MEMÓRIAS
15 CAPÍTULO 14 - Sarah Cullen
Sarah levou vinte e sete minutos para chegar à Cullen & Black.
Contou todos.
Não porque estivesse olhando para o relógio, mas porque cada minuto pareceu ter uma duração própria, como se sua vida estivesse sendo dividida em pequenos espaços de tempo enquanto ela atravessava a cidade. No primeiro pensou em Harry. No segundo, em Sue. Depois vieram Edward, Emmett, Billy, Carlisle, Esme, Sarah Black e, inevitavelmente, Jacob.
Então tudo recomeçava.
Harry encontrando uma menina inconsciente presa entre galhos.
Sue sentada ao lado de uma criança em coma.
Uma corrente com uma pequena lua.
Um menino segurando sua mão sobre um penhasco.
Uma voz repetindo durante quinze anos:
Desculpa.
Quando o carro finalmente parou diante do edifício da Cullen & Black, Sarah permaneceu sentada por alguns segundos.
O celular estava sobre o banco.
Nenhuma nova mensagem.
Edward dissera apenas:
Você pode vir até aqui?
Ele tinha visto o resultado.
Sabia.
E não contara.
Sarah agradecia por isso.
Respirou profundamente, pegou a bolsa e abriu a porta.
— Certo.
Não fazia ideia do que estava prestes a acontecer.
Talvez entrasse naquele prédio como Sarah Clearwater e saísse sabendo que também era Sarah Cullen.
Jacob estava parado diante da janela quando Emmett perguntou pela quinta vez:
— Quanto tempo demora para atravessar essa cidade?
Edward nem respondeu.
Continuava sentado diante do notebook fechado.
Emmett começou outra volta pela sala.
Jacob acompanhou-o com os olhos.
— Você vai abrir um buraco no carpete.
Emmett parou.
— Excelente. Finalmente falou alguma coisa.
— Senta.
— Não consigo.
— Então para de andar.
— Também não consigo.
Edward ergueu os olhos.
— Emmett.
— O quê?
— Cala a boca.
Emmett encarou o irmão.
— Você está chorando de novo?
Edward passou a mão pelo rosto.
— Não estou.
— Está.
— E você está falando demais.
— Eu falo quando fico nervoso.
Jacob murmurou:
— Então você vive nervoso desde que nasceu.
Emmett apontou para ele.
— Isso foi quase uma piada.
Jacob não respondeu.
Seu olhar voltou para a janela.
Edward observou-o durante alguns segundos.
— Você não vai perguntar?
Jacob sabia exatamente o que ele queria dizer.
— Não.
— Por quê?
— Porque Sarah precisa saber antes.
Emmett finalmente se sentou.
— Mas você quer saber.
Jacob virou-se.
— É claro que quero.
Edward baixou os olhos para o computador.
— Eu queria não ter aberto sozinho.
— Você não sabia que era o resultado — Emmett disse.
— Mesmo assim.
Jacob se afastou da janela.
— Não importa.
Edward ergueu os olhos.
— Importa para mim.
— Então diga isso para ela.
Antes que Edward respondesse, ouviram uma batida na porta.
Os três congelaram.
Nenhum deles disse “entre”.
A porta abriu.
Sarah apareceu.
Olhou para os três homens e imediatamente percebeu que alguma coisa estava errada.
Ou certa.
Ainda não sabia.
— Vocês estão com uma cara péssima.
Emmett soltou o ar.
— Você também.
Sarah arqueou uma sobrancelha.
— Obrigada.
— Não foi um elogio...
— Eu sei.
Ela fechou a porta.
Olhou para Edward.
Depois para o notebook.
— Está aí?
Ele assentiu.
— Está.
Sarah não se moveu.
Jacob percebeu que as mãos dela tremiam.
Por um impulso antigo, quase atravessou a sala.
Quase segurou aquelas mãos.
Não fez.
Esperou.
A decisão precisava ser dela.
Sarah olhou para Edward.
— Você viu.
— Vi.
— Emmett?
— Não.
— Jacob?
