Lycoris

2 Capítulo 1 - Fios do destino


"É um erro tentar ver muito longe no futuro. A corrente do destino somente pode ser puxada um elo por vez."

— Winston Churchill

A agitação tomava conta da delegacia na última hora, e aparentemente não pararia tão cedo. Os telefones não paravam de tocar e homens corriam de um lado ao outro com papéis. Mas em meio a tanta bagunça, o silêncio reinava dentro de uma das salas, onde se encontrava três pessoas envolvidas diretamente com o caso ocorrido: o Chefe da polícia federal – Kyousuke Yamada ; o filho do Primeiro Ministro e espião das forças especiais– Kaname Sanada ; e o Investigador de casos especiais – Tetsuya Hiragi.

—Você tem certeza que é o grupo Lycoris que está envolvido neste caso? – perguntou Kyousuke a Tetsuya.

― Absoluta. Eu os venho investigando há anos e nunca haviam cometido um deslize tão grande. Não podem fugir agora. – afirmou o investigador com convicção.

— Como pode ter tanta certeza? – perguntou Kaname aparentemente nervoso – Ninguém os viu, e também não sobrou ninguém para testemunhar contra eles.

― É certeza! Viram a dama deles saindo da casa esta manhã e não conseguiram descobrir onde ela foi. – retrucou Tetsuya com certa irritação.

― O garoto está certo. – interrompeu o Chefe – Você não pode simplesmente acusar alguém desta forma, ainda mais o grupo Lycoris. Eu tenho uma ideia, mas não será nada agradável para você, Kaname.

―Estou disposto a ouvi-lo, Chefe. – respondeu prontamente o jovem

― Bem, o grupo Lycoris todo ano faz uma espécie de recrutamento e a grande maioria dos escolhidos são jovens entre 20 e 25 anos. Você se enquadra nas características deles. – terminou Kyousuke.

― Então... Quer que eu me infiltre?

―Exatamente. – adiantou-se Tetsuya.

Kaname parou por alguns segundos até olhar novamente para Kyousuke e Tetsuya.

―Farei isso. – disse confiante – Mais tarde me enviem as informações necessárias, quero lê-las de forma tranquila.

―Tudo bem. – concordou o Chefe

Sem perder tempo Kaname se levantou rapidamente e saiu da sala sem dizer mais nenhuma palavra, fazendo com que Tetsuya olhasse para Kyousuke e suspirasse.

― Você é realmente cruel, Chefe. – Tetsuya fez uma expressão cansada

Kyousuke olhou de soslaio para o Investigador e deu um sorriso levemente maldoso.

― Assim será melhor. Ele está cheio de vingança e vai fazer de tudo para descobrir o que eles tramam dentro daquele grupo Lycoris, ele não irá nos trair. – finalizou o Chefe.

―Eu acho que deveríamos tê-lo informado sobre aquela mulher... – tentou falar Tetsuya antes de ser interrompido por Kyousuke.

―Não, não há necessidade. Ela não é nada lá dentro.

*

Deitada sobre seu futon Yuurei vestia um fino robe de seda que deixava sua perna levemente exposta enquanto divagava olhando para o teto de seu quarto. De repente, a dama se levanta e devagar abre a janela, relevando um moço muito bonito vestindo um yukata.

―Pensei que já estivesse adormecida. – falou o homem gentilmente.

―Como pode ver... Não consigo dormir. – Yuurei sorri levemente para ele.

―Então... Nós poderíamos conversar? – perguntou ele sem jeito – Claro, eu fico aqui do lado de fora, acredito que seria mais respeitoso de minha parte...

―Hajime. – chamou a mulher de forma gentil, interrompendo-o – Você sabe que não precisa ser tão gentil. Eu sou...

No exato instante em que ela baixou o olhar e começou a frase, Hajime que antes estava sentado observando-a , se apoiou no parapeito da janela e segurou o queixo da dama, forçando-a a interromper a frase e encará-lo.

―Você não é apenas isso para mim. Eu senti sua falta enquanto estive viajando... Desejei com toda a minha força que o tempo passasse logo para que pudesse finalmente olhá-la nos olhos como estamos exatamente agora. Tudo o que eu preciso Yuurei, é de você ao meu lado.

Sem conseguir conter, Yuurei deixa uma lágrima solitária escorrer pelo seu rosto ao ouvir tais palavras gentis, e tudo o que ela pôde fazer foi dar um pequeno sorriso com o máximo de alegria que lhe era permitida. Ela sabia que estar assim com Hajime era extremamente errado, mas não podia conter seus sentimentos. Ele a havia salvado, e era graças a ele que estava viva, mesmo que isso significasse sofrer pelo resto de seus dias.

