Luzes de Neon

8 Espírito do Natal Passado


Após o incidente no gelo, eu e Benjamin viramos praticamente um casal de meia idade. Já estávamos juntos há mais de um mês, ele havia me ajudado a adotar um gato e fazíamos de tudo juntos: cinema, teatro, boliche (descobri uma verdadeira vocação, o que muito o irritava, já que ele era terrivelmente competitivo), jogos de tabuleiro e até O Clone ele havia terminado de ver junto comigo.

Era uma sexta-feira à noite, e resolvemos sair cada um com os próprios amigos. Estava no bar com as meninas, e após 4 ou 5 long necks, eu já falava enrolado.

— E aí, Lívia — soltou Cami, enfiando uma batata rústica inteira na boca e não se fazendo de rogada antes de voltar a falar antes de engolir — Como estão as coisas com o boy?

— Bem — respondi, e era sincero. Estávamos muito bem, obrigada, do nosso jeitinho — Ele é uma gracinha.

— Já transaram?

— Mais ou menos.

— Lá vem… — suspirou, suspirando e apoiando o rosto na mão — Como assim mais ou menos, Lívia?

— O que vocês consideram…

— Lívia, pelo amor de Deus.

— Não teve penetração! — soltei alto demais. O bar inteiro virou pra gente e eu dei os ombros, desinteressada — Ah, gente, é superestimado, vai!

— Lívia, qual a explicação plausível pra não haver penetração? — perguntou Barb, pacientemente, segurando minha mão — Vamos lá, abre seu coração.

— Sei lá, viado — resmunguei, honestamente — A gente só não faz. Eu nunca pedi, achei estranho ele não querer, mas deixei pra lá. Estamos bem como estamos, sabe? No fim das contas já tive mais orgasmos com ele do que com…

— Henrique — sussurrou Gi, me dando um beliscão.

Estava me preparando para xingá-la quando percebi seu olhar estupefato. Encostei a cabeça em seu ombro para olhar na mesma direção e quase caí pra trás.

Lá estava ele, 6 meses após a última vez que o vi, episódio este em que ele estava ótimo, levando nos braços todos os seus pertences e me deixando sem nada. Nem autoestima, fritadeira elétrica, ou um motivo pra levantar na cama.

Minha primeira vontade foi me enfiar debaixo da mesa, mas firmei os pés no chão e respirei fundo. Tentei levantar a garrafa de cerveja para tomar um gole, mas tremia tanto que tive certeza que a derrubaria no chão. Abaixei a cabeça por um momento.

— Acho que ele não viu a gente — sussurrou Barb, segurando minhas duas mãos e beijando os nós dos meus dedos — Fica tranq…

— Liv?

Merda.

— Ei — respondi, e abri um sorriso.

Me impressionei com a minha capacidade de disfarçar o quanto aquilo me destruiu. Henrique repetiu minha gentileza, sorrindo enquanto vinha nos cumprimentar, e ao chegar à mesa, beijou minha bochecha.

— Como você tá? — perguntou, animado.

— Estamos esperando o namorado dela — respondeu Barb, animada — E você, como tá?

— Ah. Oi, Bárbara.

Eles nunca se deram bem.

Estive com Henrique durante dez anos, e, para ser justa, durante os três primeiros, nós éramos inseparáveis. Depois disso, após o fim do ensino médio, ele começou a ter muito ciúme de tudo que dizia respeito a minha faculdade, trabalho e todas as questões que permeiam uma vida da qual ele não fazia parte, e a partir daí, foi travada uma batalha silenciosa e passivo-agressiva entre os dois. Hoje eu dou total razão a ela. Afinal, quem poderia culpá-la?

— Oi! — respondeu, sonsa, abrindo um sorriso bem grande e tirando meu celular da bolsa — Olha, esse é o Benj.

Coincidentemente, na noite anterior, tínhamos tirado uma foto muito bonitinha fazendo argila facial — tínhamos dessa agora, tínhamos um dia de spa semanal há 4 semanas, ritual que seguíamos à risca enquanto víamos nossa novela.- e ele gostou tanto que achou uma boa ideia colocar como tela de bloqueio do meu celular e do dele.

Pude ver a decepção nos olhos de Henrique. Ele abriu a boca, mas desistiu do que ia falar. Em seguida, chegou uma mensagem de Benj no Whatsapp. Também coincidentemente, há pouco tempo ele mesmo havia trocado meu contato para Boo.

— Boo? — perguntou Barb, rindo — Sério, Liv? E o Henrique foi “Quique” a vida toda?

— Boo é bonitinho né? — não consegui evitar um sorrisinho — E ele colocou meu contato com Doll.

— Vocês são nojentos.

— E você, Quique, tá bem? — perguntei, mudando de assunto. Agora que ele estava na pior, pude voltar os olhares a ele.

— Bem — respondeu, olhando para baixo. Eu o conhecia bem demais para saber quando mentia — Dando um tempo de namoro. Vim encontrar os moleques.

— Massa. Seus amigos são tão pau no cu quanto você — soltou Gi, e não consegui evitar um riso e um olhar arregalado em sua direção — Que foi, gente? E é mentira?

— Eles ficaram muito felizes que a gente terminou.