— Não.
Ela voltou para Edward.
— E você não contou.
— Não era meu resultado para contar.
Sarah engoliu em seco.
— Obrigada.
Edward apenas assentiu.
Sarah puxou uma cadeira.
Sentou.
— Abre.
Edward colocou o notebook sobre a mesa.
Digitou a senha.
Abriu o arquivo.
Sarah não olhou imediatamente.
Ficou encarando o irmão.
Ou talvez não fosse.
Ainda não.
— Você está bem? — perguntou.
A pergunta quase desmontou Edward.
Ele soltou uma risada nervosa.
— Você está prestes a descobrir quem é e está perguntando se eu estou bem?
— Você parece que vai desmaiar.
Emmett murmurou:
— Finalmente alguém percebeu.
Edward lançou-lhe um olhar irritado.
Sarah sorriu.
Por alguns segundos ninguém falou sobre DNA.
Foi melhor assim.
Então Edward virou a tela.
— Quer que eu leia?
Sarah respirou fundo.
— Não.
A advogada precisava ver.
Precisava ler.
Precisava compreender.
Aproximou o computador.
Leu o cabeçalho.
Os nomes.
Os códigos das amostras.
Os marcadores genéticos.
As conclusões técnicas.
Seus olhos percorreram as linhas rapidamente.
Então pararam.
Sarah deixou de respirar.
Edward fechou os olhos.
Emmett levantou-se.
Jacob permaneceu imóvel.
Sarah leu outra vez.
Depois uma terceira.
Como se as palavras pudessem mudar.
Não mudaram.
A conclusão apontava compatibilidade genética entre Sarah e Edward e entre Sarah e Emmett consistente com relação de irmãos biológicos completos, dentro dos parâmetros analisados.
Sarah levou a mão à boca.
Emmett começou a chorar.
Edward já chorava.
Jacob fechou os olhos.
Sarah continuava olhando para a tela.
— Então...
A voz não saiu.
Tentou novamente.
— Então é verdade.
Edward assentiu.
— É.
Ela levantou os olhos para ele.
O homem diante dela não era apenas Edward Cullen.
Era seu irmão.
Seu gêmeo.
Havia começado a vida ao lado dele.
— Você é meu irmão.
Edward riu entre lágrimas.
— Sou.
Sarah virou-se para Emmett.
Ele já estava ao lado dela.
— E você.
Emmett abriu os braços.
— Infelizmente.
Sarah começou a rir e a chorar ao mesmo tempo.
— Idiota.
— Também senti sua falta.
A frase fez o riso desaparecer.
Emmett percebeu tarde demais.
— Desculpa.
Sarah balançou a cabeça.
— Não.
Levantou-se.
— Não pede desculpa.
E o abraçou.
Emmett fechou os braços ao redor dela.
Dessa vez não pediu autorização.
Sarah também não precisava.
Ele a apertou com força.
— Quinze anos.
Sarah fechou os olhos.
— Eu sei.
— Quinze anos, Sarah.
A voz dele quebrou.
— Eu achei que você estivesse morta.
Ela chorou no ombro dele.
— Eu também, aparentemente.
Emmett soltou uma risada entre lágrimas.
— Continua fazendo piada em hora errada.
Sarah afastou-se apenas o suficiente para olhá-lo.
— Aprendi com você?
Ele congelou.
Ela também.
Então Emmett sorriu.
— Espero que sim.
Edward não se aproximou.
Ficou onde estava.
Sarah percebeu.
— Edward.
Ele levantou os olhos.
— Vem aqui.
— Sarah...
— Você é meu irmão ou não?
A pergunta o fez rir.
— Segundo o exame, sim.
— Então para de agir como estranho.
Edward se aproximou.
Parou diante dela.
Por alguns segundos, apenas se olharam.
Sarah tentou imaginar dois bebês dividindo o mesmo começo.
Dois berços.
O mesmo aniversário.
A mesma mãe.
O mesmo pai.
— Gêmeos — ela disse.
Edward assentiu.
— Gêmeos.
— Bivitelinos.
