MEMÓRIAS

26 CAPÍTULO 25 - Concentre-se, Sarah



Sarah Clearwater era uma profissional extremamente competente.

Essa era uma informação objetiva.

Comprovável.

Havia diploma.

Currículo.

Resultados.

Pareceres.

Contratos.

Audiências.

Clientes satisfeitos.

Uma carreira inteira construída antes que ela sequer soubesse que também se chamava Sarah Cullen.

Portanto, não existia absolutamente nenhuma razão para estar quase dez minutos encarando a mesma frase de uma petição sem compreender uma única palavra.

Sarah apoiou os cotovelos na mesa e aproximou o rosto do monitor.

Leu outra vez.

“Diante do exposto...”

Parou.

Piscou.

Voltou ao começo do parágrafo.

Tentou novamente.

Nada.

— Concentra — murmurou.

Digitou duas palavras.

Apagou.

Digitou novamente.

Apagou outra vez.

Sarah soltou o ar e recostou-se na cadeira.

Aquilo era ridículo.

Tinha uma manifestação importante para terminar antes do almoço.

Um contrato para revisar.

Duas reuniões à tarde.

E, naquele momento, possuía aproximadamente a capacidade de concentração de uma adolescente.

Culpa de Jacob.

Definitivamente culpa de Jacob.

Sarah olhou para a tela.

— Eu odeio você.

Não odiava.

Esse era precisamente o problema.

Tentou voltar à petição.

Funcionou durante aproximadamente quarenta segundos.

Até escrever a palavra mãos.

Sarah parou.

Olhou para a palavra.

Mãos.

E alguma coisa mudou dentro dela.

Durante muito tempo, aquela palavra tivera um significado específico.

Uma mão pequena.

Infantil.

Dedos tentando desesperadamente permanecer presos a outros dedos.

Pedra molhada.

Água lá embaixo.

Medo.

A sensação de escorregar.

A voz de um menino prometendo que não a deixaria cair.

A mão escapando.

Sarah ficou imóvel.

Mas a lembrança não trouxe o aperto habitual.

Pela primeira vez, quando pensou nas mãos de Jacob, sua mente não foi para o penhasco.

Foi para a noite anterior.

E Sarah sorriu.

Devagar.

— Ah, não.

Fechou os olhos.

Péssima decisão.

Porque as imagens ficaram ainda mais nítidas.

As mãos de Jacob já não eram as mãos infantis que tentavam segurá-la enquanto ela caía.

Eram mãos adultas.

Quentes.

Seguras.

As mãos que tinham tocado seu rosto antes de cada beijo como se ele quisesse decorar seus traços.

As que haviam segurado sua cintura.

Percorrido lentamente suas costas.

Entrelaçado seus dedos aos dela.

As mãos que tinham descoberto cada reação antes mesmo de Sarah conseguir escondê-la.

E depois...

Sarah abriu os olhos.

— Petição.

Olhou para o computador.

Diante do exposto...

Tentou digitar.

Não conseguiu.

Porque agora lembrava da sensação das mãos de Jacob em seu corpo sendo substituídas por beijos.

Da diferença entre o calor da palma dele e o toque mais suave dos lábios.

Da maneira como ele aprendera depressa quais carinhos a faziam prender a respiração.

Do som da voz dele dizendo seu nome.

Sarah.

Ela sentiu um calor subir pelo pescoço.

— Meu Deus.

Olhou para o ar-condicionado.

Estava ligado.

Vinte e um graus.

Então por que parecia que alguém tinha elevado a temperatura da sala para quarenta?

Sarah puxou discretamente a gola da blusa.

Abanou o rosto com a mão.

— Concentra.

Respirou.

— Você tem vinte e três anos.

Mais uma abanada.

— É uma advogada respeitável.

Outra.

— Tem uma petição para terminar.

Fechou os olhos.

Jacob.

Sem camisa.

— Droga.

Abriu imediatamente uma gaveta.

Pegou uma pasta da mesa e começou a se abanar com ela.

Foi exatamente nesse momento que Emmett entrou.

Sem bater.

Claro.

— Sarah, você viu o...

Parou.

Sarah congelou com a pasta no ar.

Emmett olhou para ela.

