Mãe Solteira

9 Surpresas e Coincidências de Dia das Mães


Notas iniciais
Primeiramente: Feliz dia Das Mães! (atrasado, porque eu só consegui atualizar faltando alguns segundos pra meia-noite). Segundamente: este capítulo TODINHO é um especial. Ele se passa em um período distante onde reis e dragões guerreavam por... não, não tão distante assim, kkks. Ele se passa quando Adrien e Félix eram apenas duas crianças, quando Nathalie não tinha completado nem mesmo um ano trabalhando para os Agreste. Espero que vocês gostem e que façam muitas teorias!

Em uma noite de tempestade, em que os relâmpagos lançavam sua claridade pelos vidros da janela e geravam sombras monstruosas, apenas dois cômodos da grande mansão Agreste continuavam com suas luzes acesas: a entrada, onde Emilie tentava se distrair com um livro de contos; e o ateliê, onde Gabriel e Nathalie continuavam seus respectivos trabalhos.

— Senhor... — Nathalie chamou pelo superior o mais baixo possível, não queria deixa-lo irritado, ou melhor, mais irritado do que o normal.

— O que você quer? — A voz dele soou ranzinza como sempre.

— Já passa das dez, eu preciso ir para casa.

— Você ganha por horas extras — foi tudo o que ele se limitou a responder.

Ambos voltaram a trabalhar sem falar absolutamente nada, com apenas o som da tempestade e dos raios ecoando pelo ambiente. Alguns minutos se passaram e a porta foi suavemente aberta, Emilie entrou e encarou os dois:

— Já passa das dez, Nathalie. Você deveria ir para casa antes que o metrô pare de funcionar por causa da chuva...

— Querida, a Nathalie está ocupada — Gabriel tentou controlar o tom claramente irritado.

— Meu amor, a Nathalie tem a vida dela! Ela com certeza não é uma pessoa viciada em trabalho como você. — Emilie não tentou mascarar o tom cítrico das palavras.

— A Nathalie, quer dizer, eu gostaria realmente de ir para casa agora. Posso até mesmo terminar o que estou fazendo, mas se eu não for logo...

— Se quer tanto assim ir, então vá! Mas não faça questão alguma de voltar amanhã pela manhã! — O homem se levantou, apoiando as mãos na mesa — Eu sabia que esse tipo de trabalho não era para uma qualquer, eu preciso de alguém com motivação e não mais uma das suas amiguinhas cabeça de vento, Emilie!

— Nathalie é perfeita para o trabalho, você que é um péssimo chefe!

— Por favor! — A assistente interrompeu os dois — Eu preciso ir, mas volto segunda-feira no horário de sempre, pronta para terminar todo o trabalho e dentro do prazo. Gostaria que não brigassem por...

— Quem você pensa que é para me pedir algo, assistente!? — O Agreste voltou a se sentar.

— Vamos, Nathalie... — Emilie a puxou por uma das mãos — Deixa esse artista frustrado sozinho que é melhor.

Um trovão impediu que um murmúrio de Gabriel fosse ouvido pelas mulheres enquanto elas saiam do ateliê. Não era novidade para nenhuma das duas que todo aquele mal humor era devido ao prazo para um dos desfiles estar se esgotando, mas mesmo assim a Agreste não conseguia entender o motivo de tanta irritação com a assistente.

Nathalie era educada, inteligente, centrada e está sempre um passo à frente de tudo. Diferente de todos os outros candidatos à vaga, ela tinha conseguido se manter por meses, lidando perfeitamente bem com a pressão e o chefe ranzinza. Entretanto, Gabriel continuava tratando ela como uma desconhecida, um perigo em potencial.

— Obrigada por me tirar de lá — a assistente sussurrou quando soltou a mão da amiga.

— Quer que eu peça ao motorista para te deixar em casa? — A loira segurou-a mais uma vez, mas agora com um abraço — Está chovendo tanto e você mora tão longe...

— Não precisa, eu vou ficar bem — um tanto sem jeito, Nathalie retribuiu ao abraço.

Depois da despedida terna, Emilie observou a amiga seguir pela rua enfrentando a tempestade até que a perdeu de vista. Ela suspirou pesadamente, ponderando se voltaria para a sua leitura em uma das poltronas ou se exigiria explicações do marido sobre aquele comportamento.

A curiosidade latente fez com que ela entrasse no ateliê sem cerimônia alguma. Gabriel fingiu ignora-la até que ela estivesse finalmente frente a ele, sentada onde minutos atrás sua assistente estava.

— O que quer? — Ele nem mesmo tirou os olhos dos desenhos para falar com a esposa.

— Conversar.

— Sério? — O homem suspirou — Emilie, o desfile é em alguns dias, não dá para esperar?

— Não, não dá para esperar! — A voz dela não parecia irritada, era algo mais parecido com desespero e necessidade — Gabriel, nos conhecemos desde sempre! Eu sei que você é uma pessoa difícil, mas você é um monstro com a Nathalie! — Em resposta, o marido revirou os olhos. Sentindo que ao menos ele estava prestando atenção no que ela falava, ela continuou: — Por favor, dá uma chance de verdade a ela.

— Não!

— Por que não!?

— Porque ela é uma pessoa perigosa, manipuladora e provavelmente só está esperando eu virar as costas para arruinar a minha vida! Sabemos como esse tipo de gente faz, Emilie! — Gabriel suspirou — Eu sei que você adora ela, mas o que garante que ela não se aproximou de você por interesse?

