Notas iniciais
Bem gente, essa é a minha história para o NaNoWriMo, cujo eu ainda não sei mexer, mas ok.Agradecimentos especiais ao povo do grupo do Nyah, que me ajudou a escolher a capa e avaliou a sinopse.Agradecimento mega especial à Natália, que vem me ajudando muito com a história em todos os sentidos.Agradecimentos extras à Antonio, Vieira, Camila, Nacelio e Arthur, que ajudaram com nomes de personagens, título, capa e whatever.

São Paulo,

1 de novembro de 2014.

Querida Ana,

Bom, até agora não me convenço de que essa seja uma saudação apropriada, principalmente por nos conhecermos desde os 5 anos, sermos amigas desde então, e também, por sermos bem mais que amigas, por sermos namoradas.

Desde que você se mudou, muita coisa se alterou, minhas emoções principalmente. Nunca me senti tão fragilizada, e nunca antes havia percebido como você me afeta. Eu sou uma pessoa diferente quando estou contigo, sou uma pessoa boa, sou uma pessoa que gosta de fazer coisas boas. É incrível como as pessoas nos deixam melhores.

Sábado, o segundo melhor dia da semana depois de sexta-feira. Talvez a sexta aparente ser tão boa porque sabemos que sábado não teremos que seguir a mesma rotina de sempre, poderemos acordar um pouco mais tarde, e caso acordemos cedo, não teremos que nos levantar imediatamente, e nos arrumar na correria para viver nesse caos que chamamos de mundo.

Me levantei 09:37, sim, exatamente 09:37 – você sabe como eu gosto de coisas exatas, e pode ter certeza de que isso não irá mudar tão cedo –, e fui para o banho. Eu acho incrível como entramos no chuveiro de um jeito, e saímos como uma pessoa completamente diferente, uma pessoa renovada, mais alegre, sorridente, revitalizada. Chuveiro, você é a fonte da juventude?

Teria saído do banho com um humor melhor, se não tivesse ouvido algumas vezes minha mãe gritando comigo, dizendo que demoro demais apenas para limpar meu corpo, queria poder dizer que é mentira, mas não é. Às vezes me sinto mal por fazer minha mãe gastar tão caro não apenas com a casa, mas também, comigo, pois eu sou um dos maiores motivos de gastos para essa família.

Para compensar não apenas minha mãe, mas também minha consciência, arrumei a casa. Varri o chão, passei pano, limpei as janelas e portas... Tudo estava brilhando, e tenho certeza de que caso você estivesse aqui, conseguiria ver seu reflexo no chão.

Isso com certeza tomou boa parte do meu dia, mas eu não ligava – e ainda não ligo – , não tenho nada para fazer além de estudar, e as provas estão distantes. Aliás, você que me tornou assim, você que me fez me importar e não me importar com as coisas certas. Antes eu não ligava para o estudo, para os trabalhos, e aí você apareceu. Se não fosse você, Ana, eu não teria conseguido passar de ano, e estaria mais distante da tão estimada faculdade.

Psicologia. Eu decidi. É psicologia, isso que eu quero fazer pelo resto da minha vida, e nada antes pareceu tão claro. Boa parte da minha escolha veio por conta de minha esquizofrenia, eu quero entender essa doença, quero me livrar dela, quero acabar com ela, matá-la. Eu quero me... curar. Merda. Insistem que não existem cura para isso, mas eu sei que todos estão mentindo, eles querem me afastar do meu objetivo, querem me tornar um deles. Uma marionete humana. Eu não serei uma marionete humana.

Cansei de ficar em casa. Meu pai estava me xingando, para variar. É isso que mais acontece desde que ele sabe que eu não gosto de garotos.

“Eu não criei essa merda.”, “Isso não saiu de mim.”, “Você é um monstro, sua idiota.”, “Eu quero ter netos que venham do meu sangue.”, “Isso é só uma fase.”, “Você nunca deveria ter mudado, Melody, você é tão bonita, eu conheço tantos homens que poderiam te fazer feliz, e o que você faz? Você vira essa vadia.”, “É tudo culpa da esquizofrenia”, “Duas vezes doente, duas vezes louca, duas vezes inútil”, essa são algumas das comuns palavras que ele me solta todos os dias, apenas para me chatear. Não é uma fase, não é uma doença, eu não mudei, pai, eu sou assim. Desculpa se eu não sou a filha que você queria, se eu não gosto do que você queria que eu gostasse, ou se eu sou uma fonte de desprezo, nojo e vergonha, mas eu nasci assim, e se eu pudesse, juro que daria meu lugar para outra pessoa, no lugar de te fazer feliz.

Realmente, se eu pudesse daria meu lugar para qualquer outra pessoa. Esquizofrenia é uma merda, ter esquizofrenia é uma merda, ter esquizofrenia e ser lésbica é pedir para morrer. Na verdade, eu já pedi diversas vezes para que isso acontecesse, e venho avisar que não dá certo. Sabe como é aquele ditado “Querer não é poder”.

Meus únicos motivos para ainda viver são você, Letícia e minha mãe, as únicas pessoas que me aceitam, aliás, as únicas que sabem e aceitam, pois, mais ninguém além delas e meu pai sabe sobre a gente.