— Sim.
Sarah sorriu.
— Ainda bem.
Ele franziu a testa.
— Por quê?
— Um de você já é suficiente.
Emmett gargalhou.
Edward olhou para ela, incrédulo.
— Quinze anos desaparecida e voltou ofensiva.
— Talvez eu sempre tenha sido.
Emmett respondeu imediatamente:
— Era.
Sarah riu.
E então Edward a abraçou.
O abraço começou contido.
Durou dois segundos assim.
No terceiro, Edward desmoronou.
Apertou a irmã contra o peito.
— Você estava viva.
Sarah fechou os olhos.
— Estava.
— Todo esse tempo.
Ela sentiu as lágrimas dele em seus cabelos.
— Eu sinto muito.
Edward afastou-se imediatamente.
— Não.
Segurou o rosto dela.
— Nunca peça desculpa por isso.
Sarah olhou para ele.
— Eu não voltei.
— Você não sabia.
— Vocês procuraram.
— Você tinha oito anos.
A voz dele falhou.
— Estava ferida. Sem memória. Era uma criança.
Sarah assentiu.
Edward encostou a testa na dela.
— Não existe nada para perdoar.
Quando Edward se afastou, Sarah enxugou as lágrimas.
Então procurou Jacob.
Ele estava no mesmo lugar.
Perto da janela.
Não se movera.
Não sorria.
Não chorava.
Parecia não conseguir fazer nenhuma das duas coisas.
Sarah ficou olhando para ele.
Emmett também percebeu.
Edward virou-se.
Jacob estava completamente imóvel.
— Jacob — Sarah chamou.
Nenhuma resposta.
— Jacob.
Ele finalmente ergueu os olhos.
E Sarah viu.
Alguma coisa dentro dela doeu.
Enquanto Emmett e Edward haviam recebido uma irmã de volta, Jacob parecia um homem diante de um milagre no qual ainda não conseguia acreditar.
Sarah caminhou até ele.
Devagar.
Jacob acompanhou cada passo.
— Deu positivo — ela disse.
Ele assentiu.
— Eu sei.
A voz quase não existia.
Sarah parou diante dele.
— Sou eu.
Jacob fechou os olhos.
Aquelas duas palavras destruíram o último pedaço de controle que lhe restava.
Seu rosto se contraiu.
Ele virou a cabeça.
Tentou respirar.
Não conseguiu.
Sarah viu a primeira lágrima.
— Jacob...
Ele levantou uma mão, como se pedisse apenas um segundo.
Mas Sarah não deu.
Atravessou o pequeno espaço que ainda existia entre os dois e o abraçou.
Jacob congelou.
Por um único instante.
Então seus braços se fecharam ao redor dela.
E tudo desmoronou.
Não foi um abraço contido.
Não foi cuidadoso.
Não foi educado.
Jacob puxou Sarah contra o peito com tanta força que ela perdeu o ar por um instante.
Enterrou o rosto nos cabelos dela.
E chorou.
Chorou de verdade.
Sem esconder.
Sem virar o rosto.
Sem tentar ser o presidente da Cullen & Black.
Sem tentar ser o homem controlado que todos conheciam.
Sarah fechou os braços ao redor dele.
— Está tudo bem.
Jacob balançou a cabeça.
— Não.
A voz saiu quebrada.
— Não está.
Sarah apertou-o mais.
— Então chora.
E ele chorou.
Quinze anos.
Era aquilo que estava saindo.
Quinze anos de pesadelos.
Quinze anos ouvindo uma menina dizer que ele prometera.
Quinze anos vendo pequenos dedos escorregarem de sua mão.
Quinze anos acordando com a palavra “desculpa” presa na garganta.
Sarah sentiu o corpo dele tremer.
— Eu achei que você tinha morrido.
Ela fechou os olhos.
— Eu sei.
— Eu vi você cair.
— Eu sei.
— Eu tentei.
Sarah apertou-o.
— Eu sei.
Jacob respirou contra os cabelos dela.
— Eu tentei segurar você. Me desculpe por ter deixado você cair. Me perdoa.....
