Luz Guia

1 Visto de cima - Capítulo único


Notas iniciais
Só eu e deus sabemos o sufoco que foi escrever, então ninguém pode me julgar ushauhsuahsuhaush Acho que nunca escrevi tanto em uma noite só, acabei indo dormir depois das 5 pra terminar o capítulo aushuahsuahsh Espero que gostem ♥

Certa vez, séculos atrás, Ptolomeu disse que estrelas se desprendem do céu quando os deuses olham para os humanos e neste momento, neste exato momento, qualquer pedido feito seria atendido por aqueles que, do alto de sua soberania, têm o poder absoluto. E assim surgiu o mito das estrelas cadentes.

A ciência explica esse fenômeno como um pedaço de meteoro ou partícula cósmica que queima ao entrar em contato com a atmosfera da Terra, criando um rastro brilhante no céu. Nada de pedidos realizados nem deuses piedosos, apenas a fria razão humana.

O que ninguém sabia, era que ambos, Ptolomeu e a ciência, estavam certos. Confuso, não? Como a crendice humana e a ciência metodológica poderiam estar igualmente certas? Justamente por ambas estarem igualmente erradas. O que as pessoas chamam de Estrela Cadentes de fato são apenas meteoros que queimam os céus, contudo elas contêm sim o poder de realizar pedidos.

Criações do universo possuem essências parecidas, o cerne explosivo da expansão queima dentro de tudo e todos que existem nele; chama que nos conecta de forma poderosa, astros e pessoas. A influência que regemos uns nos outros é inegável e dela parte o poder que as Estrelas Cadentes têm de conceder desejos, pois quando o querer é forte a força universal se movimenta e abre portas para todas as possibilidades.

Mas o querer é enganoso, por isso é preciso tomar cuidado com o que se pede ao Universo, pois nem tudo o que se deseja é o que necessita ter. E por isso, para terem a dimensão correta desse poder, me reservo o direito de contar a vocês uma história.





Tudo começou em uma noite de final de verão, eu estava tranquilamente cumprindo com meus deveres quando vi aqueles dois saírem juntos do dormitório de forma silenciosa. Uma cena estranha, devo dizer, e por isso me escondi entre as árvores da montanha, com receio de atrapalhá-los.

Izuku estava trêmulo e reconheci em sua expressão o temor que tantas vezes compartilhou comigo. Há alguns dia ele vinha confessando a mim, durante noites onde ninguém poderia nos incomodar, o que existia no fundo de seu coração. Era um sentimento cheio de calos e cicatrizes, mas tão bonito que me partia ver seu apego à vida aos poucos desaparecer. Aquele seria seu ato de desespero, eu tinha certeza; o último suspiro de um amor em pedaços.

— Fala logo o que quer, nerd maldito. — Sempre da mesma forma, Katsuki esbravejou como o cão raivoso que era, ou o que gostaria de ser.

Se Izuku tivesse a mesma visão que eu, talvez fosse capaz de entender algumas coisas de forma diferente e provavelmente aquelas palavras duras não afetariam. Mas ele estava preso ao que conhecia, ao que era entregue diretamente a ele, e por isso quase fui capaz de sentir seu coração contrair dolorosamente.

— Eu sei que é estranho, pedir para conversar com você tão de repente, mas eu pensei que… — Ele começou, mas sua voz estremecida falhou antes que pudesse continuar. Katsuki virou o rosto e temendo que pudesse me ver, deixei que a sombra das nuvens me cobrir.

— Tsc, você sempre pensa demais. — Balançou a cabeça e franziu o cenho, as mãos no bolso da bermuda claramente contraídas pelo volume que produziam. — Vamos, eu não tenho a noite toda, Deku.

Com um pouco mais de segurança, me aproximei, talvez pela vontade de poder ajudar aqueles dois ou de botar algum juízo naquela cabeça teimosa. Katsuki não sabia, mas eu conseguia ouvir os murmúrios que em sonhos ele deixava escapar, talvez por ser o único momento em que ele era livre para ser, ter e desejar o que quisesse. Algo que acordado se tornava impossível de lidar sem abrir mão de certos confortos, coisa que ele ainda não estava preparado.

Izuku suspirou, contando até três para reunir coragem de falar. Muitas vezes o vi praticar não somente aquela técnica, mas como a frase que a seguia.

— Eu gosto de você, Kacchan — Soltou ao final da respiração, ergueu a cabeça corajosamente e reforçou: — Eu gosto gosto de você!

O silêncio que surgiu após a declaração foi excruciante, ao ponto de uma brisa gelada passar por nós e levar algumas folhas consigo. Àquela altura nenhum dos dois prestava atenção a sua volta, por isso resolvi sair do meu esconderijo, alerta para o momento em que Izuku precisasse de mim.

— Cê só pode ser mais idiota do que eu pensava. — Katsuki falou sem piedade, o rosto incrédulo e contorcido com coisas que nem ele entendia. — Como assim, gosta de mim, qual a porra do seu problema?!

— Kacchan, por favor… — Izuku começou, mas foi cortado pelas pequenas explosões que saiam das mãos do outro.

— Não, vai se foder com essa merda! Eu não sei qual o seu problema, mas você precisa ficar bem longe de mim. — As palavras duras foram lidas como uma ameaça.

Izuku segurou o choro na ponta dos dedos que se apertaram contra o tecido da camisa, então com o resto de forças que restavam em seu corpo ele deixou o local sob a luz daquele aviso de perigo. Que tipo de perigo cada um entendia? Teria eu o poder de apontar para eles como deveriam entender as coisas? Caberia a mim falar para Katsuki que havia uma maneira saudável de desembaraçar os fios embolados dentro de si, que não os estourando da forma bruta ao qual estava acostumado?

Infelizmente eu já sabia que não tinha poder para isso, afinal as pessoas são feitas de experiências e eu sabia que eles deveriam aprender de acordo com o que tinham que viver, não com as minhas imposições sobre o que eu achava ser o certo. Pois, afinal, eu nem tinha poder para tal.

Contudo…

— Maldito Deku, por que ele tinha que falar essas coisas? — Katsuki se perguntou, cobriu o rosto com uma das mãos e grunhiu. — Merda! — gritou. — Se você vai existir só pra complicar minha vida, seria melhor que a gente nunca tivesse se conhecido, droga!

Se lembram do que eu disse sobre como todos estamos ligados por um poder universal? Cada partícula que permeia o cosmo, se fizer a conexão certa com a força precisa, é capaz de abrir novas portas na realidade. Pois acontece que Estrelas Cadentes possuem uma energia que por si só já é extremamente forte e por isso, ao se ligarem aos desejos humanos, conseguiam realizar grandes mudanças.

E naquele instante, quando Katsuki olhou para o céu e viu aquele rastro de luz tão característico, talvez desconhecendo o poder que tinha, ele apenas desejou do fundo de seu coração por uma vida mais tranquila; uma vida onde Izuku não o atormentasse daquela forma. Então seus olhos caíram em mim, mas sem realmente me ver, ele voltou ao dormitório.





