—Ok. E agora? — Lunally olhava para todo lado. Estava com Serena que também estava angustiada. Se encontraram perto de um dos muros para fugir de Draken, mas não perto o bastante para serem notada, o lugar era cheio de guardas, mesmo em festa tinha uma equipe reforçada. Hatori e Miguel haviam partido para o mercado negro há uma hora, nem puderam se despedir direito, as coisas aconteciam rapidamente ultimamente.

—Como pode ter tantos soldados nesse país? —Serena fala em revolta. — São piores que os chineses. — Ela tinha que admitir a população mais volumosa era de Draken, sem duvida alguma. Se separaram em quatro unidade, duas estavam em draken, uma em Golty e outra indo para o Basílio, em nem parecia que a cidade estava vazia, pelo contrario se passava a impressão de ter mais gente.

—Nasce muita gente aqui, no hospital sempre tem grávidas dando a luz. — explicou Luna se lembrando de suas visitas ao hospital que “trabalhava”. — Vai ser difícil sair daqui. —refletiu.

Serena encarou Lunally, estava possessa para alcançar sua vitoria, ela não desistiria agora, veio até aqui, iria aos selvagens e poderia até garantir sua proteção lá. — Não vamos usar dos deuses desta vez, você me disse que tem ajuda da mãe natureza...

— Em tese. — interrompeu Lunally aflita.

—Tente.

A loira uniu as sobrancelhas, confusa com a fala de sua amiga. Ambas estavam trajadas de preto e moletons fofos, cabelos em rabo de cavalo, a única coisa que diferenciava era um colar e um broche. Duas peças que guardavam significados enormes.

— Tentar o que?

Serena logo sacou que Lunally era inteligente porem lenta demais. — Usar sua ligação com a mãe natureza para sair daqui!

—Impossível! — negou. — Nem sei como falar com ela. — enquanto argumentava sua incapacidade um beta passou do lado delas naturalmente como se nem tivesse as percebido. Luna contava que o “dom” era controlar animais, sentir vibrações coisas assim e não poderia usar isso para sair, uma invasão de animais chamaria atenção. Mais betas passaram ali e um olhava na direção delas, de forma descarada passou a mirar no rumo dos seios de Serena.

— Que atrevido! — reclamou Serena, indignada pela invasão de sua privacidade. — O que está a olhar?

Nada foi respondido, o sangue da Rainha ferveu, como pode a desrespeitar de tal maneira? Foi para perto do beta militar, mas foi puxada pelo ombro por Lunally que estava sorrindo de forma magnífica, está havia um semblante sinistro de alegria e insanidade.

—Olhe. — a medica passou a mão em frente o roto do robusto homem e ele nem piscou, nem andou para trás quando elas seguiram para frente dele. — Estamos camufladas. Invisíveis.

Serena sorriu também, mas logo se recompôs. O homem nem se quer sabia da presença delas. —Mãe natureza, não é?

Nunca foi tão fácil sair de Draken ou de qualquer outro lugar. Ambas muito satisfeitas já caminhavam para Mellory, que parecia cada vez mais carregada com um miasma obscuro, porem ao mesmo tempo era como se uma camada de luz as protegesse de toda a força negativa que poderia nelas penetrar.

Luna em seus pensamentos agradeceu a mãe natureza, Caius e todos os outros deuses envolvidos. As coisas estavam fácies e muito satisfatórias, não se esqueceu de pedir pela proteção dos alfas e de seu país.

Depois de algumas horas em que estavam na parte densa e não vigiada da floresta e certos animais pequenos apareceram por ali, o som do rio continental era audível e o sol mesmo que fraco pela estação não era notado, estava tudo escuro e alguns bichos emitiam sua própria luz, o que facilitava a caminhada, um pouco, porque a loira havia caído varias vezes entre o musgo e os galhos retorcidos. Serena até pensou em ajudá-la a ganhar resistência com treinos, mas preferiu não sugerir isso agora, um passo de cada vez, primeiro faria seu foco atual, achar os selvagens.

