Notas iniciais
Obrigada aos que lerem. ^^ Mesmo essa sendo apenas uma fic bobinha, que só me veio à cabeça por ser Halloween, eu ainda gosto dela. >D

- Doces ou travessuras?

- Ah... – Remington sorriu daquele modo paternal. Achou graça dos dois pequenos ali, a sua porta, com duas abóboras (de verdade) esperando por doces. – Podem entrar enquanto eu procuro algo.

Chrno e Rosette pediram licença e atravessaram a porta da casa do Padre. Era a primeira vez que a visitavam, o que deixava a garota em êxtase. Conhecer um pouco mais do amado era realmente uma oportunidade única. O demônio, por outro lado, sentia-se incomodado, cerimonioso. Remington era uma presença misteriosa para ele, parecia sempre esconder tantos segredos e encarar os dois militia de uma forma inesperada. Só estava ali porque Rosette obrigara-o.

Sentaram-se num sofá à beira da janela. Era noite, a Lua pendia no céu, e as poucas nuvens moviam-se como se fizessem parte de um móbile celeste. A vista da sala do Padre era incrivelmente bela, assim como todo o cômodo. A parede que dava para a cidade era toda envidraçada, e as poucas luzes espalhadas faziam Chrno lembrar-se daquela cena com Magdalene. Pequenas lamparinas cheias de vida e felicidade.

- Você tá quieto, Chrno. Que que houve? – Rosette retirara seu hábito por aquela noite e punha um vestido roxo, muitíssimo bonito, com um “chapéu de bruxa” (Satella ficava furiosa com aquelas nomenclaturas) pontudo e preto. Os cabelos loiros estavam soltos pelos ombros e a franjinha cobria parte de seus olhos. Chrno tinha certeza que estava assim bonita porque a visita de hoje era especial.

- Nada, não. É estranho esse negócio de Halloween. As pessoas se fantasiam de demônios, bruxas, fantasmas... E algumas delas nem sabem que alguns desses seres existem de verdade.

- E não é melhor assim? – Remington surgira à porta da sala, que se ligava ao restante da casa, vestindo uma camisa social clara para fora da calça preta. Rosette prendeu a respiração ao vê-lo assim, excepcionalmente bonito (já o era usando aquelas roupas de militia), e Chrno ria da amiga. – Sem dúvida, é muito mais divertido aproveitar a data sem saber de nada. Vocês dois deviam relaxar também.

- Padre... Vai sair? – Rosette tinha a voz baixa e obviamente envergonhada. E teve de se segurar para não continuar a frase com um “já que está tão bonito...”.

- Estava pensando nisso. É uma data especial, temos que aproveitar essas escapadas.

Os pensamentos imediatamente foram para “será que há uma mulher?”. Rosette sentiu a frustração dentro de si, mas se controlou. O olhar do Padre era brincalhão e um pouco maldoso, embora a garota não pudesse perceber. Ele estava estranho naquele dia. Talvez fosse o trabalho que o estivesse estressando. Quem sabe.

- Vampiro, Chrno? – Remington deu uma risada divertida, vendo as roupas do garoto. Mesmo no apartamento escuro, onde apenas duas lamparinas ao interior da casa iluminavam o ambiente, dava para ver a longa capa preta e vermelha, as presas artificiais e o sangue falso escorrendo por seus lábios. Até mesmo Chrno riu.

- É... A Rosette fez questão que eu fosse alguma coisa...

- Mas eu ainda acho que seria mais legal se eu soltasse o selo por um instantinho só e você ficasse na sua forma original! – Rosette brincou, provocando-o.

- Não inventa, Rosette! Nem brinca com isso! – Chrno ralhou, àquele estilo de mandão, mesmo com aparência de criança. Remington relembrou-se daquela forma, a qual ele conhecera há vários anos, quando o vira pela primeira vez. Aquela forma imponente e poderosa. Ao contrário do garotinho vulnerável a sua frente, que brigava com sua pactuante de modo teimoso.

