MEMÓRIAS

18 CAPÍTULO 17 - Pela primeira vez, o presente


Jacob chegou à Cullen & Black antes das sete da manhã.

Como sempre.

Durante anos, aquela fora a melhor parte de seu dia.

O prédio quase vazio, os corredores silenciosos, os telefones ainda mudos e nenhuma pessoa esperando uma decisão sua. Durante aproximadamente uma hora, Jacob conseguia ser apenas um homem sentado diante de uma mesa, e não o presidente de uma empresa que carregava dois sobrenomes, duas famílias e uma história que começara muito antes dele.

Naquela manhã, porém, o silêncio parecia diferente.

Jacob entrou em sua sala, deixou o paletó sobre o encosto da cadeira e caminhou até a janela.

A cidade começava a despertar.

Ele deveria pensar nos relatórios que precisava revisar.

Na reunião das nove.

No contrato de fornecimento.

No conselho.

Em Irina.

No resultado do DNA que, mais cedo ou mais tarde, exigiria decisões familiares, jurídicas e societárias.

Em vez disso, pensou numa arruela.

Jacob fechou os olhos.

— Droga.

A imagem voltou inteira.

Sarah, aos quatro anos, com uma toalha branca sobre a cabeça.

Flores arrancadas do jardim de Billy.

Emmett, aos seis, celebrando solenemente uma cerimônia que não fazia o menor sentido enquanto segurava um livro de cabeça para baixo.

Edward, com quatro anos, escolhido como testemunha e aparentemente arrependido de todas as decisões que o haviam levado até ali.

E ele.

Seis anos.

Parado diante de Sarah porque ela decidira que os dois iriam se casar.

Jacob sorriu.

Não conseguiu evitar.

Na noite anterior, sentado na sala do pai, lembrara de coisas que havia passado anos tentando não lembrar.

Esse era o estranho.

As memórias de Sarah sempre tinham doído.

Durante quinze anos, pensar nela significara chegar inevitavelmente ao mesmo lugar.

O penhasco.

A mão.

Os dedos escorregando.

Você prometeu.

Depois, água.

E o grito.

Desculpa!

Não importava onde a lembrança começasse.

Podia ser Sarah roubando comida de seu prato.

Sarah correndo atrás dele pelo jardim.

Sarah dormindo encostada em seu ombro.

Sarah exigindo que ele lesse a mesma história outra vez.

No fim, todas as memórias chegavam ao penhasco.

Até a noite anterior.

Pela primeira vez, Jacob passara horas falando sobre Sarah sem terminar naquela queda.

Tinham rido.

Billy rira.

Edward rira.

Emmett quase morrera de tanto rir.

E Sarah...

Jacob abriu os olhos.

Sarah rira.

Muito.

Aquela risada ficara com ele.


Ele se sentou diante da mesa.

Ligou o computador.

Abriu o primeiro relatório.

Leu três linhas.

Não absorveu nenhuma.

Porque se lembrou de Sarah olhando a fotografia do casamento.

O rosto ficando vermelho.

A indignação.

Eu ia casar com quem?

Jacob passou a mão pela boca para esconder um sorriso de uma sala vazia.

— Comigo, aparentemente.

A resposta em voz alta o fez parar.

Ficou olhando para o computador.

Era ridículo.

Uma brincadeira de crianças.

Sarah tinha quatro anos.

Ele tinha seis.

Não significava nada.

Nunca significara.

Naquela idade, Sarah também decidira que teria cinco filhos, três cavalos e uma casa perto de Billy.

Provavelmente, na semana seguinte, decidira alguma coisa completamente diferente.

Jacob tentou voltar ao relatório.

Então lembrou:

Você lembra?

Claro que lembrava.

Três cavalos.

Um para ela.

Um para ele.

Um para os filhos.

Como esquecer?

Sarah tinha planejado a vida dos dois sem conceder a Jacob qualquer direito de voto.

E ele...

Jacob franziu a testa.

Ele tinha deixado.

Esse talvez fosse o detalhe mais constrangedor.

Sarah mandava.

Jacob fazia.

Sarah queria subir numa árvore.

Ele dizia não.

Sarah fazia cara triste.

Ele encontrava uma árvore menor.

Sarah queria a sobremesa dele.

Ele entregava.

Sarah queria que ele lesse.

Ele lia.

