Mãe Solteira

6 Me empresta a sua mãe?


Notas iniciais
Eu não me atrasei com a postagem, só fiz suspense! kkkks. Brincadeiras à parte, eu me atrasei com alguns trechos da fanfic porque escrevi e editei várias vezes. Agradecimento especial para a minha amiga que ajuda a escrever a fanfic, ela me deu ideias MARAVILHOSAS! Espero que vocês desculpem a demora porque este capítulo tem MAIS DE OITO MIL palavrinhas esperando para serem lidas. O próximo: vamos colocar uma meta para o dia 15, mas se não alcançarmos a meta, dobramos a meta. Ou não, ele sai até o dia 20 mesmo XD

Nathalie saiu do quarto de Adrien sentindo um aperto tão forte no peito que chegou a pensar que iria ficar, literalmente, sem o coração. Acompanhado a toda essa dor e angustia, veio também um embolo na garganta que quase a fez sufocar.

Ela obrigou-se a recompor sua postura perfeita acompanhada de uma máscara de indiferença. Não era a hora e nem o local para demonstrar fraqueza.

Com passos tortuosos e igualmente espaçados ela caminhou até a porta do quarto de Gabriel, abriu e observou o superior em um sono pesado o suficiente para falar dormindo – sonambulo mais uma vez. Depois de fechar a porta cuidadosamente, ela se arrastou escada abaixo e se enfiou no ateliê: tinha trabalho demais para ser feito.

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Félix já estava se arrependendo de ter ficado naquele quarto. Era grande e cheio de coisas aparentemente interessantes, mas também tinha um rapaz irritante e carente. Adrien parecia ser inofensivo, inocente, mas era extremamente necessitado de atenção...

— E essas são de brilho, as outras também são em gel, mas com um efeito fosco... — o mais novo falava detalhadamente as diferenças entre suas canetas enquanto as arrumava de novo — Também tem outras guardadas, se você quiser ver eu posso...

— Não — Félix o interrompeu, deixando claro que não estava interessado em mais nada relacionado à papelaria — Eu não quero ver canetas, eu não quero saber sobre anotações e qualquer coisa do tipo. Acabei de entrar de férias, eu não quero nada que me lembre sobre o colégio.

— Entendo... — Adrien murmurou, perdendo a animação por completo e, alguns segundos depois, voltando a sorrir — Então podemos jogar alguma coisa! Têm a parede de escalada também e nós...!

— Não! — depois de respirar fundo buscando paciência, o mais velho continuou — Adrien, meu tornozelo está machucado, eu não posso ficar muito tempo de pé. Eu não quero jogar nada e nem saber sobre as suas canetas, mas ficaria extremamente grato se você me emprestasse algum livro... — ele indicou com o olhar o “segundo andar” do quarto, onde parecia mais uma minibiblioteca — ...ou simplesmente ficasse quieto o suficiente para eu pegar no sono — depois de terminar toda a explicação, Félix se acomodou melhor no sofá e puxou Plagg para o colo.

O outro loiro, que observava toda aquela explicação com um olhar triste, apenas se jogou no sofá ao lado do mais velho e ficou encarando-o em silencio. Por vezes ele parecia abrir a boca disposto a falar algo, mas se calava antes mesmo de sua voz ter chance de sair. Félix fingiu que não havia notado, ficou sua atenção em acariciar os pelos negros de Plagg e esperar até pegar no sono.

— Não são livros, desculpe — Adrien finalmente teve coragem de falar, desviando o olhar para as mãos que se encontravam segurando fortemente a barra da camisa — Eu sei que deveriam ser livros, mas é só a minha coleção de animes e mangás... — ele encarou Félix novamente, com os olhos marejados — Por favor, não conte ao papai.

— Ele não pode nem ao menos saber que eu existo, então não precisa se preocupar quanto a isso — deixando Plagg de lado, o mais velho encarou o outro loiro por alguns segundos antes de continuar — mas, apenas por curiosidade, por que ele não pode saber que o filho tem... — ele olhou rapidamente as prateleiras completamente preenchidas — ... tantos artigos colecionáveis?

— Porque Nathalie e eu dissemos a ele que eram livros, porque o máximo que ele me deixa chegar perto dessas coisas é aprender Mandarim que, segundo ele, é a mesma coisa que japonês e coreano — o rapaz suspirou, agarrando mais ainda a própria roupa — Juro que não sou um otaku daqueles que vivem no mundo da fantasia e agem de maneira idiota na internet, eu só gosto dessas coisas...

— E provavelmente é virgem — Félix murmurou — Você realmente não é tão irritante quanto uma certa pessoa que eu conheço, então vou te dar um ponto de credibilidade.

— Obrigado! — os olhos verdes se encheram de brilho mais uma vez e Adrien finalmente largou as roupas — Que pessoa irritante?

— Uma colega de classe.

— Amiga?

— Não, colega. Apenas por educação, porque minha definição para ela não passa de... — ele pensou nas palavras que poderia usar sem descer o nível da conversa — ... de uma garota irritante.

— Acho que entendo você... — o mais novo suspirou — Chloé também é bem azucrinante, mas com o tempo aprendi a lidar com ela.

— Você não pode comparar aquela criatura desprovida de limites com uma garotinha mimada como a filha do prefeito. Da última vez que essa colega chegou perto de mim, acabei caindo de uma árvore e torcendo o tornozelo.

— Nossa... — depois de alguns segundos, Adrien retomou a fala: — Mas como você caiu de uma árvore?

— Culpa dela e do meu azar... um pouco de culpa do Plagg também — em resposta, o gatinho deu uma olhada para o dono e depois pulou em cima de Adrien, se acomodando no colo de seu mais novo “humano preferido”.

— Mas como? — o outro repetiu, mexendo nos pelos do gato e esperando uma resposta mais detalhada.

— Longa história...

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Era uma bela tarde de sábado com céu alaranjado. As sombras alongadas dos prédios vazios preenchiam o pátio do colégio onde Félix passava a maior parte de seu tempo.

Diferente dos demais alunos, que faziam qualquer coisa para irem para casa o quanto antes, Félix tinha acabado de passar longas horas lendo na biblioteca, depois de uma de suas aulas extras. Todos os sábados, às 17:00, quando a bibliotecária praticamente o expulsava, o rapaz saia e ficava zanzando pelo pátio enquanto esperava um taxi previamente solicitado chegar.

Entretanto, naquela tarde, quando ele passou perto de uma das grandes árvores ouviu um miado amedrontado. Rapidamente ele olhou ao redor e, ao não encontrar nada, continuou sua caminhada. Ele ouviu o miado mais uma vez quando se afastou alguns passos, olhou em todas as direções possíveis e só então encontrou o motivo: um gatinho preto preso em um dos galhos.

