Lótus de papel
2 Capítulo 1 - Uma flor de Lótus, não mais
Notas iniciais
Seis e trinta da manhã. Essa é a hora em que meu despertador toca todas as manhãs durante a semana. Não sei quem foi o cretino que inventou que numa fodendo segunda-feira seria humanamente aceitável se levantar nesse horário, para ir para uma instituição que foi criada para moldar as mentes de jovens para que se tornem adultos tão chatos quanto os próprios pais. Na verdade, acordar a essa hora deveria ser considerado um tipo de tortura ou, talvez, esse fosse o verdadeiro objetivo, nos torturar para que estejamos sempre um passo mais perto do precipício.
Pelo menos é assim que me sinto, próximo do precipício, enquanto me reviro e me debato debaixo das colchas toda vez que tenho que acordar a essa maldita hora, neste maldito quarto, dentro desta maldita casa, nessa vida maldita. Não houve um dia sequer, desde a morte da minha mãe, no qual eu não sentisse como se estivesse me afogando. E o fato de o meu melhor amigo ter mudado desde toda aquela bagunça, não ajudou em nada, na verdade só piorou as coisas, se isso é sequer possível. Espera, com o jeito que minha vida é, talvez eu não deveria esperar nada além do pior.
Não, isso não é um draminha de um adolescente mimado que tem de tudo. Eu não tenho tudo. Nem todo o dinheiro do mundo me faria feliz, não enquanto eu estiver dentro desta casa e fizer parte desta família. Se outra pessoa pudesse ver a vida através de meus olhos, talvez conseguisse me entender, e ver as correntes que se arrastam e se prendem em cada membro do meu corpo. Todos que sabem o meu nome, o temem, o evitam, mas não sabem quem eu sou de verdade e nem estão curiosos em saber. Eles não conhecem a pessoa por de trás do nome e nem tentam conhecer também.
Todos só se importam com os rumores, com as histórias de outras pessoas, mas não se importam com a minha história. E mais uma vez eu tenho que ouvir em forma de múrmuros e cochichos essas histórias e interpretar o papel no qual eles me colocaram à força. Mas no fim esse papel tem um único lado positivo, já que fui forçado a usar essa máscara para me fechar do mundo, pelo menos posso usá-la como uma maneira de continuar vivendo.
Mas as vezes eu penso: por que estou tentando quando não tem pelo que continuar vivendo? Andando por esses corredores de madeira envernizada, com um cheiro fraco de carvalho e passando pelas portas para o mundo lá fora, movimentado e barulhento, esses pensamentos e a solidão são a minha única companhia.
Porque estou aqui? Eu deveria estar aqui? Não seria melhor ir embora? Mas embora para onde? Existe um lugar onde eu me encaixaria? Não seria melhor simplesmente sumir?
Quando abro meus olhos novamente, deixando esses pensamentos desaparecerem bem no fundo de minha mente, percebo novamente o mundo a minha volta, percebo que meus pés me levaram do carro à sala de aula onde passo as arrastadas horas de parte do meu dia com as pernas cruzadas em cima de uma mesa vazia, os braços sempre cruzados por cima de uma camisa preta lisa de gola alta, sem realmente prestar atenção no que o professor está dizendo, somente esperando para ir embora daquele lugar, que é outro tipo de tortura pela qual sou obrigado a passar.
— Porque ele continua vindo para cá? — Escuto uma menina cochichar para alguém ao seu lado.
— Ele é tão intimidador~. Não me atrevo nem a olhar para ele. — Responde uma outra.
— Ignorem ele. É melhor. — Diz um garoto por fim.
Sinto os olhos deles em mim, me encarando com o canto dos olhos vez ou outra. Um medo palpável por trás das feições forçadas de hostilidade, quase tão parecidas com aquelas de um cão de rua que fora maltratado e se acua num canto rosnando quando qualquer um tenta se aproximar. Chega a ser patético e digno de pena o modo como eles são tão facilmente levados a acreditar nas palavras de histórias, que são tão falsas quanto a existência do papai Noel. Me pergunto se eles também acreditam nas histórias sobre o pé grande ou sobre o monstro dentro do armário. E, de novo, fecho os olhos me forçando a me afogar em meus próprios pensamentos, esquecendo o mundo ao meu redor tentando não sentir o tempo se arrastar.
