Lágrimas de Neith

1 Capítulo único


O gato miou alto, quebrando a monotonia. A casa passava a maior parte do tempo em silêncio, mas quando o animal a chamava assim, Neith sabia que era importante.

Ela largou o pequeno vaso que estava decorando, sem se importar se a massa endureceria e a peça ficaria incompleta. Buscou pela pequena casa de madeira uma espécie de cajado, que era essencial para poder sair de casa. Cega, precisava confiar no que pudesse para se arriscar pelas ruas.

O gato rodeava as pernas da jovem, como para apressá-la. Neith nem ligava de ter que enfrentar os desagradáveis caminhos até longe da aldeia, em que pelo menos cinco pessoas esbarravam nela toda vez. O destino era incentivo suficiente.

Ignorando as vozes de pessoas por todo lado, Neith focou apenas nos miados do seu guia, que ia um pouco à frente. O felino regulava seu ritmo de acordo com os progressos da humana. Juntos, após uma extensa e vagarosa caminhada, estavam longe das casas localizadas na faixa mais próxima ao Nilo. Havia menos movimento, enfim.

O vento agitava a túnica simples da garota. Era de tecido claro, contrastando com sua pele escura. Era o que sempre usava. Não tinha dinheiro para gastar no que cumpria sua função em uma forma mais básica. Nem precisava de nada mais elaborado, afinal, não era nenhuma nobre. Era apenas a filha de um pescador. Uma coitada, aos olhos de todos que fofocavam. "Que utilidade tem uma menina que nem enxerga?", falavam. "Ela mal trabalha."

Neith estaria mentindo se dissesse que as palavras dos outros não a machucavam. Mas ainda pior do que isso era que ela pensava o mesmo. Anos depois de perder a visão, ainda lutava para encontrar seu propósito. Não se importava em agradar outros — esses nunca estariam satisfeitos. O que ela mais queria era encontrar seu valor.

Ela perdeu a visão anos atrás, quando ainda era praticamente uma criança. Foi em um acidente envolvendo uma tempestade de areia. A mãe dela tinha levado-a para passear em uma região um tanto afastada de onde ficavam as casas. Pouco tempo depois, essa escolha provou ter sido um grande arrependimento. Quando tentaram voltar, acabaram se separando na tempestade. Neith não soube se proteger. Lembrava apenas de estar mais assustada do que nunca e com muita dor. Não tinha mais noção do tempo, de onde estava. Nem entendia o que estava acontecendo direito, só queria que acabasse.

Quando a mãe a encontrou, o estrago já tinha sido feito. Ela a levou para casa, procurou curandeiros, mas não havia mais o que se fazer.

Foram umas duas semanas de olhos vermelhos e uma dor terrível. Depois, nada. Nada mesmo. Neith não enxergava mais. Tudo era sombras. E tinha sido assim desde então.

Neith tentava não guardar nenhum rancor, seja da mãe, dela mesma, ou dos deuses. Era difícil. Parecia que era um castigo atrás do outro.

Depois de uns três anos do incidente, uma doença severa atingiu a mãe de Neith. A pobre mulher morreu em menos de uma semana.

Então, sobrou apenas ela, o pai e as sombras. Muitos anos antes, os pais dela tentaram ter outros filhos, mas a mãe de Neith sempre perdia os bebês. Era uma sucessão de desgraças. Depois, ainda veio a cegueira e a morte da mãe...

Era complicado manter a moral após tudo isso. Neith e o pai moravam no mesmo teto, mas pouco se falavam. Não tinha muito o que dizer. Tudo parecia sem rumo. Só restava fazer preces aos divinos, para talvez terem alguma misericórdia.

Neith admirava especialmente Hórus. Assim como ela, ele teve a visão roubada. Um olho roubado pelo deus Set. Ainda assim, era uma das figuras mais imponentes entre os deuses. Seu rosto de falcão era uma grande demonstração de força. Ela rezava para que ele concedesse a ela um pouco disso.

Então, certo dia um gato apareceu. Não seria algo incomum, mas aquele gato parecia estranhamente consciente. Parecia ter um propósito, o que se revelou sendo verdade.

Era assim que Neith se encontrava no meio do nada na companhia de um felino, não pela primeira vez.

