Notas iniciais
eu tava com preguiça de revisar, desculpa qualquer coisa

As olheiras de Cass estavam um pouco mais profundas quando deixou sua casa naquela manhã. Não dormia bem, não havia comido bem, parecia um pouco doente. Quando entrou no colégio, desviou ao máximo que conseguia dos colegas, até chegar na porta de sua sala. Ali, dando risada de alguma palhaçada de Luquinhas e Laulau, com bochechas coradas e covinhas marcadas, estava André. O peito doía, o estômago revirava, mas respirou fundo e foi se aproximando torcendo para passar pela porta sem ser parada.

— Bom dia, gente. – as palavras saíram, mas sua energia nelas era baixa.

— Ei, Cass! – Laulau falava alto.

— Bom dia! – André sorriu para ela.

E ali ela percebeu que não conseguiria simplesmente passar entre eles e seguir para a sala, parou quando Laulau começou a dizer:

— Nossa, amiga, sua cara não está boa.

— Você faltou ontem, aconteceu alguma coisa? – e André tinha um tom preocupado e atencioso que ela adorava, mas agora gostaria de evitar.

— Um resfriado. – ela inventou e se forçou a soar mais animada – Nem tive febre, mas acabei não dormindo bem. Agora já estou melhorando!

— Toma chá de alho. – Lucas recomendava – Você fica melhor rapidinho, é tiro e queda.

— Urgh! – Laulau não parecia aprovar – Mas o gosto já é horrível, e o bafo depois…

André, ao lado dos amigos, buscava um olhar de Cass. A garota parecia evitar, o que era estranho, já que até então eles haviam sido bons amigos.

O assunto continuava em remédios caseiros quando Cass viu o mais alto do grupo se aproximar por trás dos demais. Thomas olhava para ela dando um sorriso mínimo e um olhar preocupado, o único ali que a entendia. Ele se aproximou dizendo:

— Bom dia!

Laulau deu um salto.

— Caralho, que susto! – e riu.

Cass ainda não acreditava que Tom não havia entendido a ligação entre sua baixa energia e o feitiço em André. Os amigos o cumprimentavam normalmente quando ela desviou seu olhar dele também, tendo certeza de que ele a subestimou.

— Eu vou entrar, gente, vou ficar de boa. – ela avisou dando um sorrisinho forçado antes de seguir para dentro da sala.

André estranhou, mas aquele deveria ser um comportamento normal para quem está doente. E Tom também não compreendeu muito bem porque ela se afastava, mas não podia evitar se sentir culpado por isso.

Cass se concentrava em manter a calma, já sentada em sua carteira. Era um segredo. Sempre fora. Já havia passado por esse tipo de conflito antes, só não depois de se envolver tanto, não depois de arriscar tudo, mas já havia superado outras vezes. Respirou fundo sabendo que aquilo em algum momento passaria. Batucou de leve sobre a mesa, imaginando sua bateria em casa, seu pé direito batia no chão marcando o bumbo, e como havia tocado muito ontem, aquilo já era o suficiente para manter sua energia alta.

As primeiras aulas seguiram normalmente e ela tentava avaliar sua situação friamente. André parecia o mesmo de antes de namorarem, antes de o desgraçado a fazer acreditar que ele era apaixonado por ela. As lembranças dele a chamando de “minha sábia” e das risadas que eles dividiram a faziam acreditar naquele sentimento ainda. Devia ter abusado mais de seus poderes. Se quisesse, teria descoberto tudo o que ele pensava e sentia.

Ao final da última aula antes do primeiro intervalo, algo quebrou a rotina. Dois alunos do conselho da escola, um garoto e uma garota, entraram na sala de aula. Eles tinham sorrisos simpáticos e ansiosos, e os alunos que sempre estudaram naquele colégio se agitavam, pareciam saber o que aquilo significava.

— Professor, a gente pode passar um recado? – a garota pedia.

O professor deixou, já era fim de aula, ele começou a juntar as próprias coisas. Enquanto isso, os dois alunos do conselho se colocavam em frente de toda a sala de aula:

— Então… – o garoto falava – Como vocês sabem, a festa junina do nosso colégio acontece na segunda semana de junho. E como vocês também sabem, a gente tem que começar a se preparar, porque a cidade inteira vem ver a nossa tradicional quadrilha do terceirão.

