Luzes de Neon
21 e p í l o g o ☯
Três anos se passaram desde que eu e Lívia assumimos nosso relacionamento, e as coisas estão muito diferentes. Ela reclamou uma vez que eu tinha assumido a Jaque e nunca a levara pra conhecer de verdade meus amigos, e agora eu tinha certeza que a maioria deles gostava mais dela que de mim. Gab com certeza gostava.
No momento, eu estava provocando Ams, jogando floquinhos de isopor, desses que a gente usa pra embalar caixa de mudança, dentro do decote dela. Minha mira sempre foi uma coisa impressionante.
— Eu vou vomitar na sua cara, Benjamin!
Essa ameaça era comum agora. Amália tava gravidíssima, então sempre que eu fazia qualquer coisa que ela não gostava, ameaçava vomitar em mim. Lívia tava do meu lado e dava risada toda vez que ela o fazia.
Estávamos nos organizando pra devolver o apartamento, porque não fazia mais sentido morarmos juntos.
Caíque e Amália haviam se casado há alguns meses. Ela já tava super grávida, e eles ainda moravam com a gente enquanto a casa dos sonhos deles em Embu das Artes não ficava pronta, mas agora finalmente o pedreiro parou de enrolar o pai da Am e entregou as chaves: eles tavam morando numa puta de uma mansão.
E há algumas semanas eu tinha feito uma ceninha pra pedir pra Lívia morar comigo também, já que não fazia sentido pagarmos aluguel sendo que a nossa vida inteira se resumia a ficarmos juntos. Ela parou de ser velha e começou a pegar gosto de ir nas festas comigo (ou fingia muito bem que pegou gosto) e eu parei de fingir que não amava a rotina de skincare e novelas que tínhamos. Só faltava pararmos de pagar dois alugueis e reunirmos de vez as nossas coisinhas.
Quem não tava nada feliz com essa novidade era Arthur, que foi compulsoriamente convidado a se retirar do lugar em que morava e tomar as rédeas de própria vida: nunca foi escolha dele morar sozinho.
— Vocês vão me deixar. Não tô acreditando que vocês acham que eu tenho condição mental de me virar sozinho!
— Arthur, você tem 30 anos — Liv disse com toda a sua calma, e ele mostrou a língua pra ela — Muito maduro, parabéns.
— Tá vendo, Benjamin? — ele gritou, apontando o dedo na cara da Liv — Por isso que eu gostava mais da Jaque!
— Ah, vai pra puta que te pariu!
Em todos os momentos em que estavam juntos, Lívia e Arthur brigavam. Não que eu possa reclamar, já que fazia exatamente o mesmo com a Camila.
Camila me detestava, sabe-se lá porquê, mas eu a detestava de volta, só em nome da reciprocidade. Arthur pelo menos tinha uma razão para odiar a Liv, e ela retribuía porque ninguém aguenta ser maltratado.
No começo, Livinha foi muito resistente à minha oferta de sair do seu apartamento da rua Paim. Era pequeno, os vizinhos barulhentos, tinha uma escola de samba do lado, mas foi a casa dela desde que resolveu morar sozinha. Sem falar que o lugar pra onde a gente iria seria maior, mais caro e eu teria que arcar com boa parte das despesas, e a ideia de ser bancada por macho a deixava doida.
Sem falar na situação Moscow Mule — Charles Bronson.
Não que Charles oferecesse qualquer risco ao gato dela, muito pelo contrário. O que meu cachorro tinha de tamanho, lhe faltava em valentia. Porém, depois de muito apanhar do gato endemoniado (que eu amava) do amor da minha vida, os dois se resolveram também.
Na verdade, tudo, no fim, se resolveu. Ironicamente, Henrique começou a namorar Giovana, e aquela situação era nojenta, imoral e não falávamos sobre aquilo em hipótese nenhuma: a garota tinha conseguido jogar uma pá de cal no quarteto mesmo.
Barbara tava namorando uma menina tão louca quanto ela e em momento algum ameaçou me capar, porque parece que ela sabia que apesar de todas as vezes que eu errei, e que não foram poucas, e foram crassas, não foi por falta de amor, mas por falta de massa cinzenta.
— Sabe o que eu tava pensando? — soltou Liv, enquanto me ajudava a carregar o carro (que, a esta altura, não era mais o tesla. Devolvi no dia em que eu e Lívia voltamos)
— Que se a gente tivesse dado errado, você ainda teria dado pro seu gato o nome do drink que você bebeu no dia em que nos conhecemos e você lembraria de mim pra sempre quando olhasse pra ele?
— Não — ela ficou quieta por um momento, contemplando aquela informação — Porra, Benjamin, não! Mas que merda!
— Espero que a gente fique junto por pelo menos uns 15 anos. Gato de rua vive uns 20 e ele só tem 5.
— Não era isso! — resmungou, balançando a cabeça — Agora eu esqueci.
— Então era mentira.
— Não era não!
— Mentirosa.
— Vai cagar! — resmungou, entrando de volta no prédio e chamando o elevador na minha frente. Mas ainda assim, quando ele chegou, ela segurou a porta para que eu subisse junto com ela. Foi um silêncio constrangedor (já que a minha vontade era gargalhar na cara dela por conta da carinha de irritada) até o apartamento, e quando estávamos carregando uma nova caixa, ela deu um gritinho — Lembrei!
— Diga, meu favinho de mel.
— Você fudeu minha vida.
Fiquei em silêncio por um momento. Do nada essa agressão?
— Porra, Bennie, foi minha primeira balada solteira e você já grudou em mim!
Gargalhei.
— Você é ridícula.
— Você que é ridículo. Eu não tava pronta pra casar!
— Cê tá querendo me dizer que não quer casar comigo? — perguntei, quase ofendido — Que pena, então.
— Pena o quê?
— Abre a tua caixa.
— Ah Benjamin…
— Abre a tua caixa.
Ela me olhou muito assustada, e abriu a caixa.
Não tinha nada demais, era só uma caixa cheia de tênis.
— Filho da puta! — gritou e me estapeou — Que susto, garoto!
— Ainda não, meu bem. Ainda não.
Nós dois sabíamos que aquela era uma situação que muito em breve seria corrigida, já que as coisas estavam indo rápido demais. Mas a gente decidiu aproveitar cada passo, um de cada vez.
Agora pelo menos a gente transa, vive junto e tudo é de verdade.
Pela primeira vez em 28 anos, tudo que tô vivendo com uma mulher é de verdade.
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