Sarah olhou para Emmett.

Ele olhou para o ar-condicionado.

Depois para a pasta sendo usada como leque.

Depois novamente para Sarah.

— Você está bem?

— Perfeitamente.

— Está vermelha.

— Está calor.

Emmett olhou para o painel do ar-condicionado.

— Está vinte e um graus.

— Para mim está calor.

— Você está com febre?

— Não.

Emmett aproximou-se e tentou tocar sua testa.

Sarah recuou na cadeira.

— O que está fazendo?

— Vou ver sua testa.

— NÃO.

Ele parou.

Devagar.

Muito devagar.

Um sorriso começou a aparecer.

Sarah percebeu.

— Não.

— Eu não falei nada.

— Mas pensou.

Emmett abriu ainda mais o sorriso.

— Engraçado. Jacob falou exatamente isso de você outro dia.

Sarah fechou os olhos.

Péssimo.

Muito péssimo.

— O que você quer, Emmett?

— Eu vim perguntar se você viu a minuta do contrato da Ferrara.

— Está com Edward.

— Certo.

Ele não saiu.

Sarah apontou para a porta.

— Pode ir.

— Posso.

Continuou parado.

— Emmett.

— Sarah.

Ela estreitou os olhos.

— Sai.

— Por que você está vermelha?

— Já respondi.

— Calor.

— Exatamente.

— Em vinte e um graus.

— Cada organismo possui uma percepção térmica diferente.

Emmett assentiu solenemente.

— Evidentemente.

Sarah abriu a petição.

— Tchau.

— Em que você estava pensando?

Ela levantou a cabeça.

— Como é?

— Quando eu entrei.

— Na petição.

— Não.

— Como você sabe?

— Porque eu conheço a cara de alguém pensando numa petição.

— Existe uma cara específica?

— Na nossa família, infelizmente, sim. Edward tem. Jacob tem. Agora você tem. Aquela não era.

Sarah cruzou os braços.

— E que cara era?

Emmett abriu a boca.

Sarah apontou uma caneta para ele.

— Pense cuidadosamente antes de responder.

Emmett fechou a boca.

Pensou.

— Uma cara... pessoal.

— Excelente escolha.

— Obrigado.

Ele ainda sorria.

Sarah voltou ao computador.

— Vai embora.

Emmett deu dois passos para trás.

Parou.

— Sarah?

Ela não levantou os olhos.

— O quê?

— Foi uma boa noite?

Sarah apertou os olhos.

— EMMETT.

Ele começou a rir.

— Estou indo!

— Agora!

— Só estou sendo um irmão preocupado!

— Eu tenho vinte e três anos!

— Exatamente! Idade perigosa!

Sarah pegou uma almofada pequena da poltrona lateral e atirou.

Emmett desviou.

— Violência no ambiente de trabalho!

— SOME!

Ele abriu a porta rindo.

E quase bateu em Jacob.

Sarah parou de respirar.

Não.

Não.

Não.

Jacob estava acompanhado de Edward.

Os dois traziam pastas.

Claramente tinham vindo trabalhar.

Claramente não faziam ideia do que estava acontecendo.

Emmett olhou para Jacob.

Depois para Sarah.

Depois para Jacob outra vez.

O sorriso aumentou.

— Perfeito.

Jacob franziu a testa.

— O que você fez?

— Eu?

Emmett colocou a mão no peito.

— Por que automaticamente eu?

Edward respondeu:

— Experiência.

— Injusto.

Jacob olhou para Sarah.

Ela ainda estava vermelha.

A pasta usada como leque estava sobre a mesa.

A almofada, no chão.

— O que aconteceu?

— Nada — Sarah respondeu rápido demais.

Emmett disse ao mesmo tempo:

— Sarah está com calor.

Sarah fechou os olhos.

Jacob olhou para o painel.

Vinte e um graus.

Depois para ela.

E Sarah viu.

O exato instante em que ele entendeu que havia alguma coisa estranha.

Não o quê.

Ainda.

Mas alguma coisa.

— Calor? — perguntou.

— Sim.

Emmett mordeu o lábio.

Sarah apontou para ele.

— Não.

— Eu não fiz nada!