A sala toda comemorou, foi surpreendente. Cass olhou assustada para trás ao reconhecer a voz de Laulau gritando, Lucas e André faziam barulho batucando na mesa, a única pessoa que parecia tão surpresa quanto ela era Tom do outro lado da sala.

O garoto do conselho colocava as mãos espalmadas para frente, fazendo um sinal para baixo, pedindo silêncio para conseguir falar.

— Calma, galera, calma… – ele pedia, os alunos foram se recompondo – Tem mais uma coisa, a festa desse ano vai ser bem no dia de Santo Antônio, então a gente quer remontar a mais tradicional, que é a do casamento.

Ele continuava explicando e a mente de Thomas se adiantava. Quadrilha significava formação de pares, e essa era uma boa oportunidade para André tentar se reaproximar de Cass. Ele se inclinou um pouco para frente para cochichar para Melissa:

— Mel, você e André precisam ser os noivos.

A menina olhou para trás com um sorriso enorme só de imaginar estar em destaque.

— Você acha? – ela perguntou baixinho.

— Vocês são os nossos populares, se não for vocês, quem vai ser?

Ela sorriu fazendo que sim com a cabeça e voltando a olhar para frente de novo. Agora a menina que explicava como os ensaios funcionariam semanalmente.

Cass também se adiantava, mas tinha um único medo que ecoava em sua mente repetidamente: “se André me convidar, eu não vou conseguir dizer não”. Talvez se ela pedisse para alguém ser o par dela antes de André a convidar. Olhava para sala, não falava com tanta gente para ter tantas opções. Talvez Lucas? Ele poderia não aceitar por causa de André, mas valia tentar.

— Então eu vou deixar essas folhas no quadro de avisos – a menina explicava mostrando um tipo de formulário em branco – e vocês só precisam colocar os nomes dos pares e a sala de vocês em cada uma dessas linhas. Tem algo importante! Ainda não temos um padre.

— EU! – era Lucas que gritava do fundo da sala levantando uma mão e se inclinando para frente como se a vida dependesse disso – Eu posso ser o padre! Eu!

— Perfeito. – a menina anotava em um caderno da hello-kitty.

Pronto. Plano furado. O padre não tem par! Olhando ao redor mais uma vez, Cass sabia que só lhe restava uma opção. Não queria falar com Thomas ainda, mas não teria como evitar.

O sinal bateu indicando o começo do intervalo, o garoto do conselho voltava a falar:

— Então se lembrem, sexta que vem começam os ensaios! Sempre na quadra.

O falatório na sala toda começava, André deixava suas coisas um tanto guardadas e se levantava, olhando para Cass. Ela pareceu se levantar com um pouco de pressa, imaginou que ela sairia da sala, e se preparou para ir atrás dela, mas estranhou quando ela foi em direção às janelas do outro lado da sala. Ia de encontro a Thomas, que caminhava devagar em direção a porta.

Tom também estranhou o quanto Cass parecia decidida quando parou a sua frente.

— Você pode ser meu par? – ela o perguntou.

Não “você quer” ou “eu gostaria que você fosse”, apenas um “você pode?” de quem estava desesperada fugindo do ex-namorado desmemoriado.

Thomas olhou para seu lado, Melissa se aproximava logo atrás dele e agora estava assistindo a situação um tanto surpresa.

— Você tem certeza? – ele olhou para Cass a perguntando de novo.

— Sim! – ela respondeu.

— Tá!

A menina do conselho, que estava ali por perto ainda e ouviu tudo, os entregou a folha para ser preenchida.

— Nomes aqui, por favor.

O estômago de André se revirava enquanto assistia a cena. Disfarçou, olhou para o chão, voltou a mexer no próprio material como se tivesse esquecido algo, mas estava verdadeiramente incomodado. Não que houvesse motivo, Cass podia chamar quem quisesse. Será que ela gostava de Thomas e por isso não estava correspondendo seus sinais?

A voz de Melissa chamou sua atenção:

— Amigo, deixa eu te perguntar. – ela se aproximava e ele se virou para olhar para ela – Eu sempre quis ser a noiva na quadrilha e você é um dos pouquíssimos caras decentes do terceiro…

— Ah, você quer que eu seja seu par? – ele perguntou.

— Isso.

— O Pedro ou o Antônio?

— Como assim?

