Mágica - Livro I
5 Correio Elegante
Bumbo, bumbo, caixa. Bumbo, bumbo, caixa. Um ritmo simples para ajudar a se concentrar. Em seu quarto, com a porta fechada após o jantar, Cass mantinha as batidas constantes enquanto ponderava sobre as novas informações de hoje. Então Thomas também era um bruxo, tinha tanto a perguntar a ele, mas não conseguiram se falar depois que André e Agda entraram no estúdio. Na verdade percebeu que Thomas se manteve distante, como se quisesse manter uma aparente antipatia. “Com que propósito?” ela se perguntava. Será que para remediar a impressão que poderiam ter causado a André ao estarem segurando mãos dentro do estúdio? Mas não dava para dizer se André realmente viu as mãos se tocando. A porta estava emperrada, eles se soltaram assim que ouviram alguém abrir a porta. Mesmo assim não era impossível. E também não deveria ficar tão preocupada com a impressão de André.
O toque de mãos foi alguma coisa, pensar no formigamento e no calor das energias interagindo a fazia acrescentar pratos a levada que tocava, o chimbal era delicadamente martelado enquanto o ritmo mudava e os pensamentos iam para outro caminho. Lembrava de observar seus pais se abraçando de longe quando criança. Era como ela conseguia explicar quando sentia as energiasdeles se alcançando no centro da sala enquanto sua mãe estava de saída e seu pai ainda tirava a mesa do café. Era como um beijo de despedida, mas de longe. Será que esse tipo de interação precisava ser sempre familiar ou romântica? Tinha a impressão de que sim, mas esperava que não, já que gostaria de tentar mais vezes sem precisar de romance algum. “Embora ele seja muito gato”, pensava. Segurava um riso se achando patética, balançava a cabeça, fazia uma virada para tentar tirar da memória o momento em que conheceu Thomas e ela quase gaguejou para cumprimentá-lo. “Será que por isso que o achei tão bonito?” os pensamentos se elaboravam quase sozinhos “Será que estou inconscientemente buscando alguém como eu? Com quem eu possa estar?”
A pedra lilás da porta se ascendeu, a tirando de pensamentos profundos. Antes que pudesse dizer para entrar, a passagem se abriu lentamente revelando o rosto de seu pai, sorrindo ao vê-la tocar. Ela encerrou o compasso com uma pequena gracinha e olhou para o pai com um sorriso no rosto.
— Bom te ver tocando! – o pai parou se encostando na porta – O ensaio foi bom?
— Foi divertido! Os garotos são legais, receberam Agda super bem depois.
Enquanto pai, era difícil para Cícero não notar o sorriso da filha e sua aura revigorada depois dessa tarde.
— Que bom que fez amigos mais rápido dessa vez. Vai tentar usar essa energia pra alguma coisa?
— Ainda não sei. Alguma bateria que precise carregar? – a garota ria, voltando a tocar baixinho.
— Não, prefiro que você use. Tentar algo novo, quem sabe?
— Eu vou pensar em como. – ela sorriu e concordou com a cabeça, o pai acenou e já ia deixar a garota a sós quando percebeu que ela abriu a boca para falar alguma coisa, a pausa antes de começar a frase indicava que alguma pergunta difícil vinha por aí – Você já encontrou outras bruxas desde que estamos aqui?
— Hm? Não entendi a pergunta.
— Desde que estamos aqui na Terra – Cass encarou o pai com curiosidade – eu sei que você nunca falou de outros bruxos ou bruxas daqui para nós. Quer dizer, disse que havia alguns, que era importante ficarmos atentos… Mas você conheceu algum?
— Por que a pergunta?
— Quero entender o quão raro é. – a resposta, embora parecesse suficiente, fazia sua intuição de pai coçar levemente.
— Bom… – mesmo assim ele resolveu responder sinceramente – tive um contato muito breve com pessoas que nos ajudaram a fugir no início. Eles entravam em contato quando podiam para avisar se havia algo que devêssemos evitar. Mas há anos que não encontro ou sei de nenhum.
— Sei, mas…
— “Mas”?
— Depois da mamãe você não sentiu vontade de… – ela fazia um círculo com a mão, esperando que o pai entendesse.
“De tocar alguém, beijar alguém, fazer coisas que você me acha nova demais para fazer” ela pensava.
