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4 Capítulo 4: A noite


Estava muito frio lá fora, realmente muito frio. Meu celular vibrou e apitou quando chegou uma mensagem, eu tirei as mãos de dentro da manga da camisa e pesquei o celular de dentro de um dos bolsos da calça. Uma mensagem da Ana brilhava na tela.

“Cadê vc? A Carol taai?”

“Não, to aqui na rua. “

Ela devia estar bastante bêbada para não se lembrar de que havia pedido que eu a esperasse na rua cinco minutos atrás, dei um suspiro cansado e olhei em volta; metade dos carros já havia abandonado a rua, o frio parecia abraçar os meus ossos e deixar todo o meu corpo mais duro, minhas costas começaram a doer e eu tinha um gosto ruim na boca. Pelo menos estava bastante acordado e ansioso para ouvir um pouco da banda do Lucas tocar antes de ir para casa, eu tinha que encontrar um amigo no show para preparar uma festa e ainda tinha que abrir o pacote que chegara para mim no dia anterior... Não podia esquecer disso.

Passos cresceram atrás de mim, mas eu não me virei para ver quem era, estava ocupado procurando alguma coisa que me interessasse no Twitter mas já era tarde e a maioria das pessoas interessantes estava ou dormindo ou ocupada e a rede social naquele momento se resumia a um deserto de floods e memes batidos. Ana sentou-se do meu lado no meio fio, eu não me virei para olhar de inicio, mas o perfume dela continuava igual, eu respirei fundo de novo, aquele perfume era doce e inconfundível... ele me trouxe um pouco de paz.

Passei o braço direito por cima dos ombros da minha amiga, apertei-a contra mim e dei-lhe um beijo nos cabelos lisos e frios; ela recostou a cabeça no meu peito e fechou os olhos por um instante, seus lábios franziram-se enquanto ela dava um longo suspiro. Quando seus olhos finalmente se abriram ela se afastou para dar-me um beijo no rosto, passou o braço esquerdo por detrás do meu e apertou a minha mão na sua, recostando finalmente sua cabeça no meu ombro direito.

— Beijou alguém? Ela perguntou com a voz cansada e meio embargada enquanto encarava o asfalto iluminado pelo brilho amarelo da iluminação pública.

— Beijei não, e você? Eu respondi, encostando a bochecha na cabeça da garota enquanto acariciava seus dedos.

—Beijei ninguém, mas tô toda beijada. Ela riu, riscando o meu indicador com as unhas.

— Normal, tu achou a Carol e as outras meninas? Eu respondi, rindo com a garota.

— Achei sim, elas tão despedindo de um povo lá e já vêm. Ela respondeu.

— Tu parece que tá meio cansada... Tu ta bem? A garota falava com a voz arrastada, com uma voz frágil, não que fosse estranho, mas alguma coisa parecia errada.

— Tô cansada sim, acho que eu bebi demais... posso te pedir uma coisa? Ela passou o nariz gelado na manga da minha camisa, eriçando os pelos da região com o choque térmico

— Pode, diz ai. Eu roçava o polegar na palma da mão dela... aquilo sempre a acalmava.

— Quando tu for embora, tu me deixa em casa? As meninas vão dormir na Carol mas eu não to no clima... Ela falou e bocejou, escondendo o rosto no meu braço.

—Eu te levo sim, tu tem certeza que não aconteceu nada de errado não?

— Relaxa. Ela deu uma mordidinha no meu braço por cima da camisa, me tirando uma risada, eu novamente beijei a garota na cabeça e apertei sua mão. Passos novamente cresciam atrás de nós, o frio continuava a se bater contra o meu rosto descoberto, mas agora, pelo menos, a minha alma estava mais aquecida.

— Ô casal, bora ou não bora? A voz debochada da Carol nos chamou, ela e mais duas garotas que eu ainda não tinha aprendido o nome passaram pela gente e se posicionaram na nossa frente.

— Bora, tu descolou uma jaqueta show, hein? Eu comentei, morena vinha embrulhada um uma jaqueta negra de couro que lhe passava da cintura, ela sorriu e passou a mão nos cabelos.

