Luzes de Neon

7 Feijão de Caixinha


Na manhã seguinte, foi como acordar após um dia de malhação: tudo que não senti no dia anterior durante as quedas, veio em dobro. Cada milímetro da minha lombar havia sido comprometido no incidente no gelo, e eu simplesmente não conseguia colocar o pé no chão. Assim que tentei, gemi e voltei para a cama.

Era a desculpa que eu precisava para voltar à minha rotina de antes do furacão Benjamin invadir minha vida: eu iria bordar e ver novela, comer comida congelada e beber vinho direto da garrafa. Era tudo o que eu precisava.

Literalmente, me arrastei para a sala e liguei a TV. Enquanto ouvia a abertura da minha novela favorita, rumei à cozinha pra pegar uma xícara de café. Enquanto a cafeteira trabalhava, peguei o celular. Algumas mensagens das meninas, do grupo que eu, Mat e Ana havíamos criado para falar mal de todo mundo do escritório, e, ao contrário do nosso primeiro encontro, algumas de Benj. Comecei pelas dele, e eram áudios.

A sorte desse cara é que a voz dele era uma delícia.

Ei! — começou o áudio, animado — Cheguei em casa, espero que a senhorita já esteja bem e dormindo. Boa noite, sonha com os anjinhos. — este havia sido enviado poucos minutos depois dele ter saído daqui de casa ontem, e os seguintes, todos hoje de manhã. O celular deu play automaticamente — Seguinte, imagino que hoje você não vai poder sair de casa, e também não deveria ficar zanzando pra lá e pra cá. Se quiser, me avisa que eu passo o dia aí e te faço almoço. Se for demais, me avise também. Beijo.

Os áudios pararam e eu olhei a que horas ele havia enviado. Quer dizer, agora não eram nem 11 da manhã agora, meu Deus, e ele já havia acordado, e estava com a voz muito boa para quem havia gravado aquilo ainda grogue de sono e deitado na cama.

09h50.

Ele havia me deixado em casa depois da meia noite, havia chegado em casa lá pras 1h10, e, às 09h50, já estava animado a ponto de se oferecer pra vir aqui cuidar de mim. Eu não consegui responder a isso.

No grupo do pessoal do trabalho, eles claramente perguntavam sobre o date, e, inspirada por Benj, resolvi responder com áudio.

— Olha, o cara me levou pra patinar, eu tomei um rola, e por favor, não confundam com “tomei rola”, ele cuidou de mim e agora quer vir aqui em casa cuidar do meu pezinho, tá bom pra vocês? Vou inclusive encaminhar esse áudio a todos os amigos a quem possa esse assunto possa interessar.

Encerrando o áudio, mandei também para as meninas, e em seguida, percebi que o café já estava transbordando. Ao transitar de um lado para o outro da cozinha, tentando consertar a merda que acabara de fazer, percebi que realmente precisava de alguém que me cuidasse. Suspirei, derrotada, pegando o celular para respondê-lo.

— Tá bem, Benj. Eu acabei de perceber que talvez não consiga me virar sozinha com esse pé desse jeito, arrastando de um lado pro outro, e tô cansada demais pra discutir, tá? Pode trazer um almoço bem gordo de sábado. Pode vir, estrague meus planos de mulher solteira e solitária de passar o dia vendo séries e bebendo vinho.

Enviei e me sentei na bancada da cozinha. Claro, houve um leve eufemismo no que eu contei a ele. Achei que, talvez, seria demais dizer que eu bordaria e assistiria novelas. Uma coisa é demonstrar esse nível de deprimência para os meus amigos mais íntimos, mas pro cara com quem estou saindo a apenas dois encontros, achei exagerado.

Não demorou muito para que ele respondesse, novamente, em áudio.

Relaxa. Não se mexa. Fica na cama, no sofá, na rede, sei lá. Só põe o pezinho pra cima e quando eu chegar aí eu conserto sua cozinha. Eu sou o culpado dela estar fudida, né?

Não consegui evitar um sorrisinho e só respondi com uma figurinha de cachorro, cercado por corações. Ainda assim, teimei em consertar a cafeteira, que estava em estado deplorável na cozinha, e trocando de roupa. Em seguida, com muito pesar, tirei O Clone da televisão, fazendo carinho no rosto de Léo antes disso, e colocando um episódio qualquer de The Office para passar. Com certeza, soaria menos deprimente que a novela dos anos 2000.

Quando me estiquei no sofá, percebi que o celular vibrava. Era uma ligação de vídeo do grupo das garotas. Atendi, sabendo o que me aguardava.

— Que porra é essa, Lívia? Você tá namorando de novo, é isso?! — gritou Barb, assim que eu entrei na ligação.

— Não que eu saiba — respondi, franca, enquanto me espreguiçava no sofá.

— O cara tá indo praí? — perguntou Cami, revoltada — Mulher, não era pra casar de novo.