— Cass! – o pai não sabia se a repreendia pela pergunta ou dava risada.
— Ah, pai, nós estamos aqui faz o que? Uns vinte e cinco…?
— Vinte e seis anos terrestres.
— Vinte e seis anos.
— Sim?
— E nenhuma vez você…?
A primeira resposta que veio a mente de Cícero foi direta, até um tanto engraçada, mas seria uma resposta de encerrar o assunto. E, em uma breve pausa, se perguntou do porquê sua filha fazer esse tipo de pergunta. Ele saiu de perto do batente da porta e entrou de uma vez no quarto, se sentando na cama e encarando a filha mais velha.
— Você tem se preocupado em estar sozinha, filha?
Cass não esperava que o assunto desse essa volta e se aprofundasse tão rápido. Queria no máximo pescar alguma informação útil para sanar as dúvidas que teve mais cedo, quanto a conotação que energias se tocando teriam no mundo de onde vieram.
— Não exatamente. – ela respondeu tentando ser sincera, mas sem revelar o que descobrira hoje mais cedo – Eu fico pensando um pouco nisso sim, e em se um dia vou ter chance de… sei lá, me apaixonar por alguém que não envelheça três vezes mais rápido que eu. Fico pensando se algo assim já foi possível pra você.
— Bom, foi.
— Mas enquanto você estava aqui.
— Bom… – evitava pensar nisso – ainda não.
Chegava a ser irônico para um bruxo que manipula os espaços. Cícero era capaz de colocar 3 quartos atrás da mesma porta, alocar sua família confortavelmente em uma casa que deveria ser pequena demais, era fácil colocar vários presentes no mesmo lugar. Difícil era lidar com uma ausência. Quanto espaço se separa para alguém que não está? E por não saber responder essa pergunta, o espaço destinado a ausência de Ariane era vasto.
— Que difícil… – Cass olhava para o teto e pensava alto.
— Sabe a parte boa? – o pai a interrompeu.
— Qual?
— Você tem o triplo do tempo pra achar alguém.
— O triplo do tempo mas menos de 1% das chances.
— Todo mundo tem menos de 1% das chances.
— Não os mundanos. – ela se referia às pessoas desse mundo.
— Até os mundanos. – Ela não sabia se concordava, mas ficou pensativa. O pai se levantou da cama e caminhou até a porta. – Não fique acordada até tarde, está bem?
— Já estou acabando aqui.
— Está bem. Boa noite, filha.
— Boa noite, pai.
*
No ônibus, indo para a escola, as mentes das irmãs bruxas se atropelavam, ambas começando novos raciocínios antes da outra concluir o seu.
— Mas você fez bem em não contar para o papai.
— Fiz? Eu entendi seu lado, mas-
— Se ele soubesse, nós não conseguiríamos descobrir nada-
— Ele com certeza vai ficar muito puto por eu não ter falado.
— É nossa chance de descobrir mais!
— Sim. Mas também não posso só sair perguntando-
— Que perguntando? Você pode ser amiga dele. Na convivência você vai entendendo. Ele também deve ter família aqui!
— Sim.
— Quem sabe eles tem comunicação-
— Mas exatamente isso que é perigoso! Se algo der errado, nós temos um bruxo experiente que pode nos proteger. Ele pode ter mais de um bruxo que o proteja, nós não sabemos! E quais seriam os poderes deles?
— Você sabe qual a fonte de magia dele?
— Ainda não.
— Eu percebi ele ficando mais forte ontem.
— Mesmo? Quando ele estava fazendo o que?
— Nada! Ele não tava fazendo nada, estava parado olhando pra bateria no estúdio-
— Foi algo que a gente não conseguiu ver talvez!
— Ele estava de costas, mas eu tenho certeza que ele não estava fazendo nada!
Estavam chegando ao colégio, dando sinal para o ônibus descer e se levantando do banco, mas a conversa continuava.
— Ok, ok, eu posso tentar descobrir, ele provavelmente vai perguntar o meu. Inclusive ele estava especulando sobre isso ontem!
— Ele te viu tocando! Droga, ele está na vantagem.
— Pelo menos ele prometeu que não quer me machucar.
— Tá, mas e quem está com ele?
As duas já estavam em frente aos portões quando se olharam uma última vez antes do dia letivo começar.
— Até depois! – Cass se despediu primeiro.
— Até depois!
