Notas iniciais
"Agora está tão longe Ver a linha do horizonte me distrai Dos nossos planos é que tenho mais saudade Quando olhávamos juntos na mesma direção..." Vento no Litoral – Legião Urbana

— Ei, Kanon! Tá acordado?

Ele estava, Saga sabia. Então entrou, pé ante pé, guiado pela luz fraca da luminária no criado-mudo ao lado da cama do irmão.

A cabeça de Kanon se mexeu dentro da coberta, e ele abriu imediatamente o espaço que cabia a Saga na sua cama.

— O que é que você tá fazendo? – Saga entrou debaixo do edredom do irmão, protegendo-se do frio leve do inverno costeiro junto ao calor da cama dele.

— Ah, estou lendo um livro.

— "Histórias de deuses e heróis"? De novo mitologia grega?

— Você gosta de arqueologia, eu gosto de mitologia, cada macaco no seu galho. – Kanon retrucou, divertido; e Saga percebeu-o orgulhar-se de sua risada leve.

— E qual é a história da vez?

— Os Dióscuros – Kanon respondeu, e lhe mostrou uma figura da constelação de Gêmeos. – Cástor e Póllux. Conhece essa?

— Não. – Saga mentiu. – Conta pra mim?

Kanon sorriu, mostrando os dentes de forma vitoriosa. Saga sabia que ele adorava bancar o esperto e contar histórias que ninguém mais conhecia.

Apoiou a cabeça no travesseiro do irmão enquanto ouvia Kanon começar a narrativa da história dos filhos do Rei de Esparta. Saga gostava de ouvir voz dele e ver os lábios dele se mexendo enquanto ele lia; isso o fazia se sentir tão importante...

Completo.

...

— Não pensei que ia te encontrar aqui. – Saga abriu os olhos lentamente quando Aiolos se sentou ao seu lado, além da cerca que isolava o antigo mirante da falésia. – Muito menos bebendo.

— Não tô tomando mais muita coisa além de remédio pra dormir agora. — Deu de ombros, tomando mais um gole da bebida.

— Mas você...

— Hoje eu não vou tomar nada, porque cê sabe que eu não vou dormir. – Num meneio de mãos, Saga ofereceu a garrafa. – E nem você.

Aiolos ficou calado, aceitando a garrafa que ele lhe passou.

— Cadê o Olia?

— Bom... – Aiolos tomou um gole do uísque. — Hoje é o dia que ele some, sabe como é.

Saga concordou, calado. Ele e Aiolos estavam ali por algo que Aiolia não saberia entender, e não poderia compartilhar. Talvez fosse melhor assim.

Ele sentiu o olhar do outro sobre si. Talvez se lembrando daquela festa de Natal, talvez imaginando como as coisas poderiam ter sido e não foram. Como ele mesmo estivera fazendo, desde que chegara ali para ver o pôr-do-sol.

Os olhos de Aiolos nunca lhe pareceram assim, verdes.

Não o mesmo verde dos olhos de Kanon, que eram os seus, um verde claro, cor de mar. Na verdade, nunca definira os olhos de Aiolos como verdes – sempre achou que estavam para um tom de musgo acinzentado, ou acastanhado, sempre mais escuros. Mas hoje estavam verdes, talvez fosse a luz do ocaso. Ou uma ocasião especial, vai saber – não importava.

— Não te doía ver o quanto eu me pareço com ele? – Saga perguntou, numa voz quieta.

— Engraçado, eu nunca achei. Não fisicamente, claro, mas ele sempre foi muito diferente de você. – Agora Aiolos olhava o mar, os cachos curtos jogados no rosto pelo vento do litoral. – O cabelo era um pouquinho mais claro, sempre mais desajeitado. Ele não era tão vaidoso como você, nunca foi. – Um sorriso leve surgiu no rosto do outro, que ele imitou mais pela memória que compartilhavam do que para parecer sociável enquanto seus olhos também se perdiam no mar. – Mas ele nunca deixou de ser bonito por isso.

Saga meneou a cabeça, concordando.

— Mas às vezes... Às vezes eu olhava pra você pra tentar ver ele, sabe? Como ele ficaria adulto como nós estamos agora.

— Era uma tortura me olhar no espelho. – Saga respondeu, quieto. – Eu não queria lembrar, eu... Eu não queria me lembrar dele, mas a merda é que eu nunca consegui esquecer. E perdoar, me perdoar.

— E hoje, você perdoa?

Saga baixou a cabeça, recebendo a garrafa junto com a pergunta.

— Hoje eu só queria poder ver ele de novo, só isso.

— E dizer o quê?

— Não sei.

Ficaram os dois em silêncio. Aiolos talvez pensando que, se pudesse, diria a ele o quanto o amou. Com palavras dessa vez, ou em silêncio como sempre fizera antes. E que cumpriu à risca o que ele lhe pedira.

E Saga... Diria a ele, talvez, que o amou. O quanto o amou. Pela primeira vez.

— Um dia, talvez...

— Um dia, talvez. – Saga ecoou Aiolos.

De novo o silêncio, e a mão de Aiolos sobre a sua.

— Feliz aniversário. – O primo lhe deu um abraço desajeitado, e manteve o braço apoiado no chão logo atrás das suas costas.

— 'Brigado. – Saga apoiou a cabeça no ombro dele, ambos ainda olhando para o mar.

Algum tempo depois, levantaram-se os dois, um ajudando o outro. Saga deu um passo adiante, e arremessou a garrafa falésia abaixo, em direção ao mar.

— Ano que vem... A gente volta? – Aiolos não era de fazer muitos planos, Saga bem sabia o quanto ele andara ocupado vivendo a precariedade de cada dia tentando mantê-lo sob controle.

Mas não seria mais necessário.

Saga sorriu; triste como todos os seus sorrisos seriam agora que ele sabia o preço que pagara para abandonar a fantasia. Mas ele sabia que agora seria capaz de manter seus dois pés na realidade.

Agora ele já podia planejar, ambos podiam.

— Ano que vem a gente volta.

OOO

Human Being, 07/01/2015

Notas finais
Bom, pessoal, é isso - Maya está oficialmente encerrada. É, sem dúvida, a história mais triste que eu já escrevi sobre Saint Seiya - e eu não vou dizer que eu mesma não senti a garganta fechada em vários momentos em que eu a escrevia. E aproveitando o espaço, eu gostaria de agradecer à Lune Kuruta, à Yosugay e todos os leitores que acompanharam a história mesmo sem deixar reviews. Foi uma história bem lida, e bem recebida - e eu só tenho a agradecer. Beijos e, pra não perder o hábito - Stay tuned. PS.: Galera, não se esqueçam que a fic está no FFnet, assim como no tumblr também. Quem está pelo facebook já deve ter visto, porque rola um spamzinho básico por parte de minha pessoa :V
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!