Félix não possuía senso de heroísmo, tão pouco gentileza para com seus semelhantes ou qualquer resquício de humanidade. Ele era frio e distante, guardando todo o carinho que tinha para a mãe; mas aquele gatinho assustado despertou algo dentro dele que, obstruindo todas as suas barreiras de bom senso, fez com que ele só notasse a grande besteira quando já era tarde: Félix subiu na árvore, rastejou agarrado à um dos galhos e estendeu a mão para aquele pequeno animal.

O resgate teria sido bem-sucedido se não fosse por uma presença irritante que teimava a seguir ele por todos os lados:

— Félix! — a voz animada de Bridgette e sua aproximação nem um pouco sutil foi o suficiente para que o loiro se desequilibrasse e quase caísse.

— Vai embora, desgraça! Será que você não consegue notar que eu estou ocupado!? Mas que...

— Quer ajuda!? — ignorando todas aquelas palavras, a mocinha já se preparava para começar a escalar o tronco da árvore.

— Não! Quero que você vá para o inferno e me deixe em paz!

— Você hoje está tão engraçado! — ela comentou risonha, não deixando que o modo grosseiro a tirasse o bom humor — Sabe aquele anime que eu vivo falando, aquele sobre a LadyBug e o ChatNoir? Então, tem uma cena em que os dois ficam em um galho de árvore e...

— O galho vai ceder, idiota! Para de subir!

— ... os dois ficam conversando e eu achei aquilo tão fofo! Eu estava louca para te mostrar, mas não encontrei você em lugar nenhum e...

— O galho! Para! Para de colocar peso no galho!

— ... eu sei que semana que vem você vai ficar enterrado naqueles livros, estudando. Então eu realmente precisava te mostrar e falar que eu... eu... — finalmente, a garota ficou em silencio e notou o quão perto já estava do rapaz. Ela corou instantaneamente, ainda mais quando notou ele estender a mão para ela.

— Bridgette... o galho está cedendo — começou Félix, aproveitando que finalmente parecia ser ouvido — Eu preciso pegar esse gatinho e tirar ele daqui, então, por gentileza, se jogue no chão para que eu e esse animal indefeso possamos descer da árvore em segurança.

— E-Eu... — ela tentou falar, mas só conseguia se concentrar na mão dele se aproximando cada vez mais. Ela estar calada não significava que tinha começado a prestar atenção nele, pelo contrário: estava fantasiando aquela situação toda ainda mais!

— Eu vou empurrara você, já que não quer se sacrificar por bem — avisou ele, quando finalmente alcançou o ombro da colega de classe — Não é nada pessoal, apesar de você me irritar mais do que qualquer outro ser vivo. Provavelmente você não vai se machucar, só tente não cair de cabeça... ou caia, seria uma morte rápida.

— Oh, Félix! Isso é tão fofo da sua parte!

Bridgette não havia notado todos os avisos que ele deu, não havia notado as ameaças, tão pouco havia notado que se jogou em cima de Félix. Ela só notou o que tinha feito quando o galho acabou de ceder e todos caíram no chão, ou melhor, ela e o gatinho assustado caíram em cima de Félix.

Quando ela finalmente conseguiu recobrar a sã consciência e se levantar, começou a murmurar vários e vários pedidos de desculpa e promessas de nunca mais fazer algo como aquilo novamente. Entretanto, de nada adiantou: o loiro permaneceu exatamente do mesmo jeito desde quando se chocou contra o chão, parecia estar inconsciente.

— E-Eu juro nunca mais fazer essas idiotices, prometo prestar atenção no que você está falando de agora em diante, prometo! Por favor, acorda! — ela pediu, se abaixando no chão e mexendo nos fios loiros com certo desespero — Por favor, Félix! Não tem graça! — ela agarrou as mãos dele, apertando e tentando puxa-lo junto a ela para que ele levantasse — Félix! Félix, por favor! — as lagrimas já estavam se amontoando nos olhos azuis quando ela finalmente desistiu — E-Eu vou ir buscar ajuda, eu já volto... — avisou antes de sair correndo para dentro de um dos prédios.

O rapaz esperou alguns segundos até que tivesse certeza absoluta de que já estava fora do campo de visão da colega de classe e se levantou. Tomado pela pressa, ele agarrou a bolsa cheia de livros que iria levar para casa, respirou fundo e correu o mais rápido que conseguiu até os portões do colégio.

Para sua surpresa, o taxi que tinha solicitado estava estacionando do outro lado da rua. Era uma das raras vezes em que seu azar dava uma pequena trégua para a sorte, ao menos ele pensou que fosse isso até entrar no automóvel e notar algo se mexendo dentro de sua bolsa. Com o pouco de adrenalina que ainda corria no corpo dele, o rapaz abriu o zíper lentamente, antes que uma bolinha peluda e preta pulasse em cima dele.

— Praga! — ele gritou, segurando o gatinho com as mãos e tentando pensar no que fazer.

— Disse algo? — o motorista perguntou, encarando-o pelo retrovisor.

— Disse? Eu disse, er... Plagg?

— Animais não são permitidos dentro do carro, rapaz — avisou o homem, continuando a manobrar o carro — Mas vou abrir uma exceção para você, desta vez.

Talvez o azar realmente estivesse dando uma trégua... ou apenas preparando algo pior para quando Nathalie chegasse em casa e descobrisse o mais novo membro da família: Plagg.

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— Ela parece ser... — Adrien buscou alguma palavra, mas não sabia ao certo como expressar tantas coisas em apenas algumas letras.

— Irritante? Importuna? Chata? Um estorvo?

— Apaixonada por você.

— Isso resume bem todos os outros adjetivos.

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Gorila estava subindo e descendo as escadas sem saber o que fazer.

Não sabia o que ficou resolvido quanto a Félix e Adrien, não sabia se Gabriel estava vivo ou morto, não sabia nem ao menos onde Nathalie poderia estar agora... ela, provavelmente, estava esvaziando o cofre da mansão antes de fugir com a fortuna e com os dois garotos.

— Preciso anotar...

O grandalhão murmurou apenas para si, descendo de vez as escadas e indo na direção dos corredores, mas estagnou alguns passos depois quando ouviu um barulho alto e metálico. Nathalie realmente estava roubando o cofre da mansão!

— Preciso anotar isso e ligar para a polícia! — ele deu alguns passos e parou novamente, pensando se era realmente uma boa ideia — Não, eu sou um cúmplice... contra a vontade, mas sou!

O barulho alto e metálico se fez ser ouvido mais uma vez, mas pareceu ter sido interrompido na metade. Talvez a porta do tal cofre secreto estivesse emperrada, talvez fosse mais de um cofre, talvez se ele filmasse Nathalie em ação, pudesse sair impune do que ela o acusasse. Talvez, se não fossem pegos, ao menos teria algo para chantagear a colega.

