Máfia em família
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Eu mal conseguia encara-lo. Aquele cabelo escuro perfeitamente alinhado, o terno de grife. Até o perfume caro e característico dele fazia meu nariz coçar, alertando os meus sentidos. O pior é que eu não tinha nada no estômago, pois adoraria vomitar naqueles sapatos caros.
Ao invés de encarar a figura bem polida que era meu irmão mais velho, eu encarei o teto. Havia um tubo de circulação de ar coberto por uma grade cinza, mas era muito alto para subir. A saleta não tinha câmeras nem guardas, para assegurar o sigilo profissional entre o advogado e o cliente, mas havia um policial do lado de fora. Além disso, eu havia checado os móveis da sala atrás de algum grampo antes de me sentar, o que me rendeu olhares mal-encarados da parte de Will.
Comecei a me balançar na desconfortável cadeira de ferro, fazendo o único barulho da sala ao bate-la ritmicamente no chão. Will pigarreou, aparentemente cansada do silêncio desconfortável que havia entre os irmãos.
— Espero que aceite meus pêsames, Senhorita Riazzo. — Foi Radcliffe quem começou. — Don Riazzo era meu padrinho. Minha família lamenta muito sua perda.
Assenti sem encara-la diretamente. Não pedi para Kane ligar para Liane Radcliffe por sua bela figura, muito menos por piedade. A razão para ela estar aqui é, primeiramente, por ser confiável. Pois, como ela disse, meu pai era padrinho dela, o que em outras palavras significava que a minha família protegia a dela em troca de possíveis favores no futuro, como o favor de hoje. Sua família não era membro direto da máfia, eram associados. Em segundo lugar por ser uma ótima advogada, uma das melhores de Nova York. Até onde eu sabia, Liane e Kane tiveram uma relação conturbada e um termino, digamos que mal superado por uma das partes. Eu não estava disposta a estabelecer relações mais do que o necessário com ela.
— Já conversei com os juízes que temos e todos estão mais do que dispostos a conceder liberdade para vocês. — Havia hesitação na voz dela e eu não sabia o que significava.
— Mas? — questionei ao encarar seus olhos azuis acinzentados.
— Mas eles não liberaram ainda sob quais acusações estão mantendo vocês três aqui. — Will respondeu no lugar de Liane. Encarei-o sem entender. — No que você se meteu dessa vez, Mileia?
Bufei, claro que ele iria me culpar até pela enchente da maré se fosse possível. Porém, essa história toda estava muito estranha.
— Quem está prendendo as informações? — questionei-os. Eles se entreolharam antes de responder.
— A polícia não quer nos dizer, o que significa que tem alguém maior por trás disso, mas ainda não sabemos quem — respondeu Liane.
Recostei na cadeira dura de ferro ao perceber minhas costas tensas demais. A pergunta não era Quem? E sim Por que? O que queriam de mim para manter meus advogados às cegas e me segurar na delegacia até agora?
— Acha que as outras famílias têm alguma coisa a ver com isso? — Will me perguntou.
— Nenhuma das outras famílias tem tanta influência política do que os Riazzo. — As palavras simplesmente voaram da minha boca mecanicamente.
Entretanto eu sabia o quão grande era a catástrofe que já estava acontecendo, assim como sabia quais eram as próximas palavras de Liane. E eu queria que Will ouvisse cada palavra sobre o quanto os Riazzo que restaram estava ferrados.
— Tudo está uma bagunça lá fora, Srta. Riazzo. — Liane falou o que eu já sabia. — Eles estão incertos sobre o futuro da Família. Todos nós estamos. Não perdemos só Don Riazzo. O Consiglire, dois Capos e seus homens presentes naquele dia foram mortos, incluindo Nate Riazzo. Ele era o Sottocapo, o subchefe. Como bem sabe, ele assumiria caso acontecesse algo com seu pai, e agora está morto também. Quem irá assumir os negócios agora é o todos querem saber, incluindo as outras famílias.
