Máscaras
1 Máscaras
Cartazes e mais cartazes com um mesmo anúncio preenchiam as paredes dos corredores do Colégio do Norte naquele final de tarde. Grande parte dos alunos transitava pela escola sem prestar muita atenção à mensagem exposta por todos os cantos, mas, para as poucas pessoas em que a ideia de ler o que havia ali pareceu conveniente, os efeitos colaterais foram algumas risadas e uma concordância geral em aderir ao convite feito. Ao lado de um casal com as faces ocultas, caprichosamente desenhados, frases não muito bem organizadas preenchiam a folha exageradamente decorada: “Grande Baile de Máscaras da Brigada SOS! Não perca essa chance! Sábado, às 19h, no auditório”.
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- Foi uma ideia fantástica, não foi? – se vangloriava a chefe da Brigada, visivelmente empolgada, esticando os pés sobre a carteira à sua frente – Como eu pude não pensar nisso antes? Afinal, há algum jeito melhor de atrair alienígenas e seres sobrenaturais do que dando a eles a oportunidade de aparecerem em público sem serem reconhecidos?
- Claro, Suzumiya-san. Realmente brilhante! – sorriu Koizumi Itsuki, fazendo com que a líder continuasse a falar animadamente sobre o assunto.
Quando Haruhi finalmente iniciara uma atividade, mexendo o mouse compulsivamente, e encerrara a discussão, o esper virou a cabeça, a fim de observar a sala do clube, preenchida por fantasias, papéis, uma mesa e o computador, posicionado em frente à janela. Há alguns meses atrás, o ambiente parecia tão vazio, e agora... Bom, agora era uma sala aparentemente desorganizada e, por vezes, superlotada.
Rodou os olhos, mais uma vez, analisando os membros presentes; Kyon, o “humano normal”, aparentemente muito feliz por estar conversando com Asahina Mikuru, a mascote da brigada, sorria abobadamente, enquanto esta servia chá para todos com uma expressão meiga. Entretanto, com uma atenção especial, deixou que os olhos corressem para o canto da sala, onde estava a figura mais intrigante, de acordo com Koizumi: Nagato Yuki, como sempre sentada quietamente, lia algum pesado e grosso livro que parecia estar escrito em outra língua, fazendo com que os olhos nebulosos percorressem as páginas rapidamente. Realmente uma cena interessante.
Suspirou, recordando-se do e-mail que havia recebido pela manhã. Não sabia o por que da repentina notícia, mas temia ser a missão mais difícil que o grupo de espers já havia determinado a ele. Depois de todo esse tempo, em que tudo parecia estar tão certo... Por que isso justamente agora? Distraidamente, rolou os dedos pelo tabuleiro.
- Koizumi-kun? Koizumi-kun! – chamava Haruhi, mexendo os braços de modo a adquirir a atenção do esper, que ergueu os olhos para a menina, com um sorriso – Ah! Então, você poderia ficar até mais tarde hoje, pra dar um jeito nessa sala, certo? Eu, o Kyon e a Mikuru-chan vamos sair pra conseguir algumas coisas pra festa, mas a Yuki também vai ajudar a arrumar, então não se preocupe, não vai demorar tanto!
- Oh, claro, sem nenhum problema – consentiu, com o usual tom de voz que exalava gentileza.
- Ok! Então nós já vamos indo, pra adiantar. Boa sorte pra vocês! Arrumem direito, por favor – anunciou a chefe, puxando os outros dois membros pelo braço ao passar pela porta apressadamente.
Quando o barulho da porta sendo fechada ecoou em um baque, Itsuki desfez o sorriso e passou a recolher alguns papéis espalhados pela mesa. Observando pelo canto do olho, pôde ver quando Yuki fechou o livro, guardou-o, e começou a pendurar algumas fantasias jogadas pelo chão.
- Nagato-san... Por acaso, recebeu algum comunicado estranho da Entidade de Dados Integrados recentemente? – indagou, em uma voz baixa. E logo lembrou-se de sorrir. Não poderia deixar de sorrir.
Os olhos da alienígena encontraram os dele, com a usual inexpressividade. Mas as sobrancelhas se contraíram minimamente ao vê-lo sorrir; talvez por que ela mesma não costumava sorrir, era o que ele pensava. Ou talvez não fosse isso.