Sabem, minha vida às vezes é muito solitária. As pessoas só me enxergavam quando realmente queriam, mas no geral poucas se lembravam de mim e a maior parte do tempo eu passava batido, por isso sempre me deixei apegar àqueles que falam comigo, sempre me deixei ficar presa àqueles que de alguma forma me identifico. Se estou contando essa história a vocês, é porque estive tão perto deles que tenho detalhes que ninguém jamais imaginaria. Como os dias que se seguiram, por exemplo.

Quando Katsuki acordou na manhã seguinte, bem cedo como era o habitual, tudo ainda parecia muito normal. Kirishima e Kaminari o cumprimentaram e ficaram ao seu lado, conversando animadamente entre eles enquanto o próprio agia como se não tivesse outra escolha além de ficar perto deles. Aos poucos o restante da turma foi descendo para a área comum, alguns já uniformizados e outros apenas enrolando até ficar em cima da hora. Se Katsuki tivesse o hábito de ser sincero consigo mesmo, teria perguntado a alguém o motivo de Deku ainda não ter aparecido, mas em sua cabeça o garoto deveria achar que ele estava apenas cumprindo com o que lhe fora pedido. Além disso, por que se preocupar quando ele não dava a mínima para a existência do maldito Deku.

O primeiro momento em que o jovem Bakugou sentiu que algo estava errado, foi ao entrar na sala de aula e notar que quem estava na carteira atrás da dele era Mineta. Tudo bem, poderia ser Izuku tentando evitá-lo, mas era de se esperar que quando Aizawa chegasse o Garoto das Bolas voltasse para a própria carteira, afinal não poderia mexer na organização da sala sem mais nem menos. Quando o professor não se pronunciou pela mudança, menos ainda pela ausência de um de seus alunos, Katsuki se deixou ficar curioso, mas nada além disso e a aula se seguiu como em todos os dias.

Foi durante o intervalo que ele finalmente cedeu, ao ver que os amigos daquele idiota (nas palavras dele) não pareciam nem um pouco preocupados. Eles provavelmente sabiam o que havia ocorrido na noite passada, contudo em nenhum momento foram indagar sobre um possível homicídio cometido, o que na cabeça dele seria o natural ser pensado. O Representante Quatro-Olhos e a Cara Redonda conversavam animadamente, enquanto o Gelo Quente apenas comia; tudo estava perfeitamente normal, tirando a ausência do maldito Deku. E aquilo o incomodava demais.

— Oe, Cara Redonda! — gritou se aproximando do trio. — Onde ele tá? — perguntou em um tom ameaçador, mostrando que não estava com paciência para enrolação.

—… Quem? — A garota questionou de volta, após olhar em volta tentando entender a quem ele se referia.

— Pare de brincadeira, você sabe muito bem de quem eu tô falando! — rebateu chamando atenção de algumas pessoas em volta deles.

— Desculpa, Bakugou, mas a gente não faz ideia de quem você tá falando. — Iida respondeu, as sobrancelhas unidas em sinal de preocupação.

— Não fode! — gritou novamente, o sangue começando a ferver enquanto algo no fundo de sua mente começava a apitar. — Deku! Onde está o maldito Deku?!

Todoroki trocou olhares com os outros dois, como se conversassem apenas por aquele gesto. O rapaz então se levantou, se aproximou de Katsuki e o tocou no ombro, com um gesto da cabeça pediu para ser seguido. Franzindo o cenho, o rapaz loiro foi atrás do outro em silêncio, durante o cominho perguntava o que fariam e para onde estavam indo, mas o Gelo Quente permanecia quieto.

— Oe, por que estamos aqui? — indagou olhando para a porta da enfermaria, as sobrancelhas se ergueram e sem conter a indignação, deixou escapar: — Não vai me dizer que esse imbecil se machucou? — Sem respondê-lo, Todoroki entrou no local.

— Jovem Bakugou, jovem Todoroki, não vai me dizer que brigaram novamente. Eu já disse que não irei mais curá-los dessas competições irresponsáveis. — Recovery Girl despejou assim que os viu entrar, Katsuki olhou para Shouto sem entender, afinal eles nunca brigaram na escola além do dia do Festival, geralmente aquelas palavras eram dirigidas a ele e ao Deku.

— Sinto muito incomodar, Senhora Recovery Girl, mas eu acredito que ele precise dos seus cuidados. — O garoto apontou para Katsuki, que soltou um som indignado. — Não brigamos nem nada do tipo, porém ele parece ter batido a cabeça.

— Eu vou bater a sua cabeça, porra! — gritou, cansado de olhar sem falar nada. — Tá todo mundo estranhk desde hoje de manhã, quando ninguém falou nada sobre ele não aparecer; nem mesmo o professor falou sobre aquele idota do Garoto Uva estar no lugar errado e ele não aparecer na aula!

— Ele? — A pequena senhora perguntou, Todoroki mexeu os ombros.

— Um tal de Daichu…

— Deku! Deku, porra! Pare de agir como se não soubesse de quem estou falando — rosnou, as mãos curvadas prontas para atacar a qualquer momento. Katsuki estava puto, como aquele imbecil conseguia fingir e ficar com aquela cara de nada na frente de outra pessoa?!

— Mas eu não sei quem é, ninguém sabe. — Shouto respondeu, seus olhos foram então para a mulher mais velha que ainda estava sentada em silêncio.

— Cê tá pensando que eu sou idiota? Você e ele são amiguinhos há meses, você lutou com tudo de si contra aquele merda, queimou a porra toda e ainda me vem dizer que não conhece o bastardo do Deku?!

Todoroki engasgou alto ao ouvir aquilo, abriu a boca para rebater, mas Recovery Girl saiu de sua cadeira e se aproximou de Katsuki ainda sem expressar uma opinião, impedindo o mais alto de falar algo. O rapaz mal conseguia conter a ansiedade que aquele olhar causava, ele queria que aquela velha dissesse logo que o Gelinho estava mentindo, que Deku estava ali na enfermaria ou tivesse conseguido permissão para ficar nos dormitórios apenas para evitar vê-lo.

— Bakugou — começou em um tom que fez Katsuki suar frio —, esse Deku… É algum amigo seu?

— A senhora… — Não, aquilo não era possível. — A senhora tá realmente junto com esses idiotas nessa brincadeira?! — falou desacreditado.

— Receio não ser nenhuma brincadeira, meu jovem. — A mulher respondeu sem alterar a voz. — Nunca houve qualquer aluno com esse nome por aqui.

— Eu vou falar com o diretor, não é possível que permitam que até os professores se unam nessa palhaçada, tudo porque aquele idiota resolveu me deixar em paz pela primeira vez na vida dele — alertou saindo da enfermaria, ouviu passos miúdos atrás de si e a voz da senhora o fez parar por um momento.

— Eu sinto muito, mas não creio que vai ter a resposta que deseja, jovem Bakugou. — Ele apertou o maxilar e sua face se contraiu em uma careta raivosa.



— Que se foda.





— Sinto muito, senhor Bakugou, mas não temos registro de nenhum aluno com esse nome.

Aquelas palavras foram como um balde de água fria, mas no fundo não causaram surpresa alguma, pois algo dentro dele dizia que tudo estava tão fodido que era possível que não fosse nenhuma brincadeira.

