Lírios e Dragões

1 Lírios para uma poção mágica.


- Louisiana, minha filha, por favor, eu estou velha e perto do fim, me ajude com isso! – disse Macha, uma mulher velha e arcada, com um vestido vermelho e gasto, suas rugas não deixavam escapar o quanto já vivera para contar histórias que não acabariam tão cedo. Desde que foi expulsa da casa dos pais por ver coisas que mais ninguém via; seus futuros, suas almas e tinha o dom de conversar com seres superiores, em alguns poucos casos, por exemplo. A velha parou de praticá-los desde que se casou com seu marido, mas ele e Louisiana sabiam de seus dons. Disseram-lhe que nunca arranjaria um marido, por isso tentou a vida num lugar distante, e por causa seus encantos se casou com Robert, que falecera há mais de catorze anos. Mãe de Lousi e conhecida anciã do reino de Míriank vivem as duas em um chalé na cidade, antes pertencente á Robert, mas agora apenas mãe e filha. Ela estava mexendo um pequeno caldeirão sobre fogo de lenhas recém cortadas, adicionou um pouco de óleo e então mexeu com uma colher de pau, até que o recipiente começou a ferver. A velha bufava e misturava freneticamente.

— Aqui está seu capím-do-sol mãe – ofereceu á sua mãe as pequenas plantinhas douradas como os lisos cabelos loiros, Louisi entrou correndo e jogou-as no caldeirão,

Macha mexeu mais um pouco e colocou as mãos nas costas soltando um bafo de dor, apagou o fogo e sentou-se numa cadeira de madeira, sua filha, que a observara com atenção, pegou um pequeno caneco que estava em cima de um balcão e, com uma colcha, jogou o liquido que emanava fumaça dentro do recipiente e então soprou, logo em seguida dando para sua mãe tomar. A anciã pegou de sua mão e bebeu até o ultimo gole, fechou os olhos e um sorriso se deu em seu rosto satisfeito. A noite de lua cheia era o único dia ao qual poderiam fazer a poção contra suas terríveis dores nas costas, mas isso só iria amenizar por alguns dias ou meses, sua hora estava chegando e sua preocupação por Louisi aumentava.

A jovem tinha os cabelos castanhos jogados na parte direita de seu rosto, apenas a outra ficava a mostra, deixando livre sua pele branca e seu olho castanho. Louisiana tinha colocado a parte de seu cabelo que cobria seu rosto atrás da orelha deixando a mostra suas tatuagens naturais pretas como carvão, que formava desenhos tão perfeitos que não seria julgado como marca de nascença; contornos curvados delicadamente formando as formas de flores e ramos, formas de dragões e onduladas imagens que representavam o fogo que saia pelas suas bocas. Os desenhos eram realmente lindos, cobria perfeitamente apenas aquela metade do rosto, ramos começavam de uma parte de deu nariz e acabavam no queixo, quase não se dava para ver sua cor verdadeira no meio das marcas, mas as imagens tinham seus espaços. Infelizmente, eram muito incomuns, assustadores e inaceitáveis aos olhos de ignorantes, por isso que Macha a fazia esconder os delineados desenhos, não queria que a filha sofresse ainda mais do que poderia a vir enfrentar. Chamou a jovem, e esta parou no caminho e voltou em direção da mãe, ela gesticulou para que se abaixasse para vê-la, Macha olhou todos os desenhos e beijou-a no bochecha do lado direito, então colocou os cabelos de volta a frente e sorriu para a filha. Louisiana tinha apenas dezenove anos e viu pouco da vida, saiu poucas vezes de casa e por momentos curtos, era bela, mas sempre se escondia atrás de um capuz, agora vestia um vestido branco. A garota estava séria e pensava no por que sua mãe fazia aquilo com ela; a escondia tanto. Ela apanhou o pesado caldeirão e jogou toda a poção na grama fora da casa, alguns respingos atingiram a borda de sua veste e seus pés descalços, observou a enorme lua e então voltou para dentro e encontrou sua mãe limpando a mesa.

- Por que a senhora me esconde tanto? – resolveu perguntar, não era a primeira vez, já perguntara outras vezes, mas as respostas que ouvia eram sempre as mesmas: “por que as pessoas não admitem que você seja tão linda do jeito que é, elas te menosprezarão” mas isso era pouco, queria saber ainda mais, já era uma mulher e não teve a oportunidade de conversar com outras pessoas, apenas algumas vezes, quase nunca. Macha parou de limpar, ainda virada para a filha, em silencio. – Por favor, mãe, não sou mais nenhuma criança, mereço que me conte o porquê de me esconder aqui, e por qual razão sou assim.

- Você é linda e perfeita Louisiana – respondeu sua mãe ainda virada de costas – Só ainda não esta pronta para sair e conhecer o mundo a fora, tu és diferente, e isso chama atenção das pessoas, quero que crie ainda mais idade.

- Mas eu já tenho dezenove anos, sei muito bem como sou, apenas queria sair mais além. Conheço sua historia e como foi... rejeitada pelos seus pais por ser o que consideravam diferente. Eu sei me cuidar, farei o possível para que não vejam o outro lado, quero sair, nem que seja uma vez – chegou perto da mãe e esta se virou para ela. – Olhe para mim, eu sou perfeitamente normal, é assim que irão me ver; com os cabelos jogados no rosto, apenas.

- Não é tão simples assim – respondeu a mãe tentando convencê-la, e dando um sorriso que deixa a mostra suas marcas envoltas dos olhos – não é só sua aparência, é você! Sua aura, sua marcante presença, és mística como eu minha filha.

- Então está escondendo algo de mim sobre mim mesma?

- Não seja impetuosa – respondeu Macha, e logo se deu por si que realmente havia algo que não contara a sua filha, deu uma pausa e se arrependeu do que disse, pegou as mãos de Louisi e mostrou as suas, que estavam calejadas pela idade. – Veja, estas mãos já fizeram muita coisa para que eu pudesse chegar aqui, e inclusive ajudar minha família, eu posso resolver seus dois tormentos de uma só vez: poderá ir ate a cidade amanhã, sozinha, e traga-me lírios, quantos puder. Uma velha amiga minha vende, os troque por este lúdico colar, já está velho – tirou um colar com um dente de gato preso nele e entregou para a filha – troque por quantas destas flores puder, então me traga que lhe farei uma poção com elas. E nisto você ira dormir e ver, como um sonho, tudo que um dia te escondi – a velha lhe deu um longo sorriso.

- Então quer dizer que esconde informações de mim, era de suspeitar – respondeu a jovem com um sorriso no rosto, claro que estava curiosa e um pouco magoada por sua mãe ter lhe escondido algo, mas ela finalmente iria sair e conhecer tudo que jamais vira.

- Minha amada filha, eu vou dormir agora, já passa da meia noite – então ela se retirou em direção de seu aposento.

Louisiana preparou um banho para si desde que foi buscar água no poço à tarde, ela estava fria, mas era assim que desejava. Tirou o vestido e deixou este cair no chão, ficando nua como a noite. Colocou o pé direito na água gelada e por fim entrou na banheira e mergulhou, afundou por completo por alguns instantes e fechou os olhos, imaginando como seria no dia de amanhã, estaria livre. Ergueu-se e pegou a toalha que se pendurava na parede de madeira, se secou, colocando um novo vestido ainda mais leve, quase transparente. Saiu do banheiro e deitou na sua cama. Louisi sonhou com lírios, com vastos campos destas flores.