Nunca imaginei que depois de tantos e tantos anos iria sentir falta de chegar em casa exausto do trabalho, tomar um banho quente, alguns comprimidos para a maldita ansiedade e me atirar no sofá na esperança de assistir qualquer porcaria até cair no sono, e, no dia seguinte, repetir tudo outra vez. Falta da antiga vida difícil que levava.

Depois daquela noite nunca mais dormi direito. Na realidade, muita gente sequer dormiu novamente.

O programa idiota que eu assistia naquele final de noite foi interrompido por uma transmissão urgente do governo. Aparentemente um satélite inativo entrou em nossa órbita, não foi detectado por nenhum radar e caiu em uma cidade no interior do Arkansas, destruindo metade da mesma e dizimando a maioria da população atingida no raio do impacto.

Ainda lembro do aviso de que a guarda nacional havia sido despachada às pressas para o lugar da queda com a missão de cercar o perímetro antes que os helicópteros das emissoras de rádio e TV pudessem transmitir qualquer informação. Eles não contavam com a curiosidade mórbida dos noticiários locais das cidades vizinhas que chegaram ali em questão de minutos e acabaram com qualquer confidencialidade que o governo pretendia manter.

Corri para o notebook no quarto, o Facebook e o Instagram estavam repletos de vídeos, fotos e até lives de pessoas perigosamente próximas ao local. Tudo que podia ser visto no começo era uma fumaça branca e espessa vindo da cratera formada pelo satélite. Com muita dificuldade podiam ser vistos os restos do equipamento orbital e uma espécie de cápsula de metal, severamente desgastada pela queda, que sentava silenciosa no epicentro do grande buraco.

Uma das filmagens mais próximas do local pegou o momento exato em que a cápsula se abriu repentinamente e da escotilha semidestruída surgiu algo inacreditável. Na verdade, inacreditável não fazia jus à estranheza daquilo. Nenhuma palavra conhecida fazia.

Diante dos olhos do mundo inteiro que acompanhava aquele momento via internet, emergiu uma figura misteriosa, diferente de tudo que nossa civilização já havia visto, ao mesmo tempo em que transmitia uma estranha sensação de familiaridade.

Senti medo, lembro nitidamente da sensação sufocante, mas não conseguia desviar meu olhar vislumbrado da tela do computador.

Uma figura humanoide surgiu meio à fumaça, era alta e imponente, tinha três metros de altura facilmente, até mais, não soubemos com exatidão até muitos anos após sua chegada.

Sua estrutura corporal era aparentemente metálica com cabos estranhos percorrendo toda a extensão de seu corpo mecânico cinzento. Não tinha rosto, ou ao menos não um rosto funcional como estamos acostumados a ver, com boca, nariz, olhos e orelhas. Mas a criatura tinha sim algo equivalente a olhos, que brilhavam em um laranja claro e fitavam os curiosos que se reuniam aos montes e observavam abismados do lado de fora da cratera.

Um forte clarão laranja cegou brevemente todos no local, como se os olhos daquele ser houvessem escaneado a área e as pessoas que apontavam câmeras e celulares em sua direção.

Meu coração quase saltou pela boca, até hoje sinto com exatidão a mesma sensação apavorante quando lembro daquela cena. O pavor crescia mais e mais no peito enquanto observava a tudo aquilo à milhas de distância na segurança do meu lar, mas mesmo assim parecia que eu estava lá, na cratera, de frente com aquilo.

Após o breve scan, o ser misterioso moveu uma das mãos em um movimento repentino fazendo explodir todos os aparelhos eletrônicos apontados diretamente em sua direção, causando ferimentos graves em muitos dos curiosos ali presentes. Mais da metade das filmagens cessou naquele momento, mas por sorte, uma emissora local já sobrevoava a área à uma distância segura e pôde continuar transmitindo os acontecimentos.

A figura ergueu seu olhar para a máquina de aço que voava ao longe, e com outro simples movimento de sua mão, trouxe o helicóptero da emissora sobre o pequeno público assustado que ainda permanecia pelas imediações, trucidando sem piedade o maior número de pessoas possível com as hélices e ferragens da aeronave, demonstrando ter controle total sobre nossa tecnologia terráquea.

Se até então eu não estava em total desespero, naquele momento eu tive absoluta certeza do pesadelo que isso iria se tornar. As transmissões caíram de vez, assim como o sinal de internet e telefone. O planeta todo se tornou incomunicável pelos dois minutos mais longos da minha vida.

Após isso a televisão voltou e a internet também, mas apenas uma transmissão desfocada em todos os canais e plataformas disponíveis. Eram filmagens vindas do espaço. Nossa órbita estava em chamas.

Dezenas, talvez até centenas de outros satélites, sondas e até mesmo detritos e estações espaciais inteiras estavam a caminho da terra riscando o céu noturno com luzes incandescentes, como estrelas cadentes que traziam desejos de morte.

Aquele ser vindo do espaço estava nos privilegiando com um espetáculo que precedia a destruição do planeta terra como o conhecíamos.

Aquela foi a primeira vez que vislumbrei a magnitude dos poderes D’ele. O Primeiro Deus-Máquina a descender sobre a humanidade: Andrômeda.

Notas finais
Comentários, críticas e sugestões serão sempre bem vindos! Obrigado pela leitura e não perca o próximo capítulo!