Talvez fosse um sonho.

— Izuku, Midoriya Izuku — disse teimosamente. — Tem certeza que não tem ninguém com esse nome por aqui?

— Absoluta. — O diretor respondeu, deu um gole em seu café e tornou a falar. — Talvez toda essa história entre você e All Might tenha te estressado demais, creio que seja melhor descansar, meu jovem, tire o dia de folga.

Katsuki balançou a cabeça e seguiu para fora da sala. Ele estava ficando louco? Será que era um sonho mesmo? O que caralhos estava acontecendo naquela escola, pelo fodido amor de Deus? Seria realmente possível que ninguém além dele havia notado que aquele nerd desapareceu da face da Terra? Eles nem eram ligados o suficiente para isso, o garoto tinha muitos amigos e pessoas que gostavam dele de verdade, pessoas que realmente deveriam notari o sumiço dele.

Uraraka, Todoroki, Iida, Aizawa, All Might…

All Might.

Como não havia pensado nisso antes?





Desde que Izuku foi aceito na U.A, ele sabia que algo muito estranho tinha acontecido e imaginou diversos cenários que explicariam a aquisição repentina de uma individualidade tão forte e estranhamente autodestrutiva. Pacto, lixo tóxico, transferência sanguínea, vírus raro ou qualquer coisa muito doida, mas nunca passou pela cabeça do jovem Bakugou que alguém pudesse ter transferido seus poderes àquele imbecil inútil, menos ainda alguém tão poderoso quanto o próprio All Might. Fora muito ingênuo, sabia disso, pois o tagarela do Midoriya havia dado com a língua nos dentes na primeira oportunidade, mas ele estava tão frustrado e confuso que nem havia somando um e um.

Ainda estava confuso e frustrado, sendo bem sincero. Mesmo com toda a descoberta, briga e viradas de página, Katsuki ainda se sentia perdido em certos pontos e frustrado em muitos outros. A culpa havia diminuído consideravelmente, sua aceitação em ter perdido inúmeras vezes para Deku caminhava em passos de bebê e a inveja por não ter sido o escolhido aparecia poucas vezes ao longo da semana, o que era um desenvolvimento positivo. Por outro lado havia um incômodo que aparecia quando estava próximo de Deku, era algo que ele sabia da existência há muito tempo, mas tinha algo de diferente na forma que se manifestava; o frio no estômago e o coração acelerado, antes ele sabia que isso era raiva, mas agora que estavam em termos melhores (não uma amizade, mas conseguiam suportar um ao outro) a sensação parecia ter um núcleo diferente.

Em todo caso, mesmo que todas essas mudanças tenham acontecido, ele ainda sabia que não deveria ser a única pessoa a lembrar de sua existência. Por conta disso foi atrás de All Might, que claramente tinha uma ligação muito mais forte com Deku e tinha que ter notado algo diferente.

Caso contrário, ele não saberia o que fazer.

Encontrou o herói na sala dos professores, contudo não se sentiu à vontade para falar com ele quando tantas pessoas poderiam ouvir e por isso pediu para que fosse conversar em outro local. De primeira não reparou que ele ainda estava firme em sua forma grandiosa, mas quando chegaram no pátio sem que o homem diminuísse ou cuspisse sangue Katsuki começou a ficar preocupado, sem nem entender direito o porquê.



— Jovem Bakugou, acredito saber o motivo de você estar querendo conversar nesse momento. — O homenzarrão falou com as mãos na cintura e com o sorriso que nunca falhava.

— Sabe? — perguntou erguendo as sobrancelhas, talvez All Might tenha sentido a falta de Izuku também.

— Sim… — Se aproximou do garoto e colocou as mãos pesadas sobre o ombro do adolescente. — Meus parabéns por ter conseguido passar no exame provisório.

— É o quê?! — Okay, aquilo definitivamente não era bom. Ainda não havia terminado o treinamento para o exame de recuperação, como poderia ser parabenizando por algo que ainda não havia acontecido?!

— Eu sei que você e o Jovem Todoroki deram o melhor de si nos testes, mesmo que ele não tenha passado, estou orgulhoso de ter selecionado os dois. Sei que não é justo, pois apenas um dos dois será meu sucessor definitivo, mas ainda assim…

— Sucessor definitivo?!

A pergunta saiu de sua boca mais alta que o planejado, mas o choque que sentiu com aquelas palavras foram demais para que pudesse manter o mínimo de compostura. Que merda era essa de sucessor definitivo, de escolhidos? O maldito do Deku já tinha o One for All e All Might estava vazio, não havia como transferir a eles coisa alguma.

À menos que...

— Jovem Bakugou, você está pálido, acho melhor levá-lo até a Recovery Girl.

— Não — respondeu ainda estupefado. — Já passei lá hoje, estava indo para o dormitório descansar.

— Faça isso, amanhã é um novo dia. — All Might falou em um tom animador, mas que não atingiu ao jovem que apenas deu as costas e se afastou.





Em seu quarto, deitado olhando para o teto, tentou racionalizar o que estava acontecendo. Loucura, sonhos, realidades diferentes, várias teorias passaram por sua cabeça, mas nenhuma era o suficiente para tranquilizar sua mente. O incômodo era tão grande, que ele jamais imaginou que seria capaz de sentir algo assim.

E era tudo culpa do maldito Deku, que não lhe dava paz em momento algum.

Mas tudo bem, pois no dia seguinte tudo voltaria ao normal e ele encheria o imbecil de pancada.





Assim que se levantou, Katsuki sentiu como se tivesse tido um sonho muito estranho. Desceu para a sala comum esfregando os olhos e com a cabeça latejando, na cozinha encontrou alguns de seus colegas cochichando, mas pararam de falar ao vê-lo. Deveriam achar que ele era um imbecil se acreditaram que não notaria que era o assunto, porém antes de gritar qualquer coisa, Kirishima abriu um sorriso faceiro.

— Eai, parceiro, sonhando muito com o namorado imaginário?

— Como é? — perguntou confuso, as sobrancelhas se encontrando ao franzi-las. Kirishima se aproximou, passou um dos braços sobre o ombro do amigo e continuou a provocação.

— Nós ficamos sabendo que ontem você passou o dia perguntando sobre um tal de Deku, que não existe — frisou as últimas três palavras. — Então é claro que o celibato finalmente fritou seus miolos, o fazendo sonhar com um cara.

— Primeiro de tudo, ninguém aqui tem idade pra ser celibatário, imbecil — retrucou dando uma cotovelada no outro o afastando de si. — Segundo, eu não sonhei com cara nenhum, e terceiro… Vai se foder!

E assim, sem olhar para trás e com as mãos coçando para explodir algo, ele saiu de perto dos colegas caminhando para fora do complexo de dormitórios sem se importar que teria aula.





Katsuki não reparou para onde estava indo, apenas deixou que os pés o guiassem enquanto a mente recuperava as lembranças do dia anterior. Não estava sonhando com aquilo tudo, afinal, logo isso afunilava suas hipóteses. Quando finalmente cansou de pensar, reparou que estava onde tudo começou.

