Lynn
1 Capítulo Único
Conheci uma garota, certa vez. Era inteligente, tinha um senso de humor único, levemente ingênua, brutalmente sincera, arrogante na medida certa, e apaixonada. Não pela vida, por pessoas, mas pelos livros e sua infinita coleção de botinhas e coturnos. Qualquer um que olhasse, via uma garota como outras cem mil: pele morena, cabelos tingidos de rosa fúcsia , olhos castanhos. Mas ela era única pra mim. Ela era minha. Mas ela não sabia disso. Sempre quando conversávamos sobre relacionamentos, ela dizia ''já parou pra pensar quantos livros eu deixaria de ler se namorasse alguém? E namoro demanda muito tempo e paciência que eu não tenho, me livro de dor de cabeça, estresse, e deixa a minha saúde mental menos prejudicada.'' Lynn era assim, via o lado positivos onde geralmente as pessoas só viam o lado negativo.
— Mas você nunca pensou em ter uma família ou filhos?- perguntei certa vez quando retomamos o assunto em seu ''apertamento'' de um quarto. Ela reclamava que aquele lugar era do tamanho de um ovo de codorna, mas ela amava. Era o canto dela, sem ninguém pra criticar suas coleções de livros, sapatos, ou o fato de ela consumir vinho como se fosse água.
— Sim, óbvio, quando eu era burra e ingênua.- respondeu ela sem tirar os olhos da tela do computador.- Mas eu tenho uma família. 2 na verdade. A família que eu nasci, e que eu escolhi, e sinto que não preciso de mais ninguém pra ser feliz. — ela olhou pra mim e disse- O erro do ser humano, é achar que a felicidade esta em outra pessoa.
Soltei um assovio
— Isso foi profundo. Quem disse isso?
— Sei lá, alguém no Twitter ou Instagram. Não tenho certeza, mas o que importa é que eu estou repassando a você, e você esta aprendendo alguma coisa. De nada.- e abriu o sorriso mais arrogante que eu já vi na minha vida.
Ficamos um tempo em silêncio com apenas o barulho do teclado e Ariana Grande como som de fundo. Eu gostava de observar ela trabalhando, em como ela parava pra pensar em alguma frase ou palavra, e como franzia as sobrancelhas; como as vezes parava pra fazer dancinhas com as mãos em algum momento da musica, e depois voltava a escrever como se nada tivesse acontecido. Lynn quebrou o silencio depois de alguns minutos.
— Estive pensando numa coisa.
— É a sua especialidade.
— Estava lendo um livro esses dias...
—Claro
—... e observei que em todos os livros de putaria que já li, os homens têm pinto grande.
Olhei pra ela sem acreditar e comecei a rir.
— Você lê livro de putaria?- ela abanou a mão ignorando o que falei.
— Isso não é importante. E comecei a me questionar... presta atenção!- ela brigou comigo e parei de rir.- E comecei a questionar o por que disso. tipo: cadê a representatividade daqueles que são desprovido de pinto?
— Santo Deus, Roselyn!
— E então cheguei a conclusão de que as mulheres não querem ler sobre caras que são desprovidos de pinto, com disfunção erétil, ejaculação precoce e nojinho de sexo oral, já que vivem isso quase diariamente.- concluiu parecendo satisfeita.
— E o que vai fazer com isso?
— Já escrevi sobre.- informou dando de ombros.
Lynn trabalhava como escritora freela em 4 revistas diferentes, e em cada uma delas usava um nome diferente, pois não queria ser reconhecida. Ela dizia que queria que os textos dela fossem famosos, e nunca ela. E até que seus textos eram bem aceitos pela maioria dos leitores
— Onde foi publicada?
— Claro que nenhuma revista ia aceitar um texto desse tipo, então publiquei no Wattpad já que era bom demais pra ficar engavetado.- concordei e ela voltou a digitar enquanto eu a observava.
— Posso te fazer uma pergunta?- como ela não disse nada, continuei:- Por que você quis ser escritora?
Lynn parou e fitou o teto procurando por uma resposta, e finalmente disse:
— Acho que pela mesma razão pela qual você faz medicina.
— Eu faço medicina para salvar vidas!
— Gosto de pensar que alguma vida possa ser salva através dos meus textos. Não literalmente falando, mas acredito que a literatura salva. — e com isso, ela voltou ao trabalho.
