Notas iniciais
Aos meus Ricardos, que sempre acham algum jeito maluco de me fazer sentir mais normal. Aproveitem a leitura :)

A água percorreu as mesmas linhas que as mãos dela contornavam. Deixou que os desenhos ganhassem vida em sua vida ritmada por uma vontade de terceiros. As marcas iam se apagando assim como suas memórias e sua personalidade. Dobrou-se como suas roupas esperando na cadeira. A textura suave grudou na pele e as cores se fizeram presentes no tecido chato. Uma antiga expressão que lhe causou nostalgia.

Olhou o cinza do céu e sentiu o ar cortar o bafo quente do banho. A comodidade que o mantinha ameno se esvaiu e ele se sentiu obrigado a parar de ser ele mesmo. Apesar de todos os sentimentos estarem presos naquele novelo de arame, a ponta ainda o conectava a lã que um dia usara. A mesma revolta e a teimosia ainda ligavam o objeto ao reflexo, agora de cabelos penteados e gravata com um nó feito ao redor do pescoço. Estava acostumado com nós na garganta e amarras no pescoço.

Pegou a mala, que para ele era mochila, decidido a fazer sua rotina diária pelos últimos dias antes que tomasse coragem para mudar. Tinha prometido a si aquilo há meses atrás. Sua nova desculpa era a questão financeira que não exista. Estava tentando criar algo e que fizesse mais sentido. Enquanto não conseguia, porque criatividade era a área dela, ele se mantinha estagnado, não como estatua, como máquina processando o algoritmo em loop.

Moveu-se pela rua na direção ao barulho dos outros motores e máquinas. A canção que soava pelos buracos do fone retornavam pelas cordas vocais que vibravam em um resmungo baixo. Observou as manchas no asfalto e viu a cor desbotar dos prédios e das pessoas. A verde esperança começou a sumir da sua alma assim como das flores.

A lembrança de um passado alegre e a crença de um futuro melhor faziam o chacoalhar do ônibus parecer o ninar dos braços protetores. Sentiu as noites mal dormidas machucarem as costas e o peso da mala pedirem para que ele se arrumasse ao lado da janela como o asfalto. Quente e manchada a vida lá fora parecia caoticamente triste, corrida, acidental.

Por algum motivo ainda lhe era relaxante toda aquela correria e aquele barulho mecânico. Foi invadido por uma onda de conforto e se deixou levar pelo sono que lhe fechava os olhos. Permitiu-se realizar uma vontade meio a todas as proibições e negações que obrigava-se à aceitar. Não poderia contar com seu corpo para acordar quando precisasse, porque o seu racional estava desligado e o reinicio desse sistema o levaria a algum lugar ao qual ele queria física e emocionalmente.

O pequeno cochilo o tirou por horas e o desviou do caminho do trabalho. Acordou sabendo que teria que mentir para o chefe de novo e o faria com gosto. Pelo menos poderia voltar para a cama e dormir mais um pouco. Talvez conseguisse trabalhar em alguma coisa ou ir ao cinema. Talvez o dia não fosse ser tão ruim assim.

O estômago lembrou que ele havia preferido tomar banho ao invés de comer depois de notar o atraso usual de meia hora. Seria melhor parar em alguma cafeteria no caminho e comprar algo para comer mais tarde também. Provavelmente aquele não era seu dia e ele sabia disso desde que acordou. Ainda assim resolveu levantar para o banho porque já não conseguia mais saber quando agir e quando ser máquina de novo.

Começou a andar para achar um lugar para comer. Ele conhecia a área. Era um pouco longe de onde morava agora, mas conhecia alguém que morava ali perto e ela sim conhecia cada rachadura na calçada. Se conseguisse lembrar onde era o café que ela gostava talvez conseguisse ficar mais perto do seu passado, mais perto de suas lembranças dela. Poderia reconhecer o caminho se lembrasse o que ela falava sobre as esquinas e as histórias e fofocas sobre os donos e os vendedores das aconchegantes lojas. Quem sabe não reconhecesse algumas dessas pessoas e veria qual teria sido o final de tudo aquilo que ele ouvia falar.

