Notas iniciais
Música composta por Kyan Derick.

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Minha mente era apenas o vazio.

O vazio e as luzes, que eu percebia agora, e que incomodavam meus olhos. Havia também uma crise de ansiedade e um barulho repetitivo de ponteiro absurdamente alto, que entrava em minha cabeça e martelava.

Tic tac. Tic tac. Tic...

Havia então o vazio, as luzes, a crise de ansiedade, o ponteiro.

Havia o final de uma linha de baixo distorcida que se prolongava, como se uma musica tivesse terminado.

Havia também uma gritaria generalizada. Não parecia medo ou sofrimento, mas gritos de amor, de devoção.

Forcei-me a piscar os olhos repetidamente, tentando enxergar novamente, e as coisas começaram a voltar a minha mente.

À minha frente, o público. Milhares de pessoas espremidas naquele ambiente claustrofóbico, suando, gritando e chorando, mas em êxtase.
Uma entrega verdadeira.

Não havia mais vazio, as luzes ainda brilhavam fortemente sobre mim. A linha do baixo finalmente cessou, o relógio ficava inaudível por baixo dos gritos dos fãs. A ansiedade gritava na minha cabeça. A música acabara.

Eu precisava falar alguma coisa para entreter o público.

Talvez eu tenha errado na dosagem do doce. Entrei em transe no fim da música e me perdi no tempo. Sorte que a eternidade que se passou na minha cabeça durou poucos segundos fora dela. Vantagens do LSD: o tempo de passa de forma diferente na sua percepção. Desvantagens: você viaja muito.

E mano, eu estava viajando muito. Infinitas vezes mais do que quando começamos. Eu precisava continuar fazendo o que eu fazia de melhor, que não era só me apresentar. A droga me ajudava a dar show, e era isso que eu vinha fazendo, entre caleidoscópios de cor refletidos em todas as luzes e um prazer estranhamente sexual quando eu ouvia um riff especialmente bom.

Eu nascera para aquilo.

Olhei para o lado, ignorando o público que gritava o nome da banda, e vi meu irmão de vida tragando um cigarro, com sua guitarra displicentemente presa a seu corpo. Sua camisa já estava grudada no corpo, energia pura emanando de sua alma. Eu só desejava amor por ele.

Virei-me para meu irmão de sangue, o baixista. Era só um ano mais velho que eu, mas parecia ter vivido uma geração inteira antes, tamanha sua sabedoria. Conhecia todas as partes de cada musica nossa, em todos os instrumentos. Era um monstro, musicalmente falando. Como pessoa, era lindo, parecia comigo, mas quem se importa com o baixista, não é?

O baterista era um selvagem. Vindo direto da influencia dos metaleiros de antigamente, sua camisa era rasgada, seu bumbo era duplo e seu ódio era crescente. Nem parecia que praticava yoga e era vegano.

Olhei para o público de novo.

Pessoas com as mãos esticadas, tentando encostar na gente. Joguei uma palheta para a plateia, que se estapeou até uma garota de não mais de 15 anos conseguir emergir do monte vitoriosa como uma guerreira, o troféu em mãos. Apontei para ela e pisquei, congratulando-a pela conquista e ela, que ja tinha a maquiagem borrada pelo choro, sorriu, gritou e chorou, plena.

Seu ídolo há havia notado, sua vida tinha sentido.

—New York, vocês estão sentindo?

Comecei a faltar, quase sendo soterrado pela avalanche de gritos advindos da resposta. Eu queria mais.

—Vocês estão sentindo?

Falei mais alto, revendo ainda mais gritos em resposta. Era impossível não sentir.

—Obrigado por estarem aqui essa noite. Ainda temos mais algumas musicas preparadas pra tocar, vocês querem ouvir?

Mais gritos, mas eu já sabia que eles ainda podiam ser mais altos.

—Vocês querem ouvir?!

A gritaria foi intensa e perdurou durante alguns momentos que para mim foram horas. Vi um homem com cabeça de coruja, uma cascavel humanoide e um cachorro falante nesse meio tempo. Tirei a camisa. O porque? Não sei. Eu só queria sentir aquela energia. Aproveitar a brisa, mandar minha mensagem. A verdade é que ser amado é bom demais, e ali, para aquelas pessoas, eu era um deus. Mas eu estava lá com elas, eu respirava com elas. Eu sofria com elas.

Eu não era diferente delas, apenas conseguia mandar uma mensagem. Fazê-las entender seus próprios sentimentos. Um emissário da dor e da libertação.
E eu sabia fazer o meu papel.

—Essa daqui vai para todos aqueles que já perderam alguém que amavam, mas que sua presença vai ser sempre lembrada, assim como seu amor.

Houve mais uma rodada de gritaria enquanto meu roadie me trazia um violão acústico, que dava o início à música.

Dedilhei as primeiras notas, a emoção me bateu como um soco na cara, quase me derrubando literalmente. Por fora, porém, eu era uma rocha.
Encarei o fim do salão, a parede de caixas de som. Meu público me aclamava, mas eu não podia olhar para eles agora. Na minha cabeça só havia espaço pra uma pesssoa, assim como na de muitos ali. E essa pessoa era única e especial para cada um dos presentes.