O Padre suspirou e entregou-lhes os doces: chocolates, marias-moles, balinhas e pirulitos. Era inacreditável que o militia tivesse tantos doces, teria-os comprado exatamente para o Dia das Bruxas? “É mesmo um homem impressionante e gentil...”, Rosette pensava. Agradeceu imensamente e preparou-se para ir embora.

- Vamos, Chrno.

- Espere. – O Padre chamou, com sua voz calma e adulta. – Eu preciso dar uma palavrinha com o Chrno, e acho que ele também precisa... conversar algo comigo.

- Ah... Tudo bem... Rosette, é melhor você esperar no carro, é um assunto meio longo. Pode ser, Padre?

Tanto a garota quanto Remington fizeram que sim, e então Rosette saiu pela porta despedindo-se brevemente de seu querido. Ele estava estranho, preferia não atrapalhar. Devia estar ansioso para encontrar-se com a mulher que fosse. Aquilo lhe doía o coração, saber que a diferença de idades proibia qualquer reciprocidade de sentimentos. Mas tudo bem. Com certeza, havia problemas maiores. Não devia preocupar-se com um amor não correspondido, quando seu irmão estava nas mãos de um vilão como Aion.

- E então, Padre? O que quer falar comigo? – Era hilário ver o vampirinho falando sério com aquela fantasia tosca. Remington sempre tinha que se segurar com aquele garoto. Tanto o riso, quanto os sentimentos de muito tempo atrás. Mesmo naquela noite, tentaria fazer o mesmo.

- Você primeiro. Não tenho pressa.

Chrno respirou para se acalmar, afinal, era um assunto sério. E não havia outra pessoa a procurar se não Ewan Remington.

- Não sei bem como começar...

- Porque não se senta e toma um chá? Relaxe, antes de tudo.

- Mas Rosette...

- Rosette está bem, lá no carro. Ela estava com cara de sono, deixe-a lá. Já está tarde, e ela sempre dormiu fácil. Relaxe, Chrno. – Remington insistiu, com aquela voz cheia de compreensão e persuasão. Não que o demônio estivesse convencido, mas ele não queria arranjar problemas com o Padre. Melhor obedecer.

Dali a pouco, Remington oferecia-lhe um chá preto delicioso, e os dois tomavam juntos virados para as luzes da cidade. Por algum motivo, aquela cena lembrava Chrno de seus momentos com Aion. Os dois calmos, sem pronunciar palavras, pensando nas vitórias. O pecador odiava ter de admitir, mas havia momentos em que se dera bem com o outro demônio. E a cena parecia repetir-se com o Padre.

- É lindo, não é?

- Demais.

Remington virou-se para Chrno e ficou olhando-o, o que deixou o outro muitíssimo vermelho. A cafeína do chá tirava todo o cansaço das últimas semanas que Chrno havia sentido, transformando-se em bem estar. Virou o rosto também para Remington e arranjou coragem para começar o assunto.

- Padre... Eu vi. Seu corpo.

Uma confissão e tanto. Remington foi pego de surpresa, perguntando-se como e se Rosette também sabia. Então, o pequeno demônio descobrira seu segredo.

- O que você fez...? – Havia... preocupação em seu olhar? Por essa, o Padre não esperava. Sabia muito bem que seu corpo era um perigo para si próprio, que as Legion espalhadas por seus membros eram sua salvação na batalha, mas que também viriam a ser sua morte se perdessem o controle.

- Eu luto tanto para me tornar um humano... Para parar de consumir Rosette cada vez mais... E você... Cada vez mais próximo de nós! Com essas Legion misturadas às células, enfiando-se em tanto risco... – Chrno parecia ligeiramente desconcertado. – É isso mesmo, não é, Padre?

Os dedos habilidosos do loiro subiram-lhe até o colarinho e ele abriu uns poucos botões de sua camisa social. Ali estava a resposta. Cicatrizes, estampas da dor e do ódio, pedaços da matéria demoníaca preenchendo-lhe os vazios orgânicos. Chrno pôs as mãos na boca. Embora só enxergasse o tórax de Remington, tinha certeza de que aquela triste situação dominava todo seu corpo. Doía-lhe saber que aquela era a sentença de morte do bondoso padre. Por mais que, muitas vezes, aquele homem lhe parecesse manipulador e desprezasse um pouco os sentimentos de Rosette, não podia deixar de compadecer-se.