Cass se apressou até o prédio, fazendo o caminho de sempre até encontrar sua sala de aula. Logo na porta, Laulau conversava com Melissa gesticulando bastante, mas parou quando viu a baterista entrar pelo corredor. A garota de luzes e a de cabelos cor-de-rosa vieram ao encontro da bruxa quando ela se aproximou.
— Oi? – Cass as cumprimentou, mas estranhando algo na aproximação.
— Bom dia! – Laulau e Melissa responderam em uníssono enquanto se colocavam para andar ao lado da garota, uma segurando em cada braço dela, e a guiando para uma saída no fundo dos prédios, onde ficavam a escada de incêndio e um armário do zelador.
— Ahm? Aonde estamos indo?
— Ah, logo ali! Não se preocupe. – Melissa mantinha um sorrisinho no rosto.
— A gente só queria te perguntar umas coisinhas. – Laulau tentava parecer inofensiva, mas seu sorriso era pouco confiável.
— Vocês estão me preocupando.
— Não é nada demais, sério. – Melissa a olhou confiante e riu quando percebeu a expressão confusa de Cassandra – Re-la-xe!
Logo estavam do lado de fora, Cassandra ainda confusa, as meninas se colocando a frente dela.
— Então – Laulau começou – Foi bem legal o ensaio ontem, né?
— É… Foi sim, eu acho.
— Os garotos… O que você acha deles? Pode falar um por um.
— Oi? – a cara de confusão de Cassandra era nítida.
— Não, corta isso. – Melissa interveio – É melhor ir direto ao ponto.
— Você vai entregar de bandeja assim?! – Laulau protestava.
— Ela provavelmente já sabe! – Melissa respondeu olhando para Cass – Você sabe, não sabe?
— Sei do que?
— Que o André tá… – a garota dos lábios perfeitamente desenhados dava espaço para a menina terminar.
— Ah… – Cass conseguiu entender sobre o que tudo aquilo se tratava, o aparente interesse de André – Ele pediu pra vocês falarem comigo?
— Não! – Laulau exclamava baixo, olhando para trás para ter certeza que ninguém as ouvia.
— Ele não pode nem sonhar com essa nossa pequena reunião aqui.
— Tá, mas… vocês querem saber se eu me interesso por ele, é isso?
— Sim! – as duas responderam juntas.
Cass se sentia incomodada em responder. Mesmo que se interessasse, jamais poderia sair com ele, então qual era a diferença? Mesmo assim, saber o que elas sabiam parecia um agrado para a autoestima. Ela cruzou os braços e se apoiou na grade.
— O que ele falou pra vocês?
— Ele disse que te acha linda e que acha que vocês se dariam muito bem! – Laulau mantinha um sorriso reto falando – E que queria te chamar pra sair, mas que você parece meio fechada.
— O André geralmente é bom em dizer quem se daria bem com quem, com os outros geralmente ele acerta. – Melissa explicava como se fosse algum tipo de habilidade especial – Ele me salvou de namorar o Dudu, por exemplo.
— O Dudu? – Laulau parecia não saber.
— É. E depois quando eu conheci o Thiago, ele disse que a gente parecia “complementar”. Deu certo! Estamos juntos há seis meses.
— Thiago? – Cass ficou confusa com a quantidade de informações
— Você não o conhece, ele é de outra escola. – Laulau explicou – Mas… o que a gente queria saber é se você acha que tem alguma chance. Só pra, caso ele peça algum conselho, a gente não guiar ele para um caminho errado.
— O André é um docinho e a ex dele deixou ele um trapo quando eles terminaram. – Melissa parecia revirar um ódio antigo.
— Ela basicamente trocou ele por um playboy mais velho que banca os ensaios da banda dela. – Laulau a acompanhava no sentimento.
— E é muito legal ver ele interessado em alguém de novo, mas a gente não quer que ele se decepcione.
— Então se você disser que tem outra pessoa, ou que só não gosta dele, a gente tenta tirar ele desse interesse por você.
