Notas iniciais
Olá de novo! Outro capítulo curtinho, em tempo recorde, para compensar. Os ideogramas abaixo se referem a yuanfen - um conceito abordado ao longo do texto Agradecimento especial à Lira, por ter me ajudado com as ideias deste capítulo, e aos leitores - especialmente os que vêm comentando. Boa leitura!

— Dohko, estou atrasado. Vocês também. — Lebre da Lua entreolhou Shion. — Yuanfen.

O ferreiro não compreendia aquela palavra, mas comprovou o poder dela ao ver como Dohko rendeu grande parte de seu desespero depois de ouvi-la, como se num feitiço. Deveria ser algum código dos dois, um segredo compartilhado. Coisa de amantes, talvez.

Yuanfen. — repetiu Libra, decidido.

A percussão aumentou sua frequência quando belo ator atravessou as cortinas, arrancando uma cacofonia ensurdecedora de palmas e exclamações. Restaram os dois guerreiros de Atena e o espaço entre eles, o qual Shion tratou de encurtar com algumas passadas. Áries considerou bom sinal a permissividade à sua aproximação; estavam, então, cara a cara. O lemuriano pôde ler nos olhos de Dohko que, muito embora recém-chegado, adivinhava boa parte do que se passara naquela noite até sua chegada na Yutao. O moreno parecia disposto a enterrar-se de tanto embaraço, balbuciando em sua própria defesa:

— Desculpe por isso: por essa casa, pelos cavalheiros, por --

—Eu acho bom você se desculpar mesmo. — Shion torceu o rosto, azedo. — E me explicar tudo enquanto damos um jeito de sair daqui sem sermos vistos.

— Você não pode usar sua telecinese?

— Quer se arriscar a ser teletransportado para o meio da plateia? — rosnou o mais alto. — Dohko, eu estou...muito abalado com tudo isso! — exasperou-se, mãos fincado-se na cintura.

— OK, façamos do seu jeito! — agitou-se também o libriano, visivelmente nervoso. — Vamos esperar o fim do espetáculo. Yuan poderá nos ajudar!

— Não temos tempo! — ralhou Áries. — Sage pediu que eu o trouxesse de volta ao Santuário com urgência! Um gigante foi avistado pelos moradores de Rodório no dia em que você partiu, e agora há diversas cosmo-energias rondando o Santuário. O Patriarca crê que possam ser titãs, então...Sua folga está suspensa até que estejamos seguros outra vez.

— Isso é grave! — Dohko exclamou o óbvio, olhos arregalados.

— É claro que é! — o lemuriano sacudiu os braços, às raias de perder o resto da paciência. — Por isto, temos que retornar logo!

Libra, todavia, não cedeu.

— Sinto muito, Shion, mas precisamos esperar por Yuan. Não tenho permissão para andar livremente pela casa e Jin também se foi...

O ferreiro bufou, vencido, porém contrariado. Sentou-se no chão, pernas e braços cruzados, costas apoiadas num baú. Não via a hora de sair dali. Aquela viagem estava se convertendo num pesadelo. Viu de soslaio seu companheiro espiar pela fresta das cortinas, também impaciente, e deu-se conta do tamanho de sua própria estupidez. A vida inteira havia se doado para aquele desmiolado, e para quê? Para terminar ignorado em favor de um bando de garotos de programa, e ainda por cima perdido nos confins da China, como babá de adulto, procurando por Libra num cabaré.

Eis que o silêncio de suas divagações foi preenchido pela melodia doce de Mo Li Hua, uma canção popular de muito sucesso, cantada no falsete estridente de Yuan.

De repente, toda a frustração de Shion ganhava contornos de uma raiva mal-direcionada e perigosa. Geralmente, era Dohko quem assumia essa postura beligerante, e não ele. Os papéis invertidos ficaram claros quando o chinês, perdido entre culpa e vergonha, atreveu-se a sentar ao seu lado e tentar desfazer qualquer mal entendido.

— Shion, eu já disse desculpas. — insistiu, pedindo a atenção do ariano. Este teimosamente fixava o olhar numa parede. — Nunca imaginei que você fosse acabar se metendo nesse tipo de encrenca por minha causa.

Quando se encararam, após um movimento brusco do ariano, o chinês pôde experimentar, sobretudo, a mágoa de seu companheiro.

— Não é só sobre a confusão, Dohko. Esse lugar, essas pessoas... — desafinou. — Pensei que fôssemos amigos, mas hoje eu descobri que não sei nada sobre você.