Bem antes do exame, mais anterior que a U.A ou qualquer habilidade desenvolvida e herdada. Aquele lugar era o marco zero de seu relacionamento com Izuku, qualquer que fosse esse laço.

O parque onde se conheceram.

Ele já não sabia exatamente como aconteceu, as lembranças eram mais fruto da história contada por sua mãe ou pela tia (que apenas chamava assim por costume, deixou claro para si mesmo) do que algo realmente vindo de sua memória. Eram muito pequenos na época para conseguir ter imagens concretas em mente, no entanto as lembranças que se sucederam ao longos dos anos era cheia de detalhes, pois depois desse dia Izuku não largou mais seu pé.

Um pequeno sorriso apareceu na face sempre carrancuda, um resquício do que realmente sentia e não foi reprimido. Era uma coisa mista, seus sentimentos pelo garoto teimoso, algo indefinido que ele simplesmente não queria mexer, pois no fundo não se sentia preparado para isso.

Sentando-se em um dos balanços do parque, as pernas o movimentavam para frente e para trás. Não pensem que sou algum tipo de stalker, mas cheguei no local nesse exato momento e me deixei observá-lo de forma contínua, prestando atenção em tudo. Ao contrário de Izuku, que sempre me via quando chegava, Katsuki sempre esteve tão distraído consigo que dificilmente sabia que estava por perto.

Eu vi quando a mão escorregou para dentro da bermuda que vestia, trazendo o celular consigo ao ser retirada. Os dedos agiram de forma automática e em seu peito batia o desejo de entender o que estava acontecendo, de saber se Deku realmente existia ou era apenas fruto da sua imaginação. Começou pesquisando sobre todos os eventos que ele deveria estar, começando pelo mais recente.

Ele não estava em nenhuma.

A realidade em que se encontrava não era tão diferente da que viveu até então (ou sonhou, isso ainda não estava descartado), apenas alguns detalhes estavam diferentes. A Liga dos Vilões existia e o ataque a U.A aconteceu, mas All Might lidou com tudo de forma bem mais simples, talvez por não ter passado seu poder a ninguém na época. Assim como o torneio aconteceu de forma bem mais pacífica, sua luta contra Todoroki terminou em um empate que não fomentou em nenhuma reação exagerada sua no pódio, pois ambos acabaram inconscientes. Por conta disso, cogitou, a Liga jamais se interessou por ele de forma específica e quando o ataque ao acampamento ocorreu, não houve sequestro nenhum, apenas feridos. A luta do All Might contra o One for All jamais aconteceu, ele não estava aposentado e o exame provisório ocorreu praticamente da mesma forma, não por uma necessidade, mas por uma nova metodologia prática para os alunos.

A segunda coisa que pesquisou foi muito mais simples e rápida. Apenas duas palavras.

Midoriya Izuku



Quando obteve a resposta para sua dúvida, Bakugou voltou para os dormitórios se preparando para ignorar todas as perguntas, preocupações e puxões de orelha que ouviria ao entrar no prédio. E dessa forma foi parar em seu quarto, trancado e com os fones de ouvido colocados apenas para não ser interrompido por batidas insistentes que Kirishima, Kaminari e Ashido definitivamente fariam.

Nos últimos dois dias estava olhando demais para o teto, como se ele fosse colocar a solução de tudo em suas mãos. Ou como se fosse um portal que o levaria de volta para sua realidade.

Realidade essa que ele nem tinha certeza se queria voltar.

Katsuki era inteligente, tinha um raciocínio rápido e por isso não foi difícil chegar a um veredicto. Todas aquelas mudanças não ocorreram porque Izuku não existia, ela ocorreram porque os dois jamais chegaram a se conhecer.

De alguma forma aquele dia no parque não aconteceu, eles não ficaram na mesma sala e aparentemente nem eram do mesmo bairro. Ele nunca foi chamado de Kacchan por aquele nerd irritante, jamais o agrediu e tentou afastá-lo. Jamais teve ele em seu pé, pulando e conversando sobre heróis, murmurando coisas incompreensíveis. Deku nunca teve o caderno queimado por ele, nem foi atacado por um vilão nem encontrou All Might, que não perdeu a garrafa com o vilão dentro.

Katsuki jamais foi atacado também, logo Deku não chegou a tentar salvá-lo mesmo que fosse um inútil sem poderes que apenas imaginou que ele precisava de ajuda.

Nessa realidade Midoriya Izuku, pelo que redes sociais mostravam, era um garoto sem individualidade que tinha uma porção de amigos e que estava estudando na Shiketsu para ajudar heróis com suas habilidades de estratégia e planejamento. Aparentemente ele tentou entrar na U.A e falhou miseravelmente no teste de admissão, mas havia superado bem pois agora estava cheio de fotos e publicações falando da escola e dos amigos. Principalmente de seu melhor amigo, que foi um dos motivos dele ter conseguido seguir em frente: o imbecil do Inasa.

Já o Bakugou Katsuki dessa versão alternativa era um brilhante estudante da U.A, que tinha um comportamento explosivo e era o principal rival de Todoroki Shouto para herdar o poder do All Might, coisa que apenas os dois sabiam ser possível. Mas Todoroki jamais teve contato com Deku, então sua aceitação sobre seus poderes não havia acontecido, o que deixava Bakugou na vantagem. Um mundo sem culpa onde a certeza de ser o número era palpável.

Então por que ele não conseguia apreciar isso, quando era tudo o que queria? Ele mesmo havia desejado que nunca tivesse conhecido o maldito nerd, estava vivendo algo que sempre desejou.

Só tinha que se adaptar.





Fingir demência nunca foi realmente o forte do garoto e como o conhecia há muito tempo, tenho propriedade em dizer isso. Contudo, isso não o impedia de tentar e quando o dia seguinte chegou, ele atuou como imaginava ser o Bakugou daquela realidade. Ninguém tocou no assunto “Deku" e por ele estava ótimo, afinal o objetivo era viver como se o garoto não existisse. As aulas seguiram normalmente, teóricas e práticas, assim como as conversas entre os colegas, que esperavam dele uma interação maior do que a que estava acostumado — aparentemente, por não ter Izuku o tirando do sério a cada 5 minutos o tornava alguém mais sociável.

Era um pouco incômodo, mas novamente tudo dependia de esforço para se adaptar.

No quarto dia, a turma começou a planejar uma saída ao shopping, coisa que usualmente não aceitaria, mas precisava de meias novas e poderia aproveitar a chance de saber quais detalhes eram diferentes. No quinto, ele já sentia que começava a se encaixar, porém reparou que estava cansado demais ao longo do dia.

Como eu disse no começo, Bakugou não era um rapaz que se abria facilmente para mim, mas durante a noite seu coração se manifestava em seus sonhos de uma forma que eu era capaz de ouvir de longe, talvez por ser sensível demais a história deles. E uma das coisas que ele nem fazia ideia que permanecia a mesma, era esse detalhe noturno. Os murmúrios que escapavam dos sonhos, o corpo que se mexia em busca de algo que não se lembraria pela manhã e que nem sabia que sentia falta, eram coisas como essa que Katsuki ignorava e fugia, e que o deixava cansado.