— Tsc. – era a resposta que Cass conseguia pensar naquele momento, apenas “tsc” enquanto ela respirava fundo e olhava ao redor – Então…
A incerteza já queria indicar o suficiente para as duas amigas preocupadas, que se olharam com certo desânimo. Cass olhava para as duas pensando em como responder de forma calma e que não estragasse o dia das duas, quando uma estranha sensação a acometeu. Era para além de reconhecer os sentimentos na expressão das duas, mas como se algo em sua percepção a permitisse compreender a intenção das duas garotas paradas a sua frente. Ambas realmente tentando proteger o amigo, uma delas, que parecia ser Melissa, também profundamente interessada no drama e na fofoca. A realização de que aquilo poderia ser um pequeno despertar de seus poderes fez Cass sorrir, o que ganhou a curiosidade das meninas. A bruxa tentou pensar em algo para dizer.
— Não é que eu não ache o André atraente.
— Você tem outra pessoa em vista? – Melissa interrompeu – É que ele comentou comigo que viu você e o Tom sozinhos no estúdio e achou estranho, já que ele te irrita. E eu fiquei pensando se vocês já não se conheciam de antes, ou se tem algo entre vocês que a gente não saiba…
— Não, eu não tenho nada com o Thomas. – Cass balançou a cabeça negativamente.
— E mais ninguém? — Laulau queria confirmar.
— Mais ninguém.
— Então o André…? – a emo tirava a mecha rosa da frente do rosto esperando resposta.
— O André é muito legal. – a bruxa relaxou, decidindo falar a verdade até precisar começar a mentir – Ele parece mesmo um cara muito especial! No começo ele não me deu atenção, mas com o tempo, conforme conversamos, a gente se deu super bem. É bom ter ele por perto e ele é atraente, não nego, faz meu estilo, mas… – as duas ainda estavam com os olhos fixados, aguardando resposta, precisaria dar a mentira agora – Eu não gosto da ideia de sair com um cara do colégio, sabe? Ainda mais um cara da mesma sala que eu, tocando comigo em uma banda, parece meio sufocante.
— Entendo… – Melissa pensava, como se estivesse tentando solucionar um enigma.
— Mas ele, com certeza, saberia fazer uma ótima gestão do tempo pra você não se sentir sufocada! – Laulau defendia o amigo. Para Cass, assim como conseguia enxergar que o céu tinha nuvens, conseguia sentir a vontade da garota de convencê-la a dar uma chance para o amigo.
— Até pode ser, Laulau, mas…
— Além disso, ele é fiel mesmo! – a de cabelo rosa continuava, a sensação nova sobrecarregava Cass, como se a inquietação da menina fosse dela mesma, a levando a falar um pouco demais.
— Eu acredito em você, mas eu sequer tive tempo de conhecer o André direito. Eu gostei que ele não caiu tentando nada pra cima de mim, embora eu perceba que ele fica me olhando, ele parece querer me conhecer! O que deve ser muito bom na verdade. Eu só – “não quero intimidade com quem não vai saber quem eu sou de verdade” impedia o pensamento de sair por sua boca – não consigo me sentir confortável com a ideia de um namoro de ensino médio!
— Mas, Cass… – Laulau parecia achar absurdo, como se um motivo bobo desse estivesse fazendo Cassandra jogar uma ótima oportunidade fora.
— Deixa, Laura. – Melissa tocou o braço da amiga – Se ela não quer, pronto. A gente sabe o que precisa fazer.
— Tá… – Laulau deixava os ombros caírem, decepcionada – Lá vamos nós.
As três voltaram caminhando pelo corredor, desconfortáveis umas com as outras. Perto de outros grupos de alunos, encontraram Lucas e André parados na porta da sala.
— Bom dia! – Laulau cumprimentava os dois com um sorriso grande no rosto e sua energia solar, disfarçando o mal-estar.
— Onde vocês estavam? – Lucas subiu uma sobrancelha, desconfiado.
— Lá atrás. – Melissa apontou sem dar mais explicações.
— Tá, mas fazendo o que? – ele insistia na pergunta.
Laulau se aproximou dele para cochichar, mas falando alto o suficiente para a roda ouvir.
— Fumando um baseado, mas a gente não quis te incluir, seu Zé Droguinha.
A resposta fez o grupo rir, desfazendo a tensão, Lucas respondia em tom de brincadeira. Enquanto ouvia os dois armarem uma discussão por diversão, os olhos de Cass encontraram os de André. Ele não estava a observando, foi algo do momento. Ele sorriu acenando discretamente com a mão.
— Bom dia. – disse dando um passo para o lado, saindo da frente de Lucas e Laulau.