— Os Genovese não sofreram com tantos danos quanto nós, eu suponho — pensei alto.
Tentei lembrar dos corpos que eu tinha visto a quase um dia atrás. Parte de mim rezando silenciosamente para que algum deles fosse a carcaça velha de Don Genovese, enquanto a outra parte pedia que ele estivesse bem vivo para que eu pudesse mata-lo pessoalmente.
— Eles tiveram uma boa baixa também. Apenas dois de seus homens sobreviveram, ao que parece um massacre mal planejado. Ambos estão em situação de risco na UTI. O Consiglire deles também está morto. Os Riazzo não poderiam cair sem antes derrubar muitos consigo! — Liane sorriu, comemorando o que achava ser alguma vitória no meio daquilo tudo.
Senti meu rosto enrijecer ainda mais com aquele sorriso branco idiota. Será que se eu o tirasse dali com um soco, ela ainda seria minha advogada? Ou será que ela abriria um processo de agressão contra mim?
— Não há o que se comemorar ainda, Srta. Radcliffe. Sugiro que guarde esse sorriso por enquanto — aconselhei, escolhendo ficar com a advogada. Pensei com cuidado em qual seriam as minhas próximas palavras. Eu tinha que deixar claro quem estava no comando de toda a situação, então com uma segurança pausada, proferi: — O que será do futuro da Família, no momento só diz respeito a mim e aos meus. Que fique ciente que os tiros que nos deram pelas costas nunca seriam suficiente para derrubar os Riazzo. Somos muito maiores do que isso. Espero que você passe esse recado para todos que estiverem com dúvidas, Srta. Radcliffe. Agora, peço que se retire para fazer o impossível, se for necessário, para me tirar daqui ainda hoje. Estou com fome e não quero nem pensar na lavagem que eles chamam de comida.
A loira assentiu. Esperei que ela saísse, mas Liane Radcliffe não se levantou, nem fez menção de sair. Arqueei uma sobrancelha, encarando-a.
— Há algo que ainda queira discutir comigo? — perguntei.
— Não. Não com você, se não se importa, gostaria de falar com meu outro cliente.
Kane, obvio. Não deveria estar surpresa pela perseguidora querer ver se ele está bem. Me segurei para não revirar os olhos. Kane me meteu em um encontro com Will, então ele que lidasse com Liane então.
— Vá em frente. — Apontei para a porta.
Ela levantou e balançando seus cabelos platinados em minha direção ao estender uma das mãos com unhas bem feitas. Apertei-a firme com as minhas duas mãos algemadas. Agora eram só eu e a figura ereta que era Will, em sua cadeira em frente à minha. Encarei, enfim, seus olhos escuros como os meus.
— Suponho que esteja feliz — comecei, colocando veneno em cada uma das minhas palavras. — Tudo o que você sempre odiou, finalmente desmoronou na sua frente. Você fez pipoca quando soube ou estava tão feliz que não conseguia comer?
Will me encarava de volta com o que parecia ser uma surpresa rancorosa ao invés de esbanjar um sorriso de vitória.
— Você acha mesmo que eu estou feliz? Meu pai e meu irmão morreram e você acha que eu fiquei comemorando isso? — Ele balançou a cabeça em negativa, me olhando com fúria nos olhos. Era isso que eu esperava afinal, alguém com quem eu pudesse descontar parte da minha raiva. — Se quer saber eu vomitei quando soube.
A frase dele não me surpreendeu, nem causou o efeito desejado. Isso não era sobre ele, não dessa vez. Ao invés de me solidarizar com meu irmão, uma risada sem um pingo de humor escapou dos meus lábios.
— Ah, você vomitou quando soube? Que bonitinho Will, tenho que admitir. Quem te limpou, foi sua namoradinha? Ah! — Levei as duas mãos a boca, sorrindo com escárnio. — Desculpe, esqueci que ela é madame demais para isso. A propósito, onde você estava quando soube? No seu novo apartamento no Central Park? Aquele que você comprou com seu dinheirinho limpo?