Quando o sexto dia chegou veio a saída entre os colegas. Todos acordaram tarde, apesar de combinarem de ir cedo para aproveitar, porém como os bons adolescente que eram, nenhum deles realmente seguiu com a ideia (nem mesmo Iida ou Momo), mas também ninguém se aborreceu com isso. Ashido e Kaminari fizeram o café para eles, o que saiu mais aceitável que a última vez que eles se juntaram na cozinha — será que tinha algo a ver com Deku também?

Já preparados para sair, o grupo seguiu até a estação a pé. Dividido em trios ou duplas, as conversas variaram de estudos, o que comprariam e quando começariam a agir como heróis de verdade. Bakugou não estava envolvido em nenhuma delas, apesar de estar próximo de Kirishima, Kaminari e Ashido, que mudavam de assunto tão rápido que mesmo que prestasse atenção ao que diziam não entenderia nada. Chegaram no local poucos minutos depois e organizados em duas filas, ficaram na plataforma esperando o trem.

Kirishima dizia alguma coisa muito máscula (na opinião do próprio), quando com o canto dos olhos, do outro lado da plataforma, um borrão verde chamou sua atenção. O coração disparou antes mesmo de entender o que via e uma pequena explosão em sua mão direita assustou Tsuyu, que conversava com Uraraka ao seu lado.

— Mas o que foi isso, Bakugou? — Kirishima perguntou preocupado, o fazendo virar para ele e seus outros colegas, que o olhavam de forma hesitante. Ele estava tão diferente do habitual.

— Eu… — começou incerto, virou o rosto na direção do borrão verde e vou que se tratava de uma propaganda sobre sustentabilidade. — Desculpa, eu pensei ter visto alguém…

— Um vilão? — Yaoyorozu perguntou preocupada, Todoroki tentou tranquilizá-la e Bakugou negou com a cabeça.



No shopping, a classe acabou se dividindo para irem em locais em comum, combinando de se encontrar na praça de alimentação para comerem e ir embora. Bakugou não quis ir com ninguém e nenhum deles contestou, em sua cabeça eles não queriam ficar perto de alguém tão instável e pelo que pode entreouvir ao longo daquela semana, ele era estourado, mas muito mais agradável. O que o levava a pensar que Deku trazia a tona seu pior lado, então era uma coisa positiva que não estivesse por perto, certo?

Mas o que importava? Nem se lembrava mais desse maldito nerd, quase não pensava nele, seguia muito bem sem ele… Certo?



— Deixa de ser idiota, você não precisa e nunca precisou desse nerd chiclete que não tem um pingo de amor próprio — resmungou para si.

Eu gosto de você, Kacchan. Eu gosto gosto de você!



Como podia aquele garoto ser tão imbecil assim? Como alguém conseguia gostar de alguém que o desprezava? Katsuki nunca o tratou bem, sempre fazendo de tudo para afastá-lo, até chegou a destruir um de seus cadernos de anotação e falar para se jogar do telhado. A ideia de Izuku gostar dele era inadmissível, pois demonstrava que o garoto não tinha um pingo de bom-senso e autopreservação, e ele jamais ficaria com alguém assim.

Jamais ficaria com alguém que ele causou tanto…

— ...chan! — Uma voz familiar gritou próximo de onde estava.

Novamente o coração acelerou e se virou de forma veloz, procurando por aquela voz. Olhou pela loja, até que através da vitrine avistou uma cabeleira verde que reconheceria em qualquer lugar. Seria possível que o imbecil também estava naquela realidade e lembrava dele? Esquecendo as meias que tinha em mãos, Katsuki correu para fora da loja e ignorou o apito de segurança que tocou quando passou pelas portas, fazendo que um segurança fosse para cima dele sem hesitação.

— Me solta, idiota! — gritou ao ter o braço puxado pelo homem.

— Garoto, você não pode sair sem pagar por essas meias. — Ele exigiu tentando arrastá-lo de volta para a loja.

— Eu não preciso dessa merda — esbravejou jogando o pacote para dentro do local novamente, aproveitando a letargia do segurança se soltou e voltou para seu objetivo anterior.

Por que estava correndo? Por que queria saber se o idiota lembrava dele? Por que seu coração pulava em seu peito de forma tão desesperada? Ele não se importava, certo? Então por que procurava aquele maldito como se fosse sua última esperança? Por que, por que, por que…

Sua cabeça pulsava com todas essas perguntas e o pior é que não tinha ideia de como respondê-las. Nem ao menos sabia o que diria ao outro caso o encontrasse, estava apenas sendo impulsivo.

Deveria desistir, talvez nem fosse ele mesmo, era uma perda de tempo. Uma grande perda de…

Inacchan! — O ouviu novamente e com os olhos vermelhos avistou o garoto a alguns passos.

Realmente era Izuku e ele estava com aquele grandão da Shiketsu, ambos sorriam e conversavam com muita gesticulação, chamavam atenção das outras pessoas e aquilo era ridículo. Katsuki se escondeu atrás de uma coluna e os seguiu daquela forma por alguns minutos, o que o tornava tão ridículo quanto os outros dois.

Deku parecia ser o mesmo da sua realidade, o que poderia ser só impressão, mas naquele pelo menos ele realmente tinha um amigo de infância — aquela proximidade só poderia significar isso.

Mas eles nunca foram próximos.

Também nunca foram amigos.

Bakugou balançou a cabeça ignorando a si mesmo e continuou a seguir os idiotas. Deku o chamava de Inacchan o tempo inteiro, era irritante e o deixava puto; o outro chamava Deku de Izucchan, o que era ainda mais irritante. Eles se tocavam demais, eram próximos demais; íntimos demais.

Então Inasa o beijou e tudo aquilo ficou mais claro.

E mais irritante.





— Ei, Bakugou, você está bem? — Kaminari perguntou quando se juntou aos outros, mas ele não respondeu e apenas sentou no lugar vazio.

— Pensei que precisava comprar meias, o que houve? — Foi a vez de Ashido tentar puxar assunto com o garoto, mas novamente ele permaneceu em silêncio com a cara emburrada e esse foi o sinal para acabar as tentativas.

Durante todo o tempo em que permaneceram na praça e enquanto voltavam para a escola, Bakugou se manteve pensativo. Um turbilhão de perguntas, teorias e negações embaralhavam a mente dele, era uma espiral infinita de sentimentos. Ao chegarem o garoto se trancou no quarto e não saiu de lá até que segunda chegou; os amigos até que tentaram, mas nenhum obteve sucesso em falar com ele, inclusive chegaram a consultar Aizawa e foi quando, por orientação do professor, deixaram que o garoto se resolvesse sozinho.

As horas enfurnado em seu dormitório foram úteis para responder algumas questões, como o porquê de ter corrido como um louco atrás de alguém que nem deveria saber quem era: estava acostumado com a realidade que viveu durante toda sua vida e por mais que essa fosse a ideal, ainda era diferente e buscar pelo conhecido era natural. Por outro lado, muitas ficaram em aberto e nenhuma pareceu ser solucionável, o que levou o rapaz a aplicar sua estratégia inicial: ignorar e adaptar.