— Vejo que meu enviado fez um bom trabalho em te trazer, mais uma vez. — Uma voz melodiosa deixou a jovem alerta. Não parecia estar a muitos metros de distância. Era de uma mulher. Ou melhor, deusa.

— Bastet. Ele é ótimo, realmente. E obrigada por não se esquecer de mim. — Neith falou. Queria ser mais direta, ter as informações pelas quais veio. Entretanto, estava na presença de uma deusa. Precisava ser respeitosa e grata, não apenas para não ter sua existência apagada em um instante se assim a deusa desejasse, mas também porque era o que o bom senso da jovem dizia. Apesar do que seus vizinhos comentavam, ela podia sim ser gentil e atenciosa.

— Fico feliz que vocês se dêem bem. É sempre bom ter um companheiro desses ao seu lado. — Bastet comentou com calma. Dava para ouvir um ronronar alto vindo do gato, que sempre ficava contente na presença da deusa.

— Então... A senhora tem notícias de Hórus?

Silêncio. Neith sabia o suficiente para entender que aquilo era um não.

A garota ouviu Bastet respirar fundo. Ela se perguntou se a deusa realmente precisava de ar ou se apenas adotava esses maneirismos quando estava na presença de mortais. Talvez para criar empatia, uma conexão. Apesar do desapontamento de Neith com a falta de resultados da situação, ela tinha que admitir que funcionava.

— Não será possível recuperar a sua visão. — A deusa gata lamentou, parecendo genuinamente afetada. — Mas entenda, não é pessoal. Fui até Hórus, como falei que faria, mas realmente, não deu. A interferência que podemos fazer é muito limitada, baseada apenas em nuances e ecos. O que você pede... seria demais. Sinto muito.

Neith não conteve as lágrimas. A sua vida toda estava girando em torno daquela esperança, de poder fazer as coisas voltarem a ser como eram antigamente, de poder começar de novo. Mas não. Se nem os deuses poderiam resolver, era de fato um caso perdido. Com tudo desmoronando, ela se deixou cair no chão arenoso, aos prantos.

O gato se aproximou e encostou a cabeça no braço dela. Parecia saber que aquele era o fim da linha para ela. Teriam que voltar para casa com ainda menos do que vieram. Antes, havia esperança. Neith não fazia ideia do que faria a seguir. Passar o resto da vida fazendo projetos de artesanato, fechada dentro de casa? Não era isso que ela queria. Porém, como ela poderia desejar mais se não havia opções?

— Eu sinto muito, queria poder fazer mais. — Bastet repetiu. Parecia que tinha tomado alguns passos à frente para oferecer consolo que nem o pequeno felino, mas mudou de ideia. — Preciso ir agora. Espero que fique bem.

Neith não disse nada. Estava com a cabeça baixa, as mãos no rosto. Estática. Sem rumo. Então, a deusa desapareceu.

Os dias que seguiram foram difíceis. Neith se sentia absolutamente derrotada. O pai dela notou e até chegou a questioná-la a respeito. Ela respondia que não era nada. Nunca contou a ele sobre como uma deusa tinha resolvido dar ouvidos às suas constantes preces. Não tinha por que compartilhar mais esse fardo com ele.

O gato continuou com ela. Neith apreciava a companhia dele, mas não deixava de se perguntar se o animal não era um presente de consolação por parte de Bastet.

A jovem passava quase o tempo todo reclusa. Isso não era nenhuma novidade, mas a diferença era que agora Neith não tinha perspectiva alguma de que algo fosse mudar. Até que, mais uma vez, os deuses a surpreenderam.

Seu primeiro pensamento foi de que era um sonho. Mas não, era aquilo mesmo: Bastet estava na casa dela. Era uma presença inconfundível, difícil de explicar. Neith não viu ela chegando, mas conseguia imaginar perfeitamente por onde ela pisava, como se portava.

— O que faz aqui? – Não era intenção da garota ser rude, mas seu tom defensivo foi inevitável. Considerava Bastet uma deusa diferenciada. Incomum. Talvez essa impressão se devesse ao fato de ela ser a única divindade que ela teve o prazer de conhecer. Talvez outros fossem tão bons como ela. Neith os deu o benefício da dúvida, mas mesmo assim, a deusa gata tinha um lugar especial no coração dela. Gostava de Bastet, mas não queria criar expectativas que resultariam em mais uma negação.