A voz falhou completamente.
Sarah também começou a chorar.
— Xiii, Jacob, não foi sua culpa...
— Eu juro que tentei.
Ela afastou-se apenas o suficiente para conseguir olhar para ele.
Segurou seu rosto entre as mãos.
— Eu sei.
Jacob chorava como talvez não chorasse desde os dez anos.
Sarah enxugou uma lágrima com o polegar.
— Olha para mim.
Ele tentou desviar.
Ela não deixou.
— Jacob, olha para mim.
Ele obedeceu.
Sarah respirou fundo.
— Você não me matou.
Ele fechou os olhos.
— Jacob.
Ela esperou.
Ele tornou a abri-los.
— Fala.
— O quê?
— Que você não me matou.
Ele balançou a cabeça.
— Sarah...
— Fala.
— Eu não consigo.
Ela segurou seu rosto com mais firmeza.
— Então eu falo até você conseguir.
As lágrimas dela também caíam.
— Você não me matou.
Jacob respirou fundo.
— Eu soltei...
— Não.
Sarah interrompeu.
— Minha mão escapou.
Ele ficou imóvel.
— É diferente.
— Para mim nunca foi.
— Então vai ter que começar a ser.
Jacob olhou para ela.
Sarah continuou:
— Você tinha dez anos.
— Eu prometi que não ia deixar você cair.
— E tentou cumprir.
— Não consegui.
— Porque você era uma criança tentando segurar outra criança sobre um penhasco!
A voz dela aumentou.
Edward abaixou a cabeça.
Emmett enxugou o rosto.
Sarah voltou a falar mais baixo.
— Você não me empurrou.
Jacob respirou.
— Não.
— Você não abriu a mão porque quis.
— Não.
— Você tentou me salvar.
A resposta demorou.
— Sim.
Sarah sustentou o olhar dele.
— Então fala.
Jacob ficou em silêncio.
— Fala, Jacob.
Ele respirou fundo.
— Eu...
A voz falhou.
Sarah não o apressou.
— Eu não matei você.
Ela chorou.
— De novo.
Ele olhou para ela.
— Eu não matei você.
A respiração dele tremeu.
— Eu não matei você.
Sarah sorriu entre lágrimas.
— Não.
Jacob soltou um som entre riso e choro.
Então a abraçou novamente.
Dessa vez Sarah foi com ele sem hesitar.
Jacob encostou o rosto no alto da cabeça dela.
— Você está viva.
— Estou.
— Você está aqui.
— Estou.
— Meu Deus.
Sarah riu chorando.
— Essa parte o exame confirmou com bastante segurança.
Uma risada escapou dele.
Pequena.
Molhada pelas lágrimas.
Mas verdadeira.
Emmett enxugou o rosto.
— Ela faz piada igual a mim.
Edward respondeu:
— Infelizmente.
Sarah não soltou Jacob.
— Ouvi vocês.
Emmett sorriu.
— Ótimo. Sua audição continua boa.
Jacob riu outra vez.
Sarah sentiu.
E aquele som pareceu importante.
Talvez porque todos tivessem contado que Jacob deixara de ser o menino sorridente depois do dia em que ela caiu.
Sarah apertou os braços ao redor dele.
— Chega de pedir desculpa.
Jacob ficou quieto.
— Não sei se consigo parar de uma vez.
— Então começa hoje.
Ele assentiu.
— Vou tentar.
Sarah se afastou lentamente.
Ainda segurava suas mãos.
— E outra coisa.
— O quê?
— Se eu ouvir você dizendo que me matou outra vez, vou cobrar por hora.
Jacob franziu a testa.
— O quê?
— Sou advogada. Terapia jurídica é cara.
Emmett gargalhou.
Edward cobriu o rosto.
Jacob olhou para Sarah por alguns segundos.
E então riu.
De verdade.
Sarah sorriu.
Não havia paixão naquele abraço.
Não havia desejo.
Havia uma história interrompida aos dez e oito anos.
Uma menina que sobrevivera.
