Lágrimas de Pitanga
5 Pitangas Maduras
Jun/1996
—Quando foi que tudo isso começou? –Perguntou uma mulher portando um jaleco branco-.
—Ele andava estranho há algum tempo, tinha alguns surtos, delirava...
Respondeu outra mulher cuja figura não foi identificada.
—Tem um corte no pulso esquerdo dele que não é recente, essa não é a primeira vez que ele se corta
—Como assim? Tem corte de mais tempo?
A médica balançou a cabeça.
—Aparentemente ele se cortava no local do relógio pra poder encobrir.
Ela começou a chorar
—Como não pude notar? –Chorou-.
—Não é culpa sua, mãe. Olha, seu filho está sedado agora, mas pode entrar para ficar com ele, chame a enfermeira para o que precisar.
A médica andou até o fim do corredor do hospital e entrou no quarto de outro paciente. Este era um hospital geral de urgência.
Fev/1997
—Lucas, o almoço está na mesa
Disse a mãe de Lucas abrindo a porta do quarto dele, enquanto ele jogava videogame sentado no chão em frente a TV. O quarto estava escuro e era iluminado apenas pela televisão.
—Vou esperar o Ale chegar para almoçar junto com ele, mãe.
—Filho...
A mãe do garoto estava prestes a comentou algo, mas hesitou, retirou-se do local e se distanciou para chorar longe.
Abril 2004
—Você é da capital de São Paulo e uma parte dessas memórias se passou na praia... O que ela simboliza para você?
Aconchegado em uma poltrona com inclinação, Lucas olhava para o teto. Nesse momento ele estava sendo atendido por uma terapeuta contando vários acontecidos ocorridos na vida dele.
—Nós adorávamos a praia, apenas isso.
—E por que um congresso de “Desenvolvimento Sustentável”?
—Nós queríamos salvar o mundo –Sentiu-se nostálgico-.
—E quando foi que você recuperou a lucidez?
—Foi nos meus 18 anos... Era quase natal como agora.
Flashback
—A mãe do Alexandre contou o seu caso e me pediu para ajuda-lo.
No crachá da mulher que falava com Lucas, estava escrito: “Dra Linda Borges”. Sentada em uma cadeira e com uma ficha nas mãos, ela posicionou na mesa e arrastou-a até o garoto.
—Como você pode ver, Alexandre tinha um quadro depressivo grave chamado depressão recorrente...
Lucas tentou não dar atenção a ficha, mas a medida que a Dra conversava, ele rendeu seu olhar e passou a lê-la a medida que a médica passava as páginas.
—Não foi culpa sua... Essa fatalidade poderia ter ocorrido a qualquer momento, se existe um culpado aqui, essa culpada sou eu –As lágrimas da médica começaram a cair na mesa –Eu não pude salvá-lo –Tentou se conter-.
Lucas também começou a chorar e de acordo com a mãe dele, foi a primeira vez que ele caiu em prantos e aceitou a morte do amigo do amigo Ale.
Fim do Flashback
—Eu sei que a culpa não foi minha, mas eu ainda penso que poderia ter salvado ele –As lágrimas caíam e a voz tornava-se trêmula –Ele adorava escrever, ele escrevia tão bem... No fundo eu sempre soube que ele era gay, quando ele me contou não era novidade, mas por medo do que as pessoas iriam pensar, comecei a ignorá-lo, fui mau com ele...
A psicóloga lhe deu uma caixa de lenço para ele enxugar as lágrimas.
—Ele era seu amigo, é normal se sentir impotente diante disso. Você sabe nadar, não sabe?
—Sim, mas por que a pergunta? –Mostrava-se confuso-.
—Saber nadar não garante que você salvará uma vítima de afogamento, é preciso um salva-vidas profissional. E nesse contexto, a médica do seu amigo foi uma salva-vidas que tentou de tudo para salvá-lo, mas infelizmente, mesmo que tenhamos formação para isso, não podemos salvar a todos. Se você não está preparado profissionalmente para salvar alguém que está se afogando, você pode acabar se afogando também.
Lucas enxugava as lágrimas enquanto prestava atenção
—E o que eu faço daqui pra frente?
—Viva... Sendo feliz e sendo bom para o próximo.
—Bom para o próximo... –Repetiu para si mesmo-.
A psicóloga se levantou
—Te vejo ano que vem?
—Sim –Lucas se levantou, dando um leve sorriso de alívio-.
—Feliz 2005, Lucas.
—Feliz 2005, Doutora.
Momento Atual
—As memórias do congresso, da praia, dos nossos filhos, foram frutos do meu imaginário. Eu também me cortava, tentava reunir coragem para me matar e me achava um fraco por não conseguir me cortar de forma profunda... –Deu uma pausa -Minha mãe não notava nada, pois encobria os cortes com relógios e camisas de manga comprida. Até que chegou um determinado momento que finalmente consegui fazer um corte profundo, saiu tanto sangue que comecei a desesperar e fui correndo procurar minha mãe. Percebi que poderia morrer de verdade naquele momento e acabei andando para trás. Quando fui parar no hospital, os médicos me sedaram e me deram soro, felizmente só precisei repor volume.
