos anos.
Naquele dia, porém, era diferente.
Muito diferente.
Harry estendeu a mão.
Billy apertou.
— Então chegamos a isso — Harry disse.
Billy assentiu.
— Parece que sim.
Harry olhou para Sarah.
— Ainda não sabemos.
— Eu sei.
Billy ficou alguns segundos em silêncio.
— Mesmo assim, existe uma coisa que eu queria dizer.
Harry esperou.
— Se ela for Sarah Cullen...
A voz de Billy falhou.
Ele recomeçou.
— Obrigado.
Harry compreendeu.
— Por tirá-la do rio.
— Por tudo.
Harry olhou para Sarah.
— Eu não sabia quem ela era.
— Isso não muda nada.
— Não.
Billy respirou fundo.
— Você salvou uma criança que talvez todos nós estivéssemos procurando enquanto acreditávamos que ela estava morta.
Harry ficou sério.
— E depois ela virou minha filha.
Billy assentiu imediatamente.
— E continuará sendo.
Harry observou seu rosto.
Billy continuou:
— Se o exame confirmar, ninguém veio buscar Sarah de você.
Sarah sentiu os olhos arderem.
Harry apertou a mão de Billy com mais força.
— Obrigado.
Billy respondeu:
— Eu é que tenho motivos para agradecer.
Sue começou a chorar.
Emmett também.
Edward olhou para ele.
— Você está chorando?
Emmett fungou.
— Ar-condicionado.
— Claro.
— Muito seco.
Sarah riu.
Até Harry sorriu.
Jacob permaneceu em silêncio.
Mas observou os dois homens.
Se Sarah fosse realmente aquela menina, havia uma verdade que todos precisariam aceitar desde o início:
Carlisle Cullen seria o pai que ela perdera.
Harry Clearwater era o pai que a criara.
Uma verdade não precisaria apagar a outra.
A coleta foi simples.
Quase banal.
Sarah achou aquilo absurdo.
Quinze anos de mistério reduzidos a alguns tubos e amostras identificadas.
Edward sentou primeiro.
Emmett depois.
Sarah.
Jacob por último, embora todos soubessem que a comparação decisiva seria entre Sarah e os dois irmãos Cullen.
Quando terminou, Emmett olhou para o material.
— É isso?
A profissional do laboratório sorriu.
— É.
— Esperava alguma coisa mais dramática.
Sarah respondeu:
— Quer que ela toque violino?
— Ajudaria.
Até Jacob riu.
O laboratório explicou o prazo.
Alguns dias para o resultado conclusivo.
Sarah sentiu o estômago apertar.
Dias.
Agora precisavam esperar.
Antes de saírem, Jacob reuniu os três homens discretamente.
— Nenhuma mensagem sobre isso.
Emmett franziu a testa.
— Como assim?
— Nada em celular corporativo, e-mail da empresa ou conversa dentro da Cullen & Black.
Edward entendeu imediatamente.
— Irina.
— Sim.
Emmett ficou sério.
Jacob continuou:
— Até o resultado, para ela não existe exame. Não existe suspeita. Não existe Sarah Cullen.
Billy assentiu.
— E depois do resultado?
Jacob olhou para Sarah, que conversava com Sue do outro lado da recepção.
— Depois, Sarah decide.
Na saída, Edward aproximou-se dela.
— Posso perguntar uma coisa?
— Pode.
— Se der negativo...
Sarah percebeu que ele não conseguia terminar.
— Continuaremos nos conhecendo.
Edward olhou para ela.
— Mesmo?
— Edward, eu trabalho na empresa.
Ele sorriu.
— Não foi isso que perguntei.
Sarah suavizou.
— Eu sei.
Tocou o braço dele.
— Mesmo.
Edward assentiu.
Emmett surgiu atrás.
— E eu?
Sarah suspirou.
— Infelizmente você também.
— Sabia.
Ele a abraçou de lado.
— Ela gosta mais de mim.
Edward revirou os olhos.
Por um segundo, Sarah sentiu algo estranho.
Não uma lembrança.
Uma familiaridade.