— Na música, o Antônio ia se casar, mas Pedro foge com a noiva.

— Tem razão! Então o Pedro?

— Pode ser!

Foi um alívio, já que por algum motivo André já se sentia muito Antônio.

A quadrilha foi o assunto do intervalo, Laulau correu para que Dudu, mesmo sendo de outra sala, fosse seu par. Deu certo.

— Será que esse ano a gente consegue fazer? – Lucas se esticava na grama para tomar sol.

— Claro que sim. – Laulau respondeu. – Mas se não for bonito o lago não enche.

— Ai, parem. – Melissa reclamava – Superstição boba, não tem nada a ver.

Tom estranhou o que estavam falando. Se perguntava se Cass estava prestando atenção, mas ela parecia contemplar o nada.

— Não vai encher de qualquer forma porque a gente tá fazendo no lugar errado. – André falou dando risada.

— Que papo é esse? – Tom perguntou.

— Antigamente o povo acreditava que se a quadrilha não fosse boa, ou se não fizessem a quadrilha, a época de chuva não era boa e o lago baixava o nível. Deve ter acontecido mesmo algumas vezes, sei lá. – André explicava. – Mas na época, as escolas todas se reuniam e faziam a festa junina lá perto de onde é o Coliseu. E aí construíram essa escola aqui, a tradição mudou e o lago secou.

Cass ouvia. Essa história era realmente muito estranha, reagiria se não estivesse mal se aguentando de estar perto de André sem chorar. Olhando para o grupo, percebeu os olhos de Tom ansiosos encontrando os dela.

— Secou por causa de mudanças climáticas, não por causa da festa junina. – Melissa girava os olhos.

— Com certeza, mas que é curioso é. – Tom concordava.

— Mas falando em ir até o Coliseu, – André mudava de assunto – faz tempo que a gente não vai, né?

— É verdade! – Laulau concordava – Essa semana vai ter cover de Alice in Chains.

— A gente poderia ir então, né? – André olhava para os amigos esperando resposta, mas uma em especial.

— Não sei… – Cass suspirou.

— Ah, vamos! – Laulau insistiu.

Por que essa conversa parecia um tanto ensaiada?

— Eu vou, e acho que dessa vez meu irmão pode mesmo levar a gente. – Lucas também parecia fazer parte do teatro.

Cass sabia que ir ao Coliseu poderia ser interessante, precisavam entender o que acontecia lá se quisessem tentar falar com sua mãe.

— Ah, eu vou, foi bem massa da outra vez. – Tom fazia que sim com a cabeça.

“Bem massa”? Cass estranhava, Tom não falava assim. Olhou para ele com estranhamento, ele parecia querer passar um sinal. Foi quando percebeu que havia fechado seu campo telepático de tão introspectiva que estava, o abriu rapidamente.

— O plano, né? – ela pensou

— Finalmente! Sim! O plano. – recebeu a resposta em sua cabeça.

— Bora, Cass, você gosta de Alice in Chains. – André insistia a trombando de leve em seu braço.

Que triste. Mas ela deu uma leve risada balançando a cabeça.

— Tá, eu vou. – respondeu.

Percebeu que Tom tentaria falar com ela, mas fechou-se novamente.

*

Os adolescentes se reuniram às oito horas do sábado, já dentro do antigo teatro de arena. A noite estava fria, Cass dessa vez vestiu calças, mas a camiseta justa ainda mostrava a barriga. De cabelo arrumado e maquiada, se esforçou em parecer bem.

André e Lucas chegaram com as primeiras garrafas de bebida. Eles brindaram como se fossem adultos e beberam ao som de bandas dos anos 80, a banda de abertura estava tocando uma playlist variada quando o grupo se dispersou por um momento.

Tom fincava um pequeno bastão de pedra no chão, deixando um cristal escondido por baixo da terra e de folhas. Era discreto o bastante, havia trazido em seu bolso, e fazia isso enquanto pensava: “Ela não vai falar comigo? Tudo bem! É o tempo dela, mas eu queria ao menos mostrar o que estou fazendo”. No instante em que soltou o bastão, um outro cristal menor, preso em um cordão em sua mão, brilhou levemente. Tom rapidamente o vestiu e escondeu a pedra para dentro de sua camisa.