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Dizem que o tempo é algo relativo e que passa de forma diferente para cada um, e para mim, o tempo passa de forma amarga e dolorosamente lenta, principalmente quando se está no último período de aula ou quando se está no horário de uma atividade extracurricular obrigatória. E o pior é que o tempo passa ainda mais dolorosamente devagar quando esses dois estão combinados, e é exatamente por isso que estou passando agora.
Enquanto eles jogam futebol, eu os observo dos bancos das arquibancadas usando minha mochila para me recostar, como sempre sozinho. Nem os professores responsáveis tentam mais me colocar em qualquer atividade ou clube extraclasse já que ninguém tem coragem de me aceitar dentro do seu time ou sequer de vir pegar uma bola que rolar para perto de mim.
Pelo menos eu não tenho que ficar correndo que nem um idiota atrás de uma bola. — Penso comigo mesmo, logo em seguida jogando a cabeça para trás, suspirando longamente com os olhos fechados. — Quem estou querendo enganar? Eu queria correr feito um idiota naquele campo de gramado falso.
De repente, misturado aos gritos ecoados vindos do campo, um grito de dor chega aos meus ouvidos, vindo de algum lugar em baixo das arquibancadas.
Por curiosidade, talvez, começo a procurar de onde vinha a voz e acabo encontrando três garotos rindo enquanto tentam tirar à força a mochila de um quarto garoto, que se mantinha forte enquanto segurava uma das alças mesmo com os outros o chutando na perna ou dando tapas na parte de trás de sua cabeça.
Reviro os olhos suspirando novamente; — Parece que tenho suspirado muito ultimamente. — Olho novamente naquela direção; — Eu não deveria me envolver. Não é como se alguém fosse me agradecer. Não vamos nos envolver, não vamos nos envolver. — Eu repito a frase na minha cabeça, várias vezes, até perceber que estou me levantando da arquibancada e andando na direção do grupinho, com as mãos enfiadas no bolso da minha calça jeans clara, observando cada passo meu no gramado; — Droga, esses são meus coturnos favoritos. — Penso, antes de encará-los.
— Ei…. Vocês estão sendo muito inconvenientes, sabiam disso?
Todos os três me olham e finalmente consigo ver o garoto que estava sendo encurralado pelos outros. Cabelos pretos, uma jaqueta jeans que já começava a cair de seus ombros de tanto se debater, uma blusa branca lisa suja de terra e grama, calça jeans clara, tênis pretos de amortecedores grossos e com olhos grandes de raiva e confusão, parecendo um coelho que acabara de ser colocado em uma jaula nova. Com certeza esse garoto deveria ser novo na área, por que nem mesmo em situações daquele tipo as pessoas olhavam para mim diretamente.
Os outros garotos me olharam por um instante, se entreolharam, voltaram sua atenção para mim sem sequer parecerem abalados com a minha presença; — Isso também é novidade. — E sorriram para mim, maliciosos, enquanto um se aproximavam.
— Você tá falando com a gente? — Perguntou um mais alto, tirando as mãos do bolso da jaqueta do time de futebol.
— Você está vendo mais alguém aqui? — Respondi, ainda usando o tom de deboche de meu personagem. — Droga. Não era isso. Como se responde isso sem soar como uma ameaça?
— Ha! Muito engraçadinho você. — Disse o outro garoto que ainda segurava a outra alça da mochila e vestia um moletom marrom escuro.
— Olha, acho que seria melhor você ir embora se não quiser se machucar. — Falou um terceiro, que tinha sua mão pousada no ombro do garoto de olhos grandes, que agora parecia intrigado, como se estivesse tentando me ler.
— Me machucar? — Sorri de canto, percebendo que o primeiro estava procurando uma briga enquanto se aproximava de mim. — Você não está se achando demais?
O garoto direcionou um soco em minha direção, mas me desviei sem problema, deixando ele com raiva enquanto tropeçava e recuperava o equilíbrio para assim direcionar outros dois socos na altura de meu rosto, me virei e esquivei novamente para logo em seguida dar um giro enquanto o acertava por trás com um chute no meio das costas, que o fez cair de cara no chão. — Acho que bati muito forte. Espero que ele não tenha quebrado nada.