Um tempo depois notaram que estavam visíveis outra vez, mesmo antes elas podiam se ver, só o resto que não, então como notaram que estavam visíveis outra vez? O de sempre, um wedingo as viu e veio as buscar. Lunally com a felicidade de uma criança que ganhou um doce deu pulinhos de felicidade e claro, contou a situação para Serena antes de esta atacar seu amigo animal selvagem.

A Alfa de Premin estremeceu com o olhar vazio da criatura pairando sobre seu corpo. Ela nunca havia estado na presença de um ser tão curioso quanto aquele. Uma mistura de espanto e admiração envolvia sua mente, fazendo com que sentisse arrebatada. Uma grande interrogação pairou em sua face.

— Como sei que posso confiar nele? – Sussurrou para Luna, que riu um pouco da desconfiança medrosa de Serena.

— Ele não vai nos fazer mal, já disse. – A jovem loira explicou tocando carinhosamente a pele do wendigo.

— Ok. Mas, não diga que eu não avisei depois. – A morena revirou os olhos, incrédula em aceitar ajuda de uma besta mitológica. Com um aceno de mão, convidou Luna a acelerar o passo, estavam começando a adentrar na parte mais densa da floresta e logo, ficaria impossível caminhar em meio à escuridão absoluta da mata. A Alfa de Golty chamou também a criatura para acompanhá-las, o ser soltou um granido em consentimento.

Serena observava atenta cada movimento suspeito que ressonava das moitas e copas das árvores altos e tortuosas de Mellory. Suspirou algumas vezes ao lembrar que estava mentindo para Miguel, ele ficaria decepcionado. Roçou com os dedos o colar que recebera de seu marido, a culpa recaindo aos poucos sobre seus ombros. Onde ela havia se metido? Mas, se não ela, quem guiaria sua amiga naquelas terras dominadas pelo mistério? Ciganos, bárbaros, selvagens, nem mesmo o mais forte dos guerreiros pode lutar com eles sem conhece-los, são mais astutos do que aparentam ser. Além disso, mesmo sendo considerada uma figura influente naquele santuário, os poderes de Serena eram limitados. Contudo, ela desejava mais. Com mais aliados, ela poderia apoderar- se novamente de seu trono no Reino do Ouro.

— Vamos armar acampamento aqui. – Disse, fazendo com que Luna e o wendingo parassem. – Estamos longe o suficiente das fronteiras de Draken, mas perto demais do perigo iminente da noite. Iremos esperar o amanhecer e prosseguiremos, tudo bem?

— Parece o mais prudente a se fazer. – A Alfa de Golty concordou. — Apenas para o saber geral, como iremos acampar sem nenhum equipamento?

Serena pensou por um tempo. Era uma pergunta interessante a ser fazer. Uma ideia surgiu em sua mente. – Conheço alguém que pode nos ajudar. – Constatou sorridente. – E acho que sua casa está bem próxima daqui. – Puxou Luna pelo braço e continuou arrastando-a para o interior da vegetação densa. Pararam em certo ponto e Serena apontou para o céu. Pequenas luzes brilhantes reluziam no horizonte e com pequenas ondulações, indicavam um caminho atrativo.

— Para onde estamos indo? – Perguntou a loira animada, sempre insana.

— Visitar uma amiga. Solar, a Princesa dos Iluminados. – A preminiana respondeu sorridente, tomando a frente na trilha. – Os seres mais adoráveis e amáveis que já conheci. Tenho certeza que adorarão você.

Prosseguiram a passos largos pela estrada reluzente. O frio manso, mas cortante, começava a surgir das profundezas da floresta, como um eco surdo das bestas noturnas. Serena estremeceu um pouco, mesmo mantendo a compostura, ir à Mellory sem a companhia de um deus protetor era muito mais inseguro e irresponsável. Ela sabia que a Mãe Natureza estava a favor delas, mas que nem sempre os olhos vigilantes do equilíbrio estão abertos para os viajantes.

Lunally cutucou as costas de Serena, indicando algo à frente. – O que é aquilo? – Indagou confusa. Ela enxergava apenas a imagem de um lampião borrado.

— Aquilo... – Serena sorriu e acenou. – É o nosso passe livre para um bom descanso.