— Eu quem me aproximei dela, Gabriel...

— E o que garante que ela não manipulou tudo para você pensar assim?

— Chega, você está ficando neurótico!

— Ela se livrou da Audrey em menos de vinte minutos e o neurótico sou eu!? Essa mulher consegue fazer absolutamente tudo o que eu peço, tudo dentro do prazo! Ela é a única até agora que não cometeu erro nenhum, sabe quanto trabalho dá manter ela ocupada o tempo todo!?

— Ah, Gabriel, eu não acredito! — A mulher se levantou e começou a zanzar pelo ateliê — Você está se ouvindo!? Está louco! Louco!

— Quanto mais ocupada ela estiver, menos tempo ela tem para pensar em algum jeito de nos apunhalar pelas costas! — Ele também se levantou — Querida, você não está vendo? É tudo um plano dessa degenerada: ela se faz de santa, nós dois brigamos e ela vai se aproveitar da situação para...

— Para quê!? Gabriel, se não confia nela, faça um teste ou algo do tipo, mas para de ficar fantasiando tanto assim!

— Emilie...

— A conversa termina agora! — A loira cruzou os braços, encarando o marido de uma maneira irritada.

— Tá, tá... — o Agreste apertou as têmporas — E como eu posso testar ela?

— Você é criativo o suficiente para imaginar algum jeito.

— Mas querida...

— Eu já disse que a conversa terminou, Gabriel Agreste — ela observou o marido voltar derrotado para a bancada de trabalho — Já está tarde, deveria ir dormir.

— Logo eu vou.

— Não demora, tá?

— Está bem...

— Boa noite?

— Boa noite, amor da minha vida — Gabriel suspirou — Agora me deixa trabalhar em paz, querida.

— Grosso! — Emilie o acusou, batendo a porta atrás de si quando saiu.

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As últimas coisas que Emilie conseguiu se lembrar da noite anterior é de ouvir algumas ligações do marido antes que os remédios para dormir fizessem efeito. Pela manhã, ela julgou que tudo já estivesse resolvido: Gabriel até mesmo estava tomando o café-da-manhã no salão principal com o filho no colo.

— Qual o motivo especial para eu ver os meus dois amores juntos tão cedo? — A mulher disse brincalhona, fazendo questão de se sentar ao lado deles.

— Papai disse que vai ser fácil! — Adrien respondeu animado.

— Frequente, filho — o mais velho corrigiu.

— Mesmo? De verdade? Sem termos que marcar hora? — Emilie continuou brincando e, ao receber um aceno positivo dos dois ao lado dela, ela continuou: — E a que devo essa honra?

— Estamos falidos — Gabriel respondeu como se não fosse nada.

— Falidos!? — A mulher arregalou os olhos, incrédula.

— Falidos! — Adrien ergueu as mãos, entendendo aquilo como algo bom.

— Por que estaríamos falidos!? O que aconteceu!? Gabriel, dá para me explicar logo isso!? —Ela pedia e perguntava enquanto andava de um lado a outro.

— Filho, por que não vai brincar no seu quarto? — Pacientemente, o homem colocou o filho no chão e se levantou também. Quando Adrien já estava longe o suficiente, ele agarrou a esposa pelos ombros e a olhou da forma mais séria possível — Estamos falidos e a culpa é sua!

— Minha!? Como a culpa poderia ser minha, Gabriel!? — Ela agarrou os ombros do marido.

— Me mandou testar aquela ladra!

— Testar! Não nos falir!

— Deu no mesmo, no final!

— Querido... Gabriel, amor... — a loira já tinha algumas lagrimas nos olhos — o que você fez? O que infernos você conseguiu fazer para nos falir!?

— Criei uma conta conjunta com ela e transferi metade do que tínhamos na poupança, como se fosse um engano, só para testar a honestidade dela. Também coloquei o salário dela com alguns zeros a mais... — as mãos dele desceram dos ombros até a cintura da esposa, em um abraço — Até agora ela não chegou, não atende minhas ligações e pegou todo o dinheiro. Estamos falidos...

— Eu não acredito que você fez essa idiotice toda! Era só deixar a carteira perto dela estava tudo resolvido! — Ela também o abraçou, escondendo o rosto — Eu não vou aguentar isso mais uma vez, eu não vou recomeçar tudo...

— Vamos dar um jeito, eu posso vender a mansão e...

— Vamos morar com os meus pais enquanto você tenta criar algo novo...

— Adrien vai entrar para a escola...

— Eu vou ter tempo para começar a trabalhar também...

E assim os dois continuaram a lista de passos que deveriam e queriam seguir para sair daquele buraco. Já tinham feito antes, poderiam fazer mais uma vez e com a vantagem de terem toda a experiência necessária. Quando já haviam esgotado todas as possíveis alternativas, Gabriel finalmente encerrou os tópicos:

— Em alguns anos já estaremos reestabelecidos, menos de uma década provavelmente.

Sabendo do quão doloroso aquela noticia estava sendo para Emilie, ele tentou ser um marido carinhoso e deu um leve beijo na testa dela. Os dois ainda estavam abraçados, o que era bom. Porém, a reação dela não poderia ser pior:

— Eu dei os melhores anos da minha vida para os Agreste e agora eu estou falida! — Ela começou a choramingar — Tudo porque você é um idiota exagerado e a Nathalie é uma boa filha da...!

— Ah! — Ele a interrompeu, como se ela acabasse de confessar a culpa — Então admite que se enganou com a sua amiga perfeita!? Admite que a Santa Nathalie na verdade é um demônio que arruinou as nossas vidas!