- Todos nós estamos com os dias contados, Chrno. Não é comigo que você tem de se preocupar, já que eu tomei essa decisão consciente dos riscos.

- Consciente de que isso também é um pecado?

O silêncio permaneceu. Chrno também estava estranho naquela noite, meio descontrolado, e Remington achou que a cafeína fora demais para o pequeno. É, um militia convertendo-se espontaneamente em demônio. Aquilo era um pecado e tanto.

- Imaginou que você pode ser taxado por seus iguais de “pecador”, e então perseguido até o fim de seus dias por aqueles que são... seus semelhantes?

A voz estava carregada de sofrimento. Aquele demoniozinho também tinha sentimentos, e que pelo visto estavam confusos até demais no momento. Ele não sabia bem o que falar ou o que fazer. Talvez ele sequer se importasse com o que Remington sentia ou sentiria, talvez ele só não quisesse... ver a cena se repetir. A dor de ver tudo acontecer de novo e não evitar aquele destino.

- Não é com isso que eu tenho que me preocupar.

- Não? Então com o que você tem que se preocupar? Nada dói mais que ser obrigado a matar seus iguais!

- Não me é importante a partir do momento que eu faço tudo pensando em proteger alguém. Existem pessoas que sempre vão nos compreender. Por mais pecados que eu cometa, mesmo que eu vá para o inferno, Chrno. Você sabe bem disso. E além do mais...

Remington não continuou a frase. Agora os dois estavam de pé, as sombras formavam-se ao chão graças às luzes da cidade. Encaravam-se com toda a força que tinham. Chrno sentia como se houvesse falado mais do que deveria, porém o Padre não o culpava. Ele descobrira sem querer. Aquele era o preço que pagava por seu descuido, e por todos os seus erros.

- Me... desculpe...

Ewan suspirou. Estava fraco, aquele chá não mais fazia efeito depois de tantos anos a consumi-lo. Aquele selo de seus sentimentos, aquela sanidade em forma de bebida. Aproximou-se vagarosamente de Chrno, olhando o demônio nos olhos. Magdalene estampava-se neles. Remington sentiu seus lábios vacilarem, num momento breve de fraqueza.

- Não há pelo que se desculpar... Afinal, eu já sou um pecador desde muito antes disso...

Uma de suas mãos encostou no ombro pequeno de Chrno. A diferença de alturas era absurda, a de forças também. Ewan puxou-o e, inesperadamente, deu um abraço fajuto, junto de uns tapinhas leves no ombro do garoto.

Ele era um pecador desde o dia em que o vira, com a Santa nos braços. Desde o dia em que desejara de qualquer maneira chegar aos seus pés – aos pés de um demônio. Desde o dia em que almejara entender Magdalene como aquele ser fazia, quisera sua força e capacidades. Aquele pacto que Remington fizera consigo mesmo era, por si só, um dos maiores pecados que um humano poderia cometer.

Chrno não sabia muito bem o que fazer. Não entendia. Que abraço discreto e terno era aquele? Sentia-se como se tocasse em um próprio apóstolo, um santo, um ser sagrado. Aqueles cabelos loiros lembraram-no de Magdalene. Uma lágrima discreta escorreu-lhe pela bochecha.

- Você é um homem forte, Padre.

- Obrigado, Chrno.

- O que você queria falar comigo?

- Nada que não possa esperar mais um pouco.

Uma gota de gratidão também escorreu pelo rosto de Ewan, molhando de leve os ombros do outro pecador. Era o suficiente para transformar aquela Noite das Bruxas numa doce lembrança, o necessário para converter aquele pequeno demônio em seu anjo particular.

Notas finais
Reviews? Obrigada, amores mios!

Ps.: Quaisquer erros, avisem-me. Revisei-a algumas vezes, porém a fiz com pressa, para que desse tempo de postá-la ainda hoje... Senão perdia a graça ¬¬

Obrigada! *-*
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!