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Era já alto o anoitecer quando jantaram ao cardápio inglês. O toque indiano ficou por conta do Biryani, prato que Alícia preparou na tentativa de, sutilmente, ir inserindo o menino em sua cultura culinária, até que logo pudesse abolir de vez os pratos ingleses de sua mesa.

No jantar ela usava um vestido azul turquesa de manga longa com uma gola em “V”. Desciam dos ombros até a cintura, ornamentos também com círculos em tons vermelhos e brancos. Círculos, ramos e filetes em tons vermelho e branco também enfeitava a manga. O mesmo enfeite adornavam a barra do vestido, que se estendia até os joelhos. Uma calça vermelha lhe cobria o restante das pernas e uma sapatilha lhe confortava os pés.

Os cabelos presos atrás, deixava à mostra os grandes brincos em tons dourados e um pingente da mesma cor lhe enfeitava a testa, entre as sobrancelhas negras muito bem delineadas.

A vestimenta da tia destoava totalmente da de Dylan. Ele vestia um jeans surrado e uma camiseta preta com Freddie Mercury estampado.

— Você está mesma muito bem integrada a este país, Alícia. Eu poderia jurar que é uma legítima indiana se não soubesse que é inglesa. — Percorreu os olhos pelo corpo da bela mulher.

— Saí da Inglaterra aos meus vinte anos, Dylan. Vivo aqui a quase dezesseis anos, passei a amar essa cultura e assimilar o meu redor. Eu me adaptei bem, por assim dizer. Me tornei uma indiana. — Disse enquanto degustava o Biryani, único prado que servira para si.

— Acho que não me adaptaria a essa cultura. Ainda bem que será só por alguns meses. — Sorriu. — Bem, não é nada contra você… tua companhia é agradável… é do lugar que falo. — Tentou concertar algo que talvez pudesse ter ofendido a tia.

— Não precisa se desculpar. — Riu. — Quando cheguei aqui, pensava assim também. Foi muito difícil no início.

— E como veio parar na Índia depois de uma discussão boba com a senhora Lefevre? — Perguntou tentando parecer indiferente ao degustar seu Bubble and Squeak, no bom estilo inglês.

— Bom, eu tinha um amigo que havia vindo para a Índia alguns anos antes trabalhar no ramo de imóveis, então ele me convidou para trabalhar com ele. Daí eu vim e gostei. Também eu não tinha mesmo para onde ir, devo muito a ele. — Sorriu um tanto tristonha, talvez por pensar que tudo poderia ser diferente.

Dylan silenciou. Ainda que tivesse vontade de voltar novamente ao assunto sobre os motivos que levaram à briga entre as duas irmãs, não achou de bom tom, já que percebeu o constrangimento e irritação de Alícia da primeira vez. Degustou seu prato em silêncio, enquanto Bellan lhe voltava ao pensamento.

Alguns paradoxos atormentavam a alma de Dylan. Nunca havia se interessado por nenhum menino. Ele tinha amigos gays e não se importava com isso, mas jamais se interessou por ter qualquer relação com alguém do mesmo sexo. É claro que ele era hetero, não tinha dúvidas disso.

Porém, agora, estava com pensamentos estranhos que ele mesmo não compreendia. Tinha sentido algo estranho por aquele menino que passou a permear seus pensamentos. Ademais, aquele menino tinha traços muito peculiares, de uma sutileza e delicadeza que deveras o encantara. Uma pele sedosa e lábios volumosos e lindos em um olhar penetrante, denso e misterioso.

Assim, enquanto parte de si desejasse rever Bellan e talvez sentir novamente aquelas emoções, haviam também certa repulsa por esses sentimentos. Mas há certos desejos da alma que a razão não pode suprimir. Ele não via a hora de terminar o jantar e ir para as comemorações do Diwali.

Depois do jantar e uma cerveja, que Alicia não permitiu ser acompanhada, eles desceram e foram à praça onde as comemorações aconteciam.

No percurso pela rua, que fizeram à pé, Dylan não se conformava com a quantidade de carros, gente e vacas disputando o mesmo espaço. Lembrava do trânsito organizado de Marselha.