Dois homens discutindo ao redor dela.
Um fazendo piada.
Outro fingindo irritação.
Seu peito apertou.
Talvez fosse memória.
Talvez fosse apenas o presente.
Ainda não sabia.
Jacob estava mais afastado.
Sarah aproximou-se.
— Você está muito quieto.
— Estou tentando aprender com Edward.
— Não combina.
— Também percebi.
Ela sorriu.
Ficaram lado a lado.
— Está com medo? — Jacob perguntou.
Sarah demorou.
— Muito.
— Do resultado?
— Dos dois resultados possíveis.
Ele entendeu.
— Se der negativo, volto a não saber quem sou antes dos oito.
— Sim.
— Se der positivo...
Ela olhou para Edward, Emmett e Billy.
— Minha vida inteira muda.
Jacob respondeu:
— Sua vida não deixa de ser sua.
Sarah olhou para ele.
— Harry disse quase a mesma coisa.
— Homem inteligente.
— É.
Silêncio.
Depois Sarah perguntou:
— E você?
— O quê?
— Está com medo de qual resultado?
Jacob não respondeu imediatamente.
— Dos dois também.
Ela franziu a testa.
— Por que teria medo de dar positivo?
Jacob olhou para frente.
— Porque, se der...
A voz ficou baixa.
— Vou ter que aceitar que você estava viva enquanto eu passei quinze anos acreditando que tinha deixado você morrer.
Sarah sentiu a dor naquela frase.
— E se der negativo?
Ele finalmente olhou para ela.
— Vou ter que aceitar que Sarah realmente não voltou.
Sarah ficou quieta.
Não havia paixão naquele olhar.
Não havia sequer espaço para aquilo naquele momento.
Havia o menino de dez anos que ainda carregava o penhasco dentro de si.
Ela compreendeu.
— Então vamos esperar.
Jacob assentiu.
— Vamos.
Naquela noite, Sarah abriu os documentos que Harry conseguira localizar.
Cópias antigas.
Algumas digitalizadas.
Outras escaneadas de papéis amarelados.
Sue sentou ao lado.
Harry diante delas.
Sarah leu o relatório de entrada no hospital.
Paciente feminina. Aproximadamente oito anos.
Seu coração acelerou.
Resgatada de curso d'água.
Continuou.
Traumatismo craniano.
Hipotermia.
Escoriações.
Lesões compatíveis com queda e arrasto.
Ausência de identificação.
Objeto pessoal: corrente metálica com pingente.
Sarah parou.
— Está aqui.
Harry assentiu.
Ela continuou lendo.
Então encontrou a data.
O coração parou.
— Pai.
Harry olhou.
— O quê?
Sarah apontou.
— A data.
Ele se aproximou.
Era o mesmo dia.
O mesmo dia do ataque contra Carlisle Cullen.
Sarah pegou o celular.
As mãos tremiam.
Ligou para Jacob.
Ele atendeu no primeiro toque.
— Sarah?
— Eu encontrei o relatório.
Jacob levantou-se imediatamente do sofá.
— E?
— Harry me encontrou no mesmo dia.
Silêncio.
— Jacob?
Ele fechou os olhos.
— Tenho uma pergunta.
— Qual?
— Onde?
Sarah olhou para Harry.
— Qual era o nome do rio?
Harry respondeu.
Sarah repetiu para Jacob.
Do outro lado da linha, não houve resposta.
— Jacob?
Ele estava olhando para a parede.
— É o mesmo.
Sarah perdeu o ar.
— O quê?
— É o mesmo rio.
Sue levou a mão à boca.
Harry ficou imóvel.
Sarah segurou o telefone com mais força.
— Tem certeza?
— Tenho.
Jacob conhecia aquele nome.
Nunca o esqueceria.
— Mas Harry me encontrou longe.
— A corrente seguia nessa direção.
Sarah fechou os olhos.
Outra peça.
Depois outra.
Depois outra.
— O DNA ainda não saiu — ela disse.
Jacob respirou fundo.
— Eu sei.
— Então esperamos.
— Sim.
Nenhum dos dois desligou imediatamente.
