Luzes de Neon
9 Gota d'água
O clima pesado na mesa após a saída dos dois foi inevitável. Benj puxou a cadeira para o meu lado e repousou a mão sobre meu colo, enquanto ouvíamos o sertanejo ruim do bar tocar e as conversas paralelas das outras mesas. Suspirei.
— Que climão gostoso, hein? Pedir uma champa pra comemorar, não? — soltou Ben, e não pude evitar uma risada — Desculpa, não aguentei.
— Relaxa, você tá certo. — suspirou Barb — Tô tentando entender essa ceninha ridícula.
— Acho que ela deu pra ele.
Camila soltou aquilo com uma naturalidade que fez Bárbara engasgar. Passou por uma crise de tosse e apertou meus dedos enquanto se recuperava. Aquilo me distraiu do que Camila havia dito, mas no momento em que ela tomou meia garrafa de cerveja para se recuperar, pude focar na nova informação.
— Cê acha? — sussurrei, tentando processar a possibilidade.
— É uma explicação plausível pro comportamento dela.
— Mas…
— Eu sei.
Barb afagou minha mão e suspirou.
Aquilo acabava com ela mais do que acabava comigo, eu tinha certeza. Barb sempre foi um tanque de guerra, capaz de passar por cima de qualquer coisa que pudesse me ferir. Abraçava minhas dores, tomava pra ela e queria me poupar de qualquer coisa ruim. Se ela pudesse, arrebentaria a cara de Henrique, e, no momento, sei que ela gostaria de arrebentar a de Giovanna só pela possibilidade dela ter feito essa cachorrada.
— A gente vai falar com ela.
— Eu não sei se quero ter essa confirmação, Barb.
Foi então que os sintomas começaram.
Um bolo se formou na garganta, fazendo minha voz ficar engraçada. As tremedeiras voltaram, nas mãos e me senti uma criança com os beicinhos tremelicando antes de abrir um berreiro.
— Ah não! — sussurrou Benj, beijando meu rosto todo — Eu sei que dizer isso é quase um incentivo pra você começar a chorar, mas não chora não, vai, meu bem.
— Tá tudo bem.
Mordi o lábio com tanta força que senti gosto de sangue, mas me apoiei no ombro de Benj e fechei os olhos por um minuto. Ele afagou meus cabelos e beijou minha testa.
— Quer dormir lá em casa? — sussurrou — Vai ser bom pra você. Cenário diferente, a gente vê um filme, você brinca com o Charles Bronson, vai ser bom pra você.
— Mas o Arthur não vai ficar brabo?
— O Arthur te adora.
— Quem é Arthur? Ele é rico que nem você?
— Camila, quanto você bebeu? — riu Barb — Pelo amor de Deus, mulher. Presta atenção no momento em que a gente se encontra.
— Qual é, a Liv já tem o príncipe de HB20 branco dela!
— Já falei que…
— Foda-se, irmão, é um carro de 50 mil reais!
— Foi presente — resmungou Benj — E aí, cê vem?
Apenas balancei positivamente a cabeça e encostei-a no ombro dele novamente, entrelaçando nossas mãos.
Eu amava as mãos de Benjamin.
Não eram muitas as coisas a respeito dele, ou de qualquer outra pessoa, que eu me permitia admitir que amava, mas eu tinha fascínio por suas mãos. Pelo formato, as tatuagens já desgastadas nos nós de cada dedo, por como ele conseguia segurar as minhas duas com uma só, sem nenhum esforço. Mas também por como ele entrelaçava as nossas, beijava cada nó dos meus dedos, depois depositava um beijinho na minha palma, e fazia tudo isso sem nem olhar pra mim, distraído com qualquer outra coisa que acontecia. E também por como ele sabia usá-las, fosse por razões sexuais, massagens realmente inofensivas, pra fazer aquele joguinho ridículo de tamborilar a faca na mesa, ou fazer malabarismo enquanto tentava arrumar a bagunça da minha gaveta de meias.
Suas mãos eram, facilmente, minha parte do corpo de Benjamin favoritas.
O álcool, e provavelmente a bad devido aos mais recentes acontecimentos, haviam batido, e eu já estava pronta para sinalizar a Benj que me levasse embora, quando Henrique voltou.
— Esqueceu o aperol, foi? — soltou Benj, com um sorriso presunçoso que fez Barb gargalhar. Não podia acreditar no quanto ela gostava dele. Mas Henrique continuava com faíscas nos olhos — Posso ajudar, brother?
— Liv, posso falar contigo?
— Tudo o que você for falar pra mim pode falar aqui. Já tô toda fudida mesmo.
Esta era a Lívia bêbada: eu me afundava na merda, o que significava que perdia qualquer filtro e vontade de ser educada. Sincera demais pra minha própria segurança.