Caminhou por mais tempo do que notou e achou que deveria ir para casa. Não queria perder o dia procurando um resquício de felicidade passada só para lembrar como tudo terminou e a pessoa horrível que ele se tornou. A tristeza da realidade fez com que seu processador voltasse a funcionar. Procurar pelo lugar era estupidez. Ele já havia passado por vários outros lugares que deveriam ser suficientes para satisfazer sua fome. Ele ainda poderia passar na frente do prédio. Talvez conversar com o porteiro, mesmo que que não fosse o antigo e simpático porteiro, ele poderia contar como ela estaria, com quem se estivesse namorando e onde ela trabalhava agora. Sentia-se estranho por ficar correndo atrás dela, desesperado por qualquer informação.

Os fones ainda funcionavam, porém indicavam as mensagens recebidas. Ele achou que fosse o chefe e ia avisar que tivera problemas com o ônibus. Não gostava da ideia de mentir, por isso somente contava meias verdades. O número que apareceu na tela do celular não estava nos registros, ainda assim jamais poderia esquecer a tatuagem de pardal do lado direito do pescoço. O número de vezes que beijou aquele pássaro logo pela manhã e em seguida imitou o canto em um assobio que só ele poderia fazer. Era só para provocar e ouvir a reclamação e receber os olhares bravos e conseguir arrancar risos nos momentos certos. Ele tinha feito um bom trabalho naquele pássaro.

A mensagem era simples. Ela estava tomando café e o vira passar três vezes pelo estabelecimento, completamente perdido. A segunda mensagem era a localização. Ela estava lhe dizendo como encontrar sua caminho para a felicidade. As pernas se moveram rapidamente, seguindo o caminho indicado pelo telefone. Sua chance de voltar para sua vida passada estava a sua frente, tomando café e comento pão de queijo, como ele sabia que ela deveria estar fazendo. Ainda deveria ter algum de seus caderninhos abertos sobre a mesa e canetas e lápis espalhados, enquanto as pessoas a olhavam como louca. Seu coração apertou-se de saudade e o estômago embrulho. O moleque que ele era quando a conheceu e o nervosismo que sentiu voltaram e suas mãos suaram.

Não deveria ter mais de quinze pessoas na pequena cafeteria. A menina loira com os braços pintados usava roupas antigas e desenhava com canetas estranhas. Haviam olhares sobre ela, alguns interessados, outros discriminatórios. Do mesmo modo, os funcionários já estavam acostumados e nem ao menos a olhavam. A chamavam pelo nome e eram chamados pelo nome, uma relação mista de amizade e servidão. Nem todos gostavam dela, mas a rotatividade de trabalhadores era grande e eles não tinham tempo de fingir uma amizade para saber as fofocas sobre a vida dela.

Ela levantou os olhos quando a porta abriu e viu o menino engravatado entrar. O calor incomodava fora do ar condicionado barulhento da loja, porém ele não exibia a pele colorida dos braços como outros faziam. Ela sabia que boa parte das tatuagens dele não tinha tantas cores quanto as dela. Ele preferia fazer as tatuagens sem recheio, como ela dizia, porque assim poderia sentir as mãos frias cheias de anéis segurarem sua pele e pintarem sua vida com canetinhas baratas. Passaram horas dessa maneira, ele deitado no tapete escuro, com ela em suas costas com a língua de fora pela concentração. Aqueles momentos lhes invadiram os pensamentos e a saudade já falava mais alto. Por segundos, o suficiente para ele chegar até a mesa, não pareceu que eles haviam se separado por dois anos. Parecia mais um dos encontros depois de ele faltar no trabalho. Naquela época não era um trabalho tão fechado e havia mais pessoas para fazer seu trabalho do que para perceber que ele havia escapado de novo.

Houve um sorriso quando ele sentou. Ela voltou a olhar o caderno e pintar o desenho enquanto ele pedia o chocolate quente e o cookie de sempre. Eles já conheciam os movimentos uns dos outros e tudo parecia estar na mais perfeita ordem. Era como estar de volta em casa, em um dia não muito quente, quando não se há prazos para cumprir. Um dia solto numa rotina repetitiva, onde todos os dias parecem iguais. Parecia mágica que somente sentado ao lado dela ele captasse uma onda de sensações boas e memórias tão vividas que nem lhe pareciam esquecidas. Ele a olharia até que ela acabasse de colorir e estivesse pronta para conversar. Nem pensaria em atrapalhar, não queria ter que brigar por motivos bobos, eles não levavam a tratados de paz interessantes.

