Por que elas estão demorando tanto? — Scorpio se perguntava, impaciente como sempre. Ele estava recostado em um troco, esperando que a goltyniana e sua rainha deixassem a cabana.

No interior do lugar, Luna e Serena tomaram um banho quente em um ofurô, regado por pétalas de flores aromáticas, preparado pelas mulheres da tribo. Após relaxarem um pouco, vestiram as peças pesadas devido ao inverno local. Lunally não se sentiu muito agradável por ter que vestir roupas com peles de animais, mas acabou por ceder. O frio parecia arranhar suas entranhas.

— Luna, sente-se. – Serena pediu, após terminar de secar seus próprios cabelos. Por serem muito longos, demandavam imenso esforço para serem desembaraçados. A Alfa de Golty sentou na cadeira de mogno disposta em um canto do local. Uma lareira fora acendida pela morena para aquecê-las. Serena manteve-se em pé, fazendo-se, assim, mais audível. – Estou pedindo isso pela sua segurança. Não se empolgue demais com os selvagens, eles não gostam de estrangeiros. Só sou aceita aqui, pois Amom me concedeu esse lugar como morada e refúgio.

— Nunca pretendi me empolgar, se é que você me entende. – Luna respondeu um pouco irônica.

— Por isso, quando firmarmos a aliança hoje, só se pronuncie quando eu disser, está bem? – Perguntou olhando nos olhos da amiga. – Estou tentando ser responsável, afinal se algo acontece com você em minhas terras, seu reino e Hatori mandariam aniquilar Asgar.

— Não serei imprudente. Deixarei que fale por mim. Sabe qual é o meu interesse, no final das contas. – A loira concordou. Aquele tom sombrio de Serena a deixava incomodada. Parecia que a preminiana desconfiava de tudo e de todos.

— Acompanhe-me, então. – Serena abriu a porta e pediu que Luna saísse primeiro. Scorpio voltou o olhar para as duas, quando elas deixaram à cabana.

— Aleluia! – Exclamou, sem querer. Serena o repreendeu com o olhar. – Quero dizer, está tudo pronto, Majestade.

— Pois bem, leve-nos até a mesa. – A Alfa de Premin ordenou.

— Como quiser, Majes...

— Serena. – Ela, realmente, detestava pronomes de tratamento.

— Serena. – Corrigiu-se o guerreiro.

Os três seguiram até uma grande mesa redonda. Os selvagens pareciam em festa com a chegada de Serena, ofereceram flores e joias como oferendas para ambas, que aceitaram educadamente. – Asgar! – A rainha tomou a palavra. – Vejo que seguiram minhas ordens e se tornaram o povo do qual me orgulho e sempre me orgulharei! – Cada letra que ela pronunciava parecia efervescer a multidão. – Hoje, venho propor uma aliança! Uma aliança vantajosa para todos nós! Quero ajudar minha amiga a vencer a guerra e preciso de vocês. Vocês vêm comigo? Ou me abandonaram?

Luna surpreendeu-se com a reação dos selvagens. Eles se ajoelharam em respeito ao pedido de sua rainha. Muitos beijaram seus pés e ela, como sempre, dando dois tapinhas para dispensá-los de tantos cumprimentos. – Obrigada. Obrigada. – Serena repetia sem cessar. Algumas lágrimas escorriam das faces da Alfa. Lunally sorriu. Aquele povo não era horrível como ela imaginava.

*

— Luna... Luna. – Serena a chamou no meio da noite. Elas estavam em Mellory há três semanas, estava na hora de partir. A Alfa de Golty remexeu-se na cama e se virou para o lado. A preminiana suspirou. Tratou de arranjar um balde de água fria. Derramou sobre o corpo quente de Lunally, mas antes amordaçou a Alfa, para que seu grito fosse abafado. Pedindo por silêncio, Serena removeu a mordaça. – Temos que ir embora, Luna. AGORA. Apenas Scorpio sabe de nossa partida, não quero me despedir de novo de meu povo, é doloroso demais para mim. Deixei uma roupa separada para você. Troque-se e vamos.

— Isso não era necessário. – Luna bufou brava. Pegou sua muda de roupa e se trocou. Sua pele ainda tremendo devido a água congelante. Serena trançou os cabelos loiros de Luna e disse:

— Desculpe-me, minha amiga. Eu só... preciso sair daqui. – A morena disse, um pouco desesperada.

— Está tudo bem! – Luna consentiu. – Estou te devendo.... Obrigada, Serena. – Abraçou a preminiana, que sorriu. Elas haviam se aproximado mais com essa viagem.

Scorpio entrou no quarto, parecia ansioso. – Vamos, senhoritas? Logo meus irmãos notaram a falta dos cavalos. – Avisou. Elas o seguiram na noite fria.

MERCADO

Os dias gélidos no mercado passavam devagar, como se a colonização no Basílio fosse eterna. Os soldados feridos estavam bem de saúde e ativos no serviço. Enterraram os mortos aliados de um lado e botaram fogo nos inimigos mortos. Só faltava a prece para os nobres heróis que se foram por defenderem e lutarem para o progresso de sua nação.