A expressão “fuzilar com os olhos” havia sido feita para descrever meu irmão naquele exato momento. Ele retorcia as mãos em cima da mesa, mas se manteve calado. Bati com algemas contra a mesa com força ao me inclinei em sua direção, fazendo um som estridente ecoar pela sala.
— Me responda, Will! Me diga onde você estava quando soube? — rosnei as palavras contra ele. — Em um hotel de luxo? Em uma reunião com os almofadinhas de sempre? Me diz! Eu quero imaginar você recebendo uma notícia dessas!
— Que diferença isso faz? Se controla, tá! Eu estava em casa. Estava trabalhando em meu escritório em casa quando me ligaram e falaram que meu pai estava morto! — ele gritou de volta.
— Ótimo, agora quer saber onde eu estava? — lancei a ele meu último sorriso falso o qual eu senti quando se transformou em uma careta. Me chamar de louca sempre foi seu passatempo favorito. — Eu estava lá. Vi meu pai no chão com mais de dez tiros no corpo! Eu vi Nate... Eu o vi... — Não consegui terminar. Nunca mais esqueceria daquele dia, daquela cena.
Achei que fosse a terra que estava balançando meu corpo, mas não. Meu corpo todo tremia e as lágrimas que eu prendia a muito, finalmente caíram livremente. Não sei quando ele fez isso, mas Will segurava minhas mãos enfaixadas nos punhos, com força. Quando percebi, livrei-me dele com um empurrão, então continuei a falar, sem me importar com a voz embargada ou com o nó na garganta. Will precisava ouvir, eu gostaria de feri-lo tanto quanto ele feriu nossa família com suas ações egoístas. Queria machuca-lo tanto quanto ele fez comigo.
— Havia tiros por toda a parte. Muita gente já estava caída quando cheguei. Era uma retaliação. Não conseguia ver de onde os tiros estavam vindo e não adiantava querer atirar de volta; já estavam todos mortos mesmo. Mesmo assim eles ainda atiravam no corpo de Nate, muitas e muitas vezes. Eu vi eles balearem Shade também. Meu irmãozinho...
— Shade está morto? — Will me interrompeu abruptamente. Havia choque em seu rosto. — Isso não é possível, o corpo dele não foi encontrado.
Tudo ainda estava fresco na minha mente. Eu podia ver a figura do jovem e risonho Shade fora de cena, em um universo que não era dele. Shade nunca foi sério o suficiente para uma vida de mafioso. Apesar dele se divertir bastante, isso nunca pareceu algo que ele escolheria se tivesse oportunidade. Agora, ele não tem mais nem vida.
— O encontro foi em Yonks, por ser um local neutro entre as duas famílias, você sabe o protocolo. — Descartei qualquer prolongamento com a mão. — Ele caiu no Rio Hudson, a correnteza deve tê-lo levado, os peixes devem ter tê-lo comido. Eu não sei, tá legal?! Eu o vi morrer. Ele levou tiros o suficiente para estar mais do que morto agora. — Senti minha cabeça balançar de um lado para outro enquanto eu encarava o nada. — Havia tantos corpos, mas ainda tinha gente atirando. Eu queria fazer algo, mas a polícia já tinha chegado lá e quem ainda atirava, atirava contra a polícia. Os canas me viram antes que Kane me tirasse dali. Tentamos seguir um dos planos de fuga para situações como essa, mas eu não podia deixar Charlie para trás, então despistamos os policiais e voltamos para casa, tiramos ele de lá e arrumamos o que podíamos para ir para Vegas. Eu ligaria para tio Joe no barco e ele ajeitaria os detalhes, ou assim eu pensava. Tudo deu errado. A polícia nos emboscou na marina como se já soubesse para onde íamos.
— Alguém dedurou você — disse o capitão óbvio.
— Não diga! Onde você leu isso, em um letreiro? — bufei. Estava claro desde o começo que alguém tinha nos dedurado.