- Não. Nenhum comunicado – pronunciou-se ela, depois de algum tempo.
A resposta demorara tanto a vir que, por um momento, Koizumi ansiara algo positivo. Então, realmente, o problema era com ele, e não algum combinado entre os três grupos. O que havia feito de errado? Não estava seguindo tudo que lhe instruíam? Oras.
Estava tão distraído, perdido nos próprios pensamentos, que mal notou quando seu pé deslizou em meia-dúzia de papéis jogados no chão de modo desleixado, fazendo com que seu corpo inteiro fosse levado ao chão, em um repentino estrondo.
Ao fechar os olhos, pôde sentir cada músculo de seu corpo estalar; a dor era intensa, mesmo que, provavelmente, momentânea. Contraiu os braços, num gesto engraçado, com o objetivo de amenizar a dor nas costas, e respirou profundamente. Quando abriu os olhos novamente, focalizou o rosto de Nagato bem à sua frente, sentada sobre as pernas. A batida devia ter surtido algum efeito, pois, estranhamente, o esper sentia-se muito interessado em olhar cuidadosamente para o rosto delicado da jovem a sua frente. Pálido, bonito, com olhos impossíveis de serem decifrados.
Continuou assim por algum tempo; percebeu algo que parecia se mexer no ombro da garota, mas não deu muita atenção a isso. Desviou o olhar. Porém, ainda havia algum movimento naquele ponto; um movimento de asas. Um besouro.
Considerando o fato de que ela não parecia estar atenta ao minúsculo animal perto de seu cabelo, o esper pensou que seria rude não espantá-lo. Sem falar nada, sorrindo copiosamente, levantou o corpo, se sentando, e esticou o braço. Estava a ponto de alcançar o objetivo, quase lá... Foi quando sentiu seus pensamentos se embaralharem de tal modo a fazerem sua cabeça pesar; justo quando, revisando-se mentalmente, percebeu que o corpo bateria contra o chão novamente, sua testa colidiu ao ombro da alienígena.
Apoiando-se aos braços dela, os quais segurava com força, tornou a levantar a cabeça. Não estava com vontade de sorrir, mas mesmo assim o fez; porque era assim que as coisas deveriam ser. O rosto dela estava muito perto, notou o esper; notou também que queria se aproximar mais. A distância diminuía gradualmente. Muito, muito perto. Foi então que Itsuki desviou a face.
- Não me permitiriam fazer isso, né? – murmurou, sem com que ela escutasse; dadas as circunstâncias, isso era ótimo; não era conveniente que ela ouvisse o que tinha dito em um lapso momentâneo.
Antes de voltar a fitá-la, disfarçou a confusão com uma expressão risonha, e logo se levantou, supostamente animado.
- Haha, me perdoe por isso, Nagato-san! Quanta confusão eu causei, não? Por favor, ignore o que fiz depois de cair, minha cabeça estava realmente dolorida; acredito que compreenda, certo?
- Sim – logo, ela desviou o olhar, recolhendo os papéis que haviam provocado a queda do rapaz.
Koizumi moveu o corpo, a fim de prosseguir com o serviço; por alguma razão, já não se sentia mais tão bem, e isso o incomodava. A presença da colega naquele mesmo recinto parecia cada vez mais sufocante.
O tempo percorria lentamente, mas o fim da tarde finalmente chegara; o jovem de cabelos castanhos sorriu, aliviado. Despediu-se de Nagato com um risonho, porém distante, aceno, e pôs-se a caminhar até sua própria casa.
Suspirou ao se dirigir ao quarto, deitando o corpo na cama macia. Sentia-se estranhamente melancólico; recentemente, a vontade de deixar que as suas verdadeiras emoções transparecessem a todo o momento era cada vez maior. Não era como se mentisse integralmente quando sorria; ele realmente se divertia com os membros da Brigada SOS. Mas era impossível ser tão alegre assim, certo? Afinal, esse sempre foi um dos maiores defeitos do ser humano: estar constantemente infeliz com algo, mesmo que todo o resto esteja em perfeita ordem.