— Quer falar de amiga!? Vamos falar da sua amiguinha Audrey então!

— Emilie, ela está a léguas de Paris!

— Não importa! Para trair basta um pensamento!

— Então eu tenho um chifre nascendo na testa, porque com certeza os seus pensamentos enquanto contracenava com aqueles atores não eram nada puros!

— Papai é um unicórnio mágico? — Uma criança loira e extremamente inocente se meteu na conversa dos adultos. Adrien deveria ter obedecido ao pai e ido para o quarto, mas apesar de ser pequeno, ele já entendia que nunca era bom deixar dois adultos conversando sozinhos, principalmente quando gritavam.

Aquele comentário fora de contexto e principalmente adorável fez com que os pais dissipassem toda a raiva e voltassem a atenção inteiramente para ele. Em segundos ele já estava no colo do pai e tinha as bochechas acariciadas pela mãe.

— Não, eu não sou um unicórnio mágico — Gabriel respondeu ao filho com a voz sem repreensão, havia até mesmo certa graça.

— Nem brincando de faz de conta você pode ser um unicórnio mágico?

— Nem assim...

Como resposta, Adrien já estava com os olhos marejados e visivelmente arrasado. A vida tinha dado a ele a oportunidade de conhecer um animal mítico apenas para toma-la de volta.

— Podemos brincar de “arrumar as malas para ir visitar a vovó e o vovô”! — Emilie tentou animar o filho.

— Mas eu quero o unicórnio mágico! — A criança não conseguiu mais prender as lagrimas, estava frustrada: o que é uma visita à família em comparação à um unicórnio!?

— Compramos um unicórnio mágico na ida, filho... — mais uma vez, ela tentou acalma-lo.

— Promete? — Instantaneamente, o pequeno parou de chorar e encarou a mãe.

— Claro! Não é porque a compulsão obsessiva do seu pai em mostrar que a mania de perseguição dele está correta e o exagero com o qual ele pensa em tudo ter nos deixado FALIDOS que nós vamos parar de mimar você, filho...

Gabriel não tentou se defender, julgou que um olhar severo para a esposa já era mais do que o suficiente. Com Adrien mais calmo, era hora de começarem a fazer as malas: quanto antes colocassem a mansão à venda, melhores as chances de se livrar dos possíveis juros das dívidas com fornecedores, promotores e tantos outros associados a todos os desfiles programados que seriam cancelados e careceriam de indenização. Quanto antes saíssem de lá, menos doloroso seria depois.

— O que é observiva? — A criança loira perguntou curiosa sobre a palavra nova.

— Obsessiva, amor — Emilie o corrigiu.

— É o motivo da sua mãe tomar comprimidos, filho... — Gabriel complementou com graça, viperino como ele só.

— E exagero?

— É uma quantidade maior do que precisa, como a quantidade de marcadores que o seu pai tem: um verdadeiro exagero.

— Assim como a quantidade de vestidos da sua mãe: um exagero.

— E o que é compulsão? — Perguntou Adrien mais uma vez, achando divertida a brincadeira de aprender palavras novas.

— É uma ideia fixa, uma preocupação exagerada... — Emilie tentou explicar da melhor forma possível, mas nem mesmo ela entendia toda a extensão que a palavra poderia ter.

— É mais um dos motivos para a sua mãe tomar comprimidos, Adrien...

— Isso significa que compulsão é ruim? — A criança olhou preocupada para a mãe.

— Significa que sua mãe toma muitos remédios... — Gabriel tentou soar ameno, notando que suas piadas cítricas estavam atingindo a pessoa errada.

— Vou parar de tomar, estamos falidos... — Emilie ergueu os ombros, indiferente sobre aquilo até notar o quão sério era — Oh céus! Eu vou parar de tomar os meus comprimidos! Gabriel, eu vou ter que parar de ir nas consultas e vou ter que parar de tomar os calmantes! Como eu vou viver assim!? — mais uma vez naquela mesma manhã, Emilie estava prestes a colapsar.

— Seus pais tem uma casa no Sul, dizem que o interior é mais tranquilo, querida

— Mesmo? — Como num passe de mágicas ela já estava calma e se esforçando para pensar racionalmente: talvez o exagero em medicamentos pudesse ser substituído por uma vida mais natural e pacata.

— Mesmo — o marido confirmou enquanto colocava o filho no chão, finalmente em frente ao quarto dele — Também podemos trocar as suas jóias por alguns calmantes...

— Fique longe das minhas preciosas, Gabriel Agreste! — A loira ordenou, indo para o quarto e batendo a porta.

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Já era quase hora do almoço e a esperança de que Nathalie pudesse chegar já tinha se esgotado.

Adrien estava brincando no meio das flores, estava suficientemente distraído com os insetos para fazer mais perguntas. Emilie e Gabriel, exaustos, estavam sentados na escadaria, um abraçado ao outro e ambos com a derrota estampada na face. A qualquer momento o motorista iria chegar para leva-los de lá.

Depois de muitas brigas, culpa, choro e reconciliações, as malas estavam feitas e amontoadas na entrada da mansão. A esta altura, o Agreste já tinha dispensado os poucos funcionários que trabalhavam lá e procurado uma imobiliária para avaliar o imóvel, não tinham tempo a perder.

— Amor, será que ela só está testando você? — A loira encarou o marido.

— Querida, não é como se ela fosse chegar agora e...