— Você deveria ter me ligado! Eu daria um jeito, teria te tirado dessa em segurança, Mileia! — Ele passava as mãos com impaciência pelo paletó.
— Ah, claro! Logo você Willian, o senhor do “não vou me meter nesses assuntos de criminosos, que se foda a família” — A raiva fervilhava em mim como uma panela de pressão, prestes a explodir. — Quer saber, Will? Eu nem sei porque se deu ao trabalho de vir até aqui. Você acha que ligar duas vezes no ano é se importar? Eu vou te ensinar o que é isso: Estar disposto a levar um tiro por sua família é se importar!
— Não, isso só significa que você é uma louca suicida. Estar aqui para livrar a sua cara que significa que eu me importo com você. Me importo com a minha família e sempre quis o melhor para nós. Faria qualquer coisa por qualquer um de vocês e minha decisão de não seguir nos negócios da família nada interfere os meus sentimentos, ao contrário dos seus, Mileia.
Um sorriso vazio voltou ao meu rosto. Era a oportunidade que eu precisava para usar suas próprias palavras contra ele. Eu não precisava dele como advogado e Kane sabia bem disso. Eu precisava dele como Riazzo. Nós estávamos em uma crise familiar que poderia destruir todo nosso legado para sempre e Willian Riazzo era o único no momento capaz de nos tirar do buraco profundo. Pelo menos até que eu saia da prisão.
— Faria tudo mesmo, por qualquer um de nós? Até por mim Will? — Me inclinei sob a mesa, chegando mais perto que eu podia, como se isso fosse o suficiente para que ele entendesse minhas palavras. — Porque eu preciso que você faça algo por mim. Preciso que seja o maledetto Riazzo que você nunca foi! Volte para casa e faça algo realmente útil mostrando que nós não estamos fora de cena como queriam que estivéssemos!
Bati mais uma vez na mesa com raiva. Seus olhos se semicerram enquanto ele se inclinava de volta na minha direção. Will sabia o que eu pediria, eu tinha certeza disso e ele também tinha quando atendeu o telefone.
— Você se lembra quando tiramos a foto em família, há alguns anos? Se lembra da briga que tivemos? Tinha esperança de que tivesse mudado, amadurecido e virado alguém melhor, mas isso seria impossível para você, sendo criada da maneira que foi. — Ele usava um tom de superioridade, como se tivesse enojado só por falar comigo.
Ri da forma como suas ofensas soaram bobas aos meus ouvidos. Algo assim poderia ter ferido os sentimentos — ou talvez só o orgulho — de uma garotinha solitária e inexperiente do passado. O fato é que eu não conhecia mais aquela garotinha fazia muito tempo.
— Fui criada melhor do que qualquer um de vocês, tendo uma educação ampla dentro e fora de casa. Farei 21 anos no próximo mês e falo línguas, domino plenamente três tipos de artes marciais diferentes, sei atirar com armas de fogo como se fossem uma extensão da minha própria mão, assim como com qualquer tipo de objeto cortante que você colocar na minha mão. — Levantei as mãos algemadas na altura dos seus olhos, como se ele pudesse vê-las em ação naquele mesmo momento, enquanto discursava com orgulho. — Sei até atirar com uma besta se precisar. Então não fale da maneira como eu fui criada, por favor, pois eu fui muito, muito bem criada e sou grata por isso.
— Você foi criada como uma arma, Mileia. Não vê quão horrível isso tudo soa? Você só tem 20 anos! Devia estar indo presa por dirigir bêbada depois de uma noitada com alguns garotos!
— Você quer que eu dirija embriagada por aí, correndo o risco de atropelar algum inocente, ao invés de ir presa por estar fugindo de uma cena de crime a qual eu não tive nenhuma participação? — Sorri ao ouvir aquelas sandices da boca do meu irmão mais velho. — Sério, você é incrível! Vou levar isso em consideração da próxima vez em que eu for presa.
