Má Influência
1 Dia 0
Notas iniciais
O dia da entrevista de emprego foi um dos mais corridos da minha vida. Encontrei com minha mãe no hospital e lhe entrei as flores que prometi que compraria para Elizabeth. Eu estava virando tio e toda aquela ideia da minha irmã estar se tornando mãe me assustava.
Fui à faculdade entregar a papelada referente ao colegiado. Era ano de eleições estudantis e eu queria representar meu curso. E por fim, antes seguir pela avenida, encontrei Kate no Central Park.
Ela me contou sobre seu novo namorado. Um roqueiro pé sujo que costumava tocar em um Pub que frequentávamos.
Eu estava suado e minha camisa social inevitavelmente estava com manchas escuras. Era verão e mesmo não sendo um dos dias mais quentes do ano eu transpirava como nunca. Talvez fosse só o nervosismo, não sei.
Conseguir um estágio aos vinte anos, no terceiro semestre de faculdade era extraordinário. No campo do Jornalismo ainda mais, tudo me parecia muito surreal.
Cheguei ao jornal dez minutos antes do horário marcado. Sentei-me na sala de espera, onde uma secretaria gorducha mordiscava uma rosquinha rosada enquanto minha perna tremia freneticamente.
Passei a mão na cabeça sentindo o cabelo raspado. Eu estava quase careca. Ainda não havia me recuperado do trote que havia sofrido poucos meses antes.
Foi quando o vi pela primeira vez. Eu estava olhando para minhas mãos, como elas estavam vermelhas onde inconscientemente eu apertava meus dedos pela ansiedade, então não notei a presença dele, até a sombra surgir a menos de um metro na minha frente.
– David Mayer? – O ouvi me chamar. Me assustei e olhei para cima enfurecido pelo susto. Mas acabei me surpreendendo com a altura dele, sendo logo desarmado. – Sou Jem, conversamos pelo telefone mais cedo.
Me levantei depressa e acabei esbarrando nele. – desculpa, obrigado pela oportunidade senhor Miller.
– Vamos até minha sala, por favor – disse ele estendendo o braço.
Seguimos por um pequeno corredor até chegarmos a ultima porta branca. Ao abri-la uma grande quantidade de luz natural fez com que meus olhos ardessem. A parede inteira era uma grande janela, que dava vista ao emaranhado de prédios, onde o sol das onze reinava majestoso.
A mesa dele estava no canto direito. Na frente dela, bem na entrada uma planta de um metro e meio de altura se firmava abaixo de um quadro abstrato colorido. Tentei imaginar que tipo de pessoa o senhor Miller era. Um homem de negócios, isso com certeza, mas quantos deles tinham uma sala tão peculiar?
Me sentei na cadeira com forro de couro preto, tentando não me aconchegar de mais, enquanto o homem de cabelos negros e barba volumosa se ajeitava em seu trono na minha frente. James Miller, um dos mais famosos Jornalistas investigativos da cidade conversando comigo pessoalmente, dispensando o pessoal dos Recursos humanos. Minha perna não ia mesmo dar uma trégua.
– Bom – Jem começou, retirando um papel impresso de sua gaveta. Correu os olhos pelas primeiras linhas e voltou a me encarar – fiquei muito impressionado com o artigo que escreveu, o tema não é nada comum, por assim dizer. O que te levou a isto?
Meu coração deu um salto. Estendi as mãos até pegar o papel. Lá estava um resumo da minha dissertação. – Na época o professor nos abençoou com tema livre. Imaginei que descobrir o que acontecia com o dinheiro arrecadado com nossa mensalidade séria justo.
– Então você não sabia o que iria encontrar? – Ele me interrompeu, colocando os cotovelos sobre a mesa, apoiando o rosto sobre as mãos recém-unidas.
Seus olhos castanhos eram amedrontadores. Transpiravam tanta segurança e curiosidade que temi gaguejar, no entanto, as palavras saíram sem que eu pudesse conte-las – acho que nenhum estudante de vinte anos, espera descobrir um esquema de lavagem de dinheiro.
– Você se tornou noticia, chamou a atenção de grandes jornais no final do ano passado. – James Miller parecia um leopardo, esperando um passo em falso de sua presa. No caso, uma resposta ao comentário.
– A coisa tomou proporções maiores do que eu pude imaginar. – O reitor da faculdade alterava os valores das mensagens, informando algo um terço maior ao Estado. Não consegui chegar aos verdadeiros beneficiários do esquema, mas assim que percebi o que estava havendo levei as poucas provas que tinha reunido a policia.
Antes que eu pudesse perceber estava sendo interrogado pela CIA e eles acabaram encontrando indícios de que o reitor estava metido com traficantes. Não as mulas que vendiam a substancia nas ruas, mas sim os chefões do trafico. Pareceu coisa de filme. Por fim, acabei dando uma entrevista ou duas e quando fui dispensado como testemunha, meus pais me levaram para uma temporada na Europa.
O senhor Miller se levantou da cadeira e ajeitou seu blazer negro – preciso de um assistente David, posso te chamar assim? – Concordei com a cabeça, me levantando o mais rápido que pude como reflexo – a vaga é sua, se assim desejar.
Ele estendeu o braço em minha direção e um sorriso carismático brotou em seu rosto. A agarrei com força sua mão e ele retribuiu o aperto, balançando meu braço com firmeza. – Obrigado senhor Miller, obrigado.
DIA ZERO
O quarto rodou. Cortinas... Quadro estranho... Guarda-roupa... Cortinas... Levei minha cabeça ao travesseiro e senti ânsia de vomito. Meu estomago se revirava como se houvesse alguém dentro de mim lutando para sair. – Não estou no meu quarto – foi tudo que pude sussurrar.
– A menos que você tenha desenvolvido um gosto estranho por fotos da minha família, não – Kate comentou. Abri os olhos novamente e a vi apoiada ao guarda-roupa. Como ela havia chegado ali tão rápido?
Deu passos largos com suas pernas de girafa e chegou à janela abrindo as cortinas beges com um arranque brusco. A luz fez meus olhos arderem no mesmo instante. Sol do meio dia?
– Eu estou dormindo a quantas semanas? – Perguntei desorientado.
Ela sorriu e se largou aos pés da cama. – Você passou os últimos seis meses em coma. Agora Elisa esta se casando com Henry.
Arregalei os olhos e levei às mãos a cabeça – que badalo. A série já terminou? – Kate fez cara de poucos amigos e eu comecei a rir. – Lembre-me de nunca mais ir aquele buraco que seu namorado novo chama de bar.
– Vou te atualizar, se você realmente não se lembra. – Ela se sentou na cama do meu lado e jogou o cabelo para trás – terminei com ele ontem a noite mesmo.
Me sentei devagar e percebi que estava seminu – como assim gente?
Ela chutou os chinelos e subiu, engatinhando até meu lado – lembra se daquele garoto loiro que foi conversar com você?
– O gay? – Perguntei em um tom exaltado de pura incredulidade.
– Yep, esse mesmo – ela concluiu sorrindo – eu o beijei.
A expressão no rosto dela dizia que o beijo havia sido como vindo de um príncipe encantado. Exatamente como os da Disney. – Qual parte do gay você não entendeu?
– Bom, ele foi bem claro em relação a isso depois que eu o agarrei.
Eu apenas consegui sorrir e balançar a cabeça negativamente. Aparentemente aquela era mais uma daquelas reviravoltas da vida que ninguém podia prever. As coisas estavam mudando pra gente.
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