— Godoy me emprestou. Ela explicou, colocando uma pitada de orgulho em cada palavra.

—Entendi, bora então. Eu respondi, rindo, e me levantei, estendendo a mão para ajudar a Ana a se erguer.

—A gente vai pra qual estação? Perguntou a loira.

—Acho que a gente tinha que pega um busão lá na Alfredo de Bulhões até a Castro Alves, de lá a gente anda pra estação De Ros e daí segue pro Vilas-Boas. Sugeriu uma das amigas da Ana, uma baixinha de cabelo e olhos pretos... O rosto lembrava o de um coelho travesso.

— Pô ,meu, tu quer andar lá na Castro Alves nessa hora da noite? Vocês tão valente demais. Eu comentei, rindo. Era a mais pura verdade, eu evitava passar naquela avenida depois das dez da noite, acompanhado de quatro garotas então...

— É o jeito, cara, se não a gente tem que pegar a estação da Alfredo lá em cima, ir pra De Ros e voltar na Vilas-Boas, indo pela Castro é mais caminho. Argumentou a garota, acredito que ela se chamava Maria ou algo assim...

— Tá beleza então, mas vocês se liguem então pra não olhar torto pra ninguém. Eu avisei, conduzindo a Ana pela cintura e começando a andar, as garotas nos seguiram.

— Tu sabes oque que o Lucas vai tocar hoje Rod? Perguntou-me a Carol, emparelhando comigo e com a Ana.

— Ele vai tocar uns improvisos lá no começo pra dar uma animada, depois deve tocar umas antigas... dai eles mandam umas mais conhecidas até acabar. Eu estimei, não tinha muita certeza do que meus amigos iam tocar ...não me lembrava do que havia sido dito no grupo, mas era alguma coisa naquele estilo.

— Ué, Ele não falou as bandas? Ele podia mandar umas originais, o De Castro se amarra pô. Ela perguntou.

— O Lucas falou mas eu não lembro direito, mas ele não deve tocar nada muito pesado hoje, não tem público pra isso... Eu expliquei, soltando a cintura da Ana para pegar o celular no bolso da calça, já eram 9:55.

— A gente vai chegar atrasado, vocês tão ligadas nisso ai né? Eu comentei enquanto abria as mensagens no celular.

— Eu to ligada mas não teve como, acabou que a gente enrolou lá com os caras da Monetária e quando eu fui ver tava em cima da hora. A Carol se explicou.

— Claro que tu não viste, estavas apaixonada naquele barbudo do truco já. Comentou uma das garotas atrás de nos, rindo. Esta tinha um sotaque sulista que a muito tempo eu não ouvia, Carol ficou rubra de vergonha.

— Terê, cala a boca, vai. Eu ri, acompanhado pelo resto das garotas.

Continuamos andando pela rua escura enquanto as garotas conversavam, a rua era iluminada apenas pelas luzes amarelas dos postes e não nos aventurávamos pela calçada... a baixa quantidade de carros não nos obrigou. Notei que a Ana não se pronunciara nenhuma vez e que mal ria das piadas das amigas, vinha andando com os olhos parados, como se encarassem o vazio, e eu praticamente a conduzia pelo caminho... algo deveria estar errado. Diminui o ritmo dos nossos passos e deixei que as garotas tomassem uma dianteira.

— Ei, o que que foi contigo? Eu perguntei, tomando sua mão na minha para chamar-lhe a atenção.

— Eu não sei.. alguma coisa me incomodou e eu não sei bem o que é.

— Você tem alguma ideia?

— Tenho...

— Então diga.

— Eu tô ficando com um garoto mas eu não sei se ele gosta mesmo de mim ou se ele só quer ficar comigo sabe?

— Sei... e quais pistas você tem?

— Tipo.. eu sei que ele gosta de mim, e que ele sente ciúmes de mim, ele te odeia inclusive...

— Pera, ele me odeia? Eu nem sei da existência do cara. Eu ri, tentando melhorar o humor da loira.

