Línea - Os 10 Anciões

6 A filha da bruxa


Notas iniciais
Comentem. Preciso de feedback (:

Dragan enfitou aquele rosto pela primeira vez de uma maneira atenciosa. Percebeu que aquele olhar era o mesmo que o salvara tempos atrás. Um olhar tão profundo e tão intenso que o fez entrar em uma transe momentânea enquanto tentava organizar os pensamentos inquietos em sua mente. Não possuía duvida alguma. Aqueles olhos castanhos e aquele sorriso simpático ainda perturbavam sua consciência.

— Não pode ser... Então quer dizer que você é filha de...

— Sim, Blair é minha mãe. Pelo visto ela tem alguma relação com o seu passado. — Completou a jovem moça.

— Sua mãe salvou minha vida quando eu era muito jovem. Se estou vivo é graças a gratidão dela. Apesar de ter pegado algo em troca. — Disse Dragan.

— Ela é uma pessoa muito sábia e sempre me contava histórias sobre os anciões. Nunca pensei que chegaria a conhecer um. — Afirmou a jovem olhando para Heskan.

— Entendo. Também nunca pensei que teria que me encontrar novamente com os outros nove. — Assentiu Heskan.

— Como você se chama senhorita? — Perguntou Dragan.

— Me chamo Adelheid, mas pode me chamar de Adel. Prazer em conhece-lo. — Respondeu a jovem moça.

— Porem, o que uma garotinha estava pensando ao achar que poderia simplesmente confrontar a guarda imperial sozinha? — Perguntou Heskan num tom sarcástico.

A jovem olhou irritada para o Dragão e com um olhar esnobe estalou os dedos, fazendo com que a vassoura aparecesse ao seu lado flutuando num piscar de olhos. Algo que instigou a curiosidade de todos.

— Como é possível uma vassoura voar? — Indagou Alice perplexa.

— Bem, é um pouco complicado mas acho que consigo explicar. — Disse Adel.

— Quem fabricou essa vassoura foi minha mãe. Ela encontrou uma árvore derrubada por um urso que estava caçando algo que se refugiava na copa. Reparou que a madeira possuía propriedades especiais não naturais. Era uma madeira muito dura e resistente, chamada mogno e quando minha mãe se aproximou ela pode sentir seus pelos se eriçarem. Percebeu que a árvore tinha propriedade eletromagnéticas. — Explicou Adel.

— Nunca encontrei uma árvore com tal energia em minha vida — Disse Heskan.

— É porque não existe tal árvore. O fato do mogno ser especial é que por possuir raízes muito profundas, elas acabaram encontrando uma reserva intacta de Magnetita. Esta minério e a pedra-ímã mais magnética de todos os minerais da Terra. Cristais de magnetita são encontrados em certos tipos de bactérias , em cérebros de abelhas, cupins, peixes, ursos, alguns pássaros (por exemplo, em pombos) e em seres humanos. Estes cristais são responsáveis pelo processo de magneto recepção (capacidade de perceber a polaridade ou a inclinação do campo magnético da Terra) e na navegação animal por orientação magnética. — Completou Adel.

— Uau. Continue. — Disse Alice interessada no assunto.

— Ela entalhou o pedaço de madeira cuidadosamente, o transformando em uma espécie de imã. Os ímãs atraem metais específicos e têm pólos norte e sul. Os pólos opostos se atraem, ao mesmo tempo que os pólos semelhantes se repelem. Os campos magnéticos e elétricos estão relacionados, e o magnetismo, junto com a gravidade e forças atômicas , é uma das quatro forças fundamentais no universo. — Elucidou Adel.

— Percebo que o exímio conhecimento em alquimia que sua mãe possui acabou sendo ensinado para você. — Disse Heskan surpreso.

— Por fim ela entalhou um buraco na base do cabo e acoplou um pedaço bruto de magnetita, cobrindo a base da vassoura utilizando fios de cobre. Em seguida banhou a vassoura em Mercúrio e polarizou meu corpo. Assim a vassoura criaria um campo eletromagnético repelindo toda a matéria polarizada eletronegativamente presente ao redor (minerais, microrganismos e et cetera presentes no ar )

— Cacete, gostaria de ter estes brinquedinhos voadores. — Disse Dragan rindo.

Zangado, Heskan deu um tapa na cabeça de Dragan, fazendo Alice cair na gargalhada.

— Calma, eu só estava brincando. — Disse Dragan rindo aos prantos.