Estava indo bem, em sua humilde opinião, apesar de acordar no meio da noite para conferir o quarto que era do colega e então ficar na sala vendo TV, ignorando a sensação estranha que ficava em seu peito ao se deparar com o local cheio de bagunça de cada aluno, afinal, era apenas um quarto extra. Essa rotina se estendeu por duas semanas, até que Kirishima apareceu em uma dessas vezes e sentou ao lado do amigo, em silêncio, por muitos minutos.

Kirishima sempre foi um garoto especial para mim, seu coração era um dos maiores e mais acolhedores que tive o prazer de conhecer, um rapaz que tinha a capacidade de colocar os outros em primeiro lugar sem esperar nada em troca; a não ser a felicidade da própria pessoa. De certa forma, eu via nele uma existência parecida com a de Izuku e, perdoem minha imparcialidade, talvez fosse um dos motivos que levou Katsuki se apegar ao garoto. Entre muitos outros, é claro.

— Então, eu vou ter que te vencer numa luta ou cê vai abrir o jogo numa boa? — A pergunta saiu em um tom casual. Bakugou ponderou por um instante, mas antes de chegar a uma conclusão, o rapaz continuou: — Tem algo a ver com o garoto que você gosta, certo?

— Eu não gosto daquele imbecil — respondeu murmurando, a TV piscou ao mudar de canal. — Tô pouco me fodendo pra ele, que morra.

— Eu sinto muito, cara, mas nunca vi indiferença obsessiva. — Riu quando a frase fez o loiro rosnar. — Vamos, você sabe que ele existe só na sua cabeça — afirmou colocando a mão no ombro do amigo, que o olhou por um instante analisando as feições preocupadas.

— Eu vi ele no shopping — confessou voltando a olhar para a televisão e voltou a trocar de canal.

— Cê tá vendo coisas? Agora eu realmente estou preocupado.

— Não seu imbecil, Cabelo de Merda! — gritou. — Eu vi ele no shopping e até já vi as redes sociais dele.

Kirishima arqueou uma das sobrancelhas e passou o próprio celular para que Bakugou provasse que falava sério. Bugou antes de pegar o aparelho e prontamente abriu as mesmas páginas da primeira vez, em seguida entregou o celular e deixou que o amigo tirasse as próprias conclusões. O ruivo começou com as sobrancelhas franzidas, porém as ergueu ao achar uma foto específica.

— Esse é o grandão que tirou o Todoroki da linha na prova — constatou, Bakugou revirou os olhos e concordou. — Eles parecem ser bem unidos.

— Eu diria que são intimamente unidos — Katsuki rosnou novamente, o que fez Eijirou o olhar de forma estranha. — O quê?

— Como você conhece esse cara?

Bakugou pensou se valia a pena explicar a situação e parecer um louco, se deveria inventar uma história qualquer ou mandar ele cuidar da própria vida. Talvez por confiar no amigo e por sentir que estava de fato enlouquecendo com aquela história, decidiu que a primeira opção seria a melhor. As primeiras palavras a saírem foram as mais difíceis, porém após dar início a confissão de suas ideias não parou até que tudo fosse posto para fora. Eijirou aguentou em silêncio, segurando qualquer julgamento que passasse por sua mente a cada descoberta até que o amigo acabasse de contar.

— Sei que parece loucura, mas toda essa caralha é real e foda-se se cê não acredita — disse por fim ainda sem olhar para o outro garoto.

— Eu acredito. — Eijirou afirmou com a mesma tranquilidade de quem diz que pássaros voam.

— Cê é um fodido de um louco? — perguntou incrédulo, fazendo o outro rir. — Como consegue acreditar tão… De boa?

— Cê pode até ser inteligente, mas criatividade pra criar algo assim? Nah, só poderia ser verdade. — Bakugou contorceu todo o rosto diante daquela resposta.

— Morre, seu merda! — Kirishima riu, então parou subitamente e coçou o queixo.

— E o que você pretende fazer? — perguntou.

— Nada — respondeu categórico, não havia nada a ser feito. — Continuar minha vida aqui como deveria ser desde o princípio.

— Qual é, cara, você sabe que não vai dar certo isso. — Kirishima o olhou como se pedisse desculpas pelo que falaria. — Se fosse fácil assim, já teria se acostumado, mas a cada dia que passa você fica mais e mais perdido.

— E como é que você sabe?

— É só um chute, mas cê é teimoso demais pra deixar algo tão grande assim pra trás. E eu não sei como era sua relação com esse tal de Midoriya, mas não parece ser insignificante.

Bakugou não protestou, nem rosnou ou contrariou o amigo. Seu constante estado de negação estava desgastado, pois tentar desmentir que o que tinha com Deku era forte demais para ser esquecido era impossível até mesmo para ele.

— Alguma ideia de como veio parar aqui? — Eijirou questionou tirando Katsuki de seu transe.

— Na noite anterior ele veio falar comigo, disse que… Bem, não importa o que ele disse, mas no dia seguinte eu estava aqui. — A resposta veio em um tom diferente do qual estava acostumado, uma exaustão sem tamanho saia de sua boca.

—… Já pensou em falar com ele?

A sugestão não o pegou de surpresa e nem o irritou, já havia cogitado essa possibilidade quando encontrou Izuku no shopping. A companhia que tinha, no entanto, desencorajou qualquer tipo de ação; Midoriya estava melhor naquela realidade.

Assim como ele.

— E falar o que? “Hey, seu nerd de merda, você não se lembra de mim, mas sou seu amigo de infância que veio de outra realidade, morra"? — Kirishima coçou a cabeça e sorriu sem jeito.

— Talvez vê deveria repetir a conversa que tiveram naquela noite?

— Não acho que seja uma alternativa. — Virou o rosto para o sentido contrário de onde Kirishima estava, querendo evitar que visse a coloração que tingiu suas bochechas.

— Mas que outra opção cê tem, cara?





Eu gostaria de ter dito a Katsuki quais opções ele tinha, mas todos conhecem minha posição de não intervir e o porquê. Se tivesse pedido minha ajuda, talvez as coisas teriam se solucionado mais rapidamente. Entretanto ele e Eijirou criaram uma estratégia de aproximação simples: conferir todas as redes do Izuku e acidentalmente esbarrar nele; um plano imaturo, mas que, convenhamos, condizia com a idade deles.

A execução se deu no fim de semana seguinte, Bakugou colocou um boné e óculos escuros, se disfarçando — ou se protegendo. Izuku estaria em um parque próximo ao centro, algum evento aconteceria e o rapaz estava acompanhando a mãe. O esperado, afinal.

Quando Katsuki chegou no parque levou um tempo para encontrar o garoto, pois o local estava relativamente cheio. De longe o viu se sentar na grama ao lado da mãe, estranhamente havia um cachorro de pelos claros os acompanhando; ele era pequeno, peludo e dependente de atenção pelo que pôde observar escondido atrás de uma árvore.

Repassando em sua mente o que falaria e como agiria, deu o primeiro passo para se aproximar quando Izuku se afastou para brincar com o cachorro. No meio do caminho, no entanto, o animal saiu correndo para longe do dono e foi em sua direção pulando em suas pernas como se fossem amigos de anos, o que o levou ao chão.