A cabeça de Hatori latejada só de pensar que teria que dar noticia a mulheres viúvas e aos filhos órfãos. Mas deixou esse peso de lado, e se concentrou no trabalho. Hatori e Miguel já tinham determinado as regras e planejamentos para o lugar, iriam restabelecer o mercado aberto para toda Wakanda, por três motivos: primeiramente, era o único jeito de fazer os bárbaros voltarem a ser “confiáveis” porque se eles tivessem contato com todo o povo e comercializassem com todos não iriam para um lado, iriam permanecer neutros para lucrarem com todos os reinos.

O principal motivo dos bárbaros terem sido corrompidos antes por Premin era porque no mercado só quatro países frequentavam, Draken, Premim, (Pais do macaco), (Pais do tigre). Os dois últimos entraram em guerra um com o outro e abandonaram os negócios no Basílio por uns 25 anos, restando só o orgulho e ego no comercio. Algo que gerou competição, por óbvio, assim Premim comprou a confiança dos bárbaros cobrindo toda a oferta que eles tinham, já que os bárbaros estavam em crise, perderam dois grandes compradores, aceitaram a oferta generosa dos Premim, mas claro logo perceberam que mesmo com todo o ouro, ainda ficaram frágeis na segurança, Premim não se dispôs muito a proteger o mercado, ainda mais por ser o responsável de coloca-lós em desvantagem com todo o resto do continente. Por um bom tempo o mercado do Basílio ficou conhecido como mercado do leão, depois virou mercado negro, quando Premim deixou Findoram participar e tribos pequenas de comercio pirata.

Segundo, fazendo o mercado aberto acabariam com o polo de encontro e comércio principal de Findoram principalmente com Premim. Atrapalhariam a comunicação dos dois reinos, e controlariam todas as rotas de circulação, ou seja, se eles tentassem viajar de um país para o outros, teriam que passar por ali e seriam pegos.

E por ultimo e mais vantajoso, eles iriam criar uma área de relação com outros países, assim que anunciasse o mercado Basílio aberto, os países vão se interessar e comerciar, e até tratados e alianças poderiam ser feitos, e claro, o continente iria mais uma vez reconhecer o poder de Draken.

— E os escravos? — Matt perguntou para Miguel.

—O deixe ser livres, se alguns jurarem lealdade ao dragão diga que serão bem vindos à Draken. — ordenou o alfa menor. — Menos Zara, está de toda forma terá que vir comigo.

Matt ficou muito curioso do porque do Alfa querer levar a mulher. Um comportamento estranho, ainda mais para um homem casado. Miguel não tinha cara de alguém que colecionava amantes. Poderia até perguntar, mas as consequências poderiam ser desvantajosas demais.

MISSA DEUSES

Os dias no mercado eram muito bem calculados, em poucas semanas, já tinham completado as partes iniciais e principais do plano. Os soldados de Draken eram muito competentes e disciplinados, então não houve nenhuma dificuldade da organização.

— Por favor, mude essa cara! — implorou Miguel vendo, mais uma vez, Hatori com a testa enrugada de preocupação. Seu irmão mesmo contido nas ações, diferente do menor, era muito angustiado e nervoso. Miguel pensava que o Alfa maior iria morrer aos trinta anos de infarto se continuasse desse modo.

— Não sei, estou preocupado, mandei uma carta para Draken, e foi respondida de forma estranha. — explicou Hatori o motivo de sua expressão. Helio havia respondido de forma um tanto vaga. Disse que “tecnicamente” estava tudo bem, que tinham visitas “boas” e que deveriam voltar assim que desse. — E Daniel, alfa maior de Golty me respondeu, este agradeceu o apoio. — contou por fim.

Miguel revirou os olhos, seu irmão era dramático, ficava todo acuado por causa de uma carta. Miguel não aceitava que ninguém fosse mais dramático que ele. — Deixe isso para depois, vamos logo fazer as preces aos deuses e deixar as almas de nossos homens em paz. Depois voltaremos e resolveremos as coisas em Draken. — o alfa menor tentou de alguma forma tranquilizar seu irmão mais velho. — Já decidi os soldados que ficaram aqui, para regular o mercado até que este volte a ser “limpo” e de “todos”. Nossa missão aqui acabou só faltam os termos técnicos.

— Você está certo. — suspirou Hatori, alguns bárbaros viajaram, foram para outras terras para anunciar a abertura do mercado, e também, mandaram cartas no nome do Basílio. Por mais que fosse Draken quem recuperou o mercado, o país não poderia mandar os avisos em seu nome, por intenção ou por acaso, nem todos os reinos de Wakanda gostavam dos Dragões.

Por fim depois da breve conversa, os irmãos foram para o meio do mercado, a parte mais movimentado, o núcleo, cheio de mercadorias e dinheiro guardado. Estava no anoitecer, o sol não era visto, mas as estrelas ainda começavam a aparecer, a lua ainda não alcançou destaque no céu.

Enquanto andavam tinham varias pessoas: Soldados de Draken, escravos de diversas nacionalidades, bárbaros, até apátridas. Todos do lado das tentas, com velas acessas, rezando para seu deus. Para alguém, para si próprio, para algo.