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- Não, não, Kyon, seu idiota! As fitas são daquele lado da parede! Você realmente deveria prestar mais atenção às instruções da líder da Brigada – reprovava uma vigorosa Haruhi, com a testa enrugada compondo uma curiosa expressão fisionômica.
Enquanto a garota chacoalhava os cabelos curtos de um lado para o outro, os demais membros do grupo se ocupavam com atividades para o “grande baile”. Asahina Mikuru, a maid, incrementava alegremente alguns panos que seriam colocados nas mesas como decoração; Kyon, em pé no último degrau de uma escada de madeira, acertava os itens que ficariam pendurados no teto, recebendo, vez ou outra, um comentário insatisfeito de Haruhi; já Itsuki e Yuki haviam sido instruídos para buscar as caixas com os elementos de decoração, que se encontravam na sala da Brigada, e levá-los ao auditório.
A alienígena caminhava lentamente com duas ou três caixas na mão, enquanto o esper vinha logo atrás com mais algumas.
- Nagato-san... acha que tudo está estável? Prevê alguma mudança no estado de humor de Suzumiya-san? – perguntou o jovem, com uma voz tão baixa que parecia estar sussurrado.
- Suzumiya Haruhi permanece com emoções controladas até o presente momento – replicou ela rapidamente, em uma resposta automática.
- Entendo... – com uma expressão pensativa, voltou a olhar para frente. Estava cada vez mais evidente que sua organização não tinha motivos para estabelecer a ordem que havia recebido.
Parou de andar quando percebeu algo caindo de um dos bolsos de Yuki; ela, concentrada em equilibrar as caixas, nem sequer notara a pequena flor branca agora sobre o chão. O esper abaixou-se vagarosamente, depositando o conteúdo que carregava ao seu lado. Pegou o delicado item caído, e colocou-o em seu próprio bolso. Não devolveria; pela primeira vez em muito tempo, seu egoísmo falara mais alto, permitindo-o fazer o que desejava.
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Por fim, depois de muito trabalho, o dia do baile chegara. A organização do ambiente estava perfeita; o auditório, que virara algum tipo de salão de festa, estava belamente decorado, e possuía até mesmo uma exuberante fonte em frente à porta de entrada.
Alguns dos espectadores daquele espetáculo questionavam entre si como a Brigada SOS conseguira aquilo tudo, sendo que era óbvio o alto custo das peças; entretanto, não demorava muito para se lembrarem de quem era a chefe do grupo e quão grande era seu poder de persuasão.
E era essa mesma chefe que estabelecera determinadas regras para os que comparecessem ao baile, o que explicava a padronização dos presentes: as garotas, todas com vestidos brancos e máscaras negras – com exceção da própria Haruhi, é claro, e da mascote Asahina Mikuru, que vestia um curtíssimo vestido vermelho, enquanto, aparentemente constrangida, recepcionava os que chegavam -, enquanto os meninos, em contraste, vestiam ternos negros e máscaras brancas.
O lugar enchia gradualmente, e, entre uma música alta e outra, o ambiente ficava mais e mais abafado. Muito abafado. Sufocante. Balançou a cabeça, incomodado. Suzumiya não se incomodaria se saísse do salão por alguns minutos, certo?
Koizumi Itsuki esticou as pernas, ignorando o que parecia ser uma proposta da líder para que os garotos presentes competissem entre si com o objetivo de ganhar uma dança com Mikuru. Respirou fundo ao abrir a porta, sentindo a brisa fresca bater contra o rosto.
Sentou-se sobre a borda da fonte, levantando a face. O céu o confundia. Parecia tão perto e tão distante ao mesmo tempo. E então se lembrou de algo: recebera outra mensagem do grupo de espers. Amanhã. Amanhã era o dia de encerrar o que havia construído até ali.
Arregalou os olhos ao ouvir o barulho de passos vindo em sua direção; estava tão compenetrado em seus próprios problemas que mal notara que mais alguém saíra do salão. Parada a sua frente, estava uma garota com um longo e branco vestido rodado, lindamente elaborado. Subiu os olhos em direção à face dela, e pôde reconhecer, mesmo com a máscara, aqueles olhos inexpressivos, somados ao rosto pálido e aos curtos cabelos cinzentos.