Um menino que finalmente descobria que não precisava mais pedir perdão por estar vivo.
E quando Jacob voltou a abraçá-la uma última vez, Sarah compreendeu que aquele abraço não pertencia apenas aos adultos naquela sala.
Pertencia também às duas crianças no penhasco.
Era o abraço que elas nunca haviam conseguido dar depois da queda.
Alguns minutos depois, Sarah enxugou o rosto e respirou profundamente.
— Harry e Sue.
Emmett pegou o telefone.
— Vamos.
Sarah assentiu.
Jacob deu um passo para trás.
— Eu fico.
Ela olhou para ele.
— Por quê?
— Porque esse momento é de vocês.
— Você também faz parte disso.
— De outra parte.
Sarah compreendeu.
Edward também.
Jacob não era irmão.
Não era filho de Carlisle e Esme.
A ligação dele com Sarah passava por outro lugar.
Por outra história.
Naquele momento, Harry e Sue precisavam conhecer os dois filhos biológicos da filha que haviam criado.
Sarah assentiu.
— Está bem.
Antes de sair, olhou para Jacob.
Ele ainda tinha os olhos vermelhos.
— Você vai ficar bem?
Jacob respirou fundo.
Dessa vez, respondeu:
— Acho que agora vou.
Harry abriu a porta e soube.
Não precisou perguntar.
Sarah estava no meio.
Edward de um lado.
Emmett do outro.
Sue apareceu atrás dele.
Olhou para os três.
Sarah entrou.
— Pai.
Harry respirou fundo.
— Saiu.
Ela assentiu.
Sue segurou o braço do marido.
Sarah caminhou até eles.
— Confirmou.
Harry fechou os olhos.
— Você é irmã deles.
— Sou.
Sue começou a chorar.
Sarah imediatamente segurou suas mãos.
— Mãe.
— Meu amor...
Sarah olhou para os dois.
— Eu sou Sarah Cullen.
A frase doeu.
Não porque estivesse errada.
Mas porque parecia incompleta.
Sarah respirou fundo.
— Mas também sou Sarah Clearwater.
Harry abriu os olhos.
Ela se aproximou.
— Quero deixar isso claro agora.
Olhou para Harry.
Depois para Sue.
— Eu descobri quem eram meus pais biológicos. Descobri que tinha dois irmãos.
Emmett corrigiu baixinho:
— Tem.
Sarah olhou para ele.
Um sorriso surgiu.
— Tenho dois irmãos.
Voltou-se para Harry e Sue.
— Mas não descobri outros pais no lugar de vocês.
Sue chorou ainda mais.
— Sarah...
— Vocês são meus pais.
Harry puxou a filha para os braços.
Sue entrou no abraço.
Sarah fechou os olhos.
— Nada muda isso.
Harry beijou seus cabelos.
— Eu sei.
— Promete?
Ele afastou-se.
— Eu encontrei uma menina em um rio.
Segurou o rosto dela.
— Mas quem me deu uma filha foi você.
Sarah começou a chorar novamente.
— Pai...
— Carlisle Cullen é seu pai. Eu nunca vou tentar tirar isso de você.
Harry respirou fundo.
— E Esme Cullen é sua mãe.
Sue assentiu entre lágrimas.
— Você tem direito a eles.
Harry continuou:
— Mas nada disso apaga os quinze anos em que você foi nossa filha.
Sarah sorriu.
— Nem os próximos cinquenta.
Sue riu chorando.
— Cinquenta?
— Estou fazendo planos.
Harry a abraçou novamente.
Emmett virou o rosto.
Edward também.
Harry percebeu.
— Vocês dois.
Os irmãos olharam.
Ele abriu um braço.
— Venham.
Emmett não precisou ouvir duas vezes.
Edward hesitou.
— Senhor Clearwater...
Harry arqueou uma sobrancelha.
— Se minha filha acabou de descobrir que vocês são irmãos, acho que podemos dispensar o senhor.
Emmett entrou no abraço.
Edward foi depois.
Por alguns segundos, cinco pessoas ficaram apertadas na entrada da casa.