— Eu fiz merda, Liv.
— Se fosse uma só tava bom, né Henrique. A gente terminou por muitos motivos.
— Não, eu fiz uma bem séria.
— Você comeu a Giovanna? — perguntou Cami, apontando uma batata em sua direção. Henrique mudou bruscamente de um rosado saudável de quem veio até nós correndo, para um pálido tom de Edward Mãos de Tesoura, como se todo o seu sangue houvesse sido drenado de canudinho — Comeu, né?
— Isso é muito simplista, Camila, as coisas não são…
— Meu Deus, você comeu mesmo — soltou Benj, chocado — Caralho, Liv, levanta daí, nós não vamos ouvir mais um segundo disso.
Enquanto ele me ajudava a levantar, Henrique tentou arrancar meu braço, e o que veio depois disso me deixou confusa: num movimento muito preciso, quase coreografado, Benj usou uma mão pra me jogar de lado e a outra para enfiar no meio da cara do meu ex, que caiu no chão.
Depois disso, como se não fosse nada, me pegou novamente pela cintura e beijou delicadamente minha testa. Antes que pudéssemos ir embora, ele se agachou na frente de Henrique e segurou seu rosto com a mão.
— Se você encostar nela de novo, eu mato você — sussurrou, antes de dar uma cabeçada nele.
E fomos embora, como se aquilo não tivesse sido nada. Benj abriu a porta do carro pra mim, colocou uma playlist que mesclava seus raps esquisitos e minhas bossas novas e afivelou o cinto. Suspirei, agradecida.
— Você é um anjo.
— Você merece ser tratada a pão de ló, Lívia.
Enquanto dirigia, percebi que Benj tremia um bocado. Esperei que as músicas o acalmassem gradativamente, e assim o som que preencheu o ambiente foi o do álbum All Eyez on Me, do Tupac, por um bom tempo.
— A gente se conhece desde os 12 anos. — soltei, de repente. Ele olhou pra mim pelo canto de olho e eu suspirei antes de prosseguir — Eu e a Gi, quero dizer.
— É bastante tempo.
— Ah sim. A Bárbara me levava pra passar as férias na casa de praia dela desde os 7 anos, mas foi com 11 que os pais dela compraram a de Niterói. A gente conheceu a Giovanna e a Camila no ano seguinte.
— Eu sinto que a Bárbara iria presa pra defender você.
— Ela iria mesmo.
— Muito me surpreende ela não ter dado um fim no Aperol.
— Ela se controla bastante pra isso.
Benj soltou um riso anasalado e tirou a minha mão do meu colo, beijando os nós dos meus dedos sem tirar os olhos da rua. Não demorou muito pra chegarmos em seu prédio, ridiculamente chique, em Pinheiros. Sorriu pro porteiro enquanto o mesmo abria o portão e entrou com o carro.
Na garagem, o carro de Benjamin era quase simples demais. Ele abriu a porta pra mim e olhei de relance a quantidade estapafúrdia de veículos internacionais que eu sequer sabia nomear.
— Meu vizinho pegou um Tesla — comentou, rindo.
— Coitado, é grave?
— É um carro, Liv.
— Ah, tá.
Ele não aguentou e riu da minha cara naquele momento. Me deu a mão para subirmos no elevador e enfiei a cabeça em seu peito assim que as portas fecharam. Quando a Siri do elevador nos avisou que havíamos chegado ao vigésimo segundo andar, saímos e ele abriu a porta.
— Ei, maluco — cumprimentou Arthur, animado — Não sabia que ia trazer visita, senão eu tinha vestido uma calça.
Arthur era o colega de quarto de Benj.
Acho que se fizessem outro live action do Scooby Doo, poderiam facilmente chamá-lo para interpretar o Salsicha. É aquele tipo adorável de jovem universitário que exala a pura essência canábica.
— Relaxa, a gente tá indo pro quarto já.
— Ih, rapaz, mas cês não transam não né? Num esquece da aposta, se eu fosse tu ia querer o Tesla do Matheus emprestado.
Por um momento, achei que fosse apenas uma piada inoportuna de um maconheiro, então ri pelo nariz e me aconcheguei no abraço de Benj, esperando uma resposta.
Mas o que obtive foi silêncio absoluto.
Senti o corpo de Benjamin se aquecer, as mãos começarem a tremer e seu silêncio eventualmente começou a me incomodar. Foi quando a sobriedade voltou pro meu corpo e eu entendi.
— Tá brincando comigo né — soltei, num sussurro.
— Liv, eu juro que as coisas não são tão sim…
— Cê me dá licença, Art, eu tenho que ir embora.
Me desvenciliei de Benjamin, completamente apática, e fui embora.
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