Sarah queria brincar de casamento.

Ele arrumara uma arruela.

Jacob começou a rir sozinho.

— Patético.

Mas havia alguma coisa boa naquelas lembranças agora.

Porque Sarah estava viva.

Isso mudava tudo.

As memórias não eram mais restos de uma pessoa morta.

Eram histórias que ele podia contar a ela.

Podia vê-la rir delas.

Podia ouvir Sarah reclamar de coisas que fizera aos quatro anos como se tivesse direito a contestá-las dezenove anos depois.

Pela primeira vez, o passado não parecia um túmulo.

Parecia apenas passado.


Jacob olhou para o relógio.

Sete e trinta e oito.

Tentou trabalhar novamente.

Dois minutos.

Talvez três.

Ouviu passos no corredor.

Não prestou atenção.

Então uma voz veio da porta:

— Bom dia, marido.

Jacob parou.

Por um instante, teve certeza de que ouvira errado.

Levantou os olhos.

Sarah estava ali.

Encostada no batente da porta, segurando uma pasta contra o peito.

Sorrindo.

Jacob sentiu alguma coisa estranha.

Não forte.

Não dramática.

Nada parecido com os choques de reconhecimento que sentira nas primeiras vezes em que olhara para ela.

Era diferente.

Pequeno.

Quase inconveniente.

Porque Sarah não era uma lembrança naquele momento.

Não era a menina do penhasco.

Não era a criança da fotografia.

Era uma mulher de vinte e três anos parada na porta de sua sala, divertindo-se descaradamente às custas dele.

E muito bonita.

O pensamento apareceu antes que Jacob pudesse impedir.

Ele imediatamente o afastou.

— Não.

Sarah entrou.

— Não o quê?

— Não começa.

— Eu apenas dei bom dia.

— Você acrescentou uma palavra.

— Um termo historicamente comprovado.

Jacob fechou os olhos.

— Eu vou matar Emmett.

Sarah se aproximou.

— Não pode.

— Posso.

— Ele celebrou nosso casamento.

Jacob olhou para ela.

— Ele tinha seis anos.

— Detalhe técnico.

— Segurava um livro de cabeça para baixo.

— Inexperiência profissional.

Jacob sentiu o sorriso chegando.

Tentou impedir.

Sarah percebeu.

Os olhos dela se estreitaram.

— Ah.

— O quê?

— Nada.

— Sarah.

Ela se aproximou um pouco mais da mesa.

— Você está sorrindo.

Jacob imediatamente tentou parar.

A expressão dela mudou.

— Ei!

— O quê?

— Volta.

Ele quase riu.

— O quê?

— O sorriso.

Jacob ficou olhando para ela.

Por que aquilo o afetara?

Não a frase.

O jeito como Sarah dissera.

Como se gostasse de vê-lo sorrir.

Ele não deveria pensar nisso.

Então não pensou.

Ou tentou.

— Você chegou aqui me chamando de marido antes das oito da manhã.

Sarah consultou o relógio.

— Sete e quarenta e três.

— Isso não ajuda.

— E estava funcionando.

Jacob perdeu a batalha.

Sorriu.

Sarah ficou quieta.

Foi apenas um segundo.

Talvez dois.

Mas Jacob percebeu.

O sorriso dela diminuiu.

Os olhos permaneceram nele.

E alguma coisa mudou no ar.

Muito pouco.

Tão pouco que ele poderia ter fingido que não existira.

Então Sarah desviou os olhos.

Abriu a pasta.

— Trouxe o parecer do contrato de fornecimento.

Jacob quase sorriu novamente.

Mudança de assunto.

Rápida demais.

— Muito sutil.

Ela levantou os olhos.

— O quê?

— Nada.

Agora foi a vez dela de estreitar os olhos.

Jacob recostou-se na cadeira.

— O parecer.

Sarah entregou a pasta.

— Leia.

Ele pegou.

— Vou.

Ela começou a caminhar para a porta.

Jacob abriu o documento.

Ouviu:

— Até depois, marido.

Ele levantou os olhos.

— Sarah.

Ela virou-se.

— Sim?

Jacob pegou uma caneta.

Ela olhou para a caneta.

Depois para ele.

— Violência doméstica depois de dezenove anos de casamento? Complicado.

Jacob soltou uma gargalhada.