Edward entrou na sala, recolheu a almofada do chão e colocou-a na poltrona.

— Por que você estava jogando objetos em Emmett?

— Porque ele merece.

Edward assentiu.

— Justificativa aceita.

— Obrigado pelo apoio — Emmett reclamou.

Jacob ainda olhava para Sarah.

Isso não ajudava.

Na verdade, piorava consideravelmente.

Porque agora ela lembrava daquele mesmo olhar na noite anterior.

Mais próximo.

Muito mais próximo.

Sarah sentiu o calor aumentar.

Droga.

Jacob inclinou a cabeça.

— Você está realmente vermelha.

Emmett virou o rosto para esconder uma risada.

Sarah levantou.

— Podemos falar do contrato?

— Podemos — Edward respondeu.

— Excelente.

Ela contornou a mesa.

Jacob acompanhou o movimento.

E Sarah percebeu outra consequência extremamente inconveniente da noite anterior.

Agora conhecia aquele olhar.

Antes poderia simplesmente achar que Jacob estava observando.

Agora sabia.

Sabia exatamente quando os olhos dele demoravam um segundo além do necessário.

Sabia quando ele tentava disfarçar.

Sabia o que aquela pequena contração no canto da boca significava.

E, pior:

Jacob também conhecia as reações dela.

Aquilo seria um desastre profissional.

Edward abriu a pasta sobre a mesa de reuniões.

— Cláusula décima segunda.

Sarah sentou.

Jacob escolheu a cadeira ao lado dela.

Claro.

Havia seis cadeiras.

Ele precisava escolher aquela.

Sarah olhou.

— O quê? — Jacob perguntou.

— Nada.

Emmett sentou do outro lado.

— Eu adoro quando ela fala “nada”.

Sarah chutou discretamente a perna dele por baixo da mesa.

— Ai!

Edward nem levantou os olhos.

— Mereceu?

— Provavelmente — Jacob respondeu.

— Essa família é tóxica.

— Você pode sair — Sarah sugeriu.

— Não perderia isso por nada.

Jacob olhou entre os dois.

— Perder o quê?

— O contrato — Sarah respondeu.

Emmett respondeu simultaneamente:

— Nada.

Jacob estreitou os olhos.

Sarah abriu a pasta.

— Edward.

— Finalmente.

Ele começou:

— A cláusula permite rescisão unilateral em caso de alteração substancial do controle societário, mas a definição de alteração de controle no anexo é ampla demais.

Sarah assentiu.

Profissional.

Era isso.

Contrato.

Cláusulas.

Direito empresarial.

Área de domínio.

Finalmente seu cérebro voltaria ao normal.

— Concordo. Se mantivermos essa redação, qualquer reorganização interna entre os atuais acionistas poderia ser interpretada como mudança de controle...

Jacob moveu a mão sobre a mesa.

Só isso.

Moveu a mão.

Sarah viu.

Parou no meio da frase.

Silêncio.

Edward levantou os olhos.

— Poderia ser interpretada como...?

Sarah encarou a mão de Jacob.

Longos dedos sobre a madeira.

A mesma mão...

Não.

— Como alteração de controle — completou.

Emmett lentamente olhou para a mão de Jacob.

Depois para Sarah.

Sarah viu.

— Emmett.

— Eu não falei nada.

— Para.

— Estou parado.

Jacob olhou para a própria mão.

Depois para Sarah.

A compreensão começou.

Não completa.

Mas suficiente.

O canto da boca dele subiu.

Sarah viu.

— Nem pense.

Edward olhou de Sarah para Jacob.

— Alguém pode explicar o que está acontecendo?

— Não — Sarah respondeu.

— Não — Jacob respondeu junto.

Emmett colocou a mão sobre a boca.

Edward suspirou.

— Certo.

Voltou ao contrato.

— Então precisamos restringir a definição.

Sarah assentiu.

— Exatamente. Podemos estabelecer que a alteração somente se caracteriza quando houver transferência capaz de modificar o bloco efetivo de controle ou...

Jacob encostou discretamente a mão na perna dela sob a mesa.

Sarah perdeu a frase.

Completamente.

Virou o rosto.

Jacob estava olhando para o contrato.