Cass devia ter notado que estar sozinha era uma má ideia. Tentava se distrair cantando as músicas que conhecia no repertório da banda de abertura, sentada no primeiro degrau e segurando um copo de cerveja. Não pensava em nada, nem queria pensar em qualquer coisa, mas sabia que seria difícil quando percebeu André se aproximando. Não reagiu, continuou de pernas cruzadas e cantando, apenas acenando com a cabeça quando ele se sentou ao seu lado.

— Eles são bons, né? – ele disse.

— São sim. – ela balançou a cabeça concordando.

— Mas você toca melhor que o baterista deles.

Ela deu uma risada leve, tentando permanecer tranquila.

— Bondade sua.

— Não, você sabe que não. – ele sorriu, as covinhas eram matadoras – Você não pensa em montar outra banda?

— Não…

— Eu toparia.

— É que eu tenho que focar no vestibular agora, sabe como é.

— É, eu ouço coisa parecida.

— Música tem uma nota de corte meio alta, você precisa estudar bastante.

— Quem me dera, eu vou acabar prestando alguma engenharia. – Cass se surpreendeu. Até a decisão dele sobre a faculdade havia se apagado. – Mas eu queria te perguntar uma outra coisa.

— O que? – Ela conseguia ver os desejos dele, ela começou a se preparar.

— Eu vi que você chamou o Tom pra ser seu par na quadrilha.

— É, chamei.

— Teve algum motivo especial para isso? Tipo… você tá a fim dele?

Cass calculava. Ela poderia dizer sim para que André se afastasse, mas colocaria Tom em uma situação complicada. Conseguiu imaginá-lo encurralado na escada de incêndio por Mel e Laulau, tal como elas fizeram com ela.

— Não, não foi por isso. – ela respondeu.

— Entendi… Por que então?

— Ah, ele era a única pessoa que parecia tão perdida quanto eu, nem gosto muito de quadrilha e não queria estragar esse momento pra ninguém.

— Entendi. – ele fez que sim com a cabeça – Isso me dá um certo alívio, porque… eu tô interessado em você desde o começo do ano. – os dois se encaravam sentados no degrau de pedra, Cass abria a boca para responder, mas André continuou a falar: – Eu não sei nem se preciso te explicar, às vezes quando a gente conversa eu sinto que a gente já até tem alguma coisa! Tem uma afinidade diferente, eu não acho que sinto isso sozinho. Mas às vezes você não corresponde e de ontem pra cá senti você me evitando. Eu só queria entender se foi algo que eu falei, se eu tenho alguma chance…

Era constrangedor falar tudo isso. Ele queria saber, mas principalmente queria que a resposta fosse favorável, que Cass respondesse algo como “Você tem todas as chances” ou apenas o beijasse, seria ótimo.

— Eu não sinto o mesmo. – Cass engoliu depois de dizer.

— Não?

— Não, eu tenho te evitado porque eu noto que você queria sair comigo e tal, mas eu não acho que a gente tem algo tão diferente assim… – Cada palavra doía.

— Ah… – André sentia o estômago revirar, a inquietação e a ansiedade da rejeição lhe davam um nó na garganta – Entendi.

— Desculpa.

— Não, que bom que eu perguntei então. – ele suspirava – Você não vai precisar mais me evitar, eu não vou te encher mais.

Ele se levantou.

— Eu sinto muito… – ela quase engasgava para dizer.

— Não, não, tudo bem. Até depois.

Ele se afastou. Cass expirava pela boca, olhava para cima, não podia chorar. Virou o restante da cerveja na boca sem pensar. Se levantou e caminhou em direção a Laulau e Lucas, que estavam do lado do palco conversando com outras duas garotas que ela não conhecia. Ela analisou o grupo, queria tanto só se distrair com as piadas de sempre, mas agora os dois estavam em uma conversa sugestiva com outras garotas. Foi absorvida na roda de conversa, mas ninguém se importava.

— O que é isso, Luquinhas? – ela olhava para o copo na mão dele, com gelo, limão e hortelã.

— Um drink da casa, quer provar? – ele passou para ela, ela deu um gole.

Era forte, parecia ser vodka, bebeu mais um bom gole e o devolveu.

Voltando para o centro do teatro, procurando pelos outros, Tom soube logo de cara que algo estava errado. A aura de Cassandra estava esbranquiçada, como se algo tivesse tentado apagar suas cores. Ela estava com um copo grande na mão e uma cara péssima enquanto dançava sozinha balançando a cabeça atrás de outras pessoas que também assistiam a banda.