— Bom dia. – Cass respondeu achando o sorriso de André fofo e logo se repreendendo por isso.
*
O dia não teve boas oportunidades para conversa entre Cass e Tom. Os dois se procuraram igualmente cheios de dúvidas durante todo o dia, mas estavam cercados de seus amigos em todos os momentos. Já era o fim da aula e a baterista guardava itens em sua mochila já sem esperança. André se aproximou parando ao seu lado.
— Cass?
— Oi – ela respondeu tentando não transparecer qualquer frustração.
— Você vai ficar esperando sua irmã, né?
— É, vou. — ela fazia que sim com a cabeça.
André faria outra pergunta, abriu a boca, mas parou quando percebeu Tom, vindo do outro lado da sala, se aproximando.
— Cass, posso falar com você? – o menino de pele escura apontava para o lado de fora da sala, direto ao ponto, como André já se arrependia de não ter sido poucos segundos atrás.
— Pode, me dá só um minuto? – Cass ao menos esperaria o que ele tinha a dizer.
— Claro, te espero aqui fora. – Thomas saiu, deixando os dois novamente.
Cass olhou para André, alguns alunos passavam pelos dois indo embora.
— O que será que ele quer conversar com você? – ele olhava para a porta desconfiado, sabendo que Tom estava lá fora.
— Eu não sei. Mas eu estou procurando uma oportunidade de entender porque ele é babaca comigo. – a resposta na verdade o satisfazia, Cass destemida, direta, ele gostava disso.
— Bom… – ele sorriu – eu só ia te avisar que se quiser posso te fazer companhia no Jocão.
— Ah… – ela foi pega de surpresa – Bom, eu… não sei do que o Thomas quer falar comigo, mas depois que terminar eu devo ir para lá. Só que eu não sei quanto tempo vai levar, não quero que você fique me esperando a toa.
— Não, eu sempre mato um tempo por lá. Se for ficar moscando e quiser companhia… Sabe onde me achar.
— Está bem, – ela balançava a cabeça positivamente – obrigada.
Ele ajeitou a mochila no ombro e saiu da sala.
*
Thomas e Cassandra se encontraram sem dizer muito, procuraram um bom lugar para falarem sozinhos como dois cúmplices da própria existência e acabaram sentados a sombra de uma árvore no gramado do colégio. Ainda não sabiam muito bem o que falar, por onde começar, o que compartilhar um com o outro. Sentados frente a frente, não se tocavam, mas estavam próximos o suficiente para sentires suas auras se margeando. Foi Thomas que conseguiu romper o silêncio:
— Há quanto tempo está aqui?
Cass suspirou antes de responder:
— Vinte e seis anos.
— Sério?! Tudo isso?
— Sim, por quê? Pra você faz muito menos?
— Estou aqui faz dezoito anos.
— Oito anos depois de mim.
— Ou quase três ciclos de Eivar.
“Eivar”. Há quanto tempo não ouvia o nome de seu mundo? Provavelmente 26 anos.
— Pois é…
— Então você tinha uns 8 ciclos.
— Quase nove. Você veio com a sua família?
Era uma informação sensível, Cass sabia, mas queria mesmo saber quantos bruxos ela poderia ter encontrado de uma vez.
— Não toda a minha família. E você? – uma boa resposta, evitou dar um número. Era inteligente da parte dele.
— Também não toda.
Se fez silêncio por um segundo, ambos estavam refletindo antes de seguir. Os assuntos deixavam suas energias agitadas, procurando um lugar para se assentar antes de continuar em um assunto que poderia ser tão dolorido. Cass respirou fundo e soltou o ar devagar antes de estender sua mão, que tocou os dedos de Tom de forma suave. Ele pensou antes de decidir segurar a mão dela. A conexão trazia alívio.
— São todos bruxos de criatividade na minha casa. – ela soltou sem pensar muito, só sentindo que seria divertido contar para alguém – Menos minha mãe.
— Então é mesmo a bateria?
— Não necessariamente! – ela deu essa muito fácil, se achou idiota, mas tentou manter certa pose – Eu confirmo ou explico se você contar a sua.
Ele deu uma risada fraca, olhou para ela torcendo a boca em um sorriso torto e estalando a língua antes de começar a falar:
— Esse é exatamente o tipo de dinâmica que permeia minha fonte de poder.
— Hum? Quer que eu adivinhe?