Antes que o Agreste continuasse, o som metálico do portão sendo aberto fez com que ele se calasse. Emilie olhou atentamente, sentindo o coração disparar assim que reconheceu a pessoa que estava prestes a cruzar a entrada. Gabriel também ficou atônito, mas manteve as feições de indiferença.

— Que surpresa encontrar todos ao ar livre e... Abraçados? — Nathalie comentou olhando em volta, preferindo apenas ignorar as malas amontoadas do lado de fora e a proximidade incomum dos patrões.

— Sua desgraçada! Como você ousa fazer isso comigo! — O Agreste se levantou parecendo uma fera prestes a atacar a vítima, mas recuou quando a esposa se colocou entre eles.

— Eu sabia que você não iria me trair assim! — Emilie abraçou a amiga.

— Trair? Eu... — pega completamente desprevenida, a assistente apenas retribuiu ao abraço do melhor jeito que conseguiu e encarou o superior por cima do ombro de Emilie — Acredito que seja melhor termos uma conversa, senhor.

— Exatamente o que eu estava prestes a sugerir — ele concordou em um tom frio.

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Assim que entraram no ateliê, Nathalie colocou uma quantidade considerável de papéis em cima da bancada e não permitiu que o superior falasse algo antes que ela conseguisse explicar o motivo de ter se atrasado tanto:

— Acordei de manhã com o gerente do banco avisando sobre um possível erro em uma conta conjunta que o senhor exigiu ser criada na madrugada de hoje, achei melhor congelar tudo e pedir a transferência do dinheiro para a conta de origem, pode demorar até o processo ser realizado e constar no sistema. Eu tenho todos os comprovantes, caso queira checar por si mesmo. Aliás, a minha ida ao banco foi o que mais demorou... — a mulher espalhou alguns dos papéis, todos carimbados e assinados — Tive outra surpresa quando fui sacar o meu salário, mas imaginei o que poderia ser devido à fiz reserva em um ótimo restaurante, o que também levou uma boa porção do meu tempo, e encontrei um presente ótimo. Novamente: todos os comprovantes estão aqui, organizados, caso queira checar — finalmente, Nathalie respirou fundo antes de concluir sua explicação — E aqui... — ela estendeu um envelope rechonchudo — ... Esta é toda a quantia que sobrou. Só será possível depositar na segunda-feira, o horário de funcionamento encerrou por hoje, lamento.

— Então você não me roubou? — O homem ergueu uma das sobrancelhas.

— Eu deveria? — Ela perguntou um tanto chocada.

— O que demônios você achou que estava fazendo todo esse tempo?

— Comemoração de Dia das Mães? Não é isso?

— Hoje é Dia das Mães? — Por alguns segundos, os olhos opacos de Gabriel conseguiram transparecer parte de todo o pânico que ele estava sentindo. Imperceptível para uma pessoa normal, mas notável para Nathalie.

— Último domingo de maio, sim, Dia das Mães — ela suspirou, recolhendo os papéis — Algo errado, senhor?

— Emilie provavelmente também não se lembrou...

— O que é ótimo, porque o presente para ela ainda está na minha bolsa e... — Enquanto vasculhava a bolsa à procura do tal presente, Nathalie olhou de relance para o superior e foi mais do que o suficiente para ver o estado catatônico em que ele se encontrava — Senhor? Senhor Agreste, está se sentindo bem?

— Você é perfeita mesmo... — ele murmurou baixo, mais para si do que para qualquer outro ser vivo ouvir.

— ... Perdão?

— Nada. Não disse nada para você, Nathalie — a voz agora era livre de irritação, ou melhor, a desconfiança que o superior teimava em usar com ela — Fez reserva em qual restaurante?

— O preferido dela — a assistente respondeu enquanto tirava um embrulho da bolsa — E aqui está o presente: Madame Bovary, clássico, capa dura.

— Eu não vou dar um livro para a minha esposa, Nathalie! Ela merece jóias, perfumes, algo mais valioso do que um livro qualquer! — em parte, o jeito mesquinho de Gabriel se manifestou. Entretanto, estava longe de ser igual ao de sempre, parecia apenas uma queixa.

— Ela vai ficar mais feliz com o livro, principalmente depois de ter saído do grupo de leitura que ela tanto queria entrar — a assistente encarou o superior acusatoriamente, mas desviou o olhar para o embrulho mais uma vez — e ela vai gostar de ler durante a viagem.

— Viagem?

— Vão visitar os pais dela, não?

— E como você sabe disso!? — O homem se ergueu da cadeira e encarou a assistente como se a acusasse de cometer um crime. Agora sim ele tinha certeza de que ela era uma manipuladora, de que estava observando a família o suficiente para controla-los e trair como bem entendesse!

— A mãe dela me ligou agora a pouco e perguntou se aconteceu alguma coisa séria. Imaginei que o senhor preparou uma viagem, mas como eu já tinha feito as reservas para o almoço, pedi que viessem pela tarde — sem entender toda aquela bipolaridade, Nathalie curvou os ombros e começou a se perguntar se realmente era seguro continuar aquela conversa.

— Eu... — ele superior suspirou um tanto mais calmo, pensando em toda aquela história. Talvez ele estivesse começando a ficar paranoico — ... Obrigado, Nathalie.

A assistente o encarou por alguns segundos com feições de espanto e surpresa. Ela não disse palavra alguma, ou melhor, deve ter murmurado um “preciso ir agora” antes de sair apressadamente pela porta. Foi praticamente uma fuga.