— Maldito! — Gritou o segundo, chegando por trás para me acertar.
Dei um giro, ficando de frente para meu agressor, me agachando do ataque e afundando meu punho em seu estômago, fazendo-o cair. — Acho que exagerei. Não achei que eles fossem cair tão facilmente. — O terceiro nem tentou partir para cima de mim, simplesmente jogou a alça da mochila do menino de cabelos pretos, o fazendo cambalear para frente e acertar o braço esquerdo no chão, e correu para longe sem olhar para trás.
Ajeitando minhas roupas e limpando a gota de suor que escorria devagar pelo meu rosto, senti o olhar do jovem garoto cravado em mim. Encontrando seus olhos fiquei curioso, já que ele não o desviara de mim um segundo, nem mesmo enquanto me aproximava dele.
Meio sem jeito, estiquei a mão em sua direção sem dizer nada, apenas olhando para algum ponto entre os espaços na parte de trás dos bancos da arquibancada.
Quando senti sua mão apertar a minha, não pude evitar de ficar um pouco surpreso e encará-lo. O garoto me olhou e sorriu. Um sorriso tão gentil que por um segundo senti como se o mundo tivesse ficado em câmera lenta enquanto ele se levantava, segurando minha mão com força. O encarei por mais tempo que o devido e soltei sua mão apressadamente, extremamente confuso com a situação toda.
— Obrigado. — Fui tomado de surpresa quando o garoto, numa voz baixa, simplesmente dirigiu a palavra a mim.
— Ahm… eu não fiz nada demais. — Boa Yong-bin. Que embaraçoso.
— Hmm… eu sou Jun-Ho. Jeon Jun-Ho. Sou novo aqui. Só ainda não entendi por que eles vieram atrás de mim. Acho que não gostaram de terem sido desafiados pelo garoto novo.
— Isso e talvez pelo fato de você parecer do tipo que não é muito forte.
— Qual seu nome?
— Yong-bin. E antes que pergunte, não, não sou novato.
— Ah… — Ele olhou para os próprios pés, colocando a mochila em suas costas novamente e, logo em seguida, limpando a blusa branca.
Antes que o clima ficasse ainda mais estranho virei as costas para o novato e comecei a me afastar, logo em seguida percebendo que ele me seguia.
— O que pensa que está fazendo? — Disse, me virando para encarar Jun-Ho.
— Seguindo você? — Respondera, dando de ombros com um sorriso indecifrável no rosto.
— Porque?
— Porquê… — Ele olhou ao redor, como se pensasse numa boa desculpa.
Sem dar tempo de ele responder me virei novamente e comecei a andar em direção da entrada da faculdade, pois eu tinha certeza de que era isso que o mais novo queria, encontrar a saída. Sorri para mim mesmo, achando engraçado como ele me lembrava um filhote de um Golden que seguia o dono.
Já no portão principal não parei de andar, mesmo depois de ter escutado Jun-Ho começar a dizer algo; não queria que ninguém nos visse juntos. Se isso acontecesse, a possibilidade de ele ser isolado dos outros por causa da minha reputação era grande. Avistei o carro estacionado na esquina, subindo a rua, e entrei. Sentei no banco de trás, abrindo a janela toda, deixando o ar gelado entrar enquanto o motorista ligava o veículo e começava a dirigir. Observei enquanto passava em frente ao portão, onde Jun-Ho me encarava, quase conseguia ver as perguntas pairando ao redor de sua cabeça.
— Foi bom te conhecer…. Mesmo que tenha sido só por alguns segundos. Mas essa foi a primeira e última vez. Obrigado por me fazer sentir como uma pessoa qualquer ao invés do monstro como me pintam…
Quando abro meus olhos novamente, estamos parados na garagem da casa, Heejae, o motorista e um dos mordomos da casa, está de pé do lado da minha janela, dando batidas no vidro. Desencosto a cabeça da porta e ela se abre.
— Desculpe incomodar o seu cochilo, jovem mestre Yong-bin, mas ainda tenho outros compromissos com o jovem mestre Dae-Hyun.
— Sim, sim. Vá ser babá, ou chupa ovo do meu "irmão", ou o que quer que você faça com ele. — Abano minha mãe em sua direção, enquanto entro na casa pela porta dos fundos.