— Seria engraçado. Quer mais uma dica? – Cass fez que sim com a cabeça – Em casa, nós somos bruxos de conhecimento.
Ela começou a pensar.
— Aprendizado…?
— Não.
— É muito amplo, eu não vou adivinhar.
— Se eu não te contar, fico mais forte. É a última dica.
Cass franzia a testa pensando, segurava firme na mão de Thomas enquanto sua memória voltava aos seus sete anos, à escola em Eivar, aos tantos colegas que tinha, aos poderes que não via mais. Sua mente quase doía, mas com essa última dica, achava que sabia a resposta correta:
— Segredos?
— Ding-ding-ding!
— Uau! – ela riu – Complexo.
— Sim. Me obriga a ser bastante sociável.
— Mas como você faz tantos novos segredos?
— Como fonte? Ah, não é uma questão de quantidade, mas do tamanho das informações e se elas continuam segredos. Enquanto eu guardar bem a informação, se o dono do segredo não contar pra muita gente, ele continua me alimentando.
— Sua própria existência nesse mundo então é uma fonte.
— É, sim.
— Que injusto!
Ele riu, ela riu junto, mas ainda indignada. Nem perceberam, mas as duas mãos estavam com dedos entrelaçados.
— Não é tão injusto.
— Como não? Eu tenho que criar ou expressar alguma coisa sempre!
— Mas só depende de você, se de repente tudo que eu souber, e não é muita coisa, vir a público, eu simplesmente fico zerado.
— Não dá pra você fazer alguma coisa e só não contar pra ninguém?
— Sim, mas… para ser forte teria que ser algo que eu provavelmente não faria. Se for algo menor, ter um cúmplice ajudaria, porque os riscos da informação vazar também contam. – ele se impediu de continuar falando – Mas você me disse que ia explicar!
Ela sorriu fazendo que sim com a cabeça, deu de ombros como se seu poder não fosse nada demais.
— Você acertou, é a bateria. Em dias como hoje, que eu estou bem carregada, até prestar atenção em ritmos ou batucar em algum lugar, me ajuda a me manter com toda a capacidade.
— Você é muito aberta com a sua energia. – a afirmação soou estranho.
— Como assim?
— Deu pra perceber muito fácil quando você se carregou ontem. Até sua postura parece que mudou, não sei quanto tempo fazia que você não tocava, mas deu pra perceber que você estava precisando.
— Eu estava mesmo… Fazia muito tempo que não praticava, e de última hora precisei encontrar a banda, já que alguém me mandou para o lugar errado, não é mesmo?
Ele mordeu os próprios lábios segurando uma risada.
— Eu estava errado, me desculpe.
— Pois é, né?
— Eu jurava que você estava aqui pra me matar ou pra pegar minha família, ou me levar de volta preso… – ele ainda segurava uma risada, mas dava de ombros enquanto, sem pensar, deslizava o polegar sobre o antebraço de Cass. Fazia cócegas.
Ela pensou um pouco, contraía os ombros sentindo um arrepio, mas no momento estava muito preocupada com a própria ignorância quanto ao porquê estava ali, naquele mundo. Não queria trazer isso a tona agora, seria se vulnerabilizar demais. E estava satisfeita só em poder conversar sem ter que fingir que uma parte de sua vida não existia. Olhando para baixo, notou os dedos de uma das mãos entrelaçados e percebeu que a sensação de conforto vinha também da proximidade de alguém como ela.
— Quando fizemos isso?
Ele olhou também.
— Eu não tenho certeza. Você quer soltar?
Ela olhou ao redor, todos já haviam ido embora. Na escola só haviam funcionários, talvez alguns alunos usando a quadra ou a biblioteca, mas ninguém que os conhecia ou que os encontraria por ali, no gramado entre a entrada dos alunos e a entrada da garagem dos professores.
— Acho que não, se pra você estiver tudo bem.
— Está sim. Eu só não posso ficar muito mais, hoje preciso chegar cedo.
— Certo. — ela balançava a cabeça agora observando a mão livre dele alcançar a outra mão.
A pouca conversa, mas a sinceridade, permitia ao vínculo se fortalecer. Para Cass, um calor confortável nas mãos, para Thomas, um belo tom de verde que agora avançava pelos seus punhos. Ficaram ali, hipnotizados pelas cores e sensações por um minuto.