Perfeitamente sério.

Como se não tivesse feito nada.

Sarah baixou a voz:

— Tira.

— O quê?

O miserável nem olhou.

— A mão.

Emmett ouviu.

Sarah percebeu tarde demais.

Os olhos dele se arregalaram.

Edward levantou a cabeça.

Jacob finalmente olhou para ela.

Inocência absoluta.

— Minha mão?

Sarah queria matá-lo.

— Jacob.

O sorriso apareceu.

Pequeno.

Quase imperceptível.

Agora ele sabia.

Sabia exatamente.

E estava se divertindo.

— Está atrapalhando? — perguntou.

Sarah olhou para ele.

— Muito.

Jacob retirou.

Devagar.

Sarah sentiu vontade de jogar outra almofada.

Emmett estava prestes a explodir.

— Não — Sarah avisou.

— Eu não disse nada.

— Mas vai.

— Não vou.

— Sua cara está falando.

Edward fechou a pasta.

— Eu perdi alguma reunião importante?

Emmett não aguentou.

— Não foi uma reunião.

— EMMETT!

Jacob começou a rir.

Edward olhou para os três.

Primeiro Sarah.

Depois Emmett.

Finalmente Jacob.

E alguma coisa pareceu encaixar.

— Ah.

Sarah colocou as mãos sobre o rosto.

— Não.

Emmett apontou.

— EXATAMENTE! Foi a mesma reação que você teve quando pegou eles se beijando!

Jacob parou de rir.

— Emmett.

— O quê?

— Cala a boca.

Edward recostou-se.

— Eu não quero saber.

— Ótimo — Sarah disse imediatamente.

— Absolutamente nada.

— Melhor ainda.

— Nenhum detalhe.

Sarah apontou.

— Você continua falando sobre isso.

Edward fechou a boca.

Emmett não tinha a mesma prudência.

— Eu só queria registrar que Jacob chegou atrasado pela primeira vez em aproximadamente vinte anos.

— Vinte e cinco — Edward corrigiu.

— Obrigado. Pior ainda.

Jacob passou a mão pelo rosto.

— Nós podemos voltar ao contrato?

Sarah respondeu imediatamente:

— Podemos.

Emmett olhou para os dois.

— Profissionais.

— Sim — Sarah disse.

— Extremamente.

— Sim.

— Concentrados.

Sarah estreitou os olhos.

— Emmett.

Ele levantou as mãos.

— Parei.

A reunião prosseguiu.

Ou tentou.

Sarah recuperou o controle.

Em quinze minutos, já estava novamente discutindo redação contratual, apontando riscos, sugerindo alterações e desmontando uma interpretação de Edward com precisão suficiente para fazê-lo pegar uma caneta e admitir:

— Certo. Você tem razão.

— Eu sei.

Jacob sorriu.

Sarah olhou.

— O quê?

— Nada.

— Não começa.

— Eu só gosto de ver você trabalhando.

A frase foi simples.

Mas Sarah sentiu alguma coisa quente novamente.

Não igual às lembranças anteriores.

Outra coisa.

Carinho.

Orgulho.

Ela desviou os olhos para o contrato.

— Concentre-se, presidente.

— Sim, doutora.

Emmett gemeu.

— Agora eles têm apelidos profissionais.

Edward continuou escrevendo.

— Ignore.

— Como?

— Treinei a vida inteira.

Sarah começou a rir.

Quando a reunião terminou, Edward recolheu os documentos.

— Envio a nova versão até as três.

— Me manda antes de encaminhar para a outra parte — Sarah disse.

— Mando.

Emmett levantou.

Olhou para Sarah.

Sorriu.

Ela apontou para a porta.

— Nem uma palavra.

— Eu ia desejar bom trabalho.

— Mentira.

— Você pensa muito mal de mim.

Edward segurou Emmett pelo braço.

— Vamos.

— Estou indo.

Na porta, Emmett virou.

— Sarah?

Ela fechou os olhos.

— O quê?

— Se ficar com calor de novo, posso pedir para manutenção baixar para dezenove.

Sarah pegou a caneta.

Emmett saiu correndo.

— IDIOTA!

A risada dele ecoou no corredor.