O dragão suspirou fumaça pelas narina observando Dragan com a cabeça erguida.

— Entendo que possuí um artefato muito poderoso em suas mãos, porém, o que te levou a ir de encontro com a guarda imperial? — Perguntou Heskan com um olhar sério.

— Minha mãe... Ela será queimada viva em uma semana... — Respondeu Adel com os olhos transbordando lágrimas.

— O que !?! Blair foi sentenciada à morte na fogueira ? — Perguntou Dragan arregalando os olhos.

— Ela está tão fraca. Amarraram uma bola de ferro em sua perna e sua pele está cheia de hematomas. Tem se alimentado de restos de comida dos guardas e bebido água suja. Não consigo pensar nisso. — Disse Adel passando a mão no rosto.

— Merda! Temos que ir lá salva-la. Blair não pode ser queimada viva, isso iria cremar seu coração, sua única fraqueza. — Gritou Dragan.

— Não podemos esquecer de Luna, o que iremos fazer agora? — Disse Alice.

— Fiquem calmos! Adel, você que já foi até o forte da guarda imperial, poderia nos dizer como funciona o sistema de defesa do forte? — Perguntou Heskan.

— O forte tem um formato quadrado e possui somente a entrada frontal. Possui também quatro torres de observação contendo arqueiros, localizadas no quatro cantos. Conta com um porão onde ficam as celas com seus prisioneiros. Uma torre principal, um estabulo, dois quartéis e é cercado por rochas em ambos os lados. Lanceiros sobrevoam a região montados em grifos mas os mesmos foram abatidos por Heskan. — Explicou Adel ao mesmo tempo em que fazia um desenho no chão com um graveto.

— Se formos lutar com todos os guardas ao mesmo tempo provavelmente alguém irá sair ferido, sem falar nos reforços que podem ser requisitados via pombo-mensageiro. — Disse Dragan.

— Temos que pensar em uma estratégia. Possuímos a vantagem de Heskan e a vassoura que conseguem voar. — Ressaltou Alice.

— Acho que tenho um plano. — Disse Adel agitada.

— Dragan voa nas costas de Heskan e eu carrego Alice em minha vassoura. Ao chegar no local, Heskan causa desordem ateando fogo no quartel e dando conta dos arqueiros. Dragan e eu entramos pela frente atacando os guarda enquanto Alice passa cautelosamente despercebida pelos guardas até o porão onde minha mãe e os outros prisioneiros se encontram. Alice liberta os prisioneiros que irão nos ajudar com os guardas e damos o fora com Blair antes da chegada dos reforços. — Explicou Adel.

— Brilhante! — Exclamou Heskan.

— Alice, você terá que ser sangue frio. Esta é uma missão de vida ou morte e o perigo é eminente. Pegue isso. — Disse Dragan retirando de sua mochila algo que ninguém nunca tinha visto.

— Estas são armas magníficas. Prenda elas na sua cintura com este cinto de couro. — Completou Dragan entregando a Alice as duas lâminas de aparência exótica.

— O que é isso ? — Perguntou Alice perplexa. Nunca teria manuseado uma arma feita para matar pessoas em sua vida.

— Isto é um katar. O katar é constituído de uma lamina triangular longa e fina. Sua engenharia única consiste em duas barras paralelas. Alguns possuem barras longas que se estendem por todo o comprimento do antebraço do utilizador. — Mostrou Dragan

— Mas eu não tenho ideia de como se usa essa arma de assassinos. — Disse Alice confusa.

— A lâmina do katar está alinhada com o braço de quem o utiliza, o ataque básico é um impulso direto idêntico a um soco, embora possa também ser mais utilizado para cortar. Esta tecnologia permite que o portador consiga colocar todo o seu peso em um impulso. Os lados da lamina podem ser utilizada para bloquear, mas possuem pouca capacidade de defesa. Por causa disto, o portador deve ser ágil o suficiente para esquivar dos ataques adversários e contra atacar rapidamente, algo possível por causa do tamanho leve e pequeno da arma. Combinando todas essas funções com o seu peso e tamanho, isto se torna algo extremamente letal. — Explicou Dragan.

— Mas eu não quero ter que usar isso em alguém... — Disse Alice cabisbaixa.

— Não se preocupe. Só é preciso estar preparado para o pior. — Completou Adel.

— Já estava me esquecendo! Que baita fome, a caça nos espera. — Disse Heskan olhando para o veado morto no chão.