— O que faço com o mestre Dae-Hyun não é muito diferente do que faço com você. — Ele responde, alguns passos atrás de mim.
— Ah, então você o trata como uma criança mimada que precisa ser constantemente vigiada para que não quebre os “brinquedos” novos do papai? Acho que não. — Falo enquanto gesticulo cada vez que um adjetivo deixa meus lábios, e me virando para encarar o mordomo quando digo as últimas palavras, somente para dar mais ênfase nelas, para logo em seguida me virar novamente e continuar o caminho até meu quarto.
Não me entenda mal, Heejae é um membro antigo desta casa. Ele praticamente cresceu conosco enquanto era ensinado por seu pai sobre tudo que se passava aqui dentro. Até que ele se virou bem depois que seu pai finalmente se aposentou e ele virou o administrador chefe dos serviçais da casa. Com esse rosto pálido, olhos escuros e sérios, o tom baixo e distante, e uma personalidade que para mim ainda é um completo mistério, esse cara, que só é três anos mais velho que eu, consegue lidar até com os caras mais problemáticos da gangue.
Até hoje não sei como ele faz isso, mas sempre tive a teoria que ele aprendeu algum tipo de técnica suprema de ameaça para fazer qualquer um estremecer até a alma com somente um sorriso indecifrável seu.
— O senhor vai querer alguma coisa em especial para o almoço ou posso pedir para servirem o menu de hoje? — Ele se recosta no portal do meu quarto, cruzando os braços por cima do terno sob medida preto. De todos desta casa, ele é o único que se sente confortável o suficiente para fazer isso na minha frente quando meu pai não está por perto.
— Wow, hoje eu tenho opção? — Me jogo na minha cama, jogando minha mochila em algum canto e tirando meus coturnos de forma preguiçosa.
— Se continuar a se fazer de espertinho vou fazê-lo comer sopa de couve de Bruxelas com durian de sobremesa. — Quando me levanto num pulo, vejo que sua sobrancelha está levantada e um pequeno sorriso está se formando no canto de seu lábio.
— Rosbife e batata frita, obrigado. — Respondo meio sem graça. Me sentindo um pouco mais eu.
— Com salada de legumes e nem adianta negociar isso. — Ele desencosta do portal, voltando a sua pose ereta quando desaparece de volta ao corredor de onde viemos.
Me deixo cair na cama novamente, deixando meus braços abertos, olhando fixamente para o teto. De volta para o segundo inferno. É o primeiro pensamento que cruza minha mente. Fecho os olhos novamente, respirando fundo, sentindo como se um tijolo estivesse fazendo peso sobre o meu peito. Sob minhas pálpebras vejo imagens, memórias piscando, memórias que ainda me fazem querer revirar essa casa de cima a baixo. Memorias da minha mãe batendo na janela do meu quarto, sorrindo para mim de alguma parte do jardim, me chamando para aproveitar o ar fresco e o sol do fim da tarde. Memórias dela cantarolando algo na cozinha, de como esse som ressoava pelo corredor e, se a casa estivesse quieta o suficiente, eu conseguia escutá-la da minha porta.
Abro os olhos novamente, uma lágrima escorre e consigo senti-la fazer uma trajetória em direção ao meu ouvido, passo as costas da minha mão para secá-la e escuto uma batida no portal do meu quarto.
— Seu prato está pronto. Venha comer. — Sem sequer esperar minha resposta, Heejae me deixa sozinho novamente.
Assim são os meus dias. Vou para a faculdade na parte da manhã, almoço e depois me tranco no quarto com a desculpa de que estou fazendo algum trabalho ou estudando. Meu pai não me perturba, mas nos dias em que está muito bêbado e ele entra a força no meu quarto, jogando meus livros no chão, gritando comigo e me agredindo, eu saio de casa e fico perambulando pelas ruas até madrugada ou até mesmo acabo indo para casa de um amigo. Honestamente, nem sei se a palavra “amigo” seria a melhor para definir o que aquele garoto é na minha vida.
Já são nove da noite quando eu termino de fazer todas as anotações no meu livro do meu curso de gerenciamento, — mais uma decisão que não foi tomada por mim, mas por meu pai — quando escuto o meu celular vibrar. Na tela, uma notificação de mensagem. O nome do remetente: Park Myung Soo. Ele tem algum tipo de sensor?