— Vocês pelo menos transaram? — resmungou Barb, entediada.

— Eu já falei que não! — gritei — Eu não vou dar explicações pra vocês, tá? Vocês me intimaram pra uma balada, eu fui. Me intimaram pra dar rolê com esse cara, eu dei. Vocês não acham que estão sendo um pouco exigentes demais querendo que eu saia dando pra qualquer pessoa depois de 10 anos de um relacionamento? Será que vocês conseguem respeitar um pouquinho o meu tempo?

Silêncio absoluto. Acho que elas finalmente entenderam meu ponto e o respeitavam. Uma a uma, encontraram motivos supérfluos pra desligar e me deixaram sozinha com meus pensamentos e com a voz de Michael Scott falando merda.

Após um ou dois episódios, eu estava quase adormecendo e muitíssimo tentada a voltar a bordar, porém o interfone tocou.

— Sim?

— O moço chegou, dona Lívia. Posso mandar subir?

Soltei um “Ahan” tentando soar despretensiosa e me arrastei novamente até o sofá.. Quando o elevador — mais estrondoso do que qualquer som emitido dentro de um prédio com menos de 40 anos — se abriu, ajeitei a postura, me preparando para recebê-lo.

Benj deu dois soquinhos na porta e eu, por instinto, berrei desafinada mandando-o entrar, e ele obedeceu de pronto. Jogou um monte de sacolas em cima da mesa e me encarou, arqueando a sobrancelha.

— É perigoso deixar a porta aberta, Lívia.

— Eu destranquei quando atendi ao interfone, Benjamin.

— E se o moço não fosse eu, Lívia?

— Daí infelizmente eu já estaria morta e estatelada no chão, Benjamin.

— Eu não vou mais discutir normas básicas de segurança com você — resmungou, se sentando ao meu lado e beijando minha testa — Bom dia.

— Bom dia — resmunguei de volta, empurrando-o com o ombro — E aí, o que trouxe pra gente?

— Eu vou te fazer um almoço brasileiro, adulto e reforçado.

— E como você pretende fazer… Isso é uma panela de arroz, Benjamin?

— Sim, eu passei na minha mãe pra pegar isso. O arroz já tá pronto, não se preocupe, não vou demorar.

— Você buscou arroz na casa da sua mãe?

Segurei o riso e ele percebeu. Felizmente, também deve ter percebido que não estava rindo por deboche, mas por incredulidade mesmo. Fez carinho no meu rosto e se levantou pra remexer as sacolas. Retirou uma caixinha de feijão pronto, e não pude evitar uma gargalhada.

— Eu não sei mexer na panela de pressão, tá? Mas eu tô tentando!

— Não tô te julgando!

— Tá sim! Eu vim aqui te fazer esse carinho e você fica rindo de mim.

Fez um beicinho e me arrastei até ele pra beijar o beicinho que ele fez. Em vez de ficar feliz, ele rosnou um “Você não pode fazer esforço” e me jogou sobre os ombros como se eu fosse um saco de batatas. Me debati e tentei dar uma chave de coxa nele, mas Benj me deitou no sofá antes que eu conseguisse.

— Você não vai me seduzir desse jeito — sussurrou, debruçando-se por cima de mim no sofá. Afaguei seu rosto e entrelacei as pernas em suas costas — Liv, eu vou fazer teu almoço.

— Você é insuportável.

— Eu tô tentando fazer a coisa certa.

Assenti, dando um beijo na ponta do nariz dele e me sentei em posição de indiozinho no sofá, aguardando. De repente, lá estava ele, dominando minha cozinha como se fosse dele. Colocou a playlist ridícula de rap dele, e cantava enquanto refogava o alho.

— Eu vou temperar esse feijão, fica tranquila.

— Eu não falei nada.

— Sua cara já fala por você.

— Você tá muito na defensiva.

Benj deu os ombros e continuou em seu processo criativo na cozinha. Dois episódios de The Office depois, jogou uma bandeja no meu colo. Não pude evitar um sorriso.

O bife estava esturricado e claramente o alho havia sido carbonizado durante o refogado, mas o olhar de expectativa dele não me permitiu fazer uma crítica sequer. Respirei fundo, tomando coragem pra enfiar a primeira garfada na boca.

Milagrosamente, estava comível.

— Tá uma delícia! — gritei, exasperada.

— Você está exagerando pra me deixar feliz, mas eu vou aceitar. Se você comer tudo, tem sorvete de sobremesa.

Durante toda a tarde, Benj ficou ali do meu lado, me fazendo companhia. Assistimos The Office, tomamos sorvete e ele passou salonpas no meu pé ruim.

Parte de mim estava extremamente desgostosa pelo fato de, aparentemente, o cara ter 0 atração sexual, mas, de todo modo, todo aquele cuidado fez com que, no momento em que ele fosse embora, meu coração se mantivesse tão quentinho quanto o adesivo no meu pé.