Sarah saiu antes que ele pudesse responder.

A porta fechou.

O silêncio voltou.

Jacob ficou olhando para ela.

Para a porta.

E percebeu que estava sorrindo.

Ainda.

Lentamente, o sorriso desapareceu.

Não por tristeza.

Por percepção.

Aquilo era novo.


Jacob conhecera mulheres.

Saíra com algumas.

Tivera encontros.

Relações breves.

Nunca mentira sobre isso.

Mas sempre existira uma distância.

Uma parte dele permanecia inacessível.

Durante muito tempo, atribuíra aquilo ao trabalho, à responsabilidade precoce, à empresa, à morte da mãe, à morte de Carlisle, ao modo como sua família fora construída em torno de perdas.

Talvez tudo isso fosse verdade.

Mas havia outra verdade.

Uma parte enorme de Jacob continuara presa naquele penhasco.

E agora não estava mais.

Sarah estava viva.

A culpa começava, muito lentamente, a soltar as mãos que mantivera em torno dele durante quinze anos.

E talvez fosse exatamente por isso que Jacob conseguia notar coisas que antes não tinha espaço para notar.

O jeito como Sarah sorria quando estava prestes a provocá-lo.

A maneira como erguia uma sobrancelha durante uma discussão.

A inteligência rápida.

A segurança.

A voz.

Os olhos.

Jacob parou.

— Não.

A palavra saiu em voz baixa.

Aquilo precisava de cuidado.

Sarah acabara de descobrir quem era.

Ele acabara de recuperar uma pessoa que julgara morta.

Havia uma história infantil entre eles tão grande que poderia distorcer qualquer coisa nova antes mesmo de começar.

Jacob não confundiria as duas.

Não transformaria culpa em afeto.

Nem memória em sentimento.

E, principalmente, não colocaria sobre Sarah o peso de uma menina de quatro anos que dizia que se casaria com ele.

Se alguma coisa diferente estivesse realmente surgindo...

Precisaria pertencer aos adultos.

A Sarah de vinte e três.

Ao Jacob de vinte e cinco.

Não às crianças da fotografia.

Ele respirou fundo.

Abriu o parecer.

Dessa vez conseguiu ler.

Quase dez minutos inteiros.


Mais tarde, Jacob saiu da sala para buscar Edward antes da reunião.

Foi quando ouviu vozes.

Sarah.

E Irina.

Parou.

Não porque pretendesse escutar.

Porque o tom de Irina fez seu corpo ficar imediatamente alerta.

— ...comportar como se tivesse algum lugar nela.

Jacob sentiu o estômago apertar.

Virou o corredor.

Ainda estava longe o suficiente para que nenhuma das duas percebesse sua presença.

Sarah estava de costas para ele.

Irina diante dela.

Jacob conhecia aquela postura.

O queixo erguido.

O sorriso controlado.

A falsa educação.

Irina estava provocando.

Ele começou a caminhar.

Então ouviu Sarah:

— Meu nome é Sarah Cullen.

Jacob parou.

Não.

Irina ficou imóvel.

— Perdão?

Sarah não recuou.

— Sarah Cullen. Filha de Carlisle Cullen e Esme Cullen.

Jacob fechou os olhos por um instante.

Droga.

Não estava irritado com Sarah.

Não exatamente.

Estava preocupado.

Tinham combinado silêncio.

Billy fora claro.

Edward também.

Até entenderem o que acontecera quinze anos antes, Irina não deveria saber.

Agora sabia.

Jacob voltou a olhar.

O rosto de Irina tinha mudado.

Aquilo chamou sua atenção imediatamente.

Choque era esperado.

Surpresa também.

Mas havia algo além.

Algo rápido.

Um medo que ela conseguiu esconder quase no mesmo instante.

Jacob sentiu todos os instintos de proteção despertarem.

Não os do menino.

Os do homem que passara quinze anos aprendendo a reconhecer riscos.

Ouviu Sarah mencionar o DNA.

Viu Irina empalidecer ainda mais.

Então ouviu:

— Isso não pode ser verdade.

Jacob franziu a testa.

Por que não?

Porque todos acreditavam que Sarah estivesse morta?

Talvez.

Mas a reação parecia forte demais.

Irina perguntou quem sabia.

Billy.

Jacob.

Edward.

Emmett.

Perguntas rápidas.