— Espera! — Gabriel pediu, bem em tempo de segurar o antebraço da assistente antes que ela alcançasse a porta da mansão — Nathalie, você precisa vir para ficar com o Adrien. Ele não sabe se comportar em um restaurante ainda, vão ter pessoas demais e a Emilie ficaria estressada...

— Eu realmente preciso ir, senhor — a voz saiu da forma mais fria possível enquanto ela puxava o braço para se soltar.

— Mas Nathalie...

— Em pleno domingo, no único dia em que eu tenho como descanso, eu já fiz mais do que a minha generosidade permite, senhor! Não por você, pela senhora Emilie! — E, pela primeira vez, Nathalie começou a demonstrar que era pacifica, mas estava longe de ser submissa a tudo — Eu não sou sua escrava e não sou a babá do seu filho, cuide dele o senhor! Aliás, tente tratar eles bem ao menos hoje!

Não houve contestação.

Gabriel Agreste estava sem palavras, estático, encarando a assistente como se presenciasse algum tipo de situação irreal. Além de eficiente e confiável, ela não era a mulher boba que parecia ser, era mais do que perfeita para o trabalho: tinha perdido o medo contesta-lo.

Agora ele sabia como ela conseguiu lidar com Audrey, coisa que nenhum dos outros tinha feito. Também estava explicado o comportamento autoritário de Emilie nos últimos meses: Nathalie estava influenciando ela. Não era de todo o ruim, mas não era a melhor coisa no momento atual, quando um dos desfiles estava perto.

Ele só despertou dos pensamentos quando ouviu a porta bater. Apressadamente, ele tentou ir atrás da assistente fugitiva mais uma vez, mas tudo o que encontrou foi a esposa e o filho correndo e pulando pelo jardim, como se fossem duas crianças, enquanto gritavam: “não estamos mais falidos”.

Passar algum tempo sozinho com eles não seria de todo o mal, afinal.

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Nathalie caminhou para o metrô sentindo o mais puro e genuíno desespero pelos pensamentos que estava tendo.

Primeiro, aceitou trabalhar para o marido da amiga porque Emilie implorou, fazendo parecer que precisava de alguém para ajudá-la a conviver com os Agreste. Depois, aceitou a ideia absurda de deixar Félix brincar com Adrien dentro daquela mansão. Sem saber ao certo, ela começou a tomar parte das responsabilidades de Gabriel para si, porque evidentemente ele desconsiderava o que era humanamente capaz de fazer dentro dos prazos curtos que aceitava e acreditava que ficar de mal humor poderia ajudar, em suma: um idiota.

Quando ela começou a se preocupar com eles?

Só tinha aceitado aquele emprego maldito porque quis ajudar Emilie, mas com o tempo descobriu que as coisas dentro daquela mansão não eram tão fáceis como parecia: Emilie tinha altos e baixos, frequentemente mais baixos; Adrien era uma criança com visíveis problemas de aprendizagem, coisa que um amigo de idade próxima não resolveria; Gabriel era um ser estressado e mesquinho... ou... talvez apenas estressado e sobrecarregado?

Quando ela começou a ser influenciada por eles?

A ideia de vir para França fugindo com o filho não incluía se preocupar com outras pessoas assim, muito menos se fixar em um lugar por muito tempo, então por que ela estava começando a se importar com os Agreste? Por que ela não conseguia simplesmente abandonar eles, pelo menos em um dia de folga? Por que Gabriel falar aquele “obrigado” tinha a deixado tão nervosa?

Passar o dia inteiro trancada no ateliê com o chefe fingindo que ela nem ao menos existia era o ideal, impedia de ele suspeitar de algo. Agora, com essa recém mudança, lá não era mais um ambiente seguro.

Aquela mansão realmente era um ambiente seguro, desde o começo?

O que garantia que Emilie não soubesse a verdade?

“Impossível, já estou ficando louca como eles...”, pensou ela, balançando a cabeça negativamente de um lado para outro. Aquilo despertou curiosidade nas pessoas sentadas próximas a ela, mas Nathalie estava imersa nos próprios pensamentos o suficiente para ignorar o mundo a sua volta.

Ela continuou envolvida nas suas reflexões conflitantes até chegar em casa. Estava mais esgotada do que nunca, a angustia causava mais danos do que qualquer esforço físico. Apesar de tudo, forçou-se a tomar folego e ao menos parecer tranquila antes de entrar em casa.

Ela só teve tempo de deixar a bolsa em um canto qualquer e dar alguns passos na direção da cozinha antes de ser agarrada em um abraço de urso. Isso já era algo com o qual Nathalie já tinha se acostumado, era assim sempre que precisava deixar Félix com o...

— Você demorou! — O homem a abraçou com ainda mais força — Félix e eu fizemos uma surpresa de Dia das Mães para você.

— Mas já tive a surpresa no dia oito, aquelas rosas e a geleia...

— Se estamos na França, fazemos como os franceses! — Ele riu, praticamente a arrastando para o quarto — Sabemos que você adora vermelho, então...

— Eu amo vermelho, principalmente comidas vermelhas... — a mulher comentou, já salivando só de pensar em que tipo de guloseima iria ganhar.

— Você só pensa em comer! — mais uma vez ele riu, dessa vez a libertando do abraço — Prepare-se para ver a minha melhor obra-prima!

