Lágrimas de Sangue
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Lágrimas de Sangue
Passava da meia noite quando acordei. Não possuía um relógio em meu pulso, mas eu sabia. Não sei como, mas sabia. Por um momento, tonteei. Não tinha absoluta certeza de onde estava, ou de quem era.
Sentei-me na grama, para tentar me situar. A única lembrança que tinha era de ter sido carregada por um estranho, o qual tinha olhos vermelhos como sangue. Olhei para os lados, e vi um daqueles relógios de rua. Confirmei meus pensamentos, era meia noite e meia.
Infelizmente, vi também a data. Era 25 de julho. Fazia três dias que estava ali, jogada. Que tinha sido levada.
Suspirei. Tinha vontade de chorar. Continuei a andar pelas ruas, até que parei na frente de um espelho. Estava meio quebrado, junto a uma lata de lixo. Quando vi meu reflexo nele, não acreditei que me via.
Não podia ser. Não eu.
Justo eu, que tenho o nome da deusa da beleza, Aphrodite, me via em um espelho com roupas rasgadas. Picotadas, pelos dentes da coisa que me atacou.Imundas, pelo meu próprio sangue.
Foi ai que eu percebi. Minha garganta queimava. Ardia. Como se tivessem me feito engolir fogo. Achei uma loja, e comprei água, com o dinheiro que achei no caminho.
Mesmo bebendo todo o conteúdo da garrafa, o ardor não passou. Voltei a caminhar, e então senti o cheiro mais delicioso do universo. Não era de nenhuma comida que conhecia.
Continuei seguindo meu olfato, e ele me levou até uma rua escura. Surpreendentemente, consegui enxergar, mesmo sem luz. Aproximei-me de uma pessoa, sentada encostada em um muro. Chacoalhei-o, mas ele apenas caiu para o lado.
Reparei que o cheiro delicioso vinha dele, e que estava morto. Percebi um corte no pescoço, e me aproximei para ver melhor. Sangue escorria do machucado. Passei os dedos, como que fascinada pelo líquido escarlate, e levei-os a boca, lambendo-os.
Quando percebi o que fazia, levantei-me, assustada. Demorei a reparar que o cheiro que sentia era de sangue, e que graças ao pouco que bebi, o ardor tinha passado levemente.
Sorri assustada, e voltei a prestar atenção no homem caído. Fui até ele, e bebi o resto do sangue que ainda havia em seu corpo, e me senti melhor. Sorri novamente. Mas, dessa vez, meu sorriso era tenebroso.
Caminhei pelas ruas vazias até chegar a minha antiga casa. Olhei pela janela. Minha mãe e meu pai estavam ali. Ah, como eu os detestava. Só me tratavam bem quando lhes interessava. Agora eles estavam ferrados.
Entrei silenciosamente, fui até a cozinha, e desliguei a força da casa. Depois, corri para a sala onde eles estavam, peguei uma corda que estava numa das gavetas e amarrei meu pai. Nisso, minha mãe pegara uma lanterna, e a ligou, apontando-a para mim.
-- Agora é a hora de minha vingança!
Disse-lhes, e voei no pescoço de minha mãe, mordendo-o e sugando o sangue, até o corpo dela secar por completo, e então a larguei. Caminhei até meu pai, que havia assistido tudo, e debrucei-me sobre ele. Repeti o ato.
Ao perceber que aquilo me satisfizera, sai da casa. Segui novamente para a noite, mas não antes de pegar o melhor carro da família, e as chaves da casa de campo.
Dirigi até lá, e cheguei antes do amanhecer. Era um local afastado, ninguém nunca viria me perturbar. E sempre teria alguém por perto, de quem eu pudesse me alimentar.
Alimentar-me.
Entrei em meu quarto pensando nisso. Fui até a varanda e comecei a pensar no que havia me tornado. Não queria admitir.
Eu virara uma vampira! Um monstro sedento por sangue!
Tirando a parte tenebrosa da história, eu não me importava. Só de imaginar aquele liquido escarlate escorrendo em minhas mãos, e me ver bebendo-o, eu já ficava fascinada!
Mas eu ainda era um monstro.
Senti lágrimas escorrendo pelo meu rosto. Passei a mão para secá-las e vi que elas não eram da cor normal. Eram escarlates.
Eram lágrimas de sangue.
Fale com o autor