Luz da Escuridão

14 Lagrimas de verão


Respirar era difícil. Até onde posso me lembrar a última vez que vi a luz do sol foi no dia em que Cedrico morreu, pois com ele morreu a alegria do dia. Esse foi o verão mais chuvoso em décadas. Dentro de mim eu sabia que ele odiaria me ver assim, sabia que me arrastaria para um jardim, mas eu não conseguia. Já não me restavam lagrimas para chorar. Doía demais. Falar doía. Respirar doía. Abrir os olhos doai e sorrir já não era mais possível.

Todos os dias minha melhor amiga vinha até meu quarto com uma enorme bandeja de comida que alimentaria um abrigo de refugiados inteiro. Com ela sua elfo adorável e agora liberta trabalhando por um salário. Marj me ajudava com o banho, passando delicadamente um pano macio de algodão com aroma de folha de outono enquanto Free selecionava duas opções de roupas, um novo e limpo pijama caso eu optasse por voltar para a cama ou um vestido de verão e sapatilhas.

Eu sabia que dia era hoje, sabia que era o tempo limite para comprar meu material para o quinto ano, provavelmente se eu não o fizesse a mãe de Free o faria mesmo sem saber se eu voltaria a escola. Eu devia decidir. Eu sabia o que ele gostaria, da mesma forma que sabia o que enfrentaria dali para a frente.

— Senhorita... – Marj sussurra delicadamente me tirando de meus devaneios.

Saio da banheira me enrolando em um roupão felpudo e vou em direção a penteadeira onde a elfo já me espera ao lado de Free com uma escova nas mãos. Marj penteia meu cabelo enquanto Freya tenta me informar sobre pequenos acontecimentos do dia anterior. Presa ao espelho da minha penteadeira observo uma foto de Cedrico. Ele sorri e cora diante da câmera, arruma o cabelo e eu chego ao seu lado bagunçando-o novamente.

— Ayla, mais uma carta chegou da sua irmã. Ela quer saber se você decidiu ir, não é?

Faço que sim com a cabeça e seguro sua mão. Free me entende de imediato e se retira ao lado de Marj. Gipsy bica a janela retornando da caça atrasado. Abro as cortinas e pela primeira vez em meses observo a luz do sol. É quente, reconfortante. É como o abraço do meu melhor amigo. Abro a janela e a brisa do verão Londrino me atinge, é vivo, enérgico. Gipsy tem algo em suas garrar, uma pequena caixa verde com um laço prateado. Pego a caixa e dentro dela encontro uma flor, minha flor preferida, uma tulipa branca. Junto a tulipa a um pedaço de pergaminho rasgado com apenas uma pequena frase.

“ Ó beleza! Onde está tua verdade?”

Era obvio que eu conhecia aquela frase, havia estudado Shakespeare na escola trouxa. Eu a havia dito uma vez a Cedrico, ao esbarrar com ele nos corredores, antes mesmo de nos tornarmos amigos. Cedrico nunca soube me responder sua verdade, eu mesma não o sabia fazer. Acariciei Gipsy e o deixei entrar. Respirei fundo e decidi encarar o mundo, eu devia a ele, devia a Cedrico descobrir minha verdade.

—

Os degraus da escada pareceram triplicar. Tornando-se centenas. Podia ouvir os passos apressados da mãe de Freya e a própria colocando os sapatos. O vestido de algodão branco com uma fita de cetim preta se tornava apertado conforme eu me aproximava deles. Tornou-se impossível de respirar quando eles me encararam tenebrosos.

— Peço desculpas pela forma que me comportei nos últimos meses. Vocês tão docemente me acolheram e eu... bem, não fui uma hospede muito simpática. – disse encarando-os.

— Não diga bobagens minha doce menina. Não é hospede, é família. E você se comportou como qualquer um faria nessa situação, sei o que é perder um amigo muito querido, leva tempo. Estamos aqui para você. – disse o pai de Ayla.

— Você vem conosco para o Beco Diagonal? – perguntou Free.

— Sim. – respondi a abraçando – Você é a melhor amiga que eu poderia ter.

—

O Beco Diagonal está diferente esse ano. As pessoas se encaram, não se confia em ninguém não conhecido. Quem é ele? Quem apoia? A quem responde? Essa sensação se espalha. Fazemos a maioria de nossas compras rapidamente, ficam por fim as roupas. Free e eu decidimos ir sozinha nessa, tenho a impressão de que ela está esperando que eu desabe a qualquer momento.

A loja está vazia, exceto por uma única pessoa que está no provador. O vendedor nos da um sinal de que nos atenderá em segundos. Free vasculha os tecidos enquanto eu me sendo próxima a um abajur e uma estante de livros empoeirado. Sussurros vem do provador. A voz de Free se torna clara, ela solta uma provocação e logo é interrompida por outra voz conhecida que diz estar se retirando. Ignoro focando a atenção a prateleira empoeirada.

— Você está sentada em meu casaco. – Fala a voz conhecida parada a minha frente.

— Desculpa. Não percebi. – digo levantando e me afastando sem encara-lo.

— Será... – ele começa e se interrompe – te vejo em Hogwarts sangue-ruim. – Fala amargamente e caminha até o vendedor, dando a ele o dinheiro pelas roupas.

— Você está bem? – Free brota ao meu lado – Aquele idiota disse algo?

— Não. Nada além do comum. – digo acalmando-a – Free, tenho que te contar algo, algo que eu havia completamente esquecido com o que... bem... com tudo que aconteceu.

— E o que é?

— Draco me beijou naquele dia. Não entendo porque faz isso comigo, se me acha tão repugnante, porque me beija do nada desse jeito, o que sou para ele? Uma prostituta? Pior que isso?

— Draco é complicado Ayla, não gaste suas forças pensando nisso.

— Você está evitando uma possibilidade de gritar com ele?

— Eu só estou dizendo para se preocupar com você, pouco me importa Draco.

O vendedor chega com uma caixa verde e prateada para nós, como a que recebi pela manhã, porém bem maior.

— Senhorita Blacklight, isso foi escolhido para você algumas semanas atrás. – o homem fala me entregando a caixa.

— Por quem? – Pergunta Free antes de mim – Essa caixa não é igual a que você recebeu hoje pela manhã?

— Sim. O senhor pode me informar quem a deixou para mim.

— Lamento senhorita, o cavaleiro pediu confidencialidade.

Abro a caixa encontrando um lindo vestido verde esmeralda que me deixa extasiada. O corpete era comporto por uma pedraria de diamantes em com pequenos pontos de luz verde vindos das esmeraldas. Deveria ter custado uma fortuna. A saia era longa e cheia de um verde magnifico toda em seda. Eu tinha um admirador.

P.O.V Autora

Ayla não sabia, mas do lado de fora da loja, no outro lado da rua próximo ao beco um rapaz loiro observava o brilho nos olhos da garota ao ver o vestido. Um sorriso brotou em seus lábios, não durou muito, mas aqueceu seu coração.