Com um revirar de olhos e uma tentativa falha de esconder um sorriso ansioso, Nathalie abriu a porta do quarto. Ela esperava muitas coisas, afinal, deixou “duas crianças” sozinhas por tempo o suficiente para colocarem até mesmo fogo em Paris. O que ela viu, entretanto, foi uma catástrofe pior do que qualquer outra coisa:

— Surpresa! — A criança gritou de maneira animada. Os fios loiros estavam tingidos em um vermelho tão forte que parecia mais molho de pimenta. O rosto, as mãos e algumas partes do corpo estavam começando a ficar empolados, obviamente devido a alergia a algum dos componentes daquela tintura de cabelo.

— O que você fez com o meu filho!? — Ela rosnou, em dúvida se estapeava o homem ou se corria na direção de Félix.

— Ele quem teve a ideia, torrãozinho! — O “adulto responsável” tentou se defender.

— Mamãe não gosta mais de vermelho? — O pequeno perguntou da forma mais melancólica possível, chegando a fungar o nariz — Não gosta mais de mim?

— Claro que gosto! — A mulher respondeu, indo até o filho e o pegando no colo — Gosto de você mais do que de vermelho ou qualquer outra coisa... mas... mas a mamãe ficou preocupada, só isso.

— Por quê?

— Porque eu deixei você com um desequilibrado! — Enquanto falava, ela encarou os olhos azuis tão claros quanto os de Félix — E agora a mamãe tem que te levar na emergência... — ela voltou a dar completa atenção ao filho, preocupada sobre o que poderiam ser aquelas manchinhas.

— Por quê? — A criança perguntou mais uma vez.

— Torrãozinho de açúcar, eu tenho certeza de que não é para tanto. Ele nem está com febre ou algo assim... — mesmo tentando se defender, o homem apenas saiu da frente de Nathalie com medo de sofrer as consequências.

— Eu não quero ouvir explicação nenhuma vinda de você! — Ela rosnou.

— Então deixa que eu levo ele, você parece estressada demais hoje... — com um sorriso sem jeito, ele estendeu as mãos para pegar a criança.

— Eu não estou estressada!

— Está piscando só o olho direito, é claro que você está estressada. Me passa o Félix em segurança, antes que você morda o meu loirinho preferido, anda... — mais uma vez, ele estendeu as mãos.

— Ruivo! Você deixou o meu filho com o cabelo vermelho!

— Tá lindo como sempre!

— Agora que eu sou ruivo vão me pintar como uma das francesas, mamãe? — Sem ter a menor ideia do que tinha acabado de falar e ignorando completamente as súplicas do “adulto responsável” para que fizesse silencio, Félix esperou pacientemente que a mãe o respondesse.

— Amor da mamãe, onde você ouviu esse tipo de coisa?

— Titanic! — A criança respondeu entusiasmada.

— É cultura, é um filme que todos deveriam assistir!

— Todos não incluem uma criança, seu irresponsável! Eu vou levar o meu filho ao médico e, quando voltar, acho bom você ter uma boa resposta para a pergunta dele! — Irritada e sem paciência alguma para lidar com ainda mais estresse, Nathalie saiu e bateu a porta da casa atrás de si, quase a arrancando do portal.

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A ira de Nathalie já estava sob controle quando ela chegou ao consultório médico, acompanhada de um adulto completamente inapto a cuidar de uma criança e a criança que ele deveria ter tomado conta — enquanto esperava o taxi, ela achou melhor levar o culpado: ele poderia ter informações sobre como aquela alergia começou.

— Não é nada tão sério, parece um clássico caso de dermatite atópica com rinite alérgica — o médico comentou calmamente, escrevendo algo em uma ficha — Já tiveram casos na família?

— Rinite sim... — o homem respondeu, estava de braços cruzados encostado na porta a uma distância segura de Nathalie.

— A dermatite pode ser ou não devido à fatores genéticos, no caso do pequeno Félix ela está associada com a rinite — com toda a paciência do mundo, o médico explicou.

— O que é... — a criança começou a frase, mas uma série de três espirros fez com que ele desse uma pausa antes de continuar: — ... rinite?

— Exatamente isso: espirros e coisas parecidas com resfriado — Nathalie explicou ao filho, mexendo cuidadosamente no cabelo dele.

— E quando passa? — Dessa vez, o pequeno perguntou para o médico.

— Vai passar assim que este remédio fizer efeito — ao final da frase, o especialista entregou a ficha para a mãe preocupada — Esta primeira dose pode causar algumas reações como sono, mas recomendo que ele fique em observação por causa da tintura de cabelo: ela causou tudo isso e pode influenciar na eficácia.

— É injeção? — Do jeito mais dengoso possível, Félix escondeu o rosto na mãe enquanto perguntava.

— Não, não precisa ficar com medo.

— Mas pode ser injeção? — Ele perguntou de novo, ainda mantendo o rosto escondido.

A reação do médico não poderia ser outra: ele ficou boquiaberta. Tinha acabado de atender dois casos parecidos, onde quase foi forçado a prescrever medicamentos por via oral. Haviam alguns casos em que era realmente preferível acabar com tudo com uma picada de agulha do que levar alguns dias sob uso de medicamentos, mas Félix não estava em um caso desse tipo, não era tão grave como parecia e a causa era conhecida.

— É que o meu loirinho, digo, ruivinho não gosta de tomar remédios... — o homem explicou.

— Já conheci outras crianças assim, mas nunca uma que realmente preferisse a injeção. Normalmente preferem não tomar absolutamente nada.

— Acredite em mim: é mais fácil encarar uma agulhada do que a mãe dele dando remédios — depois do comentário, ele deixou uma risada escandalosa escapar. Félix tentou ao máximo, mas não conseguiu prender alguns risos também. Nathalie foi a única que se manteve séria, não vendo a menor graça naquilo.