Demais.

Então Sarah disse:

— Você é minha tia.

Jacob observou Irina.

Nenhuma emoção familiar.

Nenhum alívio.

Nenhuma lágrima.

Nenhuma pergunta sobre onde Sarah estivera.

A primeira preocupação dela fora quem sabia.

Jacob não gostou.

Nada daquilo lhe agradou.


Quando Irina entrou no elevador, Sarah permaneceu no corredor.

Jacob aproximou-se.

Ela percebeu.

Virou.

E a expressão foi quase cômica.

Culpa imediata.

— Há quanto tempo você está aí?

— O suficiente.

Sarah fechou os olhos.

— Ótimo.

— Você contou para Irina.

— Tecnicamente, ela me irritou até eu contar.

Mesmo preocupado, Jacob quase sorriu.

Claro.

Era exatamente o tipo de explicação que Sarah daria.

— Sarah.

— Eu sei.

— Nós combinamos.

— Eu sei.

— Ela não podia saber.

— Eu sei!

Jacob viu o arrependimento.

E não conseguiu ficar bravo.

— Estou preocupado.

Sarah o olhou.

— É diferente.

— Muito.

Ela respirou fundo.

— Desculpa.

A palavra bateu nele.

Jacob não conseguiu evitar a reação.

Sarah percebeu.

— O quê?

Ele balançou a cabeça.

— Nada.

Então ela entendeu.

— Ah.

Um sorriso pequeno apareceu.

Jacob teve vontade de sorrir também.

— Agora é você que não gosta de ouvir essa palavra.

— Dependendo de quem diz.

Sarah ficou olhando para ele.

De novo.

Aquele segundo a mais.

Jacob percebeu.

E dessa vez não conseguiu fingir que não.

Mas havia algo mais importante.

— Precisamos contar aos outros.

— Eu sei.

Começaram a caminhar.

Jacob já organizava mentalmente os próximos passos.

Edward.

Emmett.

Billy.

Verificar se Irina sairia da empresa.

Descobrir com quem falaria.

Aro, provavelmente.

Precisavam rever documentos.

Segurança.

O investigador que Irina contratara talvez estivesse mais perto da verdade do que imaginavam.

Então Sarah perguntou:

— Você ficou bravo quando eu chamei você de marido?

Jacob virou lentamente a cabeça.

Aquilo não podia ser sério.

— Estamos falando de Irina.

— Eu sei.

— Então por que...

— Só estou verificando.

Jacob encarou-a.

Sarah parecia perfeitamente séria.

Quase.

Havia um pequeno brilho nos olhos.

Ele conhecia aquele brilho.

Mesmo sem lembrar conscientemente dele durante quinze anos, conhecia.

Era problema.

— Não.

— Não o quê?

— Não fiquei bravo.

Sarah sorriu.

E Jacob sentiu outra vez.

Aquela coisa pequena.

— Ótimo.

— Mas não faz disso um hábito.

Ela assentiu solenemente.

— Certo.

Deram dois passos.

— Marido.

Jacob parou.

Sarah continuou andando.

— Sarah.

Os ombros dela começaram a balançar.

Estava rindo.

— Sarah!

Ela olhou para trás.

— O quê?

Jacob deveria repreendê-la.

Deveria lembrar que estavam numa empresa.

Que ele era presidente.

Que havia funcionários.

Que tinham acabado de entregar a Irina uma informação capaz de mudar completamente o equilíbrio daquela família.

Mas então Sarah riu.

E Jacob sorriu.

Outra vez.

Sem conseguir impedir.


Mais tarde, sozinho novamente em sua sala, a preocupação voltou.

Jacob fechou a porta.

Ligou para Edward.

— Precisamos conversar.

— Aconteceu alguma coisa?

— Irina sabe.

Silêncio.

— Como?

Jacob olhou para a porta por onde Sarah entrara naquela manhã.

— Sua irmã tem pouca tolerância a provocações.

Edward soltou o ar.

— Sarah contou?

— Contou.

— Emmett vai achar isso maravilhoso.

— Emmett não é referência para comportamento racional.

— Concordo.

Jacob ficou sério.

— Edward.

O tom fez o outro perceber.

— O quê?

— Eu vi a reação de Irina.

— E?

Jacob caminhou até a janela.

— Não gostei.

— Por quê?

Ele pensou antes de responder.