Sorri, deixando que a energia do pensamento de cada um deles se canalizasse em mim, fazendo de mim o receptáculo, o mensageiro. Aquele que dizia o que eles queriam dizer mas não sabiam como, até eu colocar em palavras numa música. A energia fluiu. E eu cantei.

“How am I supposed to feel
How do I know this is real
How does my life should be
If my vision is so unclear”

Minha visão estava embaçada, talvez fosse a emoção ou o Lsd. Talvez os dois.

“Can we close the gap between us?
Can you be the light in my way
Can we cross the bridge that connects us
Can you help me heal my pain”

Ela se fora há muito. Essa musica esteve em nosso primeiro álbum, e estourou, mostrou um lado mais emotivo da banda, menos agressivo. Mostrou que eu podia sentir.

Então por que não parava de doer? Por que ela não ajudava a me curar? Por que só quando eu cantava-a é que eu conseguia me sentir próximo dela novamente?

“Where are you now, can you hear me?
Are you afraid ‘cause I am
Are the angels calling you home?
Give me a sign I’ll find you again”

Cadê você? Você me escuta? Estou com medo. Me de um sinal. Me deixe te ver, te achar. Por que você não está mais aqui?

Meus pensamentos voavam rápido, a emoção tomava conta e eu não conseguia me concentrar. Todos os rostos eram ela. E eu queria amar cada um deles de maneira única e especial. Fechei os olhos, fazendo uma lágrima pingar e subi o tom, cantando a plenos pulmões

“And I need you, I love you
I lost you”

O público cantou junto comigo, cada um com seus próprios fantasmas, seus próprios amores e suas próprias dores, mas unidos na mesma emoção.

Saudade.

“Your memory will always remain
Like a portrait tatted with pain
If I could bring the past to this day
I’d never let you slip away (again)”

Como uma tatuagem, eu sabia que ela sempre estaria presente. A dor que veio com ela, também. Mesmo cicatrizado, acho que sempre vai doer, e por mais masoquista que isso pareça, a dor pelo menos fazia com que ela continuasse presente.

Abri o olho, ainda observando-a pelo caleidoscópio de luzes que o holofote centrado em mim fazia, refletida em cada uma das pessoas ali presentes. Cada um, a sua maneira, entregava seu coração à mim naquele momento. Eu era sua dor, sua resposta, seu conforto. Do mesmo jeito que eu a via refletida neles, eles viam suas lembranças em mim.

Que foda!

O laço daqueles que sofrem juntos dificilmente é quebrado.

“Can we close the gap between us?
Can we be together again?
Can we cross the bridge that connects us?
Can I bring life back to your veins?”

Não, eu não posso. Ponto. Eu queria, mas não, ela não vai voltar.

Mas eu a traria, se pudesse.

“You’re always in my mind
Always inside my dreams
I just needed you to know
That I was just too much of a fool to admit
But I always cared for it”

Se eu pudesse ter me dado um conselho, eu teria dito pra que eu pulasse do avião. Que não deixasse o medo me vencer. Teria dito que a amava.

Cantei o refrão novamente, junto com o coro, que cantava mais alto que eu. A banda atrás de mim tocava magistralmente, sendo o acompanhamento perfeito pro banquete de emoções servido ali.

“I need you, I love you,
I lost you”

Cantei mais uma vez, admitindo minha derrota. Que perdi. Que ela não iria mais voltar.

Eu preciso de você.

Eu te amo.

Eu te perdi.

O solo veio e derreteu a cabeça dos presentes, eu incluso. Nenhuma de nossas músicas se completava tão bem, letra e melodia.

O refrão veio de novo, terminando com o que quer que restasse de inibição. Todas as milhares de pessoas ali confiavam na banda. Confiavam em mim. Todas compartilharam um pedaço do paraíso com seus entes queridos e conosco.

“I need you, I love you”

E, como num orgasmo coletivo, sussurramos juntos a última frase, cantando mais uma vez. Omiti a última frase. Já não estava mais falando com os mortos, mas com os vivos dali.

—Eu preciso de vocês!Eu amo vocês! Obrigado por existirem!

Consegui falar sob a chuva de aplausos e gritos e lágrimas. Eu amava estar ali. Amava cada um daqueles seres. Eles me fizeram quem eu sou, e tudo o que eu podia fazer para retribuir era tentar fazê-los felizes.

Fechei os olhos, absorvendo aquela cacofonia de sons e vozes e instrumentos. Visualizei-a novamente, sorrindo para mim, me dizendo que eu havia feito um belo trabalho.

Senti o suor escorrendo por meus cabelos e minha roupa ensopada. Me sentia realizado. Era o ponto alto do show. Nós havíamos feito mais uma vez. O amor era palpável no ambiente.

Como um messias, me atirei do palco, olhos fechados, num salto de fé.

Eles estavam lá para me pegar, como eu sabia que estariam. Como eu sabia que sempre estariam.

Porque eu estava lá para eles também.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!