Lápide [Poemas]
20 A Prateleira do Canto
Notas iniciais
Na prateleira da loja há bonecos de pano empoeirados.
No canto escuro deitam-se escorridos em fileiras tortas.
Todos os dias, certa hora da tarde, o penoso sol lhes presenteia com alguns filetes de cor laranja,
mas eles não se aquecem, sentem frio.
O frio não é a ausência do calor.
Outros brinquedos gracejam com suas canções diversas.
Botões em suas costas os fazem cantar,
mas, ainda que ninguém ouça,
também há canção ressonando no canto esquecido da loja.
Visitantes desdenham: "Que se limpe o pó, que se remendem, que se coloram em tinta guaxe e se pintem algum sorriso."
Mas como o fariam? Sem espuma que os preencha.
O corpo broxado tem as vísceras de uma meia velha.
Não há brilho em seus olhos, feitos de botões opacos.
São chatos e silenciosos.
Seres de pele não entendem seres de pano.
Imperfeitos até na postura, despencam da madeira suspensa.
Não sentem medo da queda,
não sentem a dor do chão,
pois possuem costuras no lugar dos nervos,
insetos no lugar da alma.
O vendedor os ameaçou ao lixo.
"Não quero morrer, não quero viver. A anestesia me impede de querer", disse um deles.
"Não me culpe, minha substância é arte da tecelã e a escrita silenciosa é que é minha graça"
O vendedor notou um pedaço de papel em suas mãos.
Chamou de A Prateleira do Canto.
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