— Cass? – ele a chamou se aproximando – Você tá bem?

Ela olhou para ele, mas um olhar que não comunicava nada, completamente apático.

— O que você tá bebendo? – ele levou a mão para o copo dela.

— Psst! – ela desviou da mão dele – Não é da sua conta.

Ela queria o repelir. Thomas não conseguia evitar se sentir culpado, mas também se enraivecia com o comportamento da bruxa. Ele só queria ajudar.

— E o plano? – ela perguntou.

— Já está em andamento, não se preocupe.

— Então eu não precisava ter vindo?

Precisava, mas ele não queria explicar para uma Cassandra que estava tentando ficar bêbada. Ele se afastou, ela bebeu mais um gole pensando que se afastar é tudo que podem fazer por ela.

A banda de abertura encerrou sua apresentação, o cover de Alice in Chains se preparava para começar a tocar e a casa estava cheia. Depois de um tempo, Tom se juntou a Laulau e Lucas com suas novas amigas e servia para buscar a cerveja quando estava acabando. Quando estava com eles, mantinha Cass em seu campo de visão, era o que sentia que podia fazer.

Cass realmente gostava muito de Alice in Chains e de várias outras bandas dos anos 90, que marcaram o início de sua adolescência na Terra. Cantava tentando se sentir melhor e bebia tentando esquecer do porquê estava sofrendo. Depois de algumas músicas, a bebida acabou, ela passava entre as pessoas tentando chegar até o bar, onde estava menos cheio. Desviou de caixas de som e parte da estrutura do palco, e viu Thomas vindo em sua direção com uma garrafa de cerveja.

— Cass! – ele a chamou, parecia em alerta.

— Que foi? – ela não parava de andar, ele se colocou na frente dela – Sai, Thomas.

— Não vai lá!

— Que saco, me deixa beber!

Ela o empurrou criando passagem, mas só deu mais quatro passos antes de parar novamente.

Era André.

Beijando outra garota.

Estavam no fim do balcão, encostados na parede, ele abraçava a desconhecida assim como já havia abraçado Cass. Ela não conseguia. Deu um passo para trás, se virou e começou a caminhar rapidamente para fora, a face feito mármore.

— Cass!

Tom a seguia, ainda com a garrafa em mãos. De repente Cassandra estava mais rápida, porque subiu os degraus do teatro como se eles sequer estivessem lá, e ele se atrapalhava para subir enquanto desviava de pessoas.

Cass tremia, mas não poderia quebrar ali, na frente de todos. Alcançou o caminho de tijolos da entrada do bar, onde já não havia mais ninguém, e seguiu por ali até sentir que não conseguia mais sequer andar.

— Cass! – Tom se apressava atrás dela.

Em resposta, houve um grito contido. Cass juntava as mãos contra o próprio corpo e se contorcia em frustração. Logo o grito se transformou em choro. Tom se aproximava cautelosamente, engolindo a seco, desejando que não tivessem vindo.

— Cass…

— Sai. – ela limpava o próprio rosto.

— Me deixa te ajudar.

— Me ajudar? A que? – ela ria de raiva.

— Eu não sei, eu nem consigo imaginar como você está se sentindo…

Ela ria nervosa, o riso voltava ser choro, ela insistia em limpar o rosto e engolir para falar:

— Me explica! Me explica porque você tá me ajudando se nem confiar em mim você consegue!

— Que? – ele ficou confuso – Eu não sei de que merda você tá falando.

— Você sabe muito bem!

— Não, Cassandra, eu não sei!

— Ah, não?! – ela estava pronta para explodir – Eu tô aqui sofrendo a perda do meu namorado como se ele tivesse morrido, porque o cara que eu conheci não existe mais! Eu tô tentando encher a cara porque não posso nem expressar o que estou sentindo! E a única pessoa com quem eu achei que eu poderia compartilhar isso tudo, caso acontecesse, deve me achar uma menininha infantil e idiota!

— Eu?!

— Você não esperava que eu pudesse fazer a escolha certa, né? Porque nem me avisou que estava fraco, nada!

— É por isso que você tava com aquela cara de cu pra mim? – ele também levantava a voz, a música estava alta o suficiente para isso não ser um problema – Cass, eu não sabia!