— Ah, a gente também. Demos até uma festa. Bolo confeitado e tudo — respondeu Barb, arrogante. Pior que teve bolo mesmo. “Parabéns pelo descarrego”, em letras douradas num bolo púrpura.

Enquanto eles continuavam a discussão, abri a conversa pra ver o que Benj tinha a dizer.

Boo: tô com sdd

Mandou uma figurinha do Bob Esponja na sarjeta e não pude evitar dar risada. Resumi a situação atual em poucas mensagens, para não perder o foco do que estava havendo em minha frente (uma figurinha do plantão da globo seguida por mensagens escritas de qualquer jeito: meu ex tá aqui — SOS — Barb vai descer o cacete nele), e Benj rapidamente respondeu: me manda a localização que tô indo praí.

— Boo tá vindo pra cá. — sussurrei pra Barb enquanto Giovanna e Henrique trocavam farpas.

— Tá me zoando.

— Queria estar.

— Olha, Lívia, há muito tempo não fico tão animada pra ver um namorado seu.

Não sei exatamente o que levou Henrique a passar tanto tempo na nossa mesa, mas ou os amigos dele não deram por falta dessa peça primordial do bonde, ou era tudo uma fachada e ele tinha um encontro e levou um bolo. Mas durante os vinte minutos subsequentes à mensagem de Benjamin, ele continuou ali. Até mesmo puxou uma cadeira e pediu para que servissem seu aperol ali mesmo.

Henrique tinha dessas, aliás. Não bebia cerveja de jeito nenhum, e sempre pedia Aperol Spritz. Era insuportável sair com ele em grupo.

Estávamos justamente falando dessa falta de tino para ir ao bar de Henrique quando Benjamin chegou, mais lindo do que nunca.

Ele me contara que iria para uma dessas baladas de luz negra onde as pessoas se pintam, então seu rosto estava coberto por pontinhos rosa e verde neons, muitíssimo bem delineados. Provavelmente alguma promoter viu nele uma possibilidade de fazer boas fotos e investiu numa maquiadora só pro boy. A camiseta branca também estava salpicada de gotinhas de tinta, e o cabelo úmido de suor. Ele gostava muito de dançar.

E provavelmente veio correndo até aqui.

— Desculpa a demora, bebê, demorei pra estacionar.

— Tá me zoando que você veio de carro, Benjamin.

— Eu não bebi. Não me chama de Benjamin. Vim de carro porque você já já tá caindo de bêbada e não vou te enfiar num uber pra voltar pra casa. Meu beijo?

Pela visão periférica, pude ver o olhar de descontentamento de Henrique. Segurei o rosto de Benj com uma mão e beijei a ponta de seu nariz. Ele sorriu, girando a cadeira que estava ao meu lado — e apenas sorriu pro pessoal da mesa para pedir permissão para fazê-lo — e colocou-a com as costas viradas para mim, sentando-se com as pernas abertas e me abraçando com um braço só. O outro, utilizou para estender e dar a mão a Henrique.

— Você é o famosíssimo.

— Ãhn?

— Bodas de Zinco!

Barb não aguentou sua própria tentativa de conter o riso, e engasgou com a bebida. Ela não conseguia suportar a facilidade de Benj pra dar apelidos engraçados para as pessoas. Quando contei a ele de Henrique, ele começou a chamá-lo por muitos nomes. A maioria não era nem um pouco gentil — e houve um período até em que ele o chamou de Said, o marido abusivo de Jade em O Clone -, mas a maneira favorita dele se referir ao meu ex era por Bodas de Zinco, ou de Estanho, que significavam 10 anos de compromisso.

— Bodas de…

— O ex dela — abriu um sorriso largo — Prazer. Eu sou o Benj.

— Boo.

— Ah, é. Boo. A gente tá nessa fase de apelidinho baitola, tá ligado?

Ele de repente parecia muito mais másculo do que fez questão de demonstrar durante todo o mês em que estávamos saindo com frequência. Nem parecia o cara que via novela enquanto compartilhava uma garrafa de vinho e fazia argila comigo.

— Tô… Ligado.

— Isso aí é aperol? Cacete, ela detesta o cheiro disso aí.

O pior é que era verdade.

Não sei pela quantidade insuportável de vezes em que carreguei Henrique pra casa e ele desmaiou após 6 taças de aperol no bar, mas eu havia pego irca até do cheiro do drink. Uma vez, Benj pediu num restaurante, e não consegui beijá-lo antes que mastigasse todo o seu pacote de tridents verdes e cada um dos chicletes perdesse o gosto.

— Você nunca me disse que…

— Como ela podia dizer que a única coisa que você bebe faz ela querer vomitar? — gritou Gi.

Por algum motivo, ela estava muito revoltada com a presença dele ali. Mais do que deveria. Mais até do que Barb, que, na verdade, se divertia muito com toda a situação. Benj e Barb, aliás, se entreolharam.

— Algum problema? — perguntou “Boo”, entrelaçando a mão na minha e beijando o nó de cada um dos meus dedos. Ele amava fazer isso, e eu achava aquele o gesto mais carinhoso que alguém já tivera comigo.

— Eu não aguento mais ficar um segundo aqui.

Jogou umas notas em cima da mesa, pegou a bolsa e foi embora. Todos nós nos encaramos, sem entender nada.

Exceto Henrique, que correu atrás dela instantes depois.