— Meu Deus, eu sinto muito! — Izuku pediu ao chegar perto dele, estendeu uma das mãos para ajudá-lo a se levantar enquanto o outro braço tentava conter o cachorro. — Katsu geralmente não se comporta assim — explicou.

— Katsu? — O questionamento saiu em um tom quase ofendido. Deku lhe importunava até quando não se conheciam? Colocando esse nome no cachorro.

— Ah, sim, não fui eu quem escolheu o nome. — Riu coçando a cabeça. — Um amigo me deu ele e… Sinto muito, estou falando demais.

— Tá de boa — respondeu enquanto limpava a calça com as mãos, já de pé. Apenas em uma realidade diferente para trocarem tantas palavras sem brigar, pensou.

— Midoriya Izuku, prazer. — Bakugou olhou para o rapaz e sua mão novamente estendida.

O primeiro pensamento que teve foi o de afastar a mão oferecida, bater nela ou mandar Deku se foder como seria no habitual. Mas não era momento nem lugar, aquele não era o Izuku que conhecia e definitivamente ele era capaz de ouvir uma voz suave no fundo de sua mente dizendo para aceita o gesto. Bakugou não sabia se aquela voz era outro sinal de loucura ou se era parte de sua consciência que passou anos ignorando; independente da origem dela, resolveu segui-la.

— Bakugou Katsuki.

— Oh, seu nome… — O garoto começou, mas fechou rapidamente a boca, talvez imaginando que poderia ofender o novo conhecido.

Novo…

Um silêncio sonhou os dois, preenchido pelas vozes das pessoas que os rodeavam e pelos sob agitados que o cachorro produzia ao tentar escapar do braço do dono.

— Bem, prazer em conhecê-lo, Bakugou. — Midoriya falou com um sorriso constrangido e virou o corpo para voltar para onde sua mãe estava.

Durante toda sua infância, quando se afastava de Deku, Bakugou era capaz de senti-lo atrás de si. Além da voz irritante o chamando, diversas vezes sentiu a mão pequena entre seus dedos, o segurando pelo braço ou apertando as costas de sua camisa; quando ainda eram amigos aquilo nunca o incomodou de fato, na realidade até confessava que lhe fazia sentir bem. Era como ser um Rei e ter um fiel seguidor, que o obedeceria e olaria para ele como se fosse a pessoa mais importante do mundo.

Naquele momento, ao ver que Izuku se afastaria e ele não teria outra oportunidade para falar com o garoto, Katsuki sentiu que os papéis se inverteram e foi sua mão que segurou o outro pelo braço como se fosse a pessoa mais importante do mundo.

— Está tudo bem? — Izuku pergunto ao se virar para ele novamente. — Precisa de ajuda com alguma coisa? Se machucou?

Midoriya Izuku era um idiota, até mesmo naquela realidade. Quem se importava com um estranho daquela forma? Quem era capaz de dizer que gostava de alguém que apenas te tratou mal? Quem conseguia ver algo bom nessa mesma pessoa e a admirar? Ele jamais seria capaz de algo assim, mas o nerd ingênuo e estúpido era tão burro, que seria fácil demais machucá-lo e se isentar da culpa; ainda mais alguém como Katsuki, que já tinha seu histórico.

— Tenha cuidado com o cachorro — disse por fim, Izuku sorriu e voltou para perto de Inko.

Era melhor dessa forma.





O plano havia falhado miseravelmente e não ser reconhecido por Izuku movimentou dentro de Katsuki um sentimento de rejeição que era novo para ele: a auto rejeição; isso acabou deixá-lo mais contemplativo que antes. Bakugou não imaginava que sentiria falta de um mundo onde Deku o conhecia e enchia seu saco até se deparar com uma realidade onde nunca foi chamado de Kacchan. Ao mesmo tempo, no entanto, sentia que seria melhor deixar as coisas dessa forma, pelo menos para Izuku essa seria a solução mais saudável.

Mais que estranho, esses pensamentos eram como água vazando de uma represa rachada. Pois jamais imaginou que teria o mínimo de senso de proteção para com o amigo de infância, contudo algo lhe dizia que havia mais sentimentos de onde esses vieram.

Será que estava preparado para eles?

Kirishima bateu em sua porta horas depois que chegou do parque, conversar com o ruivo estava servindo para elucidar alguns pontos como porquê de ter parado nessa realidade e como voltaria. Claramente, para o amigo, tinha a ver com uma lição de moral que deveria ensiná-lo a dar valor ao que tinha, a ser uma pessoa melhor e tratar os outros bem; logo, a solução era simples: quando finalmente entrasse de acordo com aquilo que o universo queria para ele, tudo se resolveria.

De certa forma, Eijirou estava certo.

Novamente sozinho em seu quarto, andou até a porta de vidro da varanda e encostou a testa na superfície fria. Não acreditava que estava na situação que sempre desejou viver e simplesmente não queria mais estar nela, era insano. Porém se fazia parte de seu karma, o cumpriria — a essa altura, Bakugou já havia parado de tentar ter o mínimo de racionalidade concreta.

Tudo culpa do maldito nerd.

Um suspiro profundo embaçou o vidro, obrigando o garoto a se afastar para passar a mão. Os olhos vermelhos captaram no céu um rastro brilhante e de imediato sua mente voltou para a noite onde tudo começou. O insight fez com que fechasse os olhos e desejasse, do fundo de seu coração que as coisas voltassem a ser como eram antes.

Com a certeza de que acordaria em sua realidade no dia seguinte, Katsuki dormiu de forma relaxada como há dias não fazia e sem acordar no meio da noite.





O brilho do sol o acordou no domingo pela manhã e a primeira coisa que ele fez ao se levantar foi de conferir se o quarto de Midoriya estava com seus pertences. O coração pulsando mais forte e o deixando surdo a cada passo que dava em direção ao quarto; trombou com Kirishima no caminho, mas se deixou seguir sem parar para ouvir o que ele tinha a dizer. Tocou a maçaneta da porta e escancarou o cômodo, no fundo esperando que tudo estivesse como antes.

— Não deu certo — murmurou para si mesmo.





Como eu havia explicado, cada partícula que permeia o cosmo, se fizer a conexão certa com a força precisa, é capaz de abrir novas portas na realidade. As Estrelas Cadentes sempre foram as principais fontes de mudanças e por isso que sua força era conhecida por todos.

O que eu nunca expliquei, no entanto, é que portas que são abertas pela ligação energética que temos só podem ser fechadas de duas formas: se conectando com a mesma força que propiciou a mudança ou se conectando com uma força ainda maior que a primeira.

Por isso é preciso tomar cuidado com o que se deseja, pois nenhuma Estrela Cadente passa duas vezes para a mesma pessoa.





Na noite daquele mesmo dia, Katsuki, frustrado por não ter dado certo seu pedido, foi para o mesmo local onde ele e Deku conversaram muitas noites atrás. Como naquela vez, eu estava presente e apenas o observava explodir um e outro tronco caído, gritando e amaldiçoando tudo e todos. Olhei para ele com compaixão e ao final de seu ataque, Katsuki finalmente retribuiu o olhar.

Não me lembro de todas as vezes que fui notada por ele, mas senti que aquela foi a mais intensa de todas.