Com o pouco de coragem que ainda tinha e o celular na mão, Gorila caminhou até o ateliê, girou a maçaneta lentamente e abriu a porta com cuidado. Estava pronto para encontrar sacos de dinheiro jogados no chão, mas tudo o que viu foi Nathalie tentando lidar com uma janela emperrada.

— Vai ficar ai parado ou vai me ajudar? — ela perguntou um tanto irritada, virando-se apenas o suficiente para encarar o grandalhão por cima do ombro.

— Eu nem sabia que essas janelas abriam...

— Pelo visto, até elas se esqueceram que podem abrir — a assistente resmungou, se afastando das janelas e voltando para a mesa de trabalho — Eu só preciso de um pouco de ar, não deveria ser tão difícil assim, deveria?

— Você deveria procurar ajuda...

— Ir ao psicólogo reclamar que as janelas não abrem para mim?

— Não, ir ao médico e falar que você está com uma tosse irritante há dias.

— É só uma alergia boba.

— Tão boba que fez você querer abrir as janelas?

— Para começar, quem nunca gostou de deixar elas abertas é o Senhor Agreste.

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Há mais de uma década atrás, aquele amplo ateliê não tinha luzes tão fortes e esbranquiçadas, tão pouco tinha aquele ar austero. Era apenas um grande salão com desenhos e manequins com modelos prontos adornando as paredes, cores para todos os lados e uma grande bancada no centro, com um homem dando sua total atenção aos esboços que fazia.

Haviam apenas alguns dias desde que Nathalie começou a trabalhar lá, andando de um lado para o outro, seguindo ordens e usando um pequeno espaço da bancada apenas quando era necessário. Ela não sabia ao certo como se comportar naquele ambiente, mas sabia que deveria tomar absoluto cuidado com o superior.

— Quantos dias ainda tenho para terminar os modelos de verão? — Gabriel quebrou o silencio entre eles, mas mantinha sua atenção voltada completamente para o desenho.

— Sete dias, senhor. É para a segunda-feira que vêm.

— Sete dias... — o homem murmurou em um tom irritado, largando o lápis e olhando para o nada, ou melhor, encarando Nathalie como se ela não estivesse lá — Está ouvindo isso?

— Isso o que?

Em resposta, Gabriel bufou e tirou os óculos, apertando a têmpora em uma massagem desesperada antes de encarar a assistente novamente:

— Tenho minhas dúvidas se você compreende francês perfeitamente, Nathalie. Eu faço uma pergunta simples, de sim ou não, e você responde com outra pergunta. Quando você vai aprender a ser objetiva?

A mulher apenas desviou o olhar, encarando o chão e mordendo o interior das bochechas, pensando sobre como deveria se comportar. Era difícil estar lá, mais difícil ainda entender o comportamento dos Agreste, mas ela não iria conseguir abaixar a cabeça para sempre.

— Senhor Agreste — ela chamou suavemente e, quando recebeu um murmúrio em resposta, continuou — Eu ouço muitas coisas e o tempo todo: ouço o relógio se movendo, o grafite em atrito com o papel, ouço meus passos pelo chão, ouço carros lá fora, pássaros no céu, e a Senhora Agreste brincando com Adrien. — quando percebeu que tinha a total atenção do superior em si, Nathalie continuou — nosso corpo tem mecanismos de defesa, como por exemplo, nos fazer ignorar essas pequenas perturbações quando nos focamos em algo. Eu estava ouvindo tudo isso e nada ao mesmo tempo.

— Seja mais objetiva quando for tentar se retratar da próxima vez — Gabriel falou de uma forma fria e desinteressada, tomando para si que a assistente tinha a péssima mania de se esquivar dos erros que cometia e esquecer rápido o que ele falava — Feche as janelas, eu não quero ouvir nada de lá de fora.

— Como quiser, senhor.

Nathalie caminhou até a primeira janela, se perguntando por quanto tempo mais iria conseguir manter o emprego naquela mansão ou quanto tempo mais iria conseguir manter sua personalidade sob controle.

Quando caminhou até a segunda, seus pensamentos foram voltados para Emilie: a mulher brincava com o filho do lado de fora, mas fez questão de parar e acenar para Nathalie. Era incrível como ela conseguia manter o sorriso o tempo todo no rosto, apesar de tudo o que enfrentava.

Quando caminhou até a terceira janela, Emilie continuava a acenar para ela, mas dessa vez Adrien também acenava. Sem conseguir resistir, a assistente ergueu uma das mãos e acenou em resposta, deixando um sorriso fugir.

— Mandei fechar as janelas, não ficar perdendo tempo! — Gabriel disse com sua típica irritação, se enfiando ao lado de Nathalie e fechando as janelas no lugar dela.

Ele não parecia se importar com os acenos do filho e da esposa, não parecia se importar pelo quão inapropriado foi aquela aproximação, não parecia se importar nem mesmo com o jeito assustado que a assistente o encarava. Ele só se importava com os prazos e com o que tinha que fazer.

— Quero cortinas novas amanhã, escuras e compridas.

— Como quiser, senhor.

Nathalie cuidou para que as cortinas chegassem na manhã seguinte. Antes do Agreste entrar no ateliê a nova peça de decoração já estava posicionada, assim como lâmpadas mais fortes para substituir a iluminação natural.

Anos se passaram até que as janelas foram abertas novamente, logo depois de toda a comoção sobre o desaparecimento de Emilie ter se acalmado e Gabriel forçado a voltar para o ateliê e trabalhar. O cômodo estava com um cheiro forte de tinta de marcador e demais materiais artísticos, Nathalie se viu obrigada a abrir as janelas para que o ar fresco entrasse mais uma vez – um pequeno problema técnico impediu que o ar-condicionado funcionasse.

— Nathalie... está ouvindo isso? — Gabriel se forçou para encarar a assistente, mas a luz da janela impedia que ele tivesse uma visão mais nítida do que uma silhueta.

— Não há som algum, senhor.

— Feche as janelas! — ele se curvou na cadeira, tirando os óculos e apertando a têmpora com uma das mãos.

— As janelas abertas não vão incomodar, não tem nenhum som vindo de lá de fora — Nathalie respondeu tentando manter o tom de voz o mais pacífico possível, o estilista já estava se sentindo mal o suficiente nos últimos dias.

— Exatamente... — o Agreste suspirou — Feche-as, Nathalie!

— Mas senhor, não tem sentido algum fechar as janelas agora e... — antes de conseguir terminar a explicação de uma forma ao menos racional, a mulher foi empurrada para um dos cantos enquanto Gabriel fechava por si mesmo as janelas — Senhor!?

— É pior com elas abertas! — ele tentou se justificar, se apoiando no vidro da última que havia fechado — É pior saber que Emilie e Adrien não estão rindo lá fora... é pior...

— Senhor...