*

Solar sempre foi um doce de pessoa. Um pouco mais alta dessa vez, seus cabelos ruivos também haviam crescido e quase roçavam o chão. Ela sorriu ao ver sua amiga se aproximar:

— Seja bem-vinda, Dama do Sol. — Cumprimentou respeitosa. Serena soltou um riso com a atitude exagerada da princesa.

— É um prazer vê-la novamente, Solar. — A Alfa de Premin a abraçou sorridente. — Esta é Lunally, a Alfa de Golty, espero que a recebam bem.

A Iluminada sorriu e estendeu a mão, que a goltyniana apertou entusiasmada, havia achado aquela garotinha, extremamente, fofa.

— Absolutamente! — Respondeu Solar a Serena. — A menina do cervo será muito bem tratada! — Ela parecia animada.

— Obrigada pela simpatia. — Lunally agradeceu.

— Mas... — Solar olhou por cima dos ombros das alfas. — Esse wedingo não poderá vir com vocês. Apesar de dócil, continua sendo uma criatura da noite. — Explicou, um pouco constrangida com a desfeita.

A besta grunhiu um pouco com o comentário da menina. Luna, prontamente, tratou de corrigir a situação:

— Não se preocupe, ele não virá conosco. Ele dorme nas sombras, mas nós precisamos de um banho. — Brincou a alfa, fazendo Solar rir. Despediu-se do wedingo e pediu, educadamente, que eles se encontrassem ao final do dia seguinte.

— Vamos, vamos! — Apressou Solar, puxando-as. — O portal não se mantêm aberto por muito tempo.

Então, as alfas com um pulo e um suspiro, adentraram naquele paraíso iluminado.

*

Luna estava perplexa, nunca estivera em um lugar tão mágico quanto aquele. O chão úmido jazia em lava, mas não a queimava sob hipótese alguma; no céu despontavam pássaros gigantescos, com penas foliadas de fogo e recobertas por um brilha que cegou a Alfa muitas vezes, até que se acostumasse. Serena e Solar caminhavam um pouco a frente, parecendo entusiasmadas com uma conversa aleatória. A loira não se lembrava de ver a preminiana tão sorridente há tempos. Perdeu-se em seus próprios pensamentos. Sabia que aquela viagem custaria um preço caro a ser pago. Hatori provavelmente não a perdoaria, mesmo que em sua insanidade, Luna cogitasse que não estivera nem um pouco errada desde que saíra de Draken. Ela estava ali por seu povo, sua herança maior e ninguém iria impedi-la de cumprir suas obrigações como alfa.

Além disso, aquela era uma boa oportunidade de conhecer novos lugares e culturas. Florestas sempre despertaram uma intensa curiosidade na goltyniana, a segurança demasiada de sua terra natal, muitas vezes sufocara seu espírito livre, aventureiro. Serena olhou por cima de seu próprio ombro para medir a distância entre ela e Luna, constatou que sua amiga estava um tanto pensativa. Bem, ela também não podia estar diferente. Escolhas sempre levam a consequências. Sejam elas boas ou ruins. Mas a morena se solidarizou um pouco com a situação de Luna. Às vezes, só às vezes, ser uma bastarda, sem um reino fixo, era um fardo a menos.

Serena estava tão concentrada em seus devaneios que nem percebeu a parada de Solar. A ruiva esperou que Luna se aproximasse mais para começar a explicar:

— Poderão passar a noite aqui. – Apontou para uma casa, com um formato peculiar, a semelhança de um cogumelo. – Amanhã lhes mostrarei algo interessante, ao meu ver. Se precisarem de algo mais tarde, me chamem. – Informou bocejando ao final. A pequenina também parecia cansada. – Boa noite. – Disse por fim e partiu em meio as faíscas vermelhas.

— Garota adorável esta! – Exclamou Lunally também um pouco sonolenta.

— Só você, Luna! – Serena riu. Abrindo a porta, pediu: — Entre, precisamos descansar.

A Alfa de Golty adentrou a pequena casa sem pestanejar. Suas energias foram exauridas pela viagem, assim, como provavelmente, as de sua amiga. Após um banho relaxante, adormeceram. Um sono brando e sem sonhos, mas repleto de preocupações.