— O que eu tenho que fazer para sair dessa porra de lugar? — perguntou sem esperança. — É realmente algum tipo de castigo fodido, por eu ter ferrado com aquele idiota por tantos anos?! — Dessa vez sua voz era mais agressiva.

Eu não tinha as respostas para as questões que me fazia, mas deixei que meu brilho o iluminasse. Era minha função, afinal, guiar àqueles que passavam pela escuridão.

— Eu só quero voltar pra casa… Me leva pra casa, porra! — gritou, a cabeça erguida em minha direção e os olhos brilhando tanto quanto minhas filhas.

O vi dar as costas para mim e voltar para os dormitórios. Sempre quis ter o poder de intervir na vida dos que amo quando bem entendesse, porém só podia fazê-lo quando era requisitada. Naquele momento, pela primeira vez, Katsuki abriu seu coração para mim de forma espontânea e consciente.

Que tipo de guia eu seria se não atendesse ao seu pedido?





Ele já estava exausto quando acordou, geralmente era ativo pelas manhãs, mas por conta da desesperança e da loucura do último mês, Katsuki grunhiu durante todo o café da manhã. Ninguém tentou se aproximar, nem mesmo Eijirou, porém isso já era esperado.

Ao contrário das três batidas na porta de seu quarto depois que voltou para ele, querendo passar o dia trancado como se tornou o costume. Foda-se as aulas.

Não era esperado também que ao abrir a porta fosse encontrar Izuku uniformizado.

— Kacchan, sobre a noite passada, acho que precisamos conversar… — A voz era a mesma, o olhar temeroso e o corpo trêmulo também eram os mesmo.

Finalmente estava alucinando, Bakugou?

Antes que o que acreditava ser sua mente pregando uma peça, fechou a porta de forma bruta. Em seguida tornou a ouvir as mesmas batidas.

— Eu sei que você disse que não queria me ver novamente, mas nós somos da mesma sala. Entendo que seja desconfortável pra você, mas seria contraproducente e…

Tornou a bater a porta. Novas batidas. Deixou-a fechada.

— Kacchan, por favor, seja razoável. — A voz de Izuku soou através da porta, abafada, mas ainda muito real. — Tudo o que eu te disse ontem era verdade, mas acho que a gente pode chegar em um acordo…

Ontem?

— Ontem? — repetiu o pensamento ao abrir a porta. — O que você quer dizer com isso, alucinação do inferno?

— Alucinação? Kacchan, você está bem? — Izuku o encarou com preocupação.

Franzindo o cenho, Katsuki olhou para Midoriya como se tivesse dificuldade para enxergá-lo, empurrou ele pelo ombro e abriu caminho até o quarto que o pertencia. Dessa vez esperou encontrar bagunça acumulada, no entanto deu de cara com as coisas do rapaz.

— Mas que merda…

Ainda sem acreditar no que via, Bakugou desceu as escadas para se encontrar alguns de seus colegas que ainda não haviam saído. Ashido estava na sala esperando alguém e como era a única a vista, foi até ela.

— Oé, Chiclete Ácido, quem é Deku? — perguntou sem enrolação, Mina o olhou com estranheza, mas não comentou nada.

— Como se você não soubesse — respondeu de forma simples, porém em seguida começou a pontuar. — Deku é seu amigo de infância, protegido do All Might, futuro herói número um — ou pelo menos é isso que ele acha, mas não vai ser tão fácil assim com tanto herói almejando o primeiro lugar…

Sem esperar que ela continuasse a falar, Katsuki apenas voltou para seu quarto correndo. Deku ainda estava parado na porta, se à sua espera ou apenas processa tudo o que havia presenciado ele não sabia, mas estava lá parado. Em carne e osso; o chamando por aquele apelido irritante e com o uniforme da U.A.

Sem cachorros. Sem o Gigante Idiota por perto. Sem desconhecê-lo.

— Kacchan…

— Eu não gosto de você — falou cortando o moreno, Izuku mordeu os lábios e balançou a cabeça concordando.

— Sei disso, por isso vim aqui dizer que…

— Cala a boca, nerd — mandou, os punhos cerrados demonstrando seu nervosismo. — Eu não gosto de você, pelo menos não dessa forma que você diz gostar de mim. Também não entendo como você consegue ser tão estúpido ao ponto de se apaixonar por alguém como eu.

— Eu já disse que sempre te admirei. — Ele murmurou como resposta, Katsuki balançou a cabeça negativamente.

— Isso só reforça que você é um idiota — rebateu cruzando os braços.

— Kacchan…

— Para com essa merda de Kacchan por um segundo e me escuta — pediu esfregando as mãos pelo rosto em frustração. — Não seja o idiota que perdoa alguém sem um pedido de desculpas.

Deku ergueu uma das sobrancelhas, confuso com o que ele estava querendo dizer. E sendo sincera, nem mesmo Katsuki tinha certeza, apenas sabia que precisava falar.

— Não estou te pedindo desculpas, não irei fazer isso agora no meio do corredor e nem dessa forma — continuou se explicando. — Mas no dia que isso acontecer, talvez a gente possa voltar a falar sobre… Isso.

— Não sei se entendi muito bem, Kacchan.

Bakugou grunhiu com aquela afirmação, como aquele garoto podia ser tão idiota? Aproximou-se dele com duas passadas largas, que era além do necessário para ficar em uma distância razoável. Os olhos vermelhos viram as bochechas de Izuku corarem e ele se perguntou se era aquela visão que o Inasa da outra realidade tinha quando estavam juntos.

Irritado pelo pensando, Katsuki colocou a mão sobre a boca do mais baixo e aproximou os rostos. Seus lábios tocaram a superfície de sua própria mão e enquanto um som engasgado saiu pela garganta de Izuku.

Aquilo não era uma promessa de um futuro próximo e promissor, Katsuki ainda não estava completamente resolvido com suas próprias questões para fazer tal coisa. Entretanto o gesto foi sim uma afirmação de que algo havia mudado e que ele tentaria seguir por esse novo caminho.





Eu poderia contar a vocês mais sobre a vida desses dois, mas acredito que minha mensagem foi passada. Ainda me sinto insatisfeita com certas limitações que tenho, mas jamais desejaria algo além disso, pois acredito que minha luz não chegaria tão longe caso algo mudasse.

Nós, criaturas do universo, temos poderes que nos ligam e por isso os humanos tendem a nos explicar através de lendas. As Estrelas Cadentes se sentem muito honradas pelo reconhecimento que têm, assim como eu.

Espero que tenham apreciado essa história, assim como outras pessoas já gostaram de me ouvir narrar a de vocês. Sinto muito se isso é indiscreto, mas como a luz guia dos perdidos eu não poderia deixar essas histórias guardadas. Até porque não é à toa que inspiro corações apaixonados.

Obrigada por me ouvirem.

Lua

Notas finais
Essas duas ultimas linhas não estavam no original, mas resolvi adicionar de última hora apenas pra garantir que todo mundo ia entender quem narrou a história aushauhsuaush Não sei se acabei saindo do tema, mas tamos aqui pra ao menos tentar e se divertir, é isso Bejas~~
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!