Edward saiu atrás.

A porta ficou aberta.

Sarah respirou.

Finalmente.

Silêncio.

Então percebeu.

Jacob não tinha saído.

Ele estava encostado na mesa de reuniões.

Braços cruzados.

Olhando para ela.

Sarah sentiu o rosto esquentar outra vez.

— Nem começa.

— Eu não falei nada.

— Você está com a mesma cara dele.

— Isso foi ofensivo.

Sarah começou a organizar os papéis.

— Tenho trabalho.

Jacob aproximou-se.

— Sarah.

— Petição.

— Sarah.

— Prazo.

— Olha para mim.

Ela parou.

Levantou os olhos.

Erro.

Jacob estava sorrindo.

— O que você estava pensando antes de Emmett entrar?

Sarah ficou absolutamente imóvel.

— Na petição.

— Mentira.

— Você não tem como saber.

— Tenho.

— Como?

Jacob parou diante da mesa.

— Porque você ficou vermelha quando olhou para minha mão.

Sarah abriu a boca.

Fechou.

Jacob sorriu mais.

— Não aconteceu.

— Aconteceu.

— Não.

— Aconteceu duas vezes.

— Jacob.

Ele apoiou as mãos na mesa.

Sarah olhou.

Para as mãos.

Outra vez.

Jacob percebeu.

Abaixou a cabeça e começou a rir.

— Para de rir!

— Desculpa.

— Não está desculpado.

— Você estava pensando nas minhas mãos?

Sarah levantou.

— Eu tenho uma petição.

Tentou passar.

Jacob segurou suavemente sua mão.

Sarah parou.

Olhou para os dedos dele envolvendo os seus.

Depois para o rosto dele.

O humor desapareceu um pouco.

Porque, subitamente, a lembrança voltou.

Não apenas da noite.

De antes.

Da outra mão.

Da mão infantil.

Do penhasco.

Jacob percebeu a mudança.

— O que foi?

Sarah olhou novamente para as mãos unidas.

E sorriu.

— Nada ruim.

Ele esperou.

Sarah virou a mão dentro da dele e entrelaçou os dedos.

— Eu estava pensando nisso.

— Nisso?

— Nas suas mãos.

Jacob ficou quieto.

Sarah continuou:

— Durante muito tempo, quando eu pensava em nossas mãos, mesmo sem entender a lembrança, era sempre aquela sensação.

O sorriso dele desapareceu.

— A queda.

— Sim.

Ela apertou seus dedos.

— Minha mão escapando da sua.

Jacob respirou fundo.

Sarah levantou as mãos unidas entre os dois.

— Hoje foi diferente.

Ele olhou.

— Diferente como?

Sarah sorriu.

E agora havia malícia novamente.

— Muito diferente.

Jacob entendeu.

O olhar mudou.

— Ah.

— Exatamente.

— Então era isso.

Sarah sentiu o calor subir outra vez.

— Não se anime.

— Tarde demais.

— Jacob.

Ele se aproximou.

— Você estava no meio de uma petição pensando nas minhas mãos?

— Essa conversa acabou.

— Acho que está só começando.

Sarah tentou retirar a mão.

Jacob não deixou.

Sem força.

Apenas entrelaçou melhor os dedos.

— Eu gostei.

Sarah olhou para ele.

A provocação diminuiu.

— Do quê?

— De saber que agora você lembra delas assim.

Aquilo a atingiu.

Porque Jacob tinha entendido a parte importante.

Sarah baixou os olhos para as mãos.

— Eu também.

Ele acariciou lentamente o dorso da mão dela com o polegar.

Um gesto simples.

Sarah sentiu.

Claro que sentiu.

E ele viu.

— Isso também?

Ela levantou os olhos.

— Você está se tornando insuportável.

— Responde.

— Talvez.

Jacob aproximou-se mais.

— Talvez?

Sarah segurou a gravata dele com a mão livre.

— Você deveria voltar para sua sala.

— Provavelmente.

— Eu preciso trabalhar.

— Definitivamente.

Nenhum se moveu.

Sarah olhou para a boca dele.

Jacob percebeu.

— Sarah.

— Não fala.

Ela o beijou.

Rápido.

Ou essa era a intenção.