Sue chorava.
Sarah ria.
Emmett reclamou:
— Alguém está pisando no meu pé.
Edward respondeu:
— Eu nem estou perto.
Sarah olhou para baixo.
— Sou eu.
Emmett suspirou.
— Quinze anos e continua agressiva.
Ela riu.
Harry observou os três.
Sua filha não estava sendo levada.
Sua família estava aumentando.
Billy recebeu uma mensagem de Edward no fim da tarde.
Estamos indo.
Nada além disso.
Billy sabia o que significava.
Jacob já estava em casa quando eles chegaram.
A porta abriu.
Sarah entrou primeiro.
Billy ficou parado.
Olhou para ela.
Depois para Edward.
Depois Emmett.
Então voltou para Sarah.
Não perguntou.
Ela caminhou até ele.
— Deu positivo.
Billy fechou os olhos.
O corpo pareceu ceder por um instante.
Jacob segurou o braço do pai.
— Pai.
Billy respirou.
Abriu os olhos.
Sarah estava ali.
— É você?
Ela chorou.
— É.
Billy tocou o rosto dela.
Com cuidado.
Como se ainda pudesse desaparecer.
— Sarah.
Dessa vez ela não pediu que esperasse.
Billy a abraçou.
E chorou.
Não discretamente.
Não tentou esconder.
— Meu Deus.
Sarah fechou os braços ao redor dele.
— Oi, tio Billy.
Billy afastou-se abruptamente.
Os olhos se arregalaram.
— Você lembrou?
Sarah sorriu entre lágrimas.
— Não.
Billy ficou imóvel.
Ela apontou para Emmett.
— Ele contou.
Billy olhou para Emmett.
— Estraga-prazeres.
— Eu prefiro facilitador de memória.
Sarah riu.
Billy voltou a olhá-la.
— Você me chamava assim.
— Tio Billy?
— Desde pequena.
Sarah sorriu.
— Então posso continuar?
Billy começou a chorar novamente.
— Você pode me chamar do que quiser.
Emmett comentou:
— Cuidado com essa autorização.
Sarah olhou para ele.
— Concordo.
Billy riu.
Então tocou os cabelos dela.
— Você tem os olhos da sua mãe.
Sarah ficou séria.
— Esme.
— Sim.
— E o sorriso.
Sarah respirou fundo.
— Quero conhecê-la.
Billy assentiu.
— Vai.
— E Carlisle.
— Também.
Sarah olhou para Edward e Emmett.
— Quero saber tudo.
Edward respondeu:
— Tudo que você quiser.
Emmett completou:
— Inclusive as partes constrangedoras.
Edward olhou para ele.
— Principalmente as suas.
— Traidor.
Sarah sorriu.
— Acho que vou gostar disso.
Depois do jantar, Billy trouxe uma caixa de fotografias.
Sarah sentou no chão da sala.
Emmett imediatamente ocupou o lugar à esquerda.
Edward sentou à direita.
Jacob permaneceu numa poltrona próxima.
Billy ficou no sofá.
A primeira fotografia mostrava Esme com três crianças.
Sarah tocou o rosto da mulher.
— Minha mãe.
Edward corrigiu suavemente:
— Nossa mãe.
Sarah olhou para ele.
Sorriu.
— Nossa mãe.
Pegou outra fotografia.
Carlisle estava diante de uma churrasqueira, usando um avental ridículo.
Sarah começou a rir.
— Esse é meu pai?
Emmett respondeu:
— Infelizmente existem provas.
— Parece sério.
Os três homens responderam praticamente juntos:
— Não era.
Sarah riu.
Vieram outras.
Esme tentando fotografar as crianças enquanto Emmett fazia caretas.
Edward lendo.
Sarah pequena tentando tirar o livro dele.
Jacob aparecendo ao fundo em quase todas.
Sarah franziu a testa.
— Por que você está em praticamente todas as fotografias?
Jacob ergueu os olhos.
— Nossas famílias viviam juntas.
Emmett corrigiu:
— Porque você perseguia ele.