- Na...gato-san – balbuciou, estático. Por que ela viria até ali, sendo que só ele parecia estar do lado de fora do auditório?
Ela olhou-o profundamente, sem esboço de constrangimento. Agitou levemente os braços, escondidos com luvas brancas de seda, antes de se pronunciar.
- Algo... caiu – se manifestou ela, pausadamente.
Ele riu, achando graça da situação. É claro que deveria ter devolvido a flor caída no dia anterior, não é? Obviamente, a dona iria querê-la de volta; devia ser algo importante, no final das contas. Colocou uma das mãos no bolso lateral da calça, afim de retirar a plantinha de lá; cuidadosamente, capturou-a entre os dedos, esticando o braço, logo em seguida, na direção da alienígena.
Porém, antes que pudesse executar a ação por completo, percebeu seus olhos se arregalarem em surpresa; com uma das mãos tocando delicadamente a máscara do esper, Yuki analisava-o estritamente. Apenas quando esta mesma máscara foi atirada de lado pela jovem, Itsuki pôde voltar a si. Em choque, assistiu quando ela fez a mesma coisa com o seu próprio item de disfarce.
- Aproximadamente há 123 horas, 47 minutos e 52 segundos atrás, uma mensagem de e-mail foi enviada para o destinatário koizumi.itsuki @ organizacao.com, em nome de administracao @ organizacao.com. O conteúdo da mensagem, escrito em seis linhas, expressava uma ordem do remetente, em que Koizumi Itsuki estaria banido de sua missão de observar Suzumiya Haruhi devido a ordens superiores – Nagato pronunciara tudo aquilo com um inexpressivo e robótico tom de voz.
O esper, por sua vez, sorriu, desconcertado. Já suspeitava do fato da alien saber de sua atual situação; mas, é claro que ouvir isso tão diretamente o afetava de algum modo. Porque não importava o quanto tentasse fugir; em algum momento, a sua verdadeira face seria exposta.
- Haha... Nagato-san... – abaixou a face, em desgosto consigo mesmo. Sua maior fraqueza sendo exposta bem em frente àquela pessoa... Sendo exposta justo por aquela pessoa. Tudo tão surreal e desanimador. – Me diga apenas uma coisa, por favor. Você concorda com isso? Acharia melhor se eu, mais uma vez, obedecesse a essas ordens sem protestar?
- ... – ela olhou-o, sem nem ao menos inclinar o rosto. Abriu a boca lentamente, e um murmúrio quase inaudível saiu de lá. – Não.
- Ótimo. Era o que eu precisava ouvir.
Levantou-se, e rapidamente contornou a cintura de Yuki com os braços. Com a cabeça inclinada sobre os ombros dela, num gesto aconchegante, sorriu. Um sorriso menor do que os que costumavam compor sua expressão; porém, mais intenso. E verdadeiro.
Os pés de ambos esmagavam as máscaras uma vez jogadas em frente àquela fonte, enquanto a flor, singela em sua pureza, era pressionada entre a mão do esper e as costas da alienígena.
Notas finais
Eu realmente não tenho muito a dizer, mas gostaria de fazer algumas observações... Primeiro, eu sei que o Itsuki está um pouco OOC, mas acho que dessa vez foi intencional. Eu queria demonstrar o meu ponto de vista a respeito dele, e mesmo que a estória tenha acabado tomando um rumo diferente do que eu planejei inicialmente, a personalidade ficou clara, segundo o que eu penso; gostaria de tê-lo mostrado um pouco mais complexo, mas não deu pra desenvolver algo assim da maneira como eu queria, então ficou por isso mesmo P). Segundo, eu sei que as situações nas light novels são muito mais completas e interessantes do que as que eu coloco nas minhas estórias, mas, acreditem, eu faço o melhor que posso para que, pelo menos, elas não se tornem inimagináveis. Tenho esperança de ter êxito nesse sentido.
Enfim =D, espero que tenham gostado, e, se sim, por favor, deixem uma review! Elogios e críticas construtivas são muito bem vindos.
Por favor, me perdoem por qualquer erro, e obrigada por lerem, desde já. =D
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