Lírios
3 Capítulo 3
Não sei se foi uma boa idéia abandoná-la sem nenhum tipo de aviso, mas meu faro detectou um grupo grande de humanas se banhando numa cachoeira há poucos quilômetros e, como eu sabia que a vila que eu havia atacado a 7 anos ainda estava sendo habitada, resolvi deixar a Rin ali.
A humana era previsível, começou a me seguir, ainda chorando, bosque a dentro, onde eu a guiei até as moças da aldeia. Sumi da vista da Rin assim que ela tropeçou numa raiz elevada — assisti-la deslizar entre as pedras que acompanhavam as margens e cair no rio foi vergonhoso — e, sobre a copa de uma árvore, observei ela sendo acolhida pelas outras humanas. As mulheres eram deselegantes perto da Rin, não possuíam um rosto tão belo, nem traços tão leves. Trajavam quimonos simples e cor-de-areia, verde desbotado ou azul claro, todas de cabelos negros e olhos escuros. Rin desfez o penteado, já desarrumado pela água e, depois de tocar os lábios suavemente na flor, a deixou flutuando no rio. Esperei até que o grupo de humanas saísse de vista, levando minha adorada criança junto, e desci da árvore, pegando o lírio das águas e, assim como Rin, beijando-o levemente e o deixando no rio, como uma despedida. Ou o que ela tornou uma despedida, não iria abandoná-la sem ter certeza de que está segura. Decidi acompanha-la de longe por 3 dias, protegê-la se necessário, ou até ter certeza de que ela ficaria bem sem mim. Fui observando, pelas árvores, o grupo conversando com Rin — ou tentando, pois a jovem estava muda, respondendo apenas \"sim\" e \"não\" com a cabeça. Achei que era timidez, afinal, sempre esteve comigo, então, não dei muita importância para esse fato. O vilarejo era a alguns metros dali, então não foi uma conversa muito duradora. O lugar não havia mudado em nada: 19 casas de madeira formando uma meia-lua, um pequeno templo ao centro com um poço d\'água aos fundos e plantações em volta. Rin foi recebida com a curiosidade dos habitantes, alguns cochichos e muitos sorrisos. Uma senhora, que a acompanhava desde a cachoeira, estava explicando algo como um youkai que destruíra completamente a vila há alguns anos atrás. Foi ai que me surpreendi: Rin começou a rir e, depois de vários sussurros dos moradores — orgulhosos por reconstruírem o vilarejo tão rápido — começou a chorar, sem parar as risadas. Pensei que ela tinha enlouquecido, até que se encolheu, tremendo e soluçando \"senhor Sesshoumaru\". Eu não havia a deixado nem por uma hora, mas já estava pronto pra admitir meu erro, porém, quando eu ia buscá-la, um jovem da vila a abraçou. — Você está bem, senhorita? — Ele realmente estava preocupado. Rin apenas negou com a cabeça e, desabando em lágrimas, abraçou o rapaz. Resolvi esperar um pouco mais, o jovem não parecia ter más intenções — apesar do meu imenso desejo de matá-lo quando ele levantou o rosto da Rin. — Meu nome é Youta... E o seu? — Sorriu, afinando os olhos. A jovem corou por alguns segundos, mas não respondeu, nem reagiu. Youta não pareceu se importar com isso, continuou mostrando aquele sorriso bobo. O jovem não era feio, possuía cabelos repicados, olhos verdes, traços finos e, apesar daquela roupa padronizada da vila, uma certa elegância. — Encontramos ela no rio, com um lírio na cabeça — Interrompeu a senhora. — Estava perdida, senhorita? — Youta voltou à Rin, que apenas negou com a cabeça. — Disse que esta dama estava com um lírio? Por que não a chamamos de Yuri, senhora Airi? Droga. Eu estava tão distraído com a Rin que nem notei o monge, Miroku, se aproximando da vila. Ele olhou para Rin, ainda abraçada ao garoto, por alguns instantes e, com um sorriso gentil, pediu a Airi que lhe providenciasse roupas, comida e abrigo. A senhora não hesitou em seguir as ordens do monge, que foi recebido como um filho pródigo. Airi voltou com uma vasilha de frutas e pediu para Rin acompanha-la até uma das casas, onde ela saiu com um quimono rosa claro e comendo uma maçã. Bom, por esta noite, Rin estava segura.
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