— Entendo, entendo... — o médico comentou, pegando a ficha novamente e alterando algumas coisas — Antes de irem, mais uma pergunta: por que pintou o cabelo dele de vermelho?

— É que meu torrãozinho de açúcar adora vermelho...

— E eu quis fazer uma surpresa para a mamãe — a criança sorriu.

— Fiquei realmente surpresa — a vontade que ela tinha era de estapear o acompanhante, mas se limitou a fuzilar ele com o olhar.

— Eu entendo, mas por que o cabelo? Poderiam ter feito alguma outra coisa...

— Estávamos assistindo Titanic e a Rose é ruiva, daí veio a ideia...

Nathalie encarou o “adulto responsável” com repreensão total. Em parte, a culpa era dela por deixar o filho aos cuidados de um desequilibrado enquanto resolvia assuntos pendentes do trabalho, mas se ele ao menos tivesse bom senso tudo isso teria sido evitado.

— Eu adoro esse filme! — O médico, diferente da mulher, pareceu não se importar tanto com toda aquela idiotice. Pelo contrário, pareceu até mesmo entender como uma “razão plausível” para se pintar o cabelo de uma criança.

— Eu também! Ele é perfeito, excerto pelo Jack não se salvar no final.

— Exatamente! Seria ainda melhor se eles se reencontrassem depois de tantos anos, não acha?

Sabendo que aquela conversa aleatória só iria fazer com que seu mau-humor se manifestasse de uma forma intensa, Nathalie preferiu sair do consultório com o filho no colo. Quanto antes terminassem aquilo, mais cedo poderiam voltar para casa e tentar aproveitar o final de domingo que restasse.

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Emilie estava indo de um lado a outro do corredor do hospital, tentando se decidir em qual das duas alas de observação iria ficar: a infantil ou a adulta.

O destino parecia estar brincando com ela naquele dia: em uma hora estava falida e tendo que voltar a morar com os pais, na outra estava tudo perfeitamente bem e, na seguinte, o marido e o filho apresentaram alergia a amêndoas.

Para piorar tudo, os dois ficaram em observação, mas ela não conseguia se decidir com qual dos dois ficaria. Claro, Adrien era apenas uma criança de quatro anos, mas Gabriel era um adulto dramático, ambos ficavam empatados em nível de carência de atenção.

— Senhora Emilie? — A voz calma de Nathalie a tirou de todos aqueles pensamentos.

A loira se virou lentamente, como se estivesse com medo de ser apenas a imaginação dela armando uma maneira de acalmá-la. Quando comprovou que realmente era a assistente do marido, faltou pouco pular em cima dela enquanto a abraçava e comemorava.

— Só pode ter sido a nossa conexão de melhores amigas que mandou você aqui para me ajudar agora!

— Na verdade, Félix está com alergia... — a outra respondeu, parecia preocupada demais em se certificar de que não tinha nenhum outro Agreste por perto para dar atenção real à amiga.

— Que ótimo, Adrien também! — Bastou receber um olhar de repreensão de Nathalie para que ela se retratasse — Digo, é horrível que os nossos bebês estejam com alergia, mas é ótimo que estejam com alergia ao mesmo tempo: eles podem ficar juntinhos na observação com você cuidando deles!

— Por quê? — Nathalie não estava se negando, apenas queria entender a situação na qual estava se metendo.

— Se prefere ficar com o Gabriel na observação enquanto eu fico com os meus dois príncipes, por mim tudo bem — a loira sorriu, estendendo as mãos para pegar o pequeno ruivo dos braços da mãe.

— Dê toda a atenção do mundo para o seu marido, eu fico com eles! — Aliviada por não ter chances de ser descoberta e com um sorriso divertido por entender a situação, Nathalie entrou na sala.

Emilie foi ver como o marido estava, tranquila por finalmente o carma estar ao seu favor.

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Nathalie estava tentando não rir, a última coisa que queria era chamar a atenção de alguém naquele lugar. Já tinha feito uma nota mental para procurar algum outro hospital onde não corresse risco de topar com a família Agreste. Entretanto, ela estava achando gracioso observar aquelas duas crianças conversando enquanto lutavam contra o sono do antialérgico:

— Meu papai é um unicórnio mágico... — Adrien bocejou antes de continuar — E eu aprendi que obsessiva é uma pessoa que... — novamente um bocejo — ... que toma remédios coloridos.

— Vão pintar um retrato meu porque eu sou ruivo... — disse Félix, esfregando uma das mãos sobre os olhos.

— O que é ruivo?

— É alguém que quer parecer francês... — ele explicou, terminando a frase com um bocejo demorado.

— Eu posso ser ruivo também?

— Não, Adrien: você já é francês! — O sono fazia com que o mais velho começasse a perder a paciência com facilidade.

— Mas eu também quero um retrato! — Teimou o mais novo.

— Só se me emprestar seu unicórnio! — e, como se estivesse prestes a fechar um contrato bilionário, Félix estendeu a mão para Adrien.

— Feito! — O Agreste sorriu, ignorando o aperto de mãos e dando um abraço no “amigo imaginário”.

Nenhum dos dois quis continuar a conversa, o sono era mais forte do que a vontade de falar. Em poucos minutos, eles já estavam abraçados um ao outro e dormindo como anjinhos, causando uma necessidade descontrolável em Nathalie de tirar uma foto daquele momento tão fofo.

