Luz Do Sol

1 Flowers bloom in sunlight and I live close to you


Notas iniciais
Mesmo com o Nyah! não querendo deixar eu postar com os bugs alheios, cá estou aqui no Natal.
História especial pra ary_chan, a deixei no suspense dois meses, agora está aqui.
Boa leitura.

Nada é como era antes. Tudo neste mundo muda. O próprio mundo muda constantemente sem ao menos avisar como e por que. As pessoas mudam, ah, essas mudam tão rápido que nem o próprio mundo entende a capacidade destas mudanças, mudam como os segundos correm através dos minutos, horas, dias, semanas, anos. E os sentimentos também.

Os sentimentos mudam tanto que os donos destes sentimentos, puros ou não, não sabem como eles podem mudar tanto. E isso pode ser tão confortante que até respirar se torne uma tarefa prazerosa, amável. E também os sentimentos mudam para pior, onde respirar parece cortar a parte interna do corpo a cada inspiração.

De uma hora para outra os sentimentos dentro do corpo estão calmos e em questão de segundos, um boom acontece, e o possuidor dos sentimentos cai em um terrível mar de agonia, dor, depressão. Em uma escuridão infernal.

E era assim que se sentia de uns dias para cá, estava afogado numa terrível escuridão e não sabia como sair dali, nem ao menos sabia de que forma foi se jogar naquele mar doloroso. Era tão triste que passou a temer a escuridão.

Os dias lentamente foram perdendo o sentido real de existir. Não tinha mais razão para ser se não tinha a essência para exercer aquela difícil tarefa. Sim! Não basta existir, tem que ser, e fazer jus aquele verbo se tornou tão difícil... Não entendia como as coisas foram parar daquele jeito.

Na verdade sabia muito bem. Tentava se enganar, outra característica das pessoas, tentar se enganar e parar ainda mais fundo do mar de depressão. Porque estava naquela escuridão por conta e risco e ninguém tinha culpa por se matar silenciosamente.

Nem ele tinha culpa. Oras! Jogou-o como a causa de seu sofrimento, mas o pobre nem tinha ideia de que ele estava afogado em dor por existir. Não tinha culpa de ser algo que soava como a luz do sol, por vezes delicada e morna, por vezes quente e prejudicasse a pele, por outras frio e de causar arrepios.

Ali era sua escuridão marcante e ele era a luz do sol. Quando a luz do sol, aquela morna e delicada, batia em si, sentia-se vivo, sentia-se uma pessoa feliz. Mas isso não ocorria, o sol que batia em si é o que machuca profundamente, machuca o coração. E não poderia fazer nada.

Antes nem dava bola por um lento processo, nem notável, por criar sentimentos por aquele outro. Antes curtia a vida tão bem, com diversas mulheres a sua volta, mas o seu maldito coração tinha que se apaixonar logo por aquele moreno? Não poderia ser por qualquer mulher que estivesse aos seus pés?

Só percebeu aquele terrível sentimento quando o lento processo acabou o jogando numa escuridão terrível.

Mas afinal que culpa tinha Hyde se Sakura estava perdidamente apaixonado por si? Nenhuma, de fato, entretanto o moreno dos cabelos longos cismava que a culpa era do baixinho que estava o entorpecendo até nos pensamentos, causando noites de sono em claro.

Caiu naquela escuridão por um novo sentimento surgir em seu coração e sabia que as chances para que acalmar aquela ansiedade dentro de si era quase nulas, isso era o que mais doía no fundo de sua alma.

Os dias perderam o verdadeiro sentido. Fazia tudo quase mecanicamente porque estava naquela escuridão cortante e o único que poderia lhe tirar dali nunca estenderia a mão e deixaria que os raios de sol tingissem sua vida, oferecesse cor a sua vida.

Tocava bateria por tocar, nem nos shows tinha vontade de flertar com alguma mulher bonita como antigamente. Por vezes tinha o olhar fixado naquele ser que corria para todos os lados e com aquela belíssima voz, aquilo balançava seu coração de uma forma que ás vezes temia que ele saísse pela sua garganta.

Maldito sentimento! Para que existir se sabia que aquele baixinho nunca poderia compreender o que sentia? Sabia que ele era de outro bem próximo a si, que tratava o vocalista com um carinho extremamente grande, e assim nunca teria coragem de transparecer porque sabia que nunca seria correspondido.