Merda. Essa era a única vantagem de ter um “amigo” como Park Myung Soo. Ele sabia como era ter um pai mafioso. Assim como eu, ele nasceu e cresceu dentro desse mundo onde não temos opção se não seguir as ordens de nosso pais. Embora para Myung Soo as coisas sejam um pouco mais fáceis. O pai dele, embora trabalhasse com a máfia, não era inteiramente mafioso. Ele sempre fora um tipo de facilitador, por assim dizer. Um homem de negócios que se utiliza da máfia para seus ganhos pessoais, assim como a máfia também se utiliza das conexões dele para fazer o que querem.
Myung Soo, no entanto, por não ter um nome de peso como eu, sempre teve mais liberdade de conhecer e interagir com pessoas, fazer as próprias escolhas e ir onde bem entender, embora ainda estude para ser como o pai. O maldito até pintou o cabelo de um vermelho alaranjado num dia e apareceu completamente inteiro, sem nenhum machucado aparente, no outro. Tem momentos que o invejo por isso.
Corri para pegar uma mochila com muda de roupas e joguei um pouco de dinheiro dentro, joguei meu carregador e uma escova de dentes ali e sai do quarto às pressas. Sinto meu celular vibrar no bolso de trás da minha calça de moletom cinza, mas ignoro enquanto passo pela cozinha, onde Heejae parece estar instruindo uma de suas várias subordinadas com o que fazer com uma das panelas engorduradas do jantar. Ele me vê passando apressado e deixa a moça retomar a atividade, enquanto vai atrás de mim.
— Jovem mestre? Onde está indo? — Ele aperta o passo atrás de mim, tentando segurar meu braço.
— Myung Soo. — Eu digo sem nem olhar para seu rosto. E não escuto mais seus passos atrás de mim.
É nesse momento, enquanto estou colocando meu tênis na entrada da casa, que a porta se abre e Dae-Hyun, com seu sobretudo e calça pretos, e sua blusa cinza, aparece na minha frente. Me julgando com os olhos, enquanto uma sobrancelha se levanta e a boca quase se retorce numa expressão de desaprovação.
— Onde pensa que está indo? — Seus olhos me acompanham quando me levanto.
— Não é da sua conta. — Eu o empurro para o lado e escuto um riso bufado, daqueles que sai pelo nariz. Decido ignora-lo e sair porta a fora.
Depois de passar pelo caminho de pedra e cruzar o portão alto de madeira vermelha, vejo do canto do meu olho faróis virando uma esquina a 3 quarteirões de distância. Sem pensar duas vezes, corro na direção oposta e pego meu celular, onde há vária mensagens do ruivo com somente alguns minutos separando cada mensagem.
09:21 PM
Park Myung Soo
online
De nada por sinal.
09:15
Ei, você realmente não vai me agradecer?
09:16
Kim Yong-bin, é melhor você me agradecer ou vai se ver comigo.
09:18
Por favor, pelo menos me dá um sinal de vida.
Diz que eu não errei o tempo que você tinha até seu pai chegar.
E que você tá bem... por favor...
09:20
Indo prai... obrigado, falso ruivo.
09:21
Outra vantagem de ter Park Myung Soo como amigo? Quando as reuniões eram na casa dele, ele era sempre quem entrava em contato para avisar caso meu pai acabasse alterado no final da noite. Por que, mesmo que eu tenha perdido a única outra pessoa que me acolhia nesses momentos, o falso ruivo acabou por se tornar meu esconderijo, já que ele já tinha visto meu estado depois de eu ter “esbarrado” com meu pai numa noite assim. Desde então ele vem sido um ótimo aliado nesse mundo em que ambos estamos envolvidos de certa forma, seja por sangue ou por dinheiro.
Nesse mundo onde fomos forçados a vestir as máscaras de empreendedores jovens e do primogênito do chefão, onde fomos disciplinados e pisoteados por aqueles que tinham de nos amar e cuidar, onde nos impediram de crescer e florescer como todas as outras flores do jardim, acabamos nos tornando apenas lótus de papel; belas e complexas de aparência, mas mais frágeis e, certamente, falsas comparadas as outras.
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