E acho que foi nesse momento que fiquei completamente apaixonado por ela. Mas sabia que ela era do tipo inalcançável por vários motivos então eu preferi deixar a minha.... ''admiração'' por ela oculto, pelo menos por um tempo até eu ter certeza de que poderia ter alguma coisa com ela, enquanto isso, eu tentei me distrair com outras meninas que não são interessantes como ela, mas conseguiam suprir minhas... necessidades biológicas. Mas não que eu me orgulhasse disso. Nem a Lynn.
—Não que eu me preocupe com você, logico. Você pode fazer o que quiser da sua vida, pq eu não me importo. Eu me preocupo com as meninas que você ilude.- disparou ela, certa vez quando eu estava no apertamento dela, e estávamos assistindo Bates Motel.
— Uau, obrigado pela sua sinceridade comovente, Roselyn. Mas fique sabendo que eu não iludo ninguém.
— Me chame de Roselyn de novo, que eu arranco sua parte preferida do corpo.
Eu não duvidei. Nunca duvide de Roselyn Motta. Foi a primeira coisa que aprendi.
— Eu acho fofo a sua tentativa de defender essas meninas e tal, mas se você arrancasse a minha ''parte preferida'', você faria um desfavor a elas.
Ela me olhou com deboche e disse:
— Um desfavor? Eu estaria fazendo um favor a VOCÊ, assim as meninas não precisariam mentir sobre a qualidade do sexo.
— Isso é calunia, sabia? Você não sabe como eu sou, e você não pode tirar conclusões por causa de uma transa ruim que você teve UMA vez e decidiu que não quer mais saber de homens na sua vida.
— Eu vou ignorar essa pequena observação equivocada sobre mim, pq eu realmente não estou afim de sujar as minhas mãos de terra pra esconder o seu corpo no meio da floresta depois de dirigir 3,5km ao norte, e enterrar o punhal num raio de 100 metros do lugar do seu corpo. E depois limpar toda bagunça, e esconder as evidências e arrumar um álibe. — ela suspirou- Muito trabalho.
Olhei pasmo pra ela por alguns segundo, enquanto ela voltava a sua atenção pra série. Eu me assustava como ela conseguia ser dócil e cruel ao mesmo tempo.
— Isso foi estranhamente especifico, mas eu não quero pensar muito sobre isso pra nossa amizade não acabar. E eu não iludo ninguém desde aquela vez que vc me mandou ler O Pequeno Príncipe, e eu li aquela frase.
— ''Tu és eternamente responsável por aquilo que cativas''. É. Antoine de Sant- Exupery sabe das coisas. O mundo seria um lugar melhor se as pessoas lessem O Pequeno Príncipe. E eu não entendo a sua surpresa. Você deveria saber tanto quanto qualquer outra pessoa que a minha mente é perturbada.
— Eu nao diria perturbada, mas um pouco preocupante, sim.- e foi a minha vez de suspirar.- Mas isso nao quer dizer que eu goste menos de voce
— Argh, por favor, me poupe disso
— Sentimentos...? Desde quando voce nao gosta de sentimentos?
— nao é que eu nao goste, mas é dificil assistir You com voce disparando um monte de baboseiras sentimentais nos meus ouvidos. — ela me encarou- Corta o clima.
Fiquei sem aparecer por la durante algum tempo por causa da minha faculdade e do estagio obrigatorio. Quando finalmente apareci, tinha alguma coisa errado: o cabelo rosa estava desbotado, ela parecia mais magra, e tinha olheiras.
— O que aconteceu?- perguntei em alerta tentando detectar algo fora do normal.
Ela deu de ombros e fechou a porta.
— Descobri uma coisa interessante a nosso respeito.- contou sentando em frente ao notebook que estava encima da mesinha de centro.
— Nosso respeito?- repeti confuso.
— Aparentemente, realizamos altas orgias com direito a muito alcool e drogas nesse apartamento, sabia?- olhei para ela mais confusa do que nunca.
— Que historia é essa?
— A vizinha de cima encontrou o meu pai na rua e ela começou a falar um monte de merda a meu respeito, e ele me ligou xingando e fazendo exigencias como se ele tivesse alguma merda de direito. E parece inacreditavel que uma mulher de 22 anos more sozinha num apartamento bancado por ela, receber um amigo de vez em quando para assistir Os Simpsons e tomar vinho!- explicou atropelando as palavras.
— Que merda, Lynn!- suspirei.- Não é melhor que eu pare de vir aqui, pelo menos por um tempo?- me matava sugerir isso, mas o bem estar dela sempre estaria em primeiro lugar para mim.
— Não seja idiota, claro que nao!- ela olhou para mim como se eu estivesse ofendido sua honra.- Voce vai continuar vindo aqui por quanto tempo eu achar necessario e quem nao gostar que va para o inferno!- ela exclamou essa ultima parte olhando para o teto.