— Ela ficou surpresa. Isso é normal.

— Certo.

— Mas depois ficou com medo.

Edward permaneceu em silêncio.

Jacob continuou:

— E a primeira preocupação dela não foi Sarah.

— Foi o quê?

— Quem sabia.

Silêncio.

— Você tem certeza?

— Tenho.

Edward respirou fundo.

— Vou chamar Emmett.

— E eu vou falar com Billy.

— Sarah?

Jacob olhou através do vidro da sala.

Conseguia vê-la alguns metros adiante conversando com uma funcionária.

Séria.

Profissional.

Segura.

Nada da menina de quatro anos naquele momento.

Era apenas Sarah.

A mulher que se tornara.

— Sarah fica perto de nós.

Edward percebeu imediatamente o tom.

— Jacob...

— Não começa.

— Eu não disse nada.

— Mas ia.

Edward quase riu.

— Na verdade, eu ia dizer que concordo.

Jacob relaxou.

— Ótimo.

— Embora...

— Edward.

— Nada.

Jacob desligou.


Permaneceu diante da janela.

Sarah terminou a conversa.

Virou-se.

Por coincidência, olhou para a sala dele.

Os olhos se encontraram através do vidro.

Sarah sorriu.

Então, sem qualquer vergonha, levantou a mão esquerda e apontou para o dedo anelar vazio.

Jacob arregalou os olhos.

Ela fez uma expressão de cobrança.

A arruela.

Jacob começou a rir.

Sarah também.

Depois continuou andando.

Jacob ficou parado.

O sorriso demorou a desaparecer.

E, quando desapareceu, deixou uma pergunta.

Não sobre a menina da fotografia.

Não sobre a promessa no penhasco.

Não sobre os quinze anos perdidos.

Sobre agora.

Sobre a mulher que acabara de fazê-lo rir através de uma parede de vidro.

Jacob não tinha resposta.

Ainda não queria ter.

Porque havia Irina.

Havia Aro.

Havia o passado.

Havia segredos demais.

Sarah acabara de recuperar uma família e não precisava de mais nenhuma confusão.

Mas Jacob podia ser honesto consigo mesmo pelo menos sobre uma coisa.

Alguma coisa estava mudando.

Pequena.

Recente.

Quase imperceptível.

Mas real.

E o que mais o assustava era justamente saber de onde ela não vinha.

Não vinha da menina que dizia que se casaria com ele.

Não vinha da criança cuja mão ele tentara segurar.

Não vinha da culpa.

Não vinha da promessa.

Vinha daquela manhã.

Da porta de seu escritório.

Da voz divertida dizendo bom dia, marido.

Da inteligência afiada.

Do sorriso.

Da risada.

Da mulher.

Jacob respirou fundo e desviou os olhos para a cidade.

Ainda era cedo demais.

E havia uma ameaça muito mais urgente.

Irina sabia que Sarah Cullen estava viva.

A partir daquele momento, Jacob não cometeria o erro de subestimá-la.

Mas havia uma diferença fundamental entre aquele dia e quinze anos antes.

Naquela época, Jacob tinha dez anos.

Agora tinha vinte e cinco.

E Sarah não era mais uma criança que ele precisava carregar pela floresta.

Era uma mulher capaz de enfrentar Irina sozinha no meio de um corredor e revelar a própria identidade olhando-a nos olhos.

Talvez esse fosse justamente o ponto que Jacob precisaria aprender.

Protegê-la não significava decidir por ela.

Significava ficar ao lado.

Ele olhou novamente através do vidro.

Sarah reapareceu no corredor.

Dessa vez acompanhada de Emmett.

Emmett disse alguma coisa.

Sarah bateu no braço dele.

Edward apareceu logo depois.

Jacob observou os três irmãos discutindo.

Então Sarah percebeu que ele olhava.

Sorriu.

E pronunciou silenciosamente, exagerando o movimento dos lábios para que ele entendesse:

Marido.

Jacob fechou os olhos.

Emmett viu.

Olhou de Sarah para Jacob.

E abriu um sorriso gigantesco.

— Não — Jacob murmurou sozinho.

Tarde demais.

Emmett acabara de descobrir uma nova maneira de infernizar sua vida.

E, pela primeira vez em muito tempo, Jacob percebeu que talvez não se importasse tanto assim.