— Como você não sabia? – ela gritou.

A garrafa na mão de Thomas estourou. Ele se assustou com o líquido sendo espalhado para todos os lados, ficou satisfeito ao perceber que sua jaqueta havia aparado os cacos de vidro, mas se assustou quando viu que alguns cacos acertaram Cass. Ela levava a mão a um corte em sua barriga.

— Puta merda. – ele se aproximava dela e soltava o que havia sobrado da garrafa em sua mão – Você tá bem?

— Foi superficial.

Para algo superficial, sangrava muito.

— Vamos embora. – ele disse.

— Não.

— Você tá bêbada, seu corte tá sangrando bastante! Eu falo que você chapou muito e fiz meus pais buscarem a gente.

— Eu não quero ir pra minha casa.

— Vamos para a minha. – ela parecia querer resistir, mas começava a ficar preocupada com o corte – Vamos.

*

Estavam na sala de Thomas, era madrugada e a casa toda estava silenciosa. Cuidaram de fazer um curativo quase mudos, Cass se incomodava com a cola do esparadrapo puxando sua pele. Tom guardava itens mundanos de primeiros socorros em uma caixinha branca de plástico, ainda processando o que havia acontecido.

O calor do momento havia passado, ambos estavam mais calmos, ele notava que Cass se encolhia com frio. Se levantou com a caixinha de primeiros socorros em mãos.

— Já volto.

Desapareceu e voltou segundos depois com um casaco em mãos, que ofereceu para Cass enquanto se sentou ao seu lado no chão.

Ela aceitou, um tanto a contragosto, conhecia aquela peça. Ele já havia lhe servido de forro na grama antes. As mangas cobriam quase toda sua mão e sentia um cheiro almiscarado que já achava característico.

Ela esperou ele se acomodar, os dois no chão e com as costas apoiadas no sofá.

— Você não tinha percebido que estava cansado até para teleportar?

Ele suspirou, elaborando o como explicaria:

— Eu não conhecia essa sensação dessa forma, tudo ficava indo e vindo, estava diferente do quando eu simplesmente perco um segredo. Se só vazasse de uma vez eu saberia, porque perco pequenos segredos o tempo todo, então sei qual é a sensação, mas dessa vez…

Ela não parecia satisfeita.

— Então você teria me dito se soubesse?

— Talvez.

— Talvez?

— Talvez eu não te contasse para ter um outro segredinho menor e isso segurar as pontas.

— Você achava mesmo que eu poderia te deixar enfraquecido mesmo sabendo como resolver? – ela se controlava para não surtar de novo.

— Eu sei o quanto você gostava dele, não seria fácil pra mim te pedir algo assim, justamente porque eu saberia que você faria.

Ela respirou fundo encarando Thomas.

— Eu fiquei com a sensação de que você me subestimou. – ela disse de forma direta, mantendo a voz mais baixa.

— Eu não sabia. Prometo que não sabia. – O círculo dourado se fez no ar entre os dois. – Mas também não me sentiria bem em pedir algo assim pra você.

— Por quê? Era o que você queria mesmo…

— Porque achei que era para a segurança de todos nós, mas nunca quis isso de verdade. Eu adoro te irritar, mas detesto saber que você está sofrendo e agora me sinto culpado por isso.

Cass olhou para Thomas, ele olhava para o teto com a cabeça apoiada no sofá.

— Você não tem culpa. – ela disse – Agora já está óbvio que eu sofreria de qualquer jeito.

— Está?

— Acabamos descobrindo que eu não era grandes coisas para o André.

— Não fala isso.

— Mas é verdade. E acho que hoje foi a prova, né?

Ele engolia a seco.

— Você via os sentimentos dele. – às vezes tinha medo de que ela visse os seus – É o que você acha mesmo?

— Aparentemente eu estava me enganando. No fim isso vai ter sido bom pra eu aprender uma coisa…

— Que coisa?

— Que eu só tenho a gente. Mas até eu absorver isso, eu vou sofrer mesmo.

— Eu sinto muito, Cass.

— Não. Eu não quero falar disso mais. Vou me distrair focando no plano que você tem para falarmos com a minha mãe.

Tom olhou para Cass, agora ela quem olhava para o teto. Ele deu um pequeno sorriso, achava que esse novo foco poderia ser importante para ela. Talvez pudesse ajudá-la a encontrar algo que a fizesse feliz.