Hyde era sempre gentil e simpático com todos e isso machucava o seu coração. Quando ele vinha com seu carinho em si era como garras arranhassem o seu coração. Sua vontade era de corresponder aquele carinho de uma forma mais profunda, para que Hyde pudesse perceber o que realmente sentia.

Mas ele não era seu, e sim do baixista da banda. Sabia muito bem daquilo, ninguém precisava lhe contar, fazer fofocas, só de observar poderia perceber que aqueles dois tinham uma ótima relação, por mais que o resto do mundo dissesse que Tetsu estava se engraçando com uma moça qualquer, a qual nem sabia o nome. Era história do próprio para tentar enganar a todos.

Não sentia raiva do baixista ou do vocalista pelo contrário, ele próprio era o culpado por nutrir aquele maldito sentimento, por mais que tentasse jogar fora a escuridão que o cercava era maior, muito maior que se pudesse imaginar.

E lentamente aquilo começava a atrapalhar seu trabalho, sua vida pessoal. Aos poucos ficava distraído, dispensava várias mulheres, não falava mais aquelas coisas sem sentido por aí, pouco a pouco se fechava no seu mundinho. E infelizmente seu amigo guitarrista notava suas anormalidades e isso era ruim, não queria que ninguém notasse.

Em alguns ensaios ou encontros da banda seu olhar sobre Hyde era tão fixo que quase arrancava a alma deste, nem sabia como ele nunca percebeu aqueles olhos em cima de si. Ken foi o que percebeu sua depressão e perguntou o que estava acontecendo, mas não conseguia dizer, então, respondia que era nada.

Por que as coisas tinham que ser daquela forma? Seu coração precisava mesmo ficar ali, quebrado? Não queria mais escuridão, não queria mais dor, queria se libertar daquilo já que não poderia o ter. Mas aquilo, ah, era só mais uma doce ilusão porque não conseguia se livrar daquele sentimento.

***

Naquele dia tudo parecia normal, naquela mesa de café manhã de um bom hotel se encontravam os quatro conversando animadamente, menos um em especial que se limitava em tomar uma xícara de chá quentíssimo que rasgava a garganta a cada gole, não tinha vontade de conversar, olhava para a toalha branca da mesa escutando a conversa.

- Vocês viram como ontem as pessoas estavam afoitas? – Tetsu perguntou com um enorme sorriso no rosto olhando para os outros tentando passar sua animação.

- Eu percebi! – Hyde bradou sorrindo da mesma intensidade. – Eu pensei até que aquelas garotinhas histéricas fossem pular no palco. – Começou a rir um pouco alto.

- Eu também. – O líder da banda concordou já rindo junto com o baixinho. – Ver aquelas garotas todas afoitas gritando é muito engraçado.

- Eu percebi esses dias que temos fãs muito bonitas. – Ken sorriu de forma levada. – No mínimo isso. Ontem eu nem vi o Sakura flertando com umas, é estranho isso. Né, Sakura?

-... – O baterista não olhou para o amigo sentando ao seu lado, estava absorto em outros pensamentos, profundos em sua mente que estavam quase formando um buraco em seu cérebro.

- Sakura? – O guitarrista não obtendo resposta colocou sua mão na frente do rosto do amigo e começou a balançar tentando o acordar. – Você tá aí?

-... Ah que foi hein? – Sakura sentiu que levou um choque dentro de si e encarou o amigo com certa impaciência, odiava que as pessoas cortassem seus pensamentos.

- O que você tem cara?

- Nada... – Ficou um pouco irritado por dentro, naquele momento todos tomaram atenção em cima de si, menos o baixinho do outro lado da mesa que jogava colheradas de açúcar em sua xícara.

- Você não tem o costume de ficar assim, aconteceu alguma coisa? – Tetsu perguntou preocupado.

- Não, eu só estava pensando numas coisas... – Era apenas uma coisa, bem a sua frente.

- Caramba! – Ken exclamou. – É a primeira vez que ouço isso de você.

- Eu só não tenho o costume de falar esse tipo de coisas com vocês, mas já que vocês começaram a me amolar... – O baterista falou já sentindo a irritação borbulhar dentro de si.

- Então, por isso tô te estranhando... – O guitarrista parou um pouco para pensar e logo voltou a tagarelar. – Foi rejeitado ou alguma coisa assim esses dias?

