Luzes que não iluminam
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Presentes devidamente embrulhados e cuidadosamente colocados sob a árvore decorada de forma exuberante, repleta de Mickey's (e sua turma) em trajes de natal. Bolas de diversos tamanhos — ora inteiramente vermelhas ou douradas, ora vermelhas com detalhes dourados ou vice-versa — penduradas na árvore combinavam com os laços de cor e estampa semelhantes espalhados pelos galhos artificiais. Tudo na mais perfeita harmonia.
Havia ainda uma guirlanda sofisticada, pendurada na porta de entrada da casa, assim como luzes coloridas faziam-se presentes nas janelas — e espalhadas pelo interior da casa também.
Toda aquela luz e brilho espalhado pelos cômodos tornaria aquela casa uma espécie de paraíso para o Arthur, que logo seria recebido com amor e entusiasmo por Fernando e Marcelo. A expectativa de enfim conseguirem adotar uma criança era tão grande que a casa parecia ter ganhado vida.
No entanto, tudo deu errado mais uma vez.
Não foi exatamente uma novidade, afinal, o sistema de adoção é ineficiente; burocrático e muitas vezes injusto. E tudo torna-se ainda mais agravante quando o pedido de adoção é feito por um casal homossexual.
Quando receberam a notícia de que o Arthur não iria mais para a casa deles, eles nem chegaram a cogitar a ideia de iniciar uma discussão e alegar que aquele era provavelmente mais um caso de homofobia; estavam desolados, sequer tinham cabeça para questionar a decisão ou expelir a raiva para amenizar a frustração.
De que adiantaria, afinal?
A decoração natalina já não deixava mais a casa tão bela como antes e as luzes já não iluminavam mais nada. Tudo perdera o efeito; a magia. O esforço no processo de adoção e o empenho nos preparativos para um Natal memorável foram em vão: estava tudo lindo, porém superficial; vazio.
A casa estava novamente sem vida, e era assim que Fernando e Marcelo sentiam-se também.
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