— É muito pior, Nathalie... — mais uma vez, o Agreste apertou as têmporas. Só não haviam lagrimas escorrendo pelo rosto dele porque todas elas já haviam sido usadas anteriormente.

Nathalie ficou observando-o um tempo antes de finalmente sair do ateliê e começar suas ligações para que uma equipe pudesse ir logo resolver o problema de ventilação do cômodo.

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Uma pequena crise de tosse seca fez com que a assistente despertasse das memórias para encontrar o guarda-costas acabando de abrir a última janela. O Grandalhão deu uma boa olhada para fora, esperando ela se recuperar, depois encarou a colega de novo.

— Quando for ao médico, leve o Agreste também...

— Evidentemente ele também tem problemas com janelas fechadas.

— O que?

— Algo como ter medo de descobrir o que não tem quando elas abrem... — ela tentou gesticular algo com a mão, mas deixou a explicação de lado — É algo profundo demais para uma pessoa tão rasa quanto ele, não acha?

— Eu acho que você merece um aumento e longas férias.

Gorila estava preocupado com Nathalie, afinal de contas, ela era uma mãe lutando sozinha para manter o filho na linha, longe do passado terrível dela e ainda ajudava a cuidar de Adrien. Talvez, mesmo estando envolvida com o tráfico de café, ela fosse apenas uma vítima das circunstâncias.

— Por que você diz isso? — ela se levantou novamente.

— Há quanto tempo você trabalha aqui? Mais de dez anos, no mínimo...

— Sim — ela confirmou.

— Ganha o suficiente para manter o Félix naquele colégio de alta classe e tudo, mas ganha o suficiente por aturar o Gabriel?

— Não...

— Nem todo o dinheiro do mundo pagaria, aliás. Mas você é leal a ele, ao ponto de ele confiar tanto em você que te deixa trabalhar aqui, sozinha, com os cofres da mansão... — Sim.

Então realmente haviam cofres naquela sala e Nathalie sabia disso. A teoria de Gorila estava arranhando a verdade em pontos que até mesmo ele queria estar errado, a verdade absoluta precisava ser alcançada:

— E você já estava na Rússia alguma vez?

— Sim — Nathalie se aproximou de uma das janelas, olhando a vista.

— A viagem teve relação com...?

— Família... — ela deu um pequeno sorriso, começando a se perder em lembranças mais uma vez, mas Gorila foi mais rápido e disparou outra pergunta:

— Você também era leal assim com a senhora Agreste?

— Sim — respondeu convicta, sem ter a necessidade de uma prévia avaliação.

— E sabe algo sobre o desaparecimento dela? — para a surpresa de Gorila, Nathalie virou-se de costas para ele e começou a caminhada em direção à mesa de trabalho. Ela não iria responder — Você teve algo com o desaparecimento dela!? — ele perguntou com certo desespero, Nathalie, por outro lado, parou de andar e o encarou de uma forma calma o suficiente para ser assustadora.

— Prove — ela desafiou, curvando um sorriso mínimo nos lábios.

O grandalhão ficou em choque.

Ele tinha ignorado a reação quanto à pergunta sobre família porque, de todas as coisas que sabia sobre a Nathalie, não sabia nada sobre a família dela e não teria perguntas para fazer que não gerasse desconfiança. Entretanto, ter a certeza de que ela é uma criminosa só fez com que a preocupação dele aumentasse ainda mais sobre uma certa pessoa:

— Você machucaria Adrien!?

— Jamais! — o sorriso dela se desfez e a preocupação tomou forma — Como pode achar algo assim!? Eu nunca machucaria ele! — ela rosnou, caminhando de um lado para o outro — O que pensa que eu sou!?

— Mas vai matar o Gabriel!

— ... Não!

— Por que não!?

— Porque eu não posso! — ela estagnou de frente ao guarda-costas, visivelmente irritada. Não foram poucas as vezes em que Nathalie planejou o assassinato perfeito do chefe, mas ela jamais iria executa-los.

— Você não tem escrúpulos, não deveria ser um problema... — o grandalhão murmurou mais para si do que para ela, havia alguma coisa naquilo que não fazia sentido: se ela era uma mafiosa envolvida em um desaparecimento, iria querer continuar com todo aquele golpe contra os Agreste... a menos que o golpe fosse apenas contra Emilie — Você não querer machucar o senhor Agreste tem relação com o desaparecimento da senhora Agreste?

Nathalie desviou o olhar. Ela tinha feito uma promessa, ela cumpriria a promessa. Promessas e segredos eram coisas que ela dava absoluta importância, mas sua sanidade mental precisava de um alivio para toda aquela loucura envolvendo os Agreste. Gorila era tão discreto quanto ela, não havia problemas em ele saber de uma coisa ou outra.

— De certo modo, sim.

— ... Porque ele é o pai do Félix.

— O que!? — ela olhou para o colega como se tivesse sido acusada de algo terrível, mas logo depois aquela feição de desespero foi substituída por desentendimento e, em seguida, pelas feições de alguém que prendia risadas — Como você...!? — perguntou enquanto colocava as mãos na frente do rosto, como se aquilo fosse o suficiente para prender o som dos risos.

— É obvio! Sem a Emilie aqui, você iria assumir o lugar dela pouco a pouco... até o dia em que Adrien se habituar a ideia de você ser a nova mãe dele, daí todos iriam viver felizes e o Félix teria um pai, mas por algum motivo ele quis adiantar os planos porque o Gabriel precisa morrer para ele herdar todo o dinheiro e... — ele parou de falar quando notou que os risos de Nathalie se transformaram em mais uma de suas crises de tosse — Nathalie?

Ela não respondeu, apenas olhou para as janelas abertas com certa suplica. Gorila entendeu o que ela queria e a ajudou a ir até a mais próxima.

Nathalie era uma pessoa viciada em trabalho, capaz de esconder uma gripe muito bem ou qualquer outra doença que ela estava enfrentando, apenas para ter certeza de que ninguém estragaria as programações dela. Aquelas tosses evoluíram de um pigarro para crises intensas como aquela, capazes de fazer a assistente do Agreste cair no chão se estivesse sozinha, entretanto, orgulhosa como ela era, ninguém podia saber que ela estava tão mal. Por sorte, Gorila era considerado um “ninguém” na mansão.

— Félix sabe sobre essas crises? — quando recebeu um aceno negativo, Gorila encarou a colega com um pouco de repreensão antes de continuar: — Nem ele e nem ninguém vão saber por mim... mas precisa ir ao médico.

— A-Aler...gia... — ela tentou se explicar entre as tosses.

— Disse que era por causa do pólen da primavera, estamos no verão. Você está mentindo para mim e para si mesma, Nathalie.

— É só... — ela respirou fundo — A droga de uma... alergia! — a mulher respirou fundo mais uma vez, recobrando a compostura profissional.

— Se você morrer, quem vai cuidar do Adrien e do Félix?