Jacob segurou sua cintura e o beijo durou alguns segundos a mais.

Sarah sentiu novamente o calor que passara a manhã tentando combater.

Afastou-se primeiro.

— Chega.

Jacob sorriu.

— Eu não fiz nada.

— Essa frase perdeu completamente a credibilidade.

Ele beijou sua testa.

Sarah empurrou seu peito.

— Vai trabalhar.

— Ordem?

— Sim.

— Fora do expediente você manda. Na empresa eu sou seu presidente.

Sarah ergueu uma sobrancelha.

— Quer testar essa teoria?

Jacob pensou.

— Não.

— Imaginei.

Ele caminhou até a porta.

Sarah voltou à cadeira.

— Jacob.

Ele virou.

Ela olhou para as mãos dele.

Depois para seu rosto.

Sorriu.

— Leva elas com você.

Jacob começou a rir.

— Minhas mãos?

— Principalmente elas.

— Estão atrapalhando sua concentração?

Sarah abriu a petição.

— Muito.

— Interessante.

— Sai.

— Sim, esposa.

Sarah pegou a almofada.

Jacob fechou a porta antes que ela pudesse jogar.

Sozinha outra vez, Sarah olhou para o computador.

A petição continuava aberta.

O cursor piscava depois da mesma frase.

Diante do exposto...

Ela respirou fundo.

Colocou as mãos sobre o teclado.

— Agora você trabalha.

Digitou uma linha inteira.

Depois outra.

Sorriu, satisfeita.

Finalmente.

Concentração.

Até o celular vibrar.

Uma mensagem.

Jacob:

Conseguiu voltar para a petição?

Sarah fechou os olhos.

Não responderia.

Outra mensagem.

Jacob:

Ou minhas mãos ainda estão atrapalhando?

Sarah sentiu o rosto pegar fogo.

— Filho da...

Começou a digitar.

Sarah:

Eu te odeio.

A resposta veio imediatamente.

Jacob:

Mentira.

Sarah mordeu o sorriso.

Sarah:

Estou trabalhando.

Jacob:

Eu também.

Ela esperou.

Nada.

Ótimo.

Voltou ao texto.

O telefone vibrou novamente.

Sarah olhou.

Jacob:

Mas agora estou pensando em você pensando nas minhas mãos.

Sarah largou a cabeça sobre a mesa.

— Eu vou matar esse homem.

Ouviu uma batida na porta.

— Entra.

Edward colocou apenas a cabeça para dentro.

— Tudo bem?

Sarah levantou lentamente.

— Perfeitamente.

Edward olhou para ela.

Depois para o telefone.

Depois para o rosto vermelho.

— Certo.

Começou a fechar a porta.

Parou.

— Sarah?

— O quê?

— Talvez dezenove graus.

Fechou a porta.

Sarah ficou imóvel.

Então ouviu a risada de Emmett no corredor.

— EDWARD!

As risadas dos dois se afastaram.

Sarah cobriu o rosto.

A vida tinha se tornado completamente absurda.

Mas, alguns segundos depois, ela afastou as mãos.

E sorriu.

Mãos.

Durante anos, a palavra vivera em algum lugar quebrado de sua memória.

Dedos escorregando.

Uma promessa interrompida.

Uma queda.

Agora não.

Agora havia outras lembranças.

Dedos entrelaçados.

Uma mão segurando a sua enquanto caminhavam.

Carícias que a faziam fechar os olhos.

O calor de Jacob.

Beijos.

A sensação de acordar e encontrá-lo ao lado.

Sarah olhou para as próprias mãos sobre o teclado.

Sorriu outra vez.

O passado não tinha desaparecido.

A mão da menina ainda escapara naquele penhasco.

Aquilo sempre faria parte dela.

Mas a história das mãos deles não terminava mais ali.

Agora Sarah tinha novas imagens para escolher.

E algumas delas, pensou sentindo o rosto esquentar outra vez, eram definitivamente impróprias para o horário comercial.

Sarah abriu a petição.

— Concentre-se, doutora Cullen.

Parou.

Sorriu.

Corrigiu para si mesma:

— Doutora Cullen Clearwater.

E voltou a escrever.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.