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A cada vez que Gabriel fechava os olhos e se entregava ao cansaço, Emilie o beliscava ou começava uma conversa com algum tema completamente aleatório. Ele já nem sabia ao certo se aquilo era preocupação ou alguma forma milenar de tortura, só tinha plena certeza de que precisava dormir.

— Gabriel! — A esposa chamou mais uma vez.

— Estou ouvindo, querida.

— Então olha para mim! — Ela insistiu.

— Eu ouço com os ouvidos, amor...

— Gabriel, você não pode dormir!

— Por quê? — Com toda a energia que conseguiu reunir, ele abriu minimamente os olhos e encarou a esposa.

— Porque é uma reação do remédio!

— ... E?

— Pode ser perigoso, querido!

— Mais perigoso do que conviver com você, com certeza não é... — Ele voltou a fechar os olhos, mas abriu assim que recebeu um puxão de cabelo — Ei!

— Você passa essas suas alergias estranhas para o meu filho e a perigosa sou eu!?

— Eu nem sabia que tinha alergia a amêndoas! Como eu iria imaginar que o Adrien teria algo assim também!?

— VOCÊ PASSOU ALERGIA PRO MEU FILHO! — Ela começou com os gritos, a preocupação com o marido deu lugar a raiva só de pensar em todas as alergias que o filho poderia ter.

— A CULPA NÃO É MINHA! — Ele se defendeu.

— ELE HERDOU ISSO DE VOCÊ! — Ela acusou.

— E DE QUEM... É A CULPA... Pela alergia... a penas... — O Agreste retrucou, já se rendendo aos efeitos do medicamento.

E assim começou mais uma das várias brigas entre os dois que, felizmente, durou bem menos do que alguns minutos: Gabriel caiu no sono antes que pudesse continuar se defendendo das acusações.

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Nathalie já tinha tirado fotos o suficiente das crianças quando o seu acompanhante resolveu aparecer de novo. Em parte, ela já não estava mais tão irritada com a falta de responsabilidade dele, o que não significa que havia perdoado.

— Torrãozinho de açúcar...

— Para de me chamar por esse apelido idiota — ela resmungou nem mesmo olhando para ele, estava ocupada demais analisando as crianças para verificar se as manchinhas estavam sumindo ou não.

— Você só acha ele idiota quando está irritada comigo... — choramingou ele.

— Exatamente.

— Já pedi desculpas mil vezes, meu skolebolle com cobertura extra de cardamomo...

— Não adiantou.

— Você tem todo o direito de ficar irritada comigo, mas pelo menos para de dar essas respostas secas!

Nathalie não respondeu, não ainda. Ela foi calmamente até o bebedouro da sala e encheu um copo com a água gelada, em seguida foi até ele.

— Não! Não precisa mais! Pode continuar com as respostas secas! — Desesperado, ele até mesmo colocou as mãos na frente do rosto para se proteger, mas tudo o que a mulher fez foi beber o liquido calmamente. Quando ela finalmente já tinha acabado, ele voltou a falar: — Ouviu as gritarias do casal que está aqui do lado?

— Ouvi...

— São eles?

— São.

— E é sempre assim? — Quando recebeu um aceno afirmativo, ele continuou: — E é realmente seguro deixar o Adrien com eles?

— Mais seguro do que deixar com você, com certeza.

— Não precisa ofender, skolebolle — saiu mais em um resmungo para si do que para ela.

— Para de me chamar disso, é ainda mais ridículo do que torrão de açúcar!

— Eu sei que você adora os meus apelidos carinhosos! — Ele riu, a agarrando em mais um de seus abraços de urso.

— É, talvez eu adore mesmo... — ela comentou mais amena, retribuindo ao abraço — Eles não ficam uma gracinha juntos?

— Meu loirinho é sempre uma gracinha, mas os dois juntos ficam parecendo irmãos...

— Não exagera — depois de um revirar de olhos, ela continuou — Acha mesmo que se parecem tanto?

— Tanto que poderíamos levar o Adrien para a Rússia como o irmão mais novo do Félix!

Nathalie não respondeu, ela apenas deu um de seus olhares repreensivos e aquilo bastou para que as palavras fossem remedidas. Porém, era praticamente um dom dele falar besteiras:

— Você bem que podia dar logo um irmão para o Félix, eu estou louco para ser...

— Você está proibido de terminar essa frase.

— Mas você nem sabe o que eu...

— Sei exatamente o que você quer: me deixar louca!

— Eu só quero o melhor para o meu loirinho!

— Você quer é mais um para ensinar a fazer coisas erradas!

— Bem... é isso mesmo — ele riu, mais uma das suas risadas escandalosas.

— Vai acordar eles assim, lefse! — mesmo sendo uma tentativa de repreensão, ela mesma já estava começando a deixar a risada escapar.

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Não foi o melhor dia das mães de todos os tempos.

Porém, seria o dia das mães inesquecível para todos os envolvidos.

Notas finais
Quem é a pessoa misteriosa? Antes que perguntem: sim, ele vai aparecer de novo e muitas vezes. O que acharam dos apelidinhos carinhosos? E agora, como veem a Emilie? Acham que Gabriel realmente tem mania de perseguição? Por que Emilie mencionou algo como recomeçar de novo? Acham que a Audrey tem motivos para ser uma ameaça ao casamento deles? E a Nathalie? Ela ficou nervosa com aquele "obrigado"... E de que a Nathalie estava fugindo? Ela realmente pretende fugir para a Russia? Ou voltar?