Falando sobre a gente... Eu sinto sua falta. Sinto falta do seu sorriso tão branco e brilhante que poderia iluminar o mundo inteiro em uma queda de energia, dos seus olhos cor de jabuticaba, que apesar de você odiar, são os mais lindos desse universo e de todos os outros, sinto falta do seu cabelo castanho e cacheado, que você sempre dizia que parecia uma moita, mas, caso aquilo fosse uma moita, seria a moita mais linda do mundo, ah, não posso esquecer de sua boca... Sua boca vermelha, com gosto de cereja... Eu sinto falta do seu beijo, meu amor. Sinto falta da gente. Por que você tinha que se mudar para tão longe?

Saí de casa bufando, não merecia escutar meu pai dizendo tantas porcarias para mim em pleno fim de semana. Me importo com minha mãe, porém meu pai é um bosta. Ele e nada são exatamente as mesmas coisas para mim, aliás, minto, o nada pelo menos não me incomoda, ele me deixa quieta, ao contrário da peste.

Para onde iria? Não sabia. Qualquer lugar longe dele, qualquer lugar mesmo. Comecei caminhando devagar, mas minhas pernas criaram vida própria, e sem perceber, eu já corria com algumas lágrimas nos olhos. Algumas nesse caso é igual a muitas, só parei quando já não sabia aonde estava e quando meus pulmões começaram a gritar por um descanso. Ok, meus queridos, vocês ganharam hoje.

Observei o local a minha volta por alguns minutos, e logo o reconheci. Era uma pracinha que minha tia Isabella me trazia, um local para eu brincar e me distrair um pouco quando tinha meus 6 anos. Analisei-o atentamente, vasculhando minha memória, ele não havia mudado muito. Uma grama aqui, menos um brinquedo ali, era praticamente a mesma coisa.

Me sentei no balanço e fechei os olhos, lembrei de como eu gostava de ficar ali, balançando para frente e para trás, o mais alto possível, me sentindo a rainha do universo, uma pessoa privilegiada por ter uma sensação tão incrível. Crianças... Sempre se iludindo e sorrindo com qualquer coisa. Queria poder voltar a ser assim.

Ouvi algumas risadas e gritinhos distantes, que vinham se aproximando cada vez mais, era algo bom, uma espécie de terapia, não uma das terapias chatas que vez ou outra eu era obrigada a ir, mas na verdade, uma terapia feliz, que poderia curar qualquer doença... Menos a minha.

As crianças chegaram no parque, eram duas. Uma menina e um menino, pareciam ser irmãos. A garotinha possuía os cabelos mais claros e lisos que eu já devo ter visto no tempo de minha mera existência, os fios loiros estavam presos em dois rabos, um em cada ponta da cabeça. E os olhos... O tom perfeito do azul do céu, ela vestia um macacão rosa xadrez, sua beleza era tanta que eu sorrio apenas de lembrar.

O garoto possuía os cabelos cacheados igualmente loiros, que, porém estavam quase totalmente cobertos por seu boné, com o desenho de um carro, os olhos eram de um azul parecido com o da menina, porém eram ligeiramente mais claros, seu olhar possuía um brilho encantador. Vestia uma camiseta, bermuda e tênis.

Logo os dois brincavam de pega-pega pelo local, um pouco mais longe, a mãe observava sorrindo. Deve ser uma sensação maravilhosa ver suas crianças crescerem. Imagine só nosso filhos... Ah.

Queria ficar mais tempo observando aquela cena, porém começava a escurecer e aquele local não era tão próximo da minha casa, o que eu só percebi quando voltava. Me perguntei aonde arranjei tantas forças para correr, um verdadeiro milagre. Queria ser assim nas aulas de educação física.

Ao chegar em casa meu pai deve ter falado mais poucas e boas, mas eu ignorei. Fui direto para o banho, pois descobri uma novidade: Correr não só faz cansar, mas também faz suar. Chuveiro, como deve ser a melhor máquina inventada pelo homem depois da máquina de sorvete, fez minha calma e felicidade voltar. Prazer, nova pessoa.

Sábado é dia de... Pizza, é claro! Por incrível que pareça, essa foi a única coisa que conseguiu fazer eu e meu pai estarmos no mesmo ambiente sem quase nos matarmos. Não conversamos, porém não brigamos, o que era bom. Assim que terminei a refeição saí do local, agora nossas bocas não estariam mais ocupadas com comida, e eu sentia uma confusão gigante chegando, a qual queria evitar.

Dei boa noite para minha mãe e me tranquei em meu quarto, fiquei jogando tempo fora enquanto assistia TV. Na verdade não era nenhum programa de nos deixar de queixo caído, ou até mesmo que nos grudasse, era só um desenho, algo para prolongar meu bom humor, que raramente é presente, como você já sabe.

Agora, aqui estou eu de madrugada escrevendo essa carta para você, espero que goste dela, e que se anime em receber notícias do mesmo modo em que eu estou animada em dá-las, e apesar de este texto estar gigante, para mim, tudo o que for entregue para você será pouco, pois você merece bem mais do que meu amor e do que minhas palavras, porém não posso te dar mais.

Beijos, com amor,

Sua Melody.

Notas finais
Agora só falta aprender a mexer no NaNoWriMo pra postar, socorro aoihasf