A única coisa bacana eram os enfeites pelas casas, de um colorido e luminosidade encantador.

Atendo, ele olhava pelos poucos edifícios do bairro, todos iluminados com luzes em tons dourados, com cascatas de luzes que desciam por eles. As luzes traziam graça e glamour àquela paisagem caótica e deprimente.

Alícia caminhava feliz e totalmente integrada ao estilo de vida. Falava empolgada sobre aquelas luzes e Dylan quase a via reverenciar as vacas que encontrava. Preferiu achar que não.

Enfim, caminharam um pouco, que para Dylan pareceu uma eternidade, e chegaram a uma grande praça onde os festejos se intensificaram e as luzes se multiplicaram.

Pelo chão, muitas velas e lâmpadas de argila disposta sobre alguns desenhos que Alícia disse ser o Rangoli, feito com pó colorido. Pessoas vestidas de deuses, com roupas coloridas e nada discretas, transitavam em meio à multidão, abençoando as pessoas com imposição das mãos. Famílias inteiras reunidas soltavam balões ao céu, aumentando ainda mais o colorido daquele festejo. Fogos de artifícios também enfeitavam a noite com seus brilhos e cores. Comerciantes caminhavam entre as pessoas vendendo ornamentos e enfeites.

As pessoas desfilavam com um colorido exuberante, com roupas esvoaçantes e de um colorido quase cegante, com pinturas por todo o corpo.

Enfim, o festejo deveras era bem definido pelo nome de Festa das Luzes.

Alícia falava entusiasmada para o rapaz sobre todos aqueles detalhes e suas simbologias. Mas ele estava um tanto alheio e distante, observando a multidão como se procurasse alguém naquela festa estranha e com um cheiro esquisito de cera queimada. Remeteu-o cheiro de um cemitério, ainda que ele nunca tivesse estado em um.

Logo Alícia encontrou um amigo indiano. Kalifu, como ela apresentou à Dylan. Começaram a falar sobre imóveis. Foi a oportunidade que ele esperava para sua deixa.

— Bem, Alícia, Vou deixar vocês conversando e caminhar por aí. Tudo bem? — Trouxe um riso expressando tranquilidade e disfarçando sua ansiedade.

— Tá OK. Mas não vá se perder por aí. — Retribuiu o sorriso e faz graça com o rapaz.

Dylan deixou a tia com o amigo e se foi na multidão, procurando Bellan.

Sentia um idiota por estar fazendo aquilo, pois era de um absurdo sem tamanho. Onde já se viu ele, um Dom Ruan das praias das Bahamas, procurando um menino pelas luzes da Índia.

Mas o desejo era mais forte. Bellan realmente mexeu muito com ele.

Observava por todos os lados, procurando afoito por entre os cultos e pessoas vestidas de deuses. Procurou em cada canto daquele festival, mas nada encontrou.

Por fim, já desolado, encostou em uma árvore ao lado de uma vaca. Riu por estar ali, naquela situação degradante, encostado em uma árvore, procurando um indiano e ao lado de um animal deprimente e fedido. Quase sentiu vergonha de si mesmo.

Foi quando viu a silhueta coberta por uma túnica carmim em meio às vestimentas coloridas. Reconheceu Bellan.

O menino o olhou por sobre os ombros e emitiu o mesmo riso enigmático de quando no cortejo. Depois, elevou à cabeça o capuz e se perdeu na multidão.

Dylan deixou sua inércia e foi atrás dele na tentativa de o alcançar.

Até que saiu do meio da multidão, chegando do outro lado da praça. O lugar era menos iluminado e as poucas luzes deixavam o ambiente à penumbra. Avistou o rapaz recostado em uma árvore. Viu que ele olhou por sobre os ombros e talvez um sorriso foi desenhado em seu semblante.

O indiano recolheu novamente o olhar. A penumbra da noite e a pouca luz existente no local, o deixava quase oculto sob a copa grande daquela árvore.

Dylan se aproximou. O coração batia descompassado, ao sabor das batias frenéticas dos gongos.

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