Hajime estava noivo de Chitose há dois anos e se casariam em breve. O pai de Hajime, senhor Seiji , sabia do apreço do filho por Yuurei, mas queria que seus netos nascessem com uma linhagem nobre, o que não aconteceria caso os dois ficassem juntos. Assim, impediu-os de manterem qualquer contato que não fosse relacionado aos negócios do clã, levando-os a um sofrimento silencioso.

Os dois não sentiam culpa e nem remorso quando quebravam tal regra, era um sentimento sublime. Assim que ouviram passos no corredor em direção ao quarto de Yuurei, Hajime encostou sua testa na da moça despedindo-se, e com pressa, fugiu para o lado oposto aos passos.

Em instantes, iluminado pela luz da lua, aparece Shin, um dos subordinados da dama.

― Está tudo bem, senhorita? – perguntou ele de forma prestativa.

―Sim, está. – respondeu ela fazendo uma grande pausa e depois respirando fundo – Estava apenas... Tentando respirar um pouco para ver se consigo dormir.

―A senhorita necessita de algo? Quer que traga um chá?

Yuurei sorriu a ele.

―Acho que seria uma ótima opção.

Minutos depois, Shin volta com uma pequena bandeja com xícaras e um pequeno bule fumegante. Cheio de respeito entrou no quarto da mulher e depositou a bandeja, sem se esquecer de servir o chá, e saiu logo em seguida, sentando ao lado da janela aberta da moça e encostando-se a parede do corredor. Yuurei olhou a xícara solitária na bandeja, e sem hesitar, pegou-a e saiu do quarto, sentou-se no corredor ao lado de Shin e depositou a bandeja entre eles, servindo outra xícara na qual entregou ao homem. Ele olhava-a de forma surpresa, enquanto ela se encontrava relaxada dando um pequeno gole em sua bebida.

―Não é gostoso tomar chá sozinha. Tem um sabor amargo de solidão. – falou ela sorrindo, em seguida olhando para Shin que simplesmente assentiu com a cabeça.

Shin não era um homem velho, na verdade possuía talvez a mesma idade de Hajime, seus 28 anos. Yuurei não sabia ao certo, pois até mesmo o nome verdadeiro dele ela não tinha conhecimento. Shin foi um nome dado a ele por ela, exatamente como uma marca de que ele era um subordinado da dama.

Ela se lembrava exatamente do dia em que cada um de seus subordinados mais próximos chegou ao Lycoris. No dia em que Shin foi levado a ela junto com os demais homens para serem escolhidos, ele estava magro e levemente abatido, como se tivesse sofrido até o seu limite para estar ali, mas o olhar dele para ela, era de puro ódio, e no mesmo instante, ela o escolheu.

Yuurei olhou para o lado, analisando-o. Estava completamente mudado. Era um homem forte, cheio de vigor, e o olhar dele para ela, em algum lugar havia mudado do ódio para a admiração.

―O que foi senhorita? Algo errado? – perguntou ele levemente incomodado com o olhar da dama.

Sem se conter, Yuurei deu um pequeno sorriso.

―Estava apenas me lembrando de algumas coisas. – falou ela de forma serena.

―E o que seria? – perguntou curioso.

― Quando você chegou aqui... – Yuurei bebericou o chá e continuou sorrindo.

―Eu... Mudei muito. – falou ele hesitante.

―Sim, você mudou. Eu notei isso. – respondeu ela.

―E o que acha disso? – perguntou ele levemente apreensivo.

Em um instante, o sorriso da dama se desfez e ela o olhou nos olhos.

Shin podia sentir um calafrio subir-lhe a espinha no exato instante que seus olhos se fixaram aos de Yuurei. Ele sabia que era esse o efeito que ela lhe causava, uma mistura de exaltação e apreensão, tudo com apenas um olhar. De repente, ela levanta a mão e lhe toca a face, fazendo-o recuar alguns milímetros. O efeito do toque dela possuía o efeito de um poderoso calmante, seguido de uma descarga de adrenalina. Ele sabia que nesse momento, seu corpo estava tenso, e seus olhos pareciam querer saltar de suas respectivas órbitas. Até ela se levantar, desfazendo o toque.

―Boa noite, Shin. – disse a dama de forma serena, despedindo-se.

Shin. Ele sabia que esse não era seu nome, mas não entendia o por quê de gostar tanto da forma como soava seu nome nos lábios dela...

E mais uma vez, ela o havia deixado sem palavras.