Ele comeu em silêncio, catalogando as canetas novas enquanto elas eram agarradas e largadas na mesma velocidade em que os olhos dela preenchiam o papel branco e criavam seus contrastes e sua paleta de cores. Seu rosto estava focado, como há tempos não ficava, e seus tiques demonstravam seu conforto. A esse ponto alguém poderia pegar fogo que ela sabia que ele estaria ali para protege-la. Ele pagaria as contas como costumava fazer e levaria alguma coisa para comer em casa. Esperaria que ela guardasse as coisas e puxaria seu corpo pelo ombro logo que tirasse a mala pesada de cima dele. Voltariam de mãos dadas mesmo que não conversassem.

Não precisariam trocar palavras. Alguns gestos, murmúrios e movimentos de cabeça eram mais do que suficientes. Eles trocariam algumas palavras quando chegassem no apartamento. Ela jogaria indiretas e ele cutucaria as falhas. Possivelmente gritariam alto o suficiente para que a senhora do andar de cima desligasse a novela para ouvir melhor e depois pudesse contar aos vizinhos que os dois meninos que se pintavam estavam juntos de novo. O porteiro ligaria reclamando do volume e ela começaria a mandar mensagem para as amigas, que já estariam cansadas daquela história repetitiva e deixariam o celular tocar. O tempo que ela levaria para se acalmar seria o tempo que ele levaria para se aproximar, falando sobre como eles eram bons juntos e de como poderiam largar aquilo para viver em um lugar mais calmo, onde eles não precisassem ser máquinas.

A agitação que viria em seguida seria recompensada por um cochilo que os levara a ficar acordados de noite. Logo estariam juntos por um tempo, até que ele conseguisse sair com o final de seu contrato ou algo parecido. Eles retomariam os projetos juntos e ele conseguiria um trabalho informal com remuneração menor. Seria ideia dela morarem juntos para que ele pudesse alugar o apartamento. Então ela arrumaria uma vaga na mesma empresa que ela trabalhava para ele. Assim conseguiriam cada vez mais se dedicar financeiramente e fisicamente aos projetos. Quando se dessem conta estariam com grana suficiente para reabrir o estúdio de tatuagens como queriam desde o início. Porém, ela já não queria mais trabalhar pelo bom dinheiro que vinha com brigas constantes e o estresse em forma de bola de neve. Enquanto ele já comprava as tintas e encomendava a decoração.

Seis meses depois ele já estaria de volta ao seu apartamento, após terminar o prazo do aluguel do contrato. Falsamente se sentiria feliz por ir andando ao estúdio e não ter patrão para quem mentir. Sentiria uma falsa liberdade por fazer o que teoricamente gostava. As vozes da saudade não superariam as vozes dos fones e se afastariam quando a outra estivesse por perto. Uma falsa ela, que nem ao menos loira era. Ela era boa, também trabalhava com cores naquela empresa. Essa era a ela que dera certo. Uma ela diferente, oposta à outra, uma nova ela.

Sentia as mãos dela percorrerem as linhas que antes a água contornava. O antigo trabalho e o escuro apartamento pareciam outros com ela. O novo não parecia tão ruim. O novo fluído fazia as engrenagens girarem bem. As tatuagens já não desbotavam mais, mas ele ainda carregava aquela angústia embalada na saudade. Ele havia deixado o pacote escondido e deixado ela decorar a sala. As coisas tinham cores. Chiquês e não de canetas estranhas. Seu sistema somente processava as cores, liberando enzimas que lhe davam a sensação de felicidade, sem saber qual era a diferença entre elas.

Notas finais
Hey! Espero que tenham gostado. São criações minhas nas aulas, então eu demoro um tempo a mais para passar para o computador e revisar, mas o resultado tem sido fantástico.Mais textos nesse estilo estão por vir, então podem esperar me ver aqui com mais frequência. Tenho prova e não posso enrolar muito aqui como gostaria. Espero você na próxima história, não morra até lá.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!