- Não, não é nada disso. – Respondeu rapidamente, olhando para o outro lado, vendo apenas uma mesa vazia e ao seu lado uma janela mostrando o tempo nublado ali.

- Ah então, acabou seu cigarros de novo? Se quiser pode pegar um meu. – Continuava a questionar o amigo estranho ao seu lado, havia notado que não era de hoje que ele ficava assim, amuado num canto.

- Eu tô bem! – Praticamente gritou olhando para o amigo, depois respirou fundo e voltou ao normal. – Vocês é que tão vendo coisa demais.

- Você tá muito estranho... Tá até falando coisa com sentido... Geralmente sairia falando coisa nada com nada que nem faz em entrevistas. – Ken disse rindo um pouco e se voltando para a sua xícara, deixaria um pouco o amigo em paz, ou tentaria. Mais tarde teriam tempo demais pra conversar, desconfiava que o amigo andasse agoniado com alguém.

- O único estranho aqui, além de enxerido, é você. – Sakura respondeu já sem paciência e olhou para o vocalista que permanecia em silêncio atarefado em cortar um pedaço de bolo, aquilo era como uma pontada dentro de si.

- Você tá tenso...

- É verdade, você é sempre tão tranquilo, tá doente? – O baixista brincou rindo um pouco daquela situação entre os dois outros membros da banda.

- NÃO! – Sakura gritou assustando todos da mesa e levantou abruptamente e saiu de perto, iria para o quarto descansar que seria melhor do que dar satisfação da sua vida.

- Nossa, que bicho mordeu ele? – Tetsu perguntou preocupado, não pensou que o outro fosse se irritar com uma brincadeira.

- Deixa ele, deve ser falta de fumar, depois eu converso com ele. – O guitarrista abriu um pequeno sorriso e encarou o vocalista que encarava preocupado o local por onde o baterista havia saído.

-Que estranho, né? – Hyde falou após minutos em silêncio, tirou os olhos da comida ali e olhou para Tetsu e depois para Ken.

- Sim... – Tetsu colocou mais chá em sua xícara calmamente. – De qualquer forma, vamos esperar que ele fale com a gente, ficar o perturbando só fará com que ele se afaste mais de nós.

- Eu não esperarei. – Ken sorriu novamente de forma levada e se levantou preguiçosamente da cadeira. – Vou descobrir porque ele tá assim.

- Se conseguir fazer isso, nos conte depois. – O baixinho olhou para o outro e sorriu.

- Eu não deixaria de fazer isso. – Falou e logo após se distanciou da dupla.

***

Fazia um bom tempo que o guitarrista notou a mudança de humor do baterista. Ele andava mais quieto, mais na dele e até um pouco aéreo. Parecia até uma grande mentira, onde o seu amigo de banda estaria assim, diferente do que sempre foi sem motivo algum? Era muito estranho.

Foi daí que passou a observar mais o comportamento estranho do amigo e percebeu que muitas vezes ele ficava observando atentamente um ponto fixo. E naquele ponto de encontrava o vocalista. Não queria tirar conclusões precipitadas, poderia ser apenas analisando o curto cabelo de Hyde ou algo assim.

Entretanto ao passar de mais dias, percebeu que Sakura estava frio com Hyde, muito frio. Ele estava evitando a si e a Tetsu, mas ao vocalista era muito mais. Desde então esperava o momento certo de perguntar para o baterista se o que concluiu era verdade, não poderia deixar o amigo se agonizar pelo resto da vida, sabe-se lá o que passava pela mente estranha de Sakura.

Andou mais um pouco tentando se lembrar onde era o número do quarto do amigo. Lembrou-se e caminhou mais rápido até a porta e assim que estava bem próximo parou.

- Hey Sakura, posso entrar? – Ken perguntou enquanto batia na porta.

- O que você quer? – O baterista perguntou com tom de irritação na voz, mas era bem menos do que minutos atrás.

- Conversar como sempre. Abre essa porta vai.

-... – Sakura suspirou e se levantou da poltrona branca de onde estava sentado e abriu a porta para o outro.

- O que você tem? – O guitarrista perguntou enquanto adentrava no quarto bagunçado e logo achou melhor se sentar na cama que aparentava menos bagunçada.

- Você encarnou nisso. – Suspirou novamente e se encostou ao batente da porta.