— Você vai gostar do meu plano.

— Vou?

— Vamos voltar ao Coliseu várias vezes. Mas não precisamos fazer isso sempre com eles, podemos ir até quando estiver fechado.

Cass fez que sim com a cabeça.

— E o que estava lá em andamento?

— Deixei um leitor de ambiente, ele vai analisar mudanças energéticas e mandar para cá. – ele tirou o pingente de trás da camiseta e mostrou a ela.

— Então eu não precisava mesmo-

— Precisava sim, a gente precisa saber se algo muda quando estamos lá ou não.

— Entendi… Que inteligente.

— Eu que fiz.

— Mesmo? – ela parecia um tanto impressionada.

— Foi.

— Que foda. – ela sorria para ele, que não demonstrava, mas estava orgulhoso – E você viu meu poder novo?

— A garrafa?

— Aparentemente eu quebro coisas. Quebrei um copo em casa também.

— Eu não sabia que era preciso alguma habilidade especial para isso. – ele sorriu, debochado.

Ela riu baixinho.

— O exército aerita me achou perigosa, mas aparentemente sou um perigo só para mim mesma – ela olhou para o curativo na barriga.

Ele riu.

— Não, eu tenho certeza que o vidro é uma arma muito poderosa.

Ela manteve um sorrisinho menos doloroso no rosto, respirou fundo pensando.

— Pena que não deu pra ouvir Would ou Nutshell.

— São suas favoritas?

— São.

— Bom… você quer voltar?

Ela fez que não com a cabeça e olhou de novo para o curativo.

— Acha que vai ficar cicatriz?

— Bom… – ele pensava um pouco – Se minha irmã estivesse aqui, não ficaria.

— Ela pratica cura?

— Sim. – ele confirmava com a cabeça fazendo uma pausa – É bem habilidosa. Resolveu fazer medicina porque assim se mantinha ocupada por aqui também.

— Você sente falta dela?

— Bastante. Mas ela nunca veio para cá e nós nunca fomos para o campus onde ela estuda, então não é tão simples nos encontrarmos.

Cass pensava se em algum momento conseguiria ajudar.

A conversa se estendeu e durou mais do que imaginavam que duraria. Um relógio sobre a TV marcava quase três da manhã, o show no Coliseu deveria estar acabando.

— Como foi para você? – eles falavam das diferenças entre a Terra e Eivar – Tipo, sair de um mundo em que raça sequer é um conceito e aí vir parar aqui…

— Foi assustador. – ele fazia que sim com a cabeça – Quer dizer, este é o lugar mais seguro? Nós estamos mesmo fugindo da guerra? – ele fazia uma careta engraçada – E não acho que vou me habituar.

— E mesmo sem isso a gente tinha problemas lá.

— Sim. E é bizarro quando a gente ouve aqui os mundanos pirando naquela música “imagine all the people…” – Cass riu – Como se resolvendo racismo, machismo e homofobia, tudo ficaria bem.

— A gente veio dessa versão da Terra e também está uma merda.

— Sim, porque não resolve a fonte mesmo dos problemas.

— Nesse aspecto, aqui é bem parecido com lá, né? Nas disputas que causam os problemas…

— Sim.

— Eu pensei em pedir aulas para sua mãe. – Cass disse bocejando.

— De história? Ela vai adorar.

— Uhum… A gente devia falar mais dessas coisas.

— Podemos. Podemos sim. – Ele fez que sim e bocejou também.

— É melhor eu ir.

— Como você vai fazer?

— Meu pai deve estar dormindo, eu vou aparecer na frente de casa e entrar, só pra ele pensar que eu cheguei de carro.

— Isso vai funcionar?

Ela deu de ombros.

— Vamos descobrir. Obrigada pelo curativo.

— Não foi nada. Nós estamos bem, né?

— Estamos.

— Então conta comigo quando quiser falar.

— Eu vou. – ela sorriu de verdade, era a primeira vez em alguns dias – Até segunda.

— Até.

Ela desapareceu. Tom foi dormir um tanto aliviado e, estranhamente feliz, pensando que ela deveria estar confortável em seu casaco, já que ela esqueceu de devolver.

Notas finais
vou viajar essa semana e não acho que vou conseguir escrever muito por uns dias, mas eu volto