— Não vou morrer por causa de uma alergia... — calmamente, Nathalie voltou para a mesa onde trabalhava — Mas se eu morrer, você cuida do Adrien por mim.

— E o Félix?

— Ele vai ir para a Rússia em breve — ela encolheu os ombros — Cuide do Adrien e não deixe ele se entupir de biscoitos.

— Você não pode agir assim! Félix ficaria arrasado, Adrien também! Quem iria suportar o Gabriel!? Nathalie, você não pode morrer por causa de uma alergia ou o que essa coisa for! Precisa ir ao médico!

— Todos morrem um dia — os olhos azuis de Nathalie encararam Gorila como se ele nem estivesse lá — Tenho coisas mais importantes para fazer do que planejar um funeral, se me permite... — ela apontou para a porta com o olhar enquanto começava a digitar em uma velocidade absurda.

O grandalhão obedeceu a recomendação de saída, mas não iria voltar para a porta de Adrien. Ele precisava anotar algumas coisas, muitas coisas. Precisava, principalmente, buscar termos legais que o permitissem arrastar a colega para um hospital.

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Enquanto isso, Félix procurava alguma coisa interessante para ler na enorme coleção de mangás que Adrien tinha. Se o termo “otaku” realmente significa colecionador, Adrien era a pessoa mais empenhada em ser um otaku que ele já tinha conhecido.

O Agreste, nem imaginando a forma errônea com a qual estava sendo julgado, estava sentado no sofá com Plagg no colo e ligando para o melhor amigo. Precisava contar as novidades para Nino ou, pelo menos, contar que agora tinha um gatinho de estimação.

Não demorou nem cinco segundos para a chamada de vídeo ser atendida:

— Fala, irmãozinho! — a voz animada de Nino era inconfundível — Cara, você não sabe o que está perdendo! — ele virou o celular para que Adrien tivesse uma boa visão de toda a praia ao entardecer — Quer que eu leve alguma coisa pra você? Uma concha?

— Não, não precisa... — o loiro sorriu — Eu só liguei para contar algo incrível que aconteceu e...

— Está falando com o Adrien? — agora era a voz de Alya.

— É! — o moreno sorriu — Parece que ele tem novidades!

— Esse é nosso garoto! — a garota, risonha, invadiu o espaço da tela enquanto passava um dos braços pelo pescoço do namorado — E você aqui, todo triste porque não conseguiu arrastar ele com a gente... Marinette, vem aqui! Parece que o Adrien tem uma novidade!

A essa altura, Félix já dividia sua atenção com aquela conversa praticamente unilateral e com os títulos ilegíveis dos mangás. Adrien encarava os amigos com certo receio, na verdade, com certo pânico só de imaginar como iriam reagir se contasse tudo.

— A-Adrien? No-novidade? — agora eram os gaguejos de Marinette. A garota de maria-chiquinha tentava se encaixar em algum lugar perto dos outros amigos para que conseguisse observar Adrien.

— Eu apresento a vocês... — o Agreste tentou fazer suspense, mas Plagg preferiu pular no celular e tentar “pegar” as pessoas da tela — Ei, Plagg! Se comporta!

— Que fofo! — Marinette foi a primeira a se manifestar, apesar de não ter uma visão muito nítida do animal.

— Ele substituiu você por um gato — Alya disse implicante, esperando por algum comentário do namorado.

— Cara... — o rapaz suspirou e deu um sorriso — Seu velho deixou mesmo você ficar com esse gato? Tem certeza que é um gato? Eu aposto que ele deve estar com alguma escuta ou câmera para filmar você...

— Meu pai não sabe, nem pode saber! — o loiro avisou imediatamente — Na verdade, o Plagg não é exatamente meu... ele é do Félix — o rapaz cochichou a última parte.

— De quem? — Alya ergueu uma das sobrancelhas.

— Félix — o Agreste repetiu.

— Quem é Félix? — Nino também pareceu confuso.

— Félix é o... — Adrien deu uma boa olhada para o outro loiro no quarto, se certificando de que ele não estava prestando atenção — Félix é o filho da Nathalie, mas ninguém pode saber sobre ele.

— Nunca imaginei que ela teria um filho... — Marinette pareceu pensativa, mas estava aceitando bem a ideia — Quantos aninhos ele tem? Está tomando conta dele hoje?

— Se precisar de uma babá, a minha amiga aqui é a melhor de toda Paris! — Alya esfregou os cabelos escuros de Marinette.

— Na verdade, ele é mais velho do que eu... — Adrien deu um sorriso sem graça, sem saber como lidar com a cara de assombro que os amigos estavam fazendo para ele — Só nos conhecemos hoje, mas tenho quase certeza de que ele é o mais velho.

— Só acredito vendo! — Nino foi o primeiro a falar depois do choque inicial — É impossível ela ter um filho mais velho que você! — ele cruzou os braços e sorriu de canto, era sua clássica pose de desafio.

Adrien, levado pelo momento, virou a tela do celular até ter certeza de ter capturado Félix. Estava longe dele, mas era possível ver um rapaz alto, loiro, mexendo nos livros e aparentemente não notando que estava participando da vídeo-chamada.

— Por que só se conheceram hoje? — Marinette ousou perguntar, para a sorte dela, sem gaguejos.

— Porque meu pai não pode saber sobre ele, daí a Nathalie escondeu o Félix de todo mundo. Deve ter acontecido alguma coisa, porque ela trouxe ele para a mansão hoje... trouxe o Plagg também — o loiro posicionou o celular como estava antes, mostrando a si mesmo e o pequeno animal em seu colo.

— É porque ele não pode saber que o Félix é filho dele... — Alya disse como se fosse algo simples de entender — Provavelmente, a Nathalie perderia o emprego se ele ficasse sabendo só agora.

— Espera, espera... Está falando que a Nathalie roubou algumas peças do robô Agreste e juntou com algumas dela para construir um robô filho porque ela quer a dominação mundial, é isso!? — Nino ergueu os braços, quase entrando em pânico — Estamos perdidos! Irmãozinho, você precisa sair daí e ir para um lugar seguro!

— Claro que não! — a morena empurrou o namorado e tomou o lugar no centro da tela — A Nathalie na verdade é uma alienígena e estava buscando os genes perfeitos no planeta Terra, fez um amplo estudo e notou que você é a criaturinha mais perto disso...

— Perfeito mesmo... — Marinette comentou com um olhar perdido, mas Alya fez questão de empurrar ela para longe antes que falasse mais alguma coisa que interrompesse a explicação.

— Ela pegou os genes do seu pai e juntou com os dela para criar uma raça superior e mais perfeita, só que deve ter saído errado e agora esse tal Félix deve envelhecer umas quinze vezes mais rápido que o normal! — ela colocou as mãos na cintura — Não precisa se preocupar, em uns dois dias ele já vai ser um velhinho incapaz de dominar o mundo...