Sarah virou-se.
— Eu?
— Constantemente.
Jacob fechou os olhos.
— Emmett.
— O quê? É história familiar.
Sarah ficou interessada.
— Continue.
Edward sorriu.
— Você queria fazer tudo que Jacob fazia.
Sarah apontou para si mesma.
— Eu?
Billy confirmou:
— Tudo.
— Isso é mentira — Jacob disse.
— Não é — Billy respondeu.
Sarah abriu um sorriso vitorioso.
— Testemunha qualificada.
Jacob balançou a cabeça.
Emmett puxou outra fotografia.
— Olha essa.
Sarah estava pequena, com os braços cruzados, olhando furiosa para Jacob.
O menino parecia se divertir.
— Por que eu estava brava?
— Porque ele não deixou você subir numa árvore.
Sarah virou-se para Jacob.
— Autoritário desde criança.
— Você tinha quatro anos.
— Detalhes.
— A árvore tinha quase cinco metros.
— Eu provavelmente tinha um plano.
Emmett gargalhou.
— Essa é exatamente uma coisa que Sarah Cullen diria.
Sarah ficou quieta.
A frase não doeu.
Pela primeira vez, pareceu caber.
Sarah Cullen.
Sarah Clearwater.
Talvez não precisasse escolher.
Pegou outra foto.
Nela, Sarah criança estava sentada ao lado de Jacob, com a cabeça apoiada no ombro dele.
Os dois comiam alguma coisa.
— O que é isso?
Jacob olhou.
— Batata.
Sarah ergueu as sobrancelhas.
Emmett começou a rir.
— Claro.
— Minha obsessão pela sua batata vem de muito longe.
Jacob sorriu.
— Aparentemente.
Sarah olhou para a foto novamente.
Nenhuma lembrança veio.
E, surpreendentemente, estava tudo bem.
Não precisava lembrar naquela noite.
Podia conhecer aquela menina aos poucos.
Mais tarde, Sarah encontrou Jacob sozinho na varanda.
Ele estava encostado no corrimão.
Ela se aproximou.
— Fugindo?
— Respirando.
— Posso respirar aqui também?
Jacob sorriu.
— Pode.
Sarah ficou ao lado dele.
Durante algum tempo, nenhum dos dois falou.
Então ela percebeu.
— Você está diferente.
— Como?
Sarah pensou.
— Mais leve.
Jacob olhou para o jardim.
— Talvez esteja.
— Funcionou?
— O quê?
— O que eu mandei você falar.
Ele sorriu discretamente.
— Um pouco.
— Ótimo. Minha primeira sessão foi um sucesso.
— Quanto eu devo?
— Você não tem dinheiro suficiente.
Jacob riu.
Sarah também.
Depois ficou séria.
— Jacob.
— Hum?
— Eu não quero que vocês esperem que eu volte a ser aquela menina.
Ele virou-se imediatamente.
— Eu não espero.
— Mesmo?
— Sarah Cullen tinha oito anos.
Apontou discretamente para ela.
— Você tem vinte e três.
— Vinte e três.
— Cresceu com Harry e Sue. Estudou Direito. Tem amigos, trabalho, uma vida inteira que nós não conhecemos.
Sarah ficou quieta.
Jacob continuou:
— Você não precisa voltar a ser ninguém.
A frase a emocionou.
— Obrigada.
— Nós é que vamos ter que conhecer você.
Ela sorriu.
— Boa sorte.
— Por quê?
— Pelo que estou descobrindo, eu já era difícil aos oito.
Jacob finalmente sorriu de verdade.
— Era.
— Ei.
— Você perguntou.
— Não perguntei.
— Estava implícito.
Sarah apontou para ele.
— Está convivendo demais com advogados.
— Agora tenho mais uma na família.
Sarah ficou quieta.
Jacob percebeu.
— Falei alguma coisa errada?
— Não.
Ela sorriu.
— Só é estranho ouvir.
— Família?
— Sim.
Jacob assentiu.
— Vai levar tempo.
— Acho que sim.
Ela respirou fundo.
