Lycoris
3 Capítulo 2 - Flor de ameixa
"Ao soprar o vento leste,
Exalem seu perfume,
Oh, flores da ameixeira!
Mesmo longe de seu mestre,
Não se esqueçam da primavera.”
— Sugawara-no-Michizane
Proteger. Ele já havia se dado conta de que essa era a razão da sua vida, pois tudo o que ele sempre fez foi tentar se proteger e a sua família, até tudo começar a desmoronar diante de seus olhos.
Já não fazia mais diferença o ano em que estava, o que comia, se dormia, se passava frio ou calor, mas naquele ano, de alguma forma, sua vida havia mudado drasticamente. Em menos de 1 semana já havia sido vendido por seu pai devido a dívidas e leiloado no mercado negro. Em menos de 1 mês, havia sofrido agressões para toda uma vida caso tivesse seguido um caminho normal, e tudo isso porque sua mãe os havia abandonado. Ele a culpava por toda a desgraça que acontecia em sua vida.
Assim como ele, vários outros garotos também estavam na mesma situação, mas ninguém se encarava, pois sabiam que não havia escapatória. Todos estavam reunidos em uma espécie de depósito velho, onde o teto estava aos frangalhos e havia somente grama seca, terra batida e algumas leves cobertas feitas de flanela. Ele havia perdido a contagem do número de dias que havia ficado sem comer só na última semana.
Eles lhes mandavam limpar o chão da mansão principal da casa, carregar objetos e caixas que chegavam dia após dia, mas muitos dos meninos que haviam chegado morriam, um a um.
Naquele dia, ele sabia que havia vivido mais tempo do que muitos de seus colegas. Havia sobrevivido ao frio e a neve já começava a diminuir, se sobrevivesse até a primavera naquele lugar úmido e gelado, certamente aquelas pessoas o considerariam.
Como sempre, estava seguindo ordens e levando alguns objetos para o interior da mansão, até trombar em alguém. Notou uma jovem caída ainda com as caixas em mãos e ficou imóvel por alguns segundos até decidir soltar as caixas e estender a mão à garota parada à sua frente. Depois de ajudá-la, observou-a ir e voltou ao seu antigo trajeto. E apesar de saber que havia feito algo bom, como ajudá-la, esperava que fosse punido: Primeiro, por não ter prestado atenção por onde andava. Segundo, por ter interrompido sua obrigação. Terceiro, por ter olhado diretamente para o rosto de alguém da casa principal, e por último, por ter ajudado aquela pessoa.
Assim como a previsão que havia feito, durante o anoitecer, abriram a porta do depósito chamando por alguém que havia ajudado a “senhorita”. Ele seguiu o homem por alguns instantes, até perceber que estava sendo levado para dentro da mansão principal. Perdido pelos inúmeros corredores e aposentos da mansão, entrou no último quarto no final de um dos longos corredores, do aposento, exalava uma fragrância levemente adocicada de flores de ameixa no qual se justificava pela ameixeira em flor que podia ser observada pela janela.
– É este? — perguntou o homem interrompendo o silêncio.
– Sim – ouviu-se baixinho uma voz delicada e suave – Por favor, pode nos deixar.
Dada à ordem, o homem deixou-os dentro do quarto e saiu.
O jovem observava tudo em silêncio, pois não sabia o que esperar daquela situação até a garota quebrar o silêncio.
— Você agora será meu servo pessoal. – afirmou a garota, que olhava para ele esperando alguma reação – Você...
No mesmo instante, ele ouviu a voz bem distante e desmaiou.
Ao recobrar a consciência, notou algo macio sob sua cabeça e com medo de tal sensação, abriu os olhos devagar se deparando com a garota lhe observando.
Estava deitado com a cabeça apoiada no colo da jovem e antes que ele pudesse dizer uma única palavra, ela começou.