— Não, vocês entenderam tudo errado... — Adrien tentou se explicar, mas antes que conseguisse falar qualquer outra palavra, teve o celular tomado por Félix.

— Minha mãe não é uma robô, muito menos uma alienígena — a voz fria dele fez com que os outros se calassem — Porém, vou considerar a parte sobre genes perfeitos como um elogio. Minha mãe me escondeu unicamente porque é o mais seguro, não tem outro motivo, certo, Adrien? — ele encarou o loiro com certa irritação. Qual problema os Agrestes tinham com a palavra “limites”? Será que não sabiam como respeitar regras!?

— Na verdade... E-Eu... Eu ficaria feliz se você fosse o meu irmão, de verdade. Já estou feliz por você não ser só um amigo imaginário, então... — o mais novo sorriu de um jeito tímido, imaginando todas as coisas incríveis que falavam sobre irmãos mais velhos.

— Não sou filho do seu pai, Adrien.

— É filho de quem então? — Marinette perguntou de uma forma curiosa, inocente. Estava apenas querendo entender toda aquela história.

— Sou filho da minha mãe, Nathalie — Félix tentou responder sem parecer sarcástico ou ranzinza, como se estivesse explicando algo óbvio para uma criança.

— Tá, mas e seu velho? — foi a vez de Nino perguntar.

— Não tenho um.

— Ele morreu? — Adrien perguntou confuso, já não imaginava que Nathalie poderia ter um filho, imaginar ela casada com alguém era praticamente impossível para a mente dele, ela ser viúva era algo inimaginável.

— Ele não existe!

— Viram só!? Criado em laboratório! — Alya comemorou.

— Mas que... — Félix precisou morder a língua para não falar todas as baixarias que estava acostumado em situações assim — Eu não sou um alienígena!

— Meu pai pode adotar você, se quiser... — Adrien começou, ignorando a discussão dos amigos do outro lado da chamada — Seriamos irmãos, você não iria ter que se esconder e a Nathalie...

— A Nathalie mandou você manter segredo! — a voz fria da mulher interrompeu o Agreste. Não só isso, ela fez com que todos calassem as bocas — A Nathalie pede uma coisa simples e o que vocês fazem? Desobedecem!

— Mãe... mãe, eu posso explicar! — Félix deu o celular de volta para Adrien — A culpa é dele! — apontou para o mais novo.

— Cara... ela está falando na terceira pessoa mesmo? — Nino franziu o cenho, desacreditado.

— Ela deve estar...

— Vamos dar privacidade para vocês, até loguinho! — Marinette interrompeu tanto Alya quanto a vídeo-chamada.

— Nathalie, o Félix é meu irmão? — Adrien encarou a assistente do pai com cara de gato abandonado, sabia que era o ponto fraco dela.

— Não! — ela rosnou.

— Ele pode ser agora? Emprestado?

— Claro que não! — ela colocou as mãos atrás das costas — Félix, já para a cozinha: você precisa começar a preparar o jantar.

— Como quiser, mamãe... — Félix abaixou a cabeça e passou por ela, sabia que Plagg ficaria bem naquele quarto.

— Adrien... — ela suspirou — Não quero que você fique espalhando detalhes sobre a minha vida ou a vida do meu filho para os seus amigos! Principalmente mentiras!

— Se é o que quer, mamãe... — Adrien resmungou, encolhendo-se no sofá e abraçando Plagg de novo.

Aquilo fez com que Nathalie quebrasse a pose profissional, também fez com que Félix voltasse alguns passos e agarrasse a mãe, encarando o mais novo com a irritação estampada no rosto.

— Ela é minha mãe, não sua mãe! — ele rosnou.

— Se você não pode ser meu irmão por parte de pai, pode ser por parte de mãe! — Adrien tentou se justificar.

— Eu não vou dividir a minha mãe com você! — como se fosse possível, Félix abraçou Nathalie com ainda mais força.

— Você não pode ser tão egoísta! — o Agreste se levantou — Eu estou disposto a dividir o meu pai com você, então você precisa dividir a Nathalie comigo!

— Não quero o seu pai!

— Nathalie, ele não quer dividir você! — Adrien resmungou, se abraçando a ela também.

— Ela é só minha, idiota! — Félix tentou empurrar o mais novo com uma das mãos, mas aquilo só fez com que Adrien apertasse Nathalie com ainda mais força.

— Nossa!

— Mãããe... — ele murmurou — Vai deixar ele fazer isso!?

— Você pode ser minha mãe também, Nathalie? — o mais novo fez a cara de gato abandonado de novo.

— E-Eu... Eu preciso de um tempo! — sem mais explicações, a assistente se livrou dos braços dos dois rapazes e fugiu do quarto. Precisaria de pelo menos alguns minutos até entender o que tinha acontecido ali.

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Horas depois, quando o jantar estava pronto, Gorila estava tentando não perguntar o que tinha acontecido, mas sabia que algo de errado deveria ter:

Félix preparou o jantar observando Nathalie como se a qualquer momento ela pudesse fugir e nunca mais voltar. Agora, com tudo feito, ele estava abraçado a ela e impediu que ela fosse até a sala de jantar como sempre fazia, até mesmo para servir.

Para piorar ainda mais a situação, quando Gorila finalmente pegou os pratos para levar até o salão, Adrien invadiu a cozinha. Ele estava emburrado, coisa que raramente acontecida.

— Eu e o meu pai vamos comer no quarto.

— Eu e a minha mãe vamos ficar aqui.

— Falei com a minha mãe, não com você.

— Você precisa de uma tábua ouija para conseguir falar com a sua, Adrien. A minha eu posso abraçar o tempo todo, porque ela...

— Félix! — Nathalie o repreendeu — A senhora Agreste está desaparecida até que se prove o contrário — ela manteve o tom frio, até olhar para Adrien — Faça o seu pai comer, não dê atenção para o drama que ele anda fazendo...

— Posso te dar um abraço antes de ir? — os olhos verdes encararam Nathalie em suplica, o que deu resultados, já que ela estendeu uma das mãos para ele.

Gorila observou a tudo tentando não abrir um sorriso. Adrien se agarrou a mulher como se fosse o primeiro abraço que recebia em anos – o que poderia ser uma verdade: talvez fosse o primeiro abraço desde que Emilie desapareceu. Félix aceitou bem nos primeiros segundos, até Nathalie acariciar os fios loiros dos dois, depois disso os rapazes começaram a travar uma verdadeira guerra territorial para decidir quem era o dono daquele abraço.

— A... Apertado... — Nathalie tentou avisar, mas não foi ouvida. Pelo contrário, aquilo pareceu só piorar as coisas:

— Chega! — Félix gritou, dando um puxão na mãe a abraçando — Você já usou a sua cota da minha mãe por hoje! É só minha agora!

