Máquinas do Apocalipse
4 Caminho para o Nada
Nossa vila começou com pouco mais de oitenta pessoas, com o passar do tempo os moradores envelheceram e foram adoecendo, morrendo sem a mínima chance de qualquer tratamento já que não tínhamos nenhum acesso à medicina do mundo antigo. Alguns deles partiam em jornadas pelo deserto ou para o Obelisco e nunca mais eram encontrados.
No dia em que Reno e eu partimos para o Obelisco, os últimos trinta aldeões nos abençoaram com orações e colares feitos de ossos. Kaede nos presenteou com dois bastões de combate, os melhores e mais reforçados que eu já tinha visto, e com as esperanças de todos depositadas sobre nós, seguimos para a grande escadaria que levava ao Obelisco de Andrômeda.
— Pronto? — Perguntei, vestindo o capuz improvisado de minha túnica.
— Que escolha eu tenho? — Rosnou Reno, já à três degraus de vantagem na minha frente. — Vamos acabar logo com isso.
Os degraus de mármore pareciam ser infinitos, subiam em direção àquele céu laranja escuro e iam até onde nosso olhar humano era capaz de enxergar. Como não tinham apoio nenhum, imagino que aquela estrutura caótica se mantinha firme graças à vontade de Andrômeda.
Os vários minutos se tornaram longas horas, Reno subia em silêncio, de tempo em tempo contemplando a vista das alturas. Deserto. Deserto para todos os lados. A areia negra e estéril cercava nossa pequena vila ao pé do Obelisco até o fim do horizonte.
— Não falta muito agora, Andrômeda já deve ter notado nossa presença. — Comentei ofegante com o intuito de quebrar o gelo. — Parece até que estamos mais rápidos do que quando subo sozinho.
— Você disse algo assim há algumas horas, velhote. — Respondeu Reno, áspero como de costume.
— Não vejo você falando assim com Kaede ou com os outros aldeões, agora seria uma boa hora pra me dizer o motivo desse comportamento arrogante. — Retruquei sem escolher muito bem as palavras.
Reno riu consigo mesmo e continuou por mais alguns degraus em silêncio absoluto, até decidir finalmente expor o motivo do tratamento diferenciado que eu recebia dele.
— Você foi o único a conhecer meus pais mas nunca me fala nada a respeito disso. — Começou o jovem em um misto de raiva e nervosismo aparente. — Tudo que escuto de você são essas merdas de histórias sobre Deuses-Máquina, sobre o que preciso fazer, sobre o que minha missão significa… Já parou pra pensar em como eu me sinto com isso tudo, porra?
— Sinto muito que se sinta assim, mas é um assunto delicado.
Eu juro que gostaria de ter mais tempo para responder Reno, mas as distorções que começaram a surgir nos degraus à nossa frente tiraram meu foco daquela conversa estranhamente emotiva.
— Reno… — Continuei, gesticulando calmamente — Veja, nós chegamos.
O jovem mesmo que furioso, volta sua atenção à brecha estática que flutuava meio a escadaria que rumava ao céu infinito. Era uma ponte entre dois locais distintos, um convite de Andrômeda para nós.
Reno nada respondeu, me deu as costas e saltou para dentro daquele buraco temporal sem ao menos saber onde isso o levaria. Eu o segui com pressa, com medo de que ele fizesse alguma besteira.
Depois de horas e horas subindo a escadaria infinita, finalmente alcançamos o Obelisco, a titânica fortaleza flutuante de Andrômeda. O portal havia nos trazido exatamente para sua sala do trono.
Era um salão imenso, todo feito em pedras cinzentas de formas irregulares. Dez pilares de pedra marcavam o caminho até o trono majestoso onde Andrômeda repousava em silêncio. Podíamos ouvir apenas o som de nossa própria respiração, e, se prestássemos bem a atenção, ouvíamos também as batidas de nossos corações acelerados, eufóricos com aquele momento.
Em todos os pilares do salão haviam enormes cabeças mecânicas corroídas pelo tempo — uma diferente da outra — que enfeitavam aquele ambiente sem vida e serviam como troféus de guerra para Andrômeda. Lembretes do poder descomunal daquele ser entre sua prole.
— Esses todos… — Comentou Reno, maravilhado com as proporções daqueles crânios metálicos — Eram deuses? Você sabe o nome deles?
Como previ, Reno finalmente parecia interessado em minhas histórias após vislumbrar por si mesmo a grandiosidade D’eles.
— Impossível saber o nome de todos, são tantos quanto os grãos de areia do deserto negro. — Respondi me aproximando de um dos crânios suspensos. — Mas esse em especial era de um Deus-Máquina que tentou destruir nosso vilarejo, chamado Khilmunoth.
Uma onda de energia quente escaneou o ambiente, interrompendo minha história.
Andrômeda havia despertado para nos receber.
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