— Murasame, esse será seu nome daqui em diante. Agora é meu servo oficial. Quer saber como escolhi seu nome? – ela apontou para fora do quarto, indicando a ameixeira – Aquelas flores sempre me lembrarão de você agora. Como elas, você conseguiu sobreviver ao longo inverno. Resistente, forte, será a espada que me protegerá daqui em diante – disse com um sorriso.
Foi nesse exato momento que ele percebeu que ele ainda era um ser humano e que lhe era permitido ter um propósito de vida. Seu nome antigo pouco lhe importava agora e também não tinha orgulho em dizer quem era. Murasame, esse seria seu nome e recebido de muito bom gosto por essa garota. Se não fosse por ela, provavelmente teria o mesmo destino de seus companheiros, a morte. Por causa dela agora, tinha um futuro, e não importava que esse futuro fosse obscuro.
O sorriso ela lhe deu, puro e gentil, foi o que o fez decidir dedicar toda a vida em mantê-lo. E assim como ela, agora as flores de ameixeira representavam a Murasame o símbolo de seu encontro com sua salvadora.
Assim que saiu do quarto da garota, foi instruído por outros que seria o protetor e instrutor da garota. Ela com 10 e ele com 13 anos – esse era o ano que ele se recordaria para sempre como especial.
*
— Murasame? – perguntou a jovem olhando-o de forma interrogativa
— Sim – respondeu ele prontamente, desculpando-se pela distração
A jovem seguiu o olhar antes perdido dele para fora da janela, onde se encontrava a ameixeira em plena floração e sorriu ao olhá-lo novamente, fazendo com que o homem desse um leve pigarro.
Murasame sabia que ela já imaginava o que se passava em sua cabeça, logo que a conexão entre eles ao longo de anos sempre foi forte o suficiente para saber o que o outro pensava apenas com um olhar, e isso em alguns momentos o deixava levemente envergonhado.
Aquele quarto – ou melhor, o quarto dela – para ele sempre foi o lugar mais especial daquela mansão e sempre que entrava o deixava levemente desconcertado.
Yuurei bateu com a mão no chão ao seu lado, indicando para que ele se sentasse.
Um pouco relutante Murasame sentou-se ao lado dela e logo em seguida sentiu um impacto em seu colo. A mulher encontrava-se deitada em seu colo de forma relaxada olhando para seu rosto.
— Você...
— Estou muito relaxada, né? – disse ela interrompendo-o e terminando a frase antes que ele pudesse falar – Mas sabe, eu estava pensando aqui que eu me sinto confortável quando você está comigo – terminou sorrindo
Murasame olhou para ela e deu um leve sorriso.
— Não devia, Yuurei-sama – retrucou ele
— Primeiro, pare com essa formalidade, estamos apenas nós dois aqui. Segundo, é impossível eu não me sentir confortável ao seu lado – falou a jovem puxando levemente o nariz dele
Alguns instantes se passaram desde a resposta dela. Era reconfortante para ele saber que ela se sentia dessa forma, logo que ela era tudo que ele mais prezava nesse momento, ou melhor, que ele sempre prezaria. Ele olhou para a ameixeira e inconscientemente deixou que as palavras saíssem por sua boca.
— Por quê? – ao perceber a pergunta, acabou dando um leve pigarro na tentativa de disfarçar, o que certamente não aconteceu, pois ela prestara atenção a suas palavras.
—Talvez porque nos conhecemos há tanto tempo, passamos por muitas situações juntos e você sempre esteve ao meu lado. Seria difícil não me sentir confortável ao seu lado – ela ficou em silêncio por um minuto até voltar a falar – Obrigada por estar comigo há tanto tempo.
Murasame sorriu e assentiu, fazendo com que a dama em seguida fechasse os olhos, pronta para tirar um cochilo. Enquanto isso ele olhava perdido para a ameixeira e acariciava os cabelos dela, desejando que aqueles momentos ao lado de sua pessoa preciosa durassem para sempre.
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