Dei-lhe uma piscadela. Eu já estava impaciente com toda aquela conversa. Estava com sede, então levantei e fui até o bebedouro solitário no canto da sala. Foi uma tarefa complicada usar um copo com as mãos algemadas. Ainda na mesa, Will soltava um suspiro exasperado, parecendo tão impaciente quanto eu.
— Por que não terminamos logo com isso Will? — perguntei após bebericar minha água. Não me atreveria a tomar mais do que alguns golinhos, afinal fazer xixi na prisão não era um dos meus passatempos favoritos. — Eu vou te dizer o que eu quero de você.
— Vocês dois são iguaizinhos mesmo! — Will me interrompeu, repetiu o que sempre costumava me dizer. — Você e papai só pensando nos negócios da família. “Família” isso, “família” aquilo. A verdade é que vocês só se importam com os negócios, com o poder que isso traz! Você nem ao menos me perguntou sobre o enterro deles!
Puxei o ar pelo nariz com uma força audível. Essa não era a hora de ter problemas de controle emocional.
— William, eu quero que você volte para casa e fale com quem ainda nos resta — discursei pausadamente. — Conforte as famílias que perderam os seus parentes no massacre e ligue para o antigo Consiglire do papai. Suponho que ainda se lembre de Dio Marlone, é claro. Ele te ajudará no que precisar até que eu saia daqui.
— E então o que? O que vai acontecer quando você sair Mileia? Me diz! Vai assumir os negócios? Uma fedelha inconsequente que não consegue nem seguir um plano já armado para fugir da polícia? Acho que todos esperavam mais da garotinha psicopata criada a imagem insana do papai. Quer saber? Ele colheu o que plantou naquele dia. Todos eles colheram...
Era tarde demais para pensar em qualquer tipo de controle. Meu copo de água já havia despedaçado em minhas mãos, molhando minhas gazes com o resto de seu conteúdo. Eu tinha avançado para cima do meu irmão, que se surpreendeu, mas foi mais rápido ao levantar-se de sua cadeira com agilidade. Ele segurou um dos meus braços algemado, impossibilitando o outro de se mover. O guarda na porta entrou apressadamente no recinto, mas não rápido o suficiente para impedir a joelhada que eu dei em Will, assim como a bofetada com as duas mãos bem no lado direito de seu rosto. Me debati enquanto o guarda me segurava até que outro guarda chegou para ajudá-lo. Eles soltaram uma das minhas mãos das algemas, entortando meu braço logo em seguida e me jogando com força de cara na mesa. Então prendeu as duas unidas nas minhas costas.
— A hora com advogado acabou — brandiu o policial, já me arrastando sala a fora pela delegacia.
Quando chegamos na minha cela, depois de um breve passeio pelos corredores da delegacia, um policial acabava de trancar a cela de Kane. O policial que me segurava me desalgemou e me empurrou cela a dentro.
— Mileia você está sangrando. — A voz de Kane soou grave e familiar a minha frente.
Levei a mão ao nariz, apalpando-o para ver se tinha quebrado com a batida. Ele estava no lugar, mas havia sangue na gazes que amarrava minha mão.
— Você demorou, Milie. Quando vamos sair daqui? — perguntou Charlie na cela ao ado.
— Espero que logo. — resmunguei mais para mim do que para o garoto.
A cela ainda era a mesma bagunça de antes, mas a comida intocada havia sido retirada para a tristeza do meu estômago desesperado. Puxei meu colchonete ainda no chão e me deite de peito para cima, colocando mãos para cima, na altura dos meus olhos e encarando-as
— Logo quando? — Charlie insistiu. — Hoje? Amanhã? O que os advogados disseram?
— Disseram que nós estamos ferrados. — Arrastei-me no chão para virar meu colchonete, ficando na horizontal para encarar um Kane sentado e pensativo na cela da frente. — Radcliffe te contou a situação ou vocês só ficaram de amassos? — perguntei para ele. Até eu mesma percebia o quanto estava rabugenta.