E na parte vazia no meio do mercado estavam os corpos, em cima de macas de madeira. O cheiro ainda não era pobre, mas não era agradável. Porem os drakinianos já eram acostumados, no fundo, no local onde retiraram a neve, que cessou por um momento, se encontrava as covas dos mortos.

A melancolia e nostalgia eram notáveis no olhar dos presentes. Morte nunca foi algo bom, nem de seus amigos, muito menos dos inimigos. Mesmos que Hatori e Miguel lutaram muitas vezes, até mataram, nunca chegariam ao ponto de achar isso algo natural. Era grotesco.

Hatori, o alfa maior, estendeu a mão ao céu. E deste gesto simples Dhiren se fez presente, na sua forma magnífica de dragão medieval. Um dragão albino voando no céu. Os presentes se assustaram, mas os alfas continuaram com a postura robusta e impecável.

Dhiren rugiu tão alto e tão tenebroso que tinha a certeza de que todos os outros reinos escutaram. Escutaram a dor do deus de perder devotos. Dhiren voltou para o alto até que as nuvens o esconderam e não se percebia mais sua presença.

E do mesmo local Helias apareceu tão negro como a noite que as nuvens o diferenciavam. Miguel sorriu e acenou a cabeça, até que estava começando a criar afeição pelo Dragão. Helias cuspiu fogo roxo nos corpos dos mortos. Miguel retirou o pensamento de afeição e caminhou um pouco para protestar, mas Hatori o impediu.

— Observe. — mandou o mais velho.

O fogo não queimava nada, apenas envolvia, protegia, era como se fosse um catalisador das memórias, imagens apareciam em cima dos corpos. Se parasse e olhasse para um, via a vida da pessoa ser percorrida como uma peça de teatro.

Helias transformou-se em humano e Dhiren apareceu no seu lado. Fizeram gestos para que os soldados pegassem os corpos nas mascas em chamas que não feriam ninguém.

Na frente: Dhiren e Helias, logo atrás: Hatori e Miguel, em seguidas os corpos carregados e o resto da população rezando e chorando. Cada um por seu motivo e emoção. Iam para as covas, iriam encerrar o sofrimento.

Corpo por corpo foi enterrado, a chama não se apagava, a neve começou a cair de forma lenta e minuciosa. Não houve palavras, nem discurso. A tristeza tomou conta de tudo, ninguém estava disposto a fazer mais do que rezar e lamentar. Miguel não acreditava, ele estava revoltado e lagrimas formaram em sua face. Ele não queria aceitar, naquelas covas tinham homens fies que lutaram com ele, para ele, por ele.

Hatori se manteve apático à situação por fora. Ele deveria ser forte, mas por dentro estava destruído. Prometeu vitoria e esta ocorreu, o alfa maior não ousaria perder essa guerra, que como todos sabem se inicia agora.

Miguel estava muito mal, qualquer um notava. Ele pensava nas próximas lutas, nas próximas perdas, e temeu por sua vida, pois agora não era só seu irmão que preocupava de fato com ele, havia Serena. Miguel não tinha medo de partir, tinha receio por quem iria deixar. Se bem, que seu orgulho sabia muito bem que para ele ser morto, este deveria estar em plena desvantagem.

O alfa maior vendo o estado do irmão passou o braço entre seus ombros. E cochichou: — Temos agora uma divida com esses mortos. Nem ouse se lamentar meu irmão. Agora sabe o peso que carregamos, devemos vencer e sobreviver. — Hatori não falou aquilo para repreender seu irmão. Na verdade pela primeira vez, decidiu pegar um pouco da carga que ele tinha em suas costas e dividir com o alfa menor.

Miguel entendeu perfeitamente, como se somente ele notou, aquilo foi o maior voto de confiança que Hatori deu para ele. Este sorriu de forma realizada, como se tivesse conseguido um prêmio valioso.

— Trate de seguir suas palavras: Nós. Agora eu e você dividimos por completo o cargo de responsabilidade. Isso era tudo o que papai queria. — reforçou o voto que ele mesmo denominou.

Os corpos foram enterrados, a missa se foi. Acabou. E alguns saíram do local, outros ficaram. Helias e Dhiren foram para perto de seus escolhidos. Os quatro se encaravam, tantos os reis e os deuses estavam exaustos e tristes. Era um sentimento mutuo que dividiam. O peso das vidas caia sobre quatro pilares.

— Eu tenho orgulho de vocês. Eu realmente escolhi certo. — Helias emocionado, algo extremamente raro para um deus calculista.

Dhiren não resistiu, pulou em cima de todos os abraçando e disse: — Ai, que momento família mais clichê! — Ria e chorava em sincronia. — Draken não será mais um país conhecido como militar/ ditadura “quem é fraco morre”. Será uma família que se protege, seremos unidos. — o deus conclui e logo Miguel desfez o abraço saindo meio incomodado.

Por mais que a situação foi lastimosa, também foi incrível. Fizeram um vinculo, não por escolhidos, nem pelo poder, mas por amor ao próximo, por fidelidade.