— Você é o meu melhor amigo e eu acho que as vezes ele queria ter a proximidade que a gente tem sabe? A gente ta sempre junto e se dá muito bem... isso deve incomodar. Ela explicou.

— Coitado, ele não sabe o que eu sou obrigado a suportar.

— Cala a boca. Ela retrucou, sorrindo, eu ri e argumentei.

— Ora, se ele sente ciúmes de ti, se ele gosta da tua companhia... qual o problema?

— Sei lá, ele não é um cara muito claro sabe? Ele é cheio de orgulho... ele não toma a iniciativa sabe? Eu que tenho que ir atrás, ele vive falando com umas amigas dele.. sei lá, eu não sinto uma segurança sabe?

— Sei, mas tu já foi honesta com ele?

— Como assim?

— Você ta me contando isso... já falou com ele sobre isso?

— A gente não tem essa proximidade ainda sabe? A gente conversa tem umas duas semanas só e tipo.. sei lá, acho que isso pode afastar ele se eu começar a cobrar essas coisas.

— Assim... acho que o mais seguro é conversar com ele.

— Ta mas não é fácil assim, tu não lembra quando você namorava a Mari? Ela nem tinha terminado a frase eu já sentira o impacto, aquele foi um golpe baixo.

— O que que tem ela? Eu respondi na defensiva.

— Tu tinha problemas com ela e não conversava sobre isso.

— Certo mas era diferente.

— Diferente como?

— Era diferente Ana! Diferente ora, tu sabe o que aconteceu.

— Eu não to falando dela ter ficado com o Frazão, to falando de que antes de vocês brigarem vocês também não conversavam.

— Ana.

— O que?

— Eu não sei que conselho te dar, deixa isso pra lá.

— Ta bem.

Nós agora virávamos à esquerda em uma rua mais larga e movimentada. Ana realmente conseguira me irritar e íamos lado a lado em silêncio, todo o grupo agora caminhava na calçada desviando das eventuais mesas e cadeiras que os bares posicionavam no caminho dos pedestres. Eram 22:05 da noite quando finalmente alcançamos a Alfredo de Bulhões e pegamos o ônibus que corria em direção ao centro da cidade. Ana se aninhou em mim quando sentamos lado a lado... ela realmente parecia abatida, não sei se fui justo com ela.

— Ei, relaxa, vai ficar tudo bem... se o cara realmente gostar de ti ele vai te mostrar, se não gostar... relaxa, tu é uma garota sensacional, tu não precisa de ninguém e eu estou sempre do teu lado, não estou? Eu toquei os dedos no rosto da garota, desenhando um sorriso nos seus lábios tristes.

— Ta sim, brigado Rod... Você é um irmão. Ela abraçou pelo lado e eu acariciei seus cabelos macios, ela era uma irmã. O ônibus parou de repente, havíamos chegado no ponto onde deveríamos descer e as garotas se adiantaram para a saída.

Uma vez todos fora, atravessamos a avenida e começamos a descer a rua Castro Alves em direção a estação de Metrô, já eram 22:12 da noite e chegaríamos mais atrasados do que eu havia previsto. A rua Castro Alves era majoritariamente uma rua de comércio naquela época, de forma que tarde da noite todos os estabelecimentos estavam fechados e os cantos escuros da longa avenida ficavam apinhados de vultos esguios. Sombras que debandavam apenas ao raiar do sol com o som das sirenes, olhos cansados e vorazes espreitavam os transeuntes... era um lugar perigoso, as drogas tomavam aqueles cantos uma alma de cada vez.

Caminhamos rápido pela calçada tentando fazer o mínimo de barulho possível para não chamarmos atenção para nós mesmos, chamas ocasionais iluminavam os rostos das pessoas sentadas às portas dos prédios... rostos inexpressivos. Enquanto passávamos alguns dos homens se pronunciavam, os que compravam gemiam enquanto os que vendiam faziam convites... eu senti a mão da Ana estremecer colada da minha, eu a apertei, nada aconteceria.