— A decisão não mudou. – Ela esclareceu. A última coisa que queria era ser responsável por mais uma decepção da mortal. — Mas Hórus veio até mim com uma nova proposta. Não podemos te dar sua visão de volta, mas temos como dar algo novo.

— Do que está falando?

Bastet foi até bem perto e segurou as mãos de Neith, que ficou surpresa com o contato. A deusa nunca tinha tocado ela, mas parecia ter a exata forma de uma mortal comum.

— Tenho algo para você.

Quando Neith percebeu, estava segurando um estranho objeto. Era frio, como água fresca. Tinha o formato de uma esfera perfeita. Era liso e cabia idealmente em sua mão fechada. Porém, o mais peculiar era a sensação que ele lhe causou. Era como se raios fossem liberados para o chão e se espalhassem por dezenas de metros ao redor. De repente, Neith tinha consciência de todas as formas, pessoas e animais presentes do lado de fora da casa. Uma capacidade de percepção como aquela mudaria sua vida. Bastet... sua forma era um híbrido extraordinário. Corpo humano, cabeça animal e essência de algo diferente. Ela ficou ligeiramente preocupada de a deusa estar se revelando tão perto de outras pessoas. Sua concentração se esvaiu e aquelas impressões se dissiparam.

— O que é isso? – Neith fez menção de largar o objeto e se afastar, mas estava trêmula demais.

— É um presente dos deuses. Depois do que você passou, merece isto. Às vezes precisamos quebrar a esperança para poder seguir em frente. Tomar um outro rumo, um melhor. Não era exatamente o que você estava procurando, mas acho que isso é o que te torna perfeita para a missão.

— Não estou entendendo... – Neith estava travada. Bastet soltou as mãos dela, deixando a estranha esfera nos cuidados da garota. – Que missão? O que isso aqui faz?

— Você é só uma garota agora. Mas com o tempo, tudo vai mudar. Esse presente vai fazer de você os olhos dos deuses na terra e o dos mortais no além. Com esse poder, todos vão saber sobre você. Logo, faraós vão dar qualquer coisa para ter você do lado deles. Não deixe a ambição nublar o seu julgamento. Mas sei que você é uma boa garota, caso contrário, eu não estaria te dando isso.

Neith segurou o objeto com mais firmeza. Ainda não sabia quase nada sobre ele, mas pelo que a deusa tinha dito, ela podia apenas imaginar a importância dele.

— Então... é meu agora?

— Sim. – O tom de Bastet era carinhoso. – Você aprenderá a usá-lo, tão facilmente quanto aprendeu a andar e a enxergar. É especial, único. Só você saberá os segredos dele.

A jovem ficou impactada. A deusa gata deu ouvidos às suas preces desesperadas — que nem mesmo eram direcionadas a ela-, procurou ajudá-la, e mesmo que não tivesse dado certo, voltava com uma oferta de proporções gigantescas.

— Por que você se deu o trabalho de me ajudar? De fazer tanto para uma qualquer?

— Hórus, Ísis, todos os outros. Eles têm noções muito limitadas do que é reinar. O poder não se resume a superioridade. Quando vemos além disso, temos incontáveis possibilidades.

Bastet não elaborou além disso e Neith não pressionou por mais. Os olhos felinos da deusa guardavam perspicácia e conhecimento que ia além do que uma mortal poderia fantasiar. A jovem sabia que o que estava recebendo já era uma dádiva, seja quais fossem as motivações.

— Você tentava encontrar seu valor... – A deusa continuou. — A questão é que ele sempre esteve com você, só é preciso entendê-lo. Não é esse presente que vai te tornar especial. Você é que vai fazer isso por si mesma. Espero que entenda.

Neith não tinha certeza se entendia. Aquilo estava começando a soar demais como uma despedida.

— Eu... eu voltarei a ver você? – perguntou.

— Talvez. Quando for relevante, estarei por perto para dar apoio. Mas verei a sua jornada de longe, principalmente. Boa sorte.

Neith ouviu Bastet saindo da casa, mas sabia que ela não tinha ido para a rua. Novamente, teve consciência de várias coisas ao mesmo tempo. Ela viu a forma da deusa indo para um outro plano. Com a esfera ainda nas mãos, Neith chorou. Dessa vez, não havia dor ou desespero.

O gato miou. Não havia mais monotonia.

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