— Agora que você disse me deu uma baita fome! Vamos mandar ver! — Disse Dragan faminto.

— Alice e Blair, preparem os condimentos e a brasa. Dragan, venha comigo, vou te ensinar a limpar um veado. — Ordenou Heskan.

Ajeitando o animal com a barriga virada para cima e as patas abertas, Heskan explicou passo a passo.

— Vire o animal de costas e abra um corte. Comece na base da cauda e corte até o meio da barriga um pouco antes do queixo. Use a mão livre pra guiar a faca, no caso minhas garras para que os órgãos não saltem para fora acidentalmente. — Mostrou Heskan.

— Corte a caixa torácica. Isto vai fazer com que a remoção do coração e dos pulmões seja fácil. Você vai precisar remover a traqueia rapidamente. Se não o fizer, a carne será manchada e estragará. — Demonstrou o dragão cortando as vísceras do veado como se fossem manteiga utilizando suas afiadas garras.

— Em seguida, corte o ao redor do ânus do animal e o empurre para dentro da carcaça. Isso irá permitir que você remova o intestino sem que qualquer coisa derrame.

— Agora corte qualquer membrana que conecta os órgãos no interior da carcaça e remova os órgãos. Retire a pele, corte a cabeça e Voilá. Limpeza de caça realizada com sucesso!— Disse Heskan sorridente.

Não tinha percebido mas todos estavam vomitando. As tripas exalavam um aroma muito forte para alguém que nunca tinha aberto um animal de grande porte antes. Algo como diarréia molhada e cheiro de peixe era o que se podia descrever.

Heskan incinerou a carcaça com suas labaredas. O cheiro se dissipou e o lugar tornou a ser agradável novamente.

— Agora é com vocês. Irei tirar um cochilo, me acordem para o almoço.

Dito e feito Alice e Adelheid cortaram o cervo com muito carinho. Temperaram a carne com noz moscada e pimenta. Colocaram um tacho com azeite na brasa e colocaram a carne. Enquanto a carne dourava, adicionaram as castanhas e os cogumelos, sempre mexendo. Alice teve a idéia de regar a carne com vinho branco, algo que Dragan contestou já que o vinho seria seu happy hour depois das batalhas. Enquanto a carne cozinhava no vinho, assou umas batatas e esperou.

O jantar estava servido.

— Acorde Heskan! — Gritou Alice.

— Não, só mais um beijinho, por favor não vai embora.

— Com o que você está sonhando seu ancião safado de uma figa !?! — Gritou Alice fazendo todos gargalharem.

Heskan da um pulo e bate a cabeça no teto da caverna novamente. Seu rosto se assemelhava com uma pimenta de tão vermelho e parecia um velho ranzinza resmusgando baixinho.

— É, nem mesmo o mais durão dos dragões escapa das garras do amor, não é mesmo? — Disse Adelheid soluçando de tanto rir.

— Calem a boca, vamos comer. — Disse Heskan envergonhado.

Apesar da brincadeira, no fundo todos se sentiram pesarosos pois sabiam que Heskan era o último dos dragões. Ele nunca falava sobre seus problemas e não negava o ombro quando alguém precisasse de apoio. Definitivamente, seu coração já suportou mais danos que suas duras escamas.

Heskan ficou com metade do cervo e a outra metade foi dividia entre os três. Ainda assim sobrou uma porção de carne que Alice colocou numa corda esticada no sol para secar.

— O almoço está delicioso parabéns meninas! — Disserem Heskan e Dragan em dueto.

— Depois disso irei para casa. Prepararei o necessário para a invasão e repousarei. Invadiremos o forte na madrugada quando eles estarão mais vulneráveis e com a visão limitada. — Disse Adel.

— Entendo, afinarei as laminas e organizarei o acampamento. Discutirei a estratégia com Heskan e irei ensinar uns truques para Alice. Tudo irá acontecer repentinamente e cometer erros não é uma opção. Temos que ser rápidos e eficazes. Certo Alice? — Disse Dragan num tom frio.

— Sim senhor, darei o melhor de mim! — Respondeu Alice.

Todos terminaram o almoço e Adelheid preparou suas coisas. Estalou os dedos e num passe de mágica a vassoura estava ao seu lado. Subiu nela e se despediu do grupo.

— Hoje a meia noite estarei aqui na caverna. Estejam preparados. Até logo e que tudo ocorra como o planejado.

A filha da bruxa decolou levantando poeira e desapareceu no horizonte.