Māyā
9 Epílogo
Notas iniciais
— Ei, Kanon! Tá acordado?
Ele estava, Saga sabia. Então entrou, pé ante pé, guiado pela luz fraca da luminária no criado-mudo ao lado da cama do irmão.
A cabeça de Kanon se mexeu dentro da coberta, e ele abriu imediatamente o espaço que cabia a Saga na sua cama.
— O que é que você tá fazendo? – Saga entrou debaixo do edredom do irmão, protegendo-se do frio leve do inverno costeiro junto ao calor da cama dele.
— Ah, estou lendo um livro.
— "Histórias de deuses e heróis"? De novo mitologia grega?
— Você gosta de arqueologia, eu gosto de mitologia, cada macaco no seu galho. – Kanon retrucou, divertido; e Saga percebeu-o orgulhar-se de sua risada leve.
— E qual é a história da vez?
— Os Dióscuros – Kanon respondeu, e lhe mostrou uma figura da constelação de Gêmeos. – Cástor e Póllux. Conhece essa?
— Não. – Saga mentiu. – Conta pra mim?
Kanon sorriu, mostrando os dentes de forma vitoriosa. Saga sabia que ele adorava bancar o esperto e contar histórias que ninguém mais conhecia.
Apoiou a cabeça no travesseiro do irmão enquanto ouvia Kanon começar a narrativa da história dos filhos do Rei de Esparta. Saga gostava de ouvir voz dele e ver os lábios dele se mexendo enquanto ele lia; isso o fazia se sentir tão importante...
Completo.

...
— Não pensei que ia te encontrar aqui. – Saga abriu os olhos lentamente quando Aiolos se sentou ao seu lado, além da cerca que isolava o antigo mirante da falésia. – Muito menos bebendo.
— Não tô tomando mais muita coisa além de remédio pra dormir agora. — Deu de ombros, tomando mais um gole da bebida.
— Mas você...
— Hoje eu não vou tomar nada, porque cê sabe que eu não vou dormir. – Num meneio de mãos, Saga ofereceu a garrafa. – E nem você.
Aiolos ficou calado, aceitando a garrafa que ele lhe passou.
— Cadê o Olia?
— Bom... – Aiolos tomou um gole do uísque. — Hoje é o dia que ele some, sabe como é.
Saga concordou, calado. Ele e Aiolos estavam ali por algo que Aiolia não saberia entender, e não poderia compartilhar. Talvez fosse melhor assim.
Ele sentiu o olhar do outro sobre si. Talvez se lembrando daquela festa de Natal, talvez imaginando como as coisas poderiam ter sido e não foram. Como ele mesmo estivera fazendo, desde que chegara ali para ver o pôr-do-sol.
Os olhos de Aiolos nunca lhe pareceram assim, verdes.
Não o mesmo verde dos olhos de Kanon, que eram os seus, um verde claro, cor de mar. Na verdade, nunca definira os olhos de Aiolos como verdes – sempre achou que estavam para um tom de musgo acinzentado, ou acastanhado, sempre mais escuros. Mas hoje estavam verdes, talvez fosse a luz do ocaso. Ou uma ocasião especial, vai saber – não importava.
— Não te doía ver o quanto eu me pareço com ele? – Saga perguntou, numa voz quieta.
— Engraçado, eu nunca achei. Não fisicamente, claro, mas ele sempre foi muito diferente de você. – Agora Aiolos olhava o mar, os cachos curtos jogados no rosto pelo vento do litoral. – O cabelo era um pouquinho mais claro, sempre mais desajeitado. Ele não era tão vaidoso como você, nunca foi. – Um sorriso leve surgiu no rosto do outro, que ele imitou mais pela memória que compartilhavam do que para parecer sociável enquanto seus olhos também se perdiam no mar. – Mas ele nunca deixou de ser bonito por isso.
Saga meneou a cabeça, concordando.
— Mas às vezes... Às vezes eu olhava pra você pra tentar ver ele, sabe? Como ele ficaria adulto como nós estamos agora.
— Era uma tortura me olhar no espelho. – Saga respondeu, quieto. – Eu não queria lembrar, eu... Eu não queria me lembrar dele, mas a merda é que eu nunca consegui esquecer. E perdoar, me perdoar.
— E hoje, você perdoa?
Saga baixou a cabeça, recebendo a garrafa junto com a pergunta.

— Hoje eu só queria poder ver ele de novo, só isso.
— E dizer o quê?
— Não sei.
Ficaram os dois em silêncio. Aiolos talvez pensando que, se pudesse, diria a ele o quanto o amou. Com palavras dessa vez, ou em silêncio como sempre fizera antes. E que cumpriu à risca o que ele lhe pedira.
E Saga... Diria a ele, talvez, que o amou. O quanto o amou. Pela primeira vez.
— Um dia, talvez...
— Um dia, talvez. – Saga ecoou Aiolos.
De novo o silêncio, e a mão de Aiolos sobre a sua.
— Feliz aniversário. – O primo lhe deu um abraço desajeitado, e manteve o braço apoiado no chão logo atrás das suas costas.
— 'Brigado. – Saga apoiou a cabeça no ombro dele, ambos ainda olhando para o mar.
Algum tempo depois, levantaram-se os dois, um ajudando o outro. Saga deu um passo adiante, e arremessou a garrafa falésia abaixo, em direção ao mar.
— Ano que vem... A gente volta? – Aiolos não era de fazer muitos planos, Saga bem sabia o quanto ele andara ocupado vivendo a precariedade de cada dia tentando mantê-lo sob controle.
Mas não seria mais necessário.
Saga sorriu; triste como todos os seus sorrisos seriam agora que ele sabia o preço que pagara para abandonar a fantasia. Mas ele sabia que agora seria capaz de manter seus dois pés na realidade.
Agora ele já podia planejar, ambos podiam.
— Ano que vem a gente volta.
OOO
Human Being, 07/01/2015
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