O outro hesitou. Remexeu-se, esticando as pernas no chão e flexionando-as outra vez, ansioso. Ainda estava sufocado pelo susto de ter Shion invadindo seu território mais particular. O que era para ser uma folga agradável transformara-se num inferno; aquela era uma situação que seu imaginário seria incapaz de produzir nem nos piores pesadelos. Agora, sua vida íntima estava exposta e rendida ao julgamento de Áries. De todos os cavaleiros, logo ele havia sido enviado para testemunhar suas mentiras.

— Você entende que eu não podia falar sobre isso com ninguém? — ele tentou sensibilizar o ariano. — As pessoas não aprovariam a presença de um cavaleiro de ouro numa esbórnia como a Yutao...

O constrangimento era evidente. Entretanto, já que principiavam a colocar as cartas na mesa, Shion decidiu que iriam até o final.

— Por que esconder segredos de mim? — a insinuação foi certeira. Dohko juntou os joelhos contra o peito ao escutá-la. — Eu compreenderia.

— Não. Você não compreenderia. — foi a vez de Libra mirar a parede, sério.

Aquele gesto inflamou o lemuriano. Homossexual convicto, sabia — e muito bem — como era estar na pele de Dohko, mas os ciúmes o impediam de ser empático para com ele. Não tinha seu amor e agora enxergava distorcidamente que ele não lhe nutria nem mesmo confiança. A despeito dele próprio jamais ter confessado sua orientação, custava a aceitar que seu melhor amigo escondera aquilo de si durante tanto tempo.

E ainda havia aquela pessoa amada misteriosa, que até Lebre da Lua sabia quem era, e Shion não. Rememorar isto era como espetar agulhas em seu peito.

— Tem razão. Somente Lebre da Lua tem capacidade de compreender suas tragédias. Ele, sim, é um grande amigo. — quase cuspiu aquelas palavras ácidas. Começava a falar sem pensar. — Como eu, que convivo com você desde que saímos das fraldas, poderia compreender?

Dohko o encarou com perplexidade; não esperava uma reação tão temperamental. E Áries não parou por aí:

— Agora mesmo, eu não consigo entender como você pode se importar tanto com a opinião de cavalheiros. Olhe só para você: está todo arrumado...Para um bordel!

Libra lançou-lhe um olhar ferido.

— Pretende me humilhar, é isso? Pensei que fôssemos amigos! — parafraseou Áries.

— Você já tem amigos demais, Dohko. Uma pena que eles o abandonaram agora. — aquela era uma verdade que precisava ser esfregada na cara dele.

Indignado, Libra levantou-se com rigidez.

— Não dá para conversar com você nessas condições. — resmungou, punhos cerrados e trêmulos. — Está fora de si!

E marchou para o outro lado do salão. Por um segundo, Shion arrependeu-se de sua rispidez. Entretanto, tudo que seus lábios conseguiram disparar foi um sonoro:

— A culpa é sua!

Foi uma grande sorte que, neste momento, Yuan cantasse em coro com um membro da banda, sobrepondo qualquer ruído com suas notas agudas e altíssimas.

Sem responder, o moreno encostou-se a uma pilastra e tornou a fitar o teto, exatamente da maneira como Áries o tinha encontrado. Sentia-se insultado, mas sabia que era merecedor daquilo. Não havia como negar — era mesmo o culpado por seu próprio desmascaramento. Fora terrivelmente incauto ao nunca se precaver com o endereço e o contato que disponibilizava em suas solicitações de recesso. Havia sido ingênuo em acreditar que um cavaleiro pudesse gozar de férias no seu sentido mais pleno. As folgas eram uma cortesia da deusa, e passíveis de cancelamento a qualquer hora. Se ao menos houvesse tomado um cuidado maior, se tivesse escolhido uma referência que ainda existisse, talvez não estivesse voltando do culto taoista diretamente para deparar-se com Shion na Yutao. Não o veria junto de Yuan e de Jin, chocado e exasperado apenas por estar numa casa cheia de cavalheiros e...

Bem, na verdade, não parecia ser só isso.

Shion estava ressentido em demasia. Cobrou de si uma transparência impossível e demonstrou implicância com os xianggong— principalmente Lebre da Lua -, seus laços com eles e mesmo com sua maneira de vestir-se para visitar a casa. Era quase como se estivesse com ciúmes — mas ciúmes do quê? De sua amizade? Libra tinha muitos amigos no Santuário e isso jamais foi motivo de discórdia com Áries. Seria possível que...

Não. Estava fantasiando coisas. Esfregou a testa, consternado. Aquele era um território perigoso demais para especulações.