— Ela agora é nossa mãe! — Adrien cedeu ao seu lado infantil e deu um puxão em Nathalie, tentando tira-la dos braços do mais velho.

Os dois começaram um cabo-de-guerra, puxando a mulher de um lado para o outro e gritando coisas que apenas filhos possessivos seriam capazes, como: “ela é apenas minha”; “ela gosta mais de mim”; “eu sou o preferido dela”; “ela passa mais tempo comigo”.

Tudo o que Nathalie conseguia fazer ela sentir as dores em ser praticamente partida em duas, enquanto olhava suplicante para que o guarda-costas fizesse algo para ajudar ela. Pelo menos aquilo deu algum resultado positivo, já que o grandalhão não tirava os olhos dela.

— Soltem! — Gorila mandou em bom som, em tom sério o suficiente para que os dois largassem a colega.

Félix estava se corroendo de raiva por ter sua atenção dividida; Adrien estava chocado com o fato de que seu guarda-costas podia falar; Nathalie estava tentando recobrar o folego e manter uma de suas crises de tosse longe.

— Adrien, por favor, leve o jantar do senhor Agreste e fique com ele — o mais novo obedeceu na mesma hora, deixando os outros três sozinhos — Félix, vá para o quarto. Preciso conversar com a sua mãe.

Depois de olhar para Nathalie e receber um aceno afirmativo, Félix obedeceu e deixou os dois sozinhos, mesmo que a contragosto. A sós, finalmente, Nathalie deixou algumas tosses escaparem enquanto ia para a pia.

— O que foi aquilo? — o grandalhão perguntou, finalmente perdendo sua pose de seriedade.

— Nem eu sei ao certo o que aconteceu com esses dois... Adrien quer um irmão mais velho de qualquer jeito — ela encolheu os ombros.

— Uma mãe, você quis dizer...

— Não, ele quer que o Félix seja irmão dele...

— Nathalie... — Gorila apoiou uma das mãos na pia — Eu acabei de ver os dois brigando como crianças para ver quem conseguia abraçar a “mamãe”, então não venha me falar que aquilo foi porque ele queria um irmão, ou melhor, só um irmão.

— Ele não me quer no lugar da mãe dele, eu também não quero isso. Já tenho dúvidas de como consegui criar o Félix...

— Você é eficiente — o grandalhão segurou uma risadinha, tentando ficar sério mais uma vez — Imagine se seus filhos descobrirem que você está doente...

— Imagine se você descobrir que uma aranha enorme está debaixo do seu travesseiro... — ela retrucou em ameaça.

Gorila ficou em absoluto silencio, tentando se concentrar em suas teorias ao invés de uma possível víbora ameaçadora morar em seu quarto. Nathalie não precisou falar nenhuma palavra de ordem para que o grandalhão se encarregasse da lavagem de pratos.

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Adrien entrou no quarto do pai segurando as refeições. Ele esperava algumas reclamações por estar atrasado ou algo do tipo, mas tudo o que encontrou foi o seu adulto preferido dormindo como uma pedra.

— Pai? — ele chamou baixo, deixando os pratos sobre um dos móveis — Pai, o jantar...

— Quero dois canários também... — Gabriel resmungou, virando o rosto para o outro lado.

— Para que quer dois canários? — Adrien tentou não rir, o que se tornava incrivelmente difícil ao olhar os cabelos ainda roxos do pai.

— Para o cerimonial, minha assistente cuidará de tudo... — ele gesticulou algo com as mãos — Nathalie, cuide bem do Adrien.

— A Nathalie já cuida bem de mim, pai... — o rapaz sorriu — O senhor quem mandou ela cuidar de mim?

— Não, eu... Eu decido o que é ou não moda aqui, entendeu? — a voz saiu bem mais fria que o normal, enquanto ele gesticulava com as mãos — Se meu filho quer usar sandálias com meias, ele vai usar! — com certa dificuldade, o Agreste mais velho se sentou na cama — Nathalie, coce as minhas costas.

— Manda a Nathalie coçar suas costas? Que coisa horrível! Mais horrível que sandálias com meia! — o loiro não conseguiu prender as risadas — Não pode mandar ela coçar suas costas, pai! Não é profissional! — ele avisou enquanto esfregava as costas do mais velho.

Gabriel suspirou e deixou um som de alivio escapar dos lábios, pelo visto, Adrien tinha acertado exatamente o local que estava incomodando. Não levou mais que alguns segundos depois disso para que o Agreste despertasse e encarasse o filho sem entender o que ele estava fazendo.

— Adrien? — ele esperou até que o rapaz estivesse diante de si para continuar — Estava coçando as minhas costas? — perguntou com certa incredulidade.

— O senhor quem mandou — ele encolheu os ombros — Também disse algo sobre sandálias com meias — Adrien tentou não rir quando o pai fez uma careta de desgosto, como se não admitisse ter dito aquilo — Canários para um cerimonial e pediu para a Nathalie cuidar de mim. Que sonhos o senhor anda tendo?

— Quanto a essas duas últimas coisas, não foram apenas sonhos, filho — o mais velho suspirou pesadamente — Temo que a morte não esteja longe, estou planejando coisas essenciais para quando eu me for... Nathalie cuidar de você é uma das primeiras.

— Pai, não diga isso... — o mais novo se sentou ao lado dele, visivelmente abalado — ... a Nathalie já tem cuidado de mim — ele sorriu, lembrando-se de poucos minutos atrás — Ela pode ser uma mãe para mim e coçar suas costas quando você precisar...

— O que? — Gabriel ergueu uma das sobrancelhas.

— Tem também o meu irmão... — Adrien já estava perdido em seus pensamentos, idealizando uma família completa — Vai ser tão divertido quando começarmos a fazer as coisas juntos, não é!? Ele vai poder ir comigo em todos os lugares!

— Não! — o mais velho praticamente gritou — Nathalie não pode ter um filho! Não agora!

— E-Ela não tem, claro que ela não tem! — Adrien congelou quando notou o que tinha dito, precisava concertar as coisas, mas precisava abrir uma brecha para Félix ser, de fato, seu irmão — Mas ela pode ter um, depois...

— Não! — novamente, Gabriel elevou bem mais o tom — Estamos perto demais da estreia das novas coleções, nada de filhos!

— Eu sou seu filho, pai...

— Você é perfeito, é diferente! — ele se jogou na cama novamente, bufando em desgosto — Eu aqui, preocupado com a rentabilidade que ela poderia ter estando apaixonada, e você me atira esse pedregulho...

— Mas pai...

— Nada de filhos para a Nathalie, ela não precisa de filhos! Ela precisa trabalhar! Sem filhos, sem namorado, sem família e sem férias! Apenas trabalho!