— E você?
— Eu o quê?
— Faz parte de qual categoria?
Jacob franziu a testa.
Sarah explicou:
— Edward é meu irmão gêmeo. Emmett é meu irmão mais velho. Billy é tio Billy. Você é...
Jacob ficou quieto.
Ela esperou.
Ele olhou para o jardim.
— Jacob.
Sarah riu.
— Excelente resposta.
Ele também sorriu.
— Talvez não precise colocar nome em tudo hoje.
Sarah pensou.
— Justo.
Ficaram em silêncio novamente.
Então ela olhou para ele.
— Você sorri pouco.
Jacob perdeu parte do sorriso.
Sarah percebeu.
— Foi depois?
Ele sabia o que ela perguntava.
— Foi.
— Depois que eu caí?
— Sim.
Sarah ficou séria.
— Então temos um problema.
— Qual?
— Não pretendo carregar a responsabilidade pelo seu mau humor pelos próximos cinquenta anos.
Jacob soltou uma risada.
— Cinquenta?
— Talvez sessenta.
— Pretensiosa.
— Realista.
Ele balançou a cabeça.
Sarah sorriu.
E aquele momento ainda não era romance.
Era reencontro.
Era uma mulher conhecendo o menino que fizera parte de sua infância e, ao mesmo tempo, começando a conhecer o homem em que ele se transformara.
E Jacob, pela primeira vez desde que Sarah Clearwater entrara na Cullen & Black, não tentou procurar a criança de oito anos em cada gesto dela.
Não precisava mais.
Sabia quem ela era.
Agora precisava descobrir quem ela havia se tornado.
Em outro ponto da cidade, Irina recebeu uma mensagem do investigador.
Ainda não encontrei nada relevante sobre Sarah Clearwater. Continuarei aprofundando os registros antigos conforme solicitado.
Irina respondeu:
Continue. Quero saber tudo.
Fechou o celular.
Não sabia do exame.
Não sabia do resultado.
Não sabia da cicatriz.
Não sabia da amnésia.
Não sabia do rio.
Não sabia do colar.
Não sabia que Billy reconhecera o pingente.
Não sabia que Edward acabara de recuperar a irmã gêmea.
Que Emmett recuperara a irmã caçula.
Que Billy abraçara novamente a menina que ajudara a criar.
E não sabia que Jacob Black, depois de quinze anos, finalmente conseguira pronunciar:
Eu não matei você.
Para Irina, Sarah Cullen continuava morta.
E todos pretendiam mantê-la assim.
Por enquanto.
Porque antes que o mundo descobrisse que Sarah Cullen estava viva, antes que o nome dela reaparecesse em documentos, antes que a empresa precisasse enfrentar as consequências da volta de uma herdeira que todos acreditavam morta, havia algo mais importante.
Sarah precisava conhecer sua história.
Precisava conhecer Esme.
Carlisle.
Os irmãos.
Billy.
Precisava conhecer a menina que aparecia nas fotografias e descobrir quais partes dela ainda carregava.
E, principalmente, precisava compreender que descobrir quem fora não significava abandonar quem se tornara.
Ela não precisava escolher entre Sarah Cullen e Sarah Clearwater.
As duas eram ela.
E, naquela noite, enquanto as risadas de Emmett atravessavam a casa de Billy e Edward reclamava que ele contava as histórias de infância de forma completamente exagerada, Sarah olhou para aquelas pessoas ao seu redor.
Depois olhou para Jacob.
Ele estava rindo.
Não muito.
Mas estava.
E pela primeira vez em quinze anos, o riso dele não terminou no som da água.
Não terminou numa mão escapando.
Não terminou num pedido de desculpas.
Terminou ali.
Dentro da casa de Billy.
Com Sarah viva.
Com os irmãos ao lado dela.
Com Harry e Sue continuando a ser seus pais.
E com uma vida inteira pela frente para que todos aprendessem, novamente, a fazer parte da vida uns dos outros.
Sarah Cullen havia sido encontrada.
Agora eles conheceriam Sarah Clearwater.
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