— Ela me contou que estão nos mantendo aqui e abafando as acusações, se é isso o que você quer dizer. O que você acha? — Kane perguntou impassível. Como sempre, minhas provocações quase nunca o alteravam.
Pensei no que ele estava me perguntado de verdade. Passamos por centenas de treinamentos diferentes, treinamento físico e intelectuais para agir nas situações mais inusitadas. Ele realmente queria saber o que eu achava, porque isso não era mais uma situação hipotética e estávamos juntos nessa história.
— Poderia ser mais uma armação dos Genovese contra quem sobrou dos Riazzo — comecei a falar baixo e rapidamente —, mas os contatos políticos deles nem se compara com os nossos, sem falar sobre seus negócios no narcotráfico que expele aqueles contatos realmente importantes, que não veem esse negócio com bons olhos. A não ser que eles tenham se juntado a alguma outra família com contatos relevantes, mas novamente não consigo pensar em nenhum contato realmente bom que não esteja do nosso lado.
Balancei a cabeça por um momento, brigando internamente contra meus pensamentos.
— Não, não. Tudo isso parece muito estranho — continuei. — Não estava informada de que a briga pelo tráfego marítimo estava indo nessa direção e até onde sei os Gemovese era a única família que queria nosso porto. Então para que entrar em uma guerra sangrenta e cheia de perdas para algo que já se tem? Isso vem de fora das famílias.
As palavras saiam rapidamente da minha boca, mal sendo processadas no caminho. Kane mantinha uma expressão pensativa no rosto, os olhos desfocados e pensativos por um momento. Quando ele recobrou o senso do espaço, balançou a cabeça em concordância enquanto nos encarávamos por um tempo que pareceu interminável.
— O que quer dizer Milie? — Charlie perguntou.
Ele podia ser um dos únicos Riazzo ainda vivos, mas ainda era uma criança. Não se dever confiar assuntos de adultos a crianças, essa é uma lição que passei boa parte da minha vida para entender. Charlie não foi criado como um de nós, ainda tinha muito o que aprender antes de merecer minha confiança para assuntos como esse.
— Fique fora disso. — Fui curta e grossa.
— Se você ainda não percebeu, eu estou tão nessa quanto você! — Charlie rebateu.
Revirei os olhos e falei uma última vez com tédio na voz:
— Não, você não está. Quanto menos se envolver será melhor para você garoto, acredite.
Menos de meia hora havia se passado desde a última visita, mas som de passos no corredor silenciara nossa pequena discursão momentânea. Os três guardas de outrora eram liderados em uma expedição com um desconhecido a frente do grupo, que trajava um terno negro contrastante com o azul dos uniformes dos policiais com armas nas pernas. Meu coração bateu forte enquanto eles se aproximavam, mas não me movi. Diferente de Kane que se levantou, sério e imponente como um dos guardas do Palácio de Buckingham, assim que o líder do grupo parou em frente à minha cela, encarando de cima minha figura deitada em um colchonete fino.
— Mileia Riazzo. Sou o agente especial Raymond, FBI. Queiram me acompanhar, por favor. — Não foi uma pergunta.
— Hum, acho que não. — fingir estar pensativa. — Quer dizer, estamos tão confortáveis aqui! Não perca seu tempo comido agente Rayland, sou só uma garota presa injustamente.
Sorri ao me sentar no colchonete fino. O esforço fez meu braço ainda ferido doer. Flexionei os nós das mãos esperando que uma dor amenizasse a outra.
— Sinto dizer que no momento você não tem muita opção — Foi a vez do agente me lançar um sorriso, daqueles malignos de quem tinha o controle da situação e sabia disso.
Um dos policiais já abria a minha cela sem se importar com a minha opinião e faziam o mesmo com a dos meninos. Troquei breves olhares com Kane, confirmando o que já sabíamos. O FBI era o “alguém maior”. Mas o que eles queriam comigo?
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