Adrien encarou o chão, se perguntando se aquele princípio de “crise de estresse” era apenas por causa da nova coleção; por culpa do mal-estar; porque Nathalie poderia ter uma vida longe daquela mansão ou... bem, na pior das hipóteses, Félix era realmente seu irmão e Gabriel tinha uma pequena noção sobre isso, mas queria esconder de tudo e de todos.

Os dois jantaram no estremo silêncio. Gabriel estava envergonhado pelo jeito que agiu, mas não tinha intenção alguma de se desculpar; Adrien estava perdido em pensamentos e dúvidas sobre o que seria “certo e errado” em toda aquela história.

— Filho... — o mais velho praticamente sussurrou — Eu só quero que ela leve o trabalho como prioridade, porque quando eu morrer...

— Pai, não... — Adrien o encarou com os olhos tristes — O senhor não vai morrer.

— Eu só quero que ela tenha você como prioridade absoluta, porque é o trabalho dela.

— Não faço parte do trabalho dela, ela vai cuidar de mim porque ela é minha mãe emprestada agora — ele sorriu, tinha esperança naquelas palavras — E ela ter ou não um outro filho não vai mudar o carinho que ela tem por mim.

— Você quem pensa, você é filho único... somos filhos únicos— Gabriel resmungou, notando que toda aquela conversa não chegaria a lugar nenhum — Sabe se na internet tem algum médico? Nathalie se recusou a me levar para a emergência hoje mais cedo...

— Tem o Google, que é praticamente um Deus — Adrien sorriu, puxando o celular do bolso — Quais os sintomas?

— Dor no corpo todo, principalmente no estomago, como cólicas; enjoo; febre... — ele encarou o filho — E então, o que eu tenho?

— Tem várias respostas aqui... — Adrien abriu algumas para ver, fez uma breve leitura e mordeu o lábio inferior.

— Diga de uma vez!

— Vão desde viroses, infecções alimentares, gastroenterite virótica a até mesmo...

— Filho, não me poupe do pior, apenas diga! — Gabriel suplicou.

— Gravidez de gêmeos!

— Oh céus, não! — ele virou o rosto, não digerindo perfeitamente aquela resposta — Tem casos na família, meu pai foi um deles!

— Meu avô teve gêmeos? — Adrien ergueu as sobrancelhas, tentando não rir — Acho que é só uma virose...

— Não, não a gravidez! A outra doença, a com nome estranho e potencialmente fatal! — o mais velho se explicou.

— Na verdade, ela não é nem mesmo perigosa...

— Então trate de procurar uma doença com nome estranho e potencialmente fatal, porque eu com certeza vou ter ela — o mais velho ordenou, ficando emburrado mais uma vez.

— Achei que poderíamos ver algum filme juntos... — Adrien deixou os ombros caírem.

— Podemos ver... — Gabriel colocou uma das mãos no ombro do filho — ... enquanto você procura a minha doença.

— Ah! — Adrien sorriu, lembrando de mais uma forma de puxar assunto — Sabia que o Gorila fala!?

— Claro, e eu sou fluente em catalão... — o mais velho revirou os olhos.

— Você fala mesmo catalão!? — os olhos verdes ficaram com ainda mais brilho.

— Claro que não, Adrien! — Gabriel se perguntou quantos anos levaria até que o filho aprendesse a reconhecer sarcasmo — E é exatamente por isso que você está aprendendo coreano, porque é muito importante ter uma segunda língua.

— Mas eu estudo mandarim, pai...

— Eles falam exatamente a mesma coisa, filho — ele murmurou sem dar trégua para explicações — Já achou a minha doença?

— Sinto que estou perto de algo — o rapaz tentou se manter motivado.

— Ótimo! — Gabriel deu um ar de sorriso, enquanto pegava o controle remoto da televisão.

Aquilo era melhor do que nada.

Se passar um pouco de tempo com o pai exigia que Adrien ficasse procurando por doenças estranhas, era o que ele faria. Ou melhor: ele procuraria doenças graves, mas com curas simples... não queria ouvir o pai falando coisas relacionadas com a própria morte de novo.

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Longe dos quartos dos Agrestes, Nathalie e Félix terminavam de se aprontar para dormir.

A casa dela nos subúrbios, longe de Paris, poderia não ter tanto luxo quanto uma mansão tinha, mas o quarto dela e o do filho eram ao menos três vezes maiores do que o pequeno espaço que iriam dividir. Outro ponto irritante era o banheiro: ficava longe dos quartos e era minúsculo.

Quando mãe e filho já estavam prontos e caminhavam pelo corredor, indo em direção ao quarto, encontraram Gorila. O guarda-costas estava segurando tudo o que iria precisar para um banho relaxante depois de um dia agitado – incluindo o caderno de anotações, o chuveiro era sempre um lugar ótimo para meditação.

— Boa noite para vocês — ele tentou soar simpático, por mais estranho que fosse olhar para Nathalie com um moletom largo, ao invés do terno, e para Félix, com um pijama ao invés de suas roupas de “engomadinho”.

— Boa noite... — Nathalie desejou antes de um bocejo preguiçoso, com direito se espreguiçar.

Gorila quase escondeu o rosto debaixo da toalha para tentar não reparar na colega de trabalho: ela tinha belas pernas e... Céus! Ela estava usando alguma coisa embaixo daquele moletom, certo!? Certo!? CERTO!?

— Fique longe da minha mãe! — o rapaz mandou, mais irritadiço que o normal.

— É só o sono... — Nathalie tentou justificar o filho.

—Vamos trancar a porta, por via das dúvidas — o loiro alertou, entrando no quarto e sendo seguido pela mãe.

— Realmente vão dividir o quarto? — Gorila teria erguido uma das sobrancelhas, se tivesse alguma. Aqueles cubículos eram pequenos demais para caber duas camas.

— Ele gosta de historinhas para dormir — ela ergueu os ombros no meio das mexas compridas de cabelo... por que o grandalhão estava notando aqueles pequenos detalhes? Era claro que Nathalie tinha cabelos, cabelos compridos, mas aquela era a primeira vez que ele reparava como aquilo deixava ela com um ar de princesa indefesa... não, princesa não, Nathalie poderia ser considerada uma rainha.

— Eu sou o único homem que pode dormir com ela, fique longe! — Félix rosnou, batendo a porta antes que o guarda-costas pudesse falar qualquer outra coisa.

Gorila manteve o silencio e caminhou até o banheiro, mas antes de abrir o chuveiro e começar o seu ritual de cada noite para recuperar as energias, haviam novas anotações para serem feitas:

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Félix era ciumento demais;

Félix ficava irritado com sono, chegando a falar coisas indevidas;

Nathalie mimava o filho, por mais que evitasse demonstrações de carinho;

Nathalie tinha belas pernas

Nathalie desafiou as leis da física e enfiou duas camas dentro daquele quarto;

Notas finais
Espero que tenham gostado!