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Na noite de lançamento do seu livro autobiográfico, Lucas dava um depoimento da sua trajetória em uma grande livraria de São Paulo, ele contou toda a sua história envolvendo o trauma pela morte do amigo Ale, incluindo seus delírios imaginários de um futuro que nunca existiu.
Motivado pelo desejo de ajudar pais e crianças, Lucas havia se tornado um renomado psiquiatra especializado em transtornos da infância.
—Doutor...
—Pode me chamar de Lucas –Interrompeu e sorriu com simpatia-.
—Por que o título se chama “Lágrimas de Pitanga”? Essas poesias sobre fruta foi o Alexandre que escreveu?
—“Lágrimas de Pitanga” é um título abstrato em homenagem as poesias do Alexandre.
Com a pergunta Lucas lembrou de uma breve cena da sua adolescência, final da sétima série.
Flashback
—Se eu tivesse estudado mais... –Abaixou chorando pela nota baixa na matéria de redação-.
—Não chore as pitangas, Lucas –Ale abaixou-se também, apoiando sua mão no ombro dele-.
—Hã? Que negócio de pitanga é esse? –Olhou para ele-.
—É algo que minha vó sempre dizia.
—Eu realmente imaginei pitangas saindo dos olhos agora.
Ale começou a rir
—Sério? Foi por isso que você foi mal em redação, não tem criatividade nenhuma.
Lucas começou a rir junto
—Te amo, Lucas –Ale interrompeu a gargalhada-.
—Como assim? –Lucas olhou-o confuso-.
—Sei lá, só estava pensando que não consigo viver sem você, eu sou muito feliz por ser seu amigo –Olhou-o com um sorriso largo-.
—Eu, hein, você é muito esquisito às vezes.
Ale riu
—Eu sei, sou bem malucão mesmo.
Fim do flashback
As pessoas aplaudiram de pé e após algum tempo, Lucas já estava autografando o último livro. Todos foram embora e permaneceu apenas uma garota. Ela era loira, tinha olhos claros e aparentava estar na adolescência. O nome dela era Alessandra.
—Pai, você está bem? –A garota se aproximou-.
—To bem filha.
—Sabe, pai... Sinto como se conhecesse o Ale, engraçado, ne? E mesmo sem nunca ter tido contato com ele, eu imagino tanto como seria se ele estivesse vivo e como eu iria gostar dele, eu acabei desenvolvendo um sentimento de carinho por alguém que nunca conheci.
Algumas lágrimas caíram e o pai abraçou-a sorrindo agradecido pelo carinho da filha
—Te amo, filha.
—Também te amo, pai.
—Vamos lá voltar pra sua mãe na maternidade, por mim eu adiaria o lançamento desse livro, mas ela insistiu tanto.
—Eu concordo com ela, ta pai? O importante é que você viu o Miguel nascer.
Os dois conversavam enquanto caminhavam.
Maio/1996
—Ale, abre a porta! Eu sei que você ta ai! –Lucas batia na porta e não tinha resposta –Vamos, cara, abre a porta, eu sei que eu errei e quero te pedir desculpa.
Lucas sentou encostando-se na porta e continuou a conversar mesmo sem a resposta do amigo.
—Eu sei que eu não tenho sido um bom amigo, acabei deixando escapar o seu segredo, deixei aqueles caras te humilhar, não te defendi, mas a partir de agora, eu mesmo vou quebrar a cara daqueles idiotas se voltarem a mexer com você! –Ainda sim não havia resposta –Ah já chega, to entrando, espero que não esteja pelado!
Lucas girou a maçaneta bem devagar e assim que entrou, teve um choque. Seu amigo estava caído no chão e em volta dele havia sangue suficiente para encher uma garrafa de 2 litros, era como se todo o seu sangue tivesse extravasado do seu corpo.
—Socorro!
Gritou enquanto corria até Ale, ele não se importou em pisar no sangue dele e nem em sujar sua calça ao ajoelhar-se. Segurando o amigo nos braços, percebeu que ele estava extremamente pálido, então aproximou seu rosto no nariz dele pra ver se ele respirava, mas não sentiu nada, com todo aquele sangue já imaginava que não, porém tinha esperança. Ele o abraçou forte e começou a chorar. Nesse momento a mãe de Ale chegou e ficou tão nervosa que começou a vomitar, nem se aproximou dos garotos, foi direto no telefone e quando voltou, viu Lucas deitado na poça de sangue ao lado do amigo segurando a mão dele.
—Também te amo, Ale –O garoto olhava para o teto com uma expressão bem apática-.
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“No fim das contas reeduquei meu paladar e pude sentir o verdadeiro doce das frutas novamente”
LÁGRIMAS DE PITANGA
Autor: Lucas Alves
Lançamento – 20 de fevereiro de 2026
Dedicatória:
Dedico esse livro ao meu eterno amigo Alexandre Bueno.
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