— Isso é diferente. – Cass não tinha certeza do que Tom queria dizer com isso.
— É. É legal. – ela observava ele soltar uma das mãos e passar o indicador pelo antebraço da garota, curioso.
— Mudando de assunto – ele desenhava caminhos na pele dela, observando a aura amarela e alaranjada receber um rastro verde e voltar ao tom dourado em seguida – o que você quer falar para o grupo? Eu não pretendo continuar te irritando gratuitamente.
— Podemos dizer que conversamos e percebemos que você me confundiu com outra pessoa. Se bem que… só o André notou. Eu posso explicar isso pra ele caso me pergunte e só.
— Tá certo.
Aquele breve silêncio curioso voltava, Cass observava que Thomas não parecia sentir as cócegas que ela sentia e tentava controlar.
— Talvez eu devesse ir encontrá-lo agora, ele disse que podia me fazer companhia no Jocão. — ela falava ficando inquieta.
— Qual o seu plano com ele, no caso? Evoluir para o lugar de namorada pra se misturar melhor?
— Que?! – isso a fez retrair o braço, deixando apenas a mão entrelaçada ao alcance – Não, eu não faço nenhum plano desses! Você faz?
— Mais ou menos – ele respondia levantando os olhos para ela finalmente –, eu tento ser amigo de alguém mais popular, aí geralmente lembram mais da outra pessoa do que de mim.
— Céus!
— O que? Eu preciso ser ofuscado para me sentir seguro.
— Então por isso a Mel!
— Exatamente. – ele voltava a observar a mão com os dedos ainda entrelaçados, mexendo cada um deles para ver as cores dançarem – E porque ela é uma ótima fonte de fofocas e segredos. Achei que André fosse algo parecido pra você, namorar o carinha da banda faz você ter mais desculpas pra tocar, coisas diferentes pra tentar musicalmente…
— Não! – ela girou os olhos – Isso sequer seria correto! Olhando friamente, eu tenho mais de trinta anos, ele tem dezessete!
Tom parou de mexer as mãos por um segundo, olhou para Cass segurando uma risada.
— Tá, mas você acha que tem mais experiência do que ele, por acaso?
— Q- Ahn? – ela nunca havia pensado nisso.
— É, ele já teve uma namorada até onde eu sei. E pelo seu código moral aí, tô começando a achar que você nunca saiu com ninguém.
— Ei!
— Sem julgamentos, sério. O ponto é que não é como se você fosse uma aproveitadora, nossas mentes são adolescentes ainda.
— Sério que você não vê nada demais? – Thomas parecia ter aproveitado um mundo inteiro de possibilidades a mais do que ela – Espera, você já ficou com mundanos?!
— Eu já! E esse ano é o melhor pra fazer isso. – agora ele a olhava nos olhos, como se quisesse mesmo dar ideias para a mente que ele passou a julgar tão inocente – Ano que vem tá todo mundo indo pra alguma faculdade em alguma outra cidade, a vida vai nos separar inevitavelmente. É um ótimo momento para se permitir um relacionamento curto, aprender o necessário, e sumir.
— Eu não preciso namorar ou ficar com ele pra conseguir ficar na banda se eu quiser. E eu não quero usar ninguém desse jeito, pra conquistar um objetivo! – ela desviava o olhar.
— Quem ainda está pensando na banda? Você pode querer só por querer! E sinceramente, eu não vejo o que poderia estar errado nisso. – ele deu de ombros, finalmente a soltou, os dois parando de ver e sentir suas auras interagindo – Vamos, vou te levar ao encontro do seu disposto e devoto admirador.
— Eu vou porque acho chato ele ficar tanto tempo me esperando. – ela respondia em mochichos, os dois se levantaram.
— Claro, claro… – ele segurava um sorriso de canto de boca.
— Que foi?
— Nada!
— E eu posso ir sozinha. – ela queria usar os poucos minutos de caminhada para pensar.
— Então até amanhã! Foi um prazer finalmente te conhecer, Cassandra. – ele arqueou o corpo em agradecimento em um gesto exagerado.
— Igualmente, Thomas. Embora você seja um tanto insolente. – ela respondeu achando graça no gesto.
— Agradeço!
Os dois saíram da sombra da árvore para a qual pensariam em voltar algumas vezes. Caminharam em silêncio, passaram pelo portão e foram em direções opostas.
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