Do outro lado dos bastidores, Áries sentiu os olhos encherem-se de lágrimas outra vez e tratou de limpá-las depressa. Se continuasse daquela forma, em breve não teria mais nem o respeito dele. Reconhecia que estava sendo tolo em querer comandar o coração de outra pessoa — ter controle sobre a quem deveria confiar seus segredos e por quem se apaixonar. Mal conseguia capitanear o seu próprio coração, que moral tinha? Era injusto que disparasse sua infelicidade contra Lebre da Lua e até Dohko. Se fora estúpido o bastante para gostar de seu melhor amigo, isso não concernia a ninguém mais, além de si mesmo.

Não podia se descontrolar; tinha sido tão cauteloso por tanto tempo, e agora punha tudo a perder. Respirou fundo, olhando para o alto e piscando diversas vezes, a fim de abortar aquela choradeira inconveniente.

Recuperado, decidiu ser razoável e tentar uma reaproximação.

— Dohko. — chamou com a voz trêmula. — Eu fiz mal em ofendê-lo. Acho que estou surtando com tudo isso e -- É que é muito estranho para mim, entende?

Libra retraiu os ombros e virou-se, porém, sem se achegar. Com efeito, entendia o espanto dele e talvez até agisse da mesma maneira se suas posições estivessem trocadas. Contudo, guardaria tal ponto de vista para si. No momento, já devia retratações em demasia e pisava em ovos, tentando evitar expor Yuan excessivamente. Era melhor que contasse tudo somente quando aportassem na Grécia.

Ocorria que Áries parecia inclinado a obter respostas o mais rápido possível; e Dohko também não queria prolongar o mal-estar entre eles. Via-se sem opção e apavorado com a possibilidade de tomar uma atitude equivocada.

— Eu sei. Você deve estar com o pior tipo de impressão sobre mim depois de conhecer essa casa e Yuan. Mas eu preciso que confie em mim! — notou descrença no outro e, como a música alta tornava a conversa difícil à distância, rendeu-se e ajoelhou-se diante dele. Mãos desesperadas seguraram os ombros do lemuriano e o forçaram a fixar-se no que dizia. — Meu amigo, nada disso é o que parece! Eu não frequento esta casa por diversão, se é isso que pensa! Yuan é o único motivo pelo qual venho até aqui, e o que me interessa nele não são seus serviços. Por favor, acredite! Não estou fazendo nada de errado!

— É complicado confiar sem uma explicação convincente, Dohko. — o ferreiro titubeou antes de prosseguir. — E acho que você me interpretou mal. Não vejo nada de errado em homens que preferem outros homens.

Silêncio. Constrangimento. Mal sabiam, mas ambos palpitavam àquela declaração.

— É bom saber disso. — Libra soltou-lhe os ombros, como se, enfim, percebesse que o tocava. Então, usou de toda sua persuasão para postergar o inevitável. — Eu realmente gostaria de deixar os esclarecimentos para outra hora. Vamos fazer as pazes e sair daqui. Depois conversamos melhor. O que me diz?

O jeito como Áries o olhou deixava claro que não concordava. Estava decepcionado com a insistência dele em manter seu elo com a casa de espetáculos e Yuan um mistério. Acreditava que somente uma verdade escabrosa justificaria tal comportamento esquivo.

— Que segredo tão sagrado é esse que você e Lebre da Lua escondem a todo pano? — o ferreiro tornava à animosidade. — O que é yuanfen, afinal?

Das duas perguntas, Dohko respondeu a uma.

Yuanfen é um conceito religioso sobre uma força cármica, responsável por ditar as relações e encontros entre duas pessoas. Alguns dizem que é a energia acumulada de várias vidas passadas que determina esta afinidade predestinada. Os antigos contam que são necessárias centenas de renascimentos para que duas pessoas se sentem no mesmo barco e milhares de eras para levá-las a partilhar o mesmo travesseiro. Yuanfen é a linha tênue entre acaso e destino.

Shion sentiu a pele arrepiar, tal se realmente estivesse sob o sopro daquela força invisível. Em contrapartida, continuava injuriado com a proximidade entre Lebre da Lua e seu amado. Por que sussurravam sobre destino um para o outro?

— Parece o tipo de conexão entre você e Lebre da Lua: algo inexplicável. — ironizou.

Foi quando Dohko certificou-se dos ciúmes dele. Se, por um lado, soava adorável, por outro tecia para si um caminho sem alternativas — ou contava, ou jogava mais lenha para a crise. Àquela altura, recusava-se a brigar com Shion. Resignado, tomou uma decisão.

E hesitou longamente antes de entregar o que o lemuriano buscava:

— Shion, ele é meu irmão.

Notas finais
Finalmente, um capítulo autoexplicativo! Até a próxima parte dessa novela mexicana.