— Rodrigo. Uma voz chamou, rouca e firme. Eu me virei para ver o homem que saia das sombras de um estacionamento pago pelo qual eu acabara de passar, era um homem alto, magro com o cabelo castanho curto e os olhos sonolentos. Veio até mim num passo calmo enquanto eu senti a minha amiga se petrificar ao meu lado, atrás de mim uma das garotas prendera a respiração.

— Salve, irmão, beleza? Apertamos nossas mãos, o homem continuava com o mesmo cheiro de tabaco queimado.

— Tranquilidade filhote, tu não desce mais caralho? O homem abriu um sorriso de dentes amarelos, os olhos brilhavam na luz da rua.

— Ocupado né mano, ta foda pra mim. Minha boca está seca.

— Ta me enrolando mano, tu desce aqui depois valeu? A gente arruma alguma coisa pra vaporar. Ele colocou o indicador no meu peito, eu vi o brilho metálico na sua cintura, eu ví o sorriso vacilante.

—Ta combinado mano, tenho que deixaras guria em casa. Eu empurrei a Ana para traz enquanto sentia uma pressão crescente na espinha.

— Deixa elas ai mano. Ele sorriu um sorriso cruel, mas se afastou um passo.

— Não rola mano, abraço. Eu me virei e conduzi minha amiga para longe, seguido de perto pelas outras.

— Falou. Eu ouvi atrás de mim, uma voz fraca... que se perdeu nas sombras novamente.

Caminhamos todos em silêncio, sem mais se importar com discrição, simplesmente querendo chegar o mais rápido possível à estação de metrô. Descemos as escadas quase que correndo e passamos pelas catracas, a plataforma estava vazia. As garotas sentaram-se no banco respirando com dificuldade, Ana recostou-se em uma das pilastras e olhou para mim... seus olhos estavam marejados e no seu olhar eu enxerguei a decepção, não havia nada o que dizer.

O metrô partiu, as meninas continuavam assustadas com o que tinha acontecido e eu simplesmente não sabia o que deveria fazer... permaneci quieto até chegarmos na estação Vilas-Boas. Descendo do trem, a Carol e as outras duas garotas entraram em uma das únicas lojas que permaneciam abertas na plataforma, eram 22:25... os outros deviam estar preocupados.

Eu me recostei em uma das pilastras da plataforma, meus olhos começavam a arder... devia ser o sono, o efeito da pouca cerveja que eu bebera mais cedo já não fazia efeito. Ana se aproximou de mim e, embora eu não tenha me virado para olhar eu sabia que ela me observava... era um olhar aterrador. Senti a loira me abraçar, senti suas mãos se cruzarem na minha cintura e sua cabeça encostar no meu peito, eu ouvi um suspiro pesado.

— Desculpa por mais cedo. Ela disse como num sussurro, a voz suave me obrigou a olhar para a garota, ela estava preocupada.

— Eu peço perdão, você tinha um problema, você estava triste e eu tornei isso sobre mim enquanto era sobre você. Me desculpa. Eu pedi, beijando a testa da minha amiga com ternura.

Ela me abraçou, escondeu o rosto no meu peito e por um momento eu senti paz, senti como se o peso dos dias se anuviassem com o cheiro do perfume da minha irmã... era uma sensação muito boa. Nossas companheiras finalmente voltavam e vinham animadas com alguma coisa, já falavam alto e vinham sorrindo.

— E ai? Bora pro show? Eu perguntei, sorrindo com a loira ainda abraçada em mim, mas ela sorria para suas amigas também.

— Só bora, bicho. Respondeu a que se chamava Maria, era uma garota bonita agora que eu a via na luz branca da estação.

Nós subimos a escada até sair na porta da entrada do Parque Vilas Boas, de frente para o grande lago de Pséma. Era um grande portão de ferro iluminado com grandes lâmpadas brancas, o nome do parque era lido no alto do portal em grandes e douradas letras garrafais. Entramos seguindo o som da música, os tambores da bateria guiavam nossos passos e ritmava nossos corações, as guitarras vieram para pintar-nos um sorriso nos rostos, a brisa que vinha do grande lago encheu nossos pulmões com o ar frio da noite.

O show começara