Não havia mais nada que precisasse ser dito.
Do outro lado da cidade, Irina estava em seu apartamento quando recebeu uma ligação do investigador que contratara.
— Encontrou alguma coisa?
— Continuei levantando o passado de Sarah Clearwater.
Irina endireitou-se.
— E?
— Até agora, nada fora do comum. Formação escolar consistente, registros familiares regulares, universidade, carreira. Os Clearwater sempre foram discretos.
Irina ficou irritada.
— Então continue.
— Há algum período específico?
Ela pensou.
— Infância.
— Algum motivo?
— Não.
Irina olhou para a fotografia de Sarah aberta no computador.
— Quero saber quem é essa garota e por que ela apareceu naquela empresa.
O investigador assentiu do outro lado.
— Entendido.
Irina encerrou.
Não sabia da cicatriz.
Não sabia da amnésia.
Não sabia que Sarah fora encontrada em um rio.
Não sabia da pequena lua.
Não sabia das suspeitas de Billy.
E, principalmente, não fazia ideia de que algumas horas antes Sarah, Edward e Emmett haviam fornecido material para um exame capaz de destruir uma certeza que Irina carregava havia quinze anos.
Para Irina Volturi, Sarah Cullen continuava morta.
E Sarah Clearwater continuava sendo apenas uma advogada inconveniente.
Dois dias depois, às dez e dezessete da manhã, Edward recebeu um e-mail.
Estava em sua sala.
Abriu sem pensar.
Leu.
Parou.
Leu novamente.
A mão começou a tremer.
Levantou-se tão rápido que a cadeira bateu contra a parede.
Emmett estava no corredor quando Edward abriu a porta.
— O que aconteceu?
Edward não conseguiu falar.
Emmett olhou para a tela.
Depois para o irmão.
— Saiu?
Edward assentiu.
Emmett perdeu o sorriso.
— E?
Edward respirou fundo.
Os olhos encheram-se de lágrimas.
Mas não respondeu.
— Edward.
Ele fechou o notebook.
— Não.
Emmett ficou confuso.
— Não o quê?
— Ela precisa estar aqui.
— Edward...
— Sarah precisa ouvir primeiro.
Emmett ficou imóvel.
Depois assentiu.
Jacob apareceu no fim do corredor.
Viu os dois.
Parou.
Não precisou perguntar se o resultado havia chegado.
Soube.
— Saiu?
Edward segurava o notebook contra o peito.
— Saiu.
Jacob não perguntou o resultado.
Depois de quinze anos, não queria descobrir daquela maneira.
— Liga para ela.
Edward pegou o telefone.
Emmett segurou seu braço.
— Não.
— O quê?
— Só fala para ela vir.
Edward entendeu.
Ligou.
Sarah atendeu.
— Oi.
Edward tentou controlar a voz.
— Sarah.
Ela ficou imediatamente séria.
— Saiu?
Silêncio.
— Edward?
Ele fechou os olhos.
— Você pode vir até aqui?
Do outro lado, Sarah parou de respirar.
— Saiu o resultado?
— Sim.
— E você já viu?
Edward olhou para Emmett.
Depois para Jacob.
— Vi.
Sarah ficou em silêncio.
— Não me diga por telefone.
— Não vou.
— Estou indo.
Desligou.
Jacob encostou-se à parede.
Emmett começou a andar de um lado para o outro.
Edward segurava o computador.
Nenhum dos três falou sobre o que estava escrito naquela tela.
E, em outro andar do mesmo edifício, Irina continuava trabalhando sem saber que o exame existia.
Sem saber que havia uma suspeita.
Sem saber que os três homens que observara durante semanas estavam a poucos minutos de receber Sarah em uma sala fechada.
Porque aquela resposta ainda não pertencia à empresa.
Não pertencia a Irina.
Não pertencia sequer à família Cullen antes de pertencer a Sarah.
Pertencia primeiro à mulher que passara quinze anos acreditando que seu nome completo era Sarah Clearwater.
E que agora atravessava a cidade para descobrir se, antes daquele nome, existira outro.
Sarah Cullen.
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