— Acho que ela ouviu, nao se preocupe.
Lynn bufou e voltou ao trabalho.
A mão de Lynn morreu quando ela tinha 19 anos, e o pai dela voltou do alem para querer "estreitar os laços de pai e filha", e como Lynn nao era filha da sua mae a toa, mandou ele voltar para o buraco de onde ele tinha saido. Isso aconteceu a 3 anos, e as coisas entre eles nao melhoraram. Raramente se falavam, e ele só aparecia quando achava hora de bancar o pai presente, como se ele nao tivesse abandonado Lynn e a mae dela, quando ela tinha apenas 7 anos.
Lynn ainda digitava furiosamente quando percebi algo de errado.
— O que é isso no seu pulso?- ela olhou para a faixa enrolada e puxou a manga da blusa para esconder.
— Nada.- respondeu simplesmente.
— Voce fez de novo?- perguntei apesar de saber a resposta.
— Não.
— Esta mentindo?
— Estou.- suspirei.
— Roselyn, sabe que não pode se machucar dessa maneira!- ralhei com ela e puxei seu braço.
— Não me chame assim, e eu sei o que estou fazendo!- ignorei e desenrolei a faixa com cuidado. 5 cortes irregulares pouco profundos no pulso esquerdo.
— Já conversamos sobre isso, não foi? Sério, Lynn, não quero que você faça essas merdas.
— Foi superficial e eu estava com raiva; não pensei direito!- ela puxou o braço e escondeu os cortes.
— Só te digo isso porque me preocupo.
— Sei disso, mas não é isso que vai me matar, então não precisa fazer esse drama.
Não respondi porque sabia que seria uma causa perdida, mas não queria dizer que esqueceria daquilo.
Depois de alguns dias, parecia que as coisas voltaram ao normal: Lynn tingiu seu cabelo num tom mais claro de rosa, como se fosse algodão doce, e o pai dela parou de incomodar um pouco, pelo menos por enquanto, mas ela ainda me preocupava. Estava cada vez mais distante e silenciosa, e sempre que perguntava o que estava acontecendo, nada respondia além de : "esta tudo bem, não precisa se preocupar".
Até que aconteceu.
Era quase uma da manha quando minha mãe me acordou dizendo que tinha acontecido algo grave com a Lynn. Grave o suficiente para ter que levarem ela ao hospital. Coloquei qualquer roupa e fui o mais rápido possível ate onde ela estava.
Quando cheguei, o sindico do prédio onde ela morava me contou o que aconteceu:
— O pai dela apareceu mais cedo e eles brigaram feio. Os vizinhos disseram que eles se ofenderam, e parece que o pai dela a agrediu. Depois disso, ela não saiu ou respondeu quando o porteiro interfonou. Ele achou estranho e me chamou, arrombamos a porta e a encontramos na cama com um vidro de remédio vazio ao lado dela.
— E como ela está?- perguntei num fio de voz tentando me acalmar.
— Eles não disseram muita coisa, mas a frequência cardíaca dela estava bastante baixa quando chegamos.- ele me olhou com pesar e apertou meu ombro. — Sinto muito.- e se afastou.
Não dormi aquela noite, e nenhuma noite depois que os médicos atestaram a sua morte. Overdose por medicamento. Não conseguia, não podia aceitar. Acho que nunca na minha vida me senti tão desesperado, impotente. Só sabia chorar, chorar e implorar para que aquilo nao fosse verdade. Era cruel demais, hediondo demais aceitar que a Lynn, a minha Lynn não estava mais viva, pensando em teorias malucas e tendo pensamentos aleatórios para poder escrever e fazer as pessoas felizes. Que a minha Lynn nunca mais me ameaçaria me dar um chute por chama-la pelo nome.
O funeral aconteceu dois dias depois; Não reparei em quem estava lá, se eram parentes, outros amigos. Não sei quem organizou. Não me importava com aquela merda toda. Não levei flores, pois eu sabia que ela não gostava, então levei seu livro predileto e coloquei dentro do caixão.
Só depois que o tumulo foi fechado, percebi que sentia raiva. Raiva de mim, por não tê-la ajudado quando sabia que ela precisava, que ela não estava bem; raiva dela por nao ter pedido a minha ajuda naquele dia, naquele 14 de abril de 2017, no dia que perdi a minha melhor amiga, o amor da minha vida e a mais peculiar e incrivelmente apaixonante pessoa que ja conheci. A minha Lynn.
Fale com o autor