- Claro, olhe pra si mesmo. – Encarou o amigo sério. – Você tá se preocupando com o que não deve...

- Ken... – Resolveu se sentar numa cadeira perto da porta, pelo jeito aquela conversa demoraria. – Eu tô bem, só tô cansando esses dias por causa dos shows...

- É esse o problema! Você fica mais doidão com essa adrenalina toda! Faz dias que você tá assim...

- Justamente por causa dessas coisas... Que saco... – Queria mudar de assunto, se continuasse naquele ritmo, chegaria a um ponto que o incomodaria mais.

- Não parece isso, não é de hoje que parece que você tá se incomodando com alguma coisa. Você anda me evitando, o Hyde e o Tetsu. – Falou ainda encarando o amigo vendo que este parecia mais incomodado com aquela conversa.

-... – Abaixou a cabeça e respirou fundo antes de falar. – Não são vocês...

- O quê? – Ken perguntou ainda mais curioso, não entendeu o que o outro disse.

- Droga, não são vocês! Só é uma pessoa que anda me enchendo esses dias... – Virou o rosto para o lado e segurou um suspiro.

- Sabia! – Falou um pouco mais alto, finalmente confirmou parte do que imaginava. – Quem é?

- Não interessa, me deixa descansar vai... – O baterista se levantou da cadeira e foi até a porta a abrindo mais já dando sinal para o amigo sair.

- Não vou sair até me contar. – Ken colocou um sorriso divertido nos lábios.

- Então ficará aí sozinho. – O moreno de cabelos longos se direcionou para a porta, não ficaria ali encurralado.

-... – Ken suspirou cansado. – É o Hyde, né?

Sakura parou de andar e sentiu o coração bater muito mais rápido. Não imaginava que logo Ken pudesse perceber aquilo, ele não transparecia tanto aquilo, não é? Mesmo que mostrasse, não era tanto do amigo perceber e vir perguntar. Tentava acreditar naquilo. Mas a verdade é que seu incômodo sentimento era muito notável.

Virou-se para o amigo dos cabelos curtos e castanhos e não conseguia mais conter o espanto. Mais essa agora, além de estar afogado numa terrível escuridão por culpa própria, os outros ainda faziam o favor de descobrir e jogar isso em sua cara quando menos queria pensar sobre aquilo.

-... O quê? – Acabou falando mostrando seu maldito espanto que numa hora como aquela não tinha que aparecer.

- Você anda muito mais estranho com ele esses dias... E também... Você fica o encarando. Ele te fez algo?

-... – Tentou recobrar a calma e fechou a porta, virou-se novamente para o amigo e passou a observar o quarto inteiro. Claro que o baixinho nunca lhe fizera algo, ele próprio que estava se torturando. – Não...

- Então por que fica o encarando daquele jeito? – Ken acabou sorrindo de canto, já tinha suas respostas, era até estranho de compreender.

- Eu encaro todo mundo assim...

- Claro que não. – Segurou o riso. – Todas as vezes que te vi com aquele olhar era você conversando com alguma mulher ou quando quer alguma coisa delas, pelo o que eu sei todas as que levou pra cama você tava com a essa cara que fica olhando pra ele.

- Ficou maluco?! – Perguntou já achando que teria um ataque cardíaco ali mesmo. Sua fortaleza de escuridão lentamente estava sendo descoberta e não era por raios solares.

- Quando vai se declarar a ele? – Perguntou de vez querendo rir, mas acabou por soltar um risinho.

- KEN! – Acabou gritando e sentiu o rosto esquentar um pouco, mais aquela para mostrar o quanto aquela era a verdade. – Eu já te falei que você beber escondido de manhã está te fazendo mal.

- Não fuja do assunto. – Desta vez o guitarrista falou sério. – E não tente mentir, muito mais agora... Eu já percebi isso faz tempo.

- Você tá delirando cara... Da onde tirou isso?

- Se fosse mais discreto, ninguém perceberia. – Da forma de como o outro agia não duvidaria se mais pessoas já houvessem desconfiado.

-... – Suspirou já vencido, como queria se livrar daquele sentimento. – Droga...

- Talvez até ele tenha desconfiado. – Abriu um enorme sorriso. – Isso não é bom?

- Ele tá nem aí pra mim. – Falou quase num sussurro e se lembrou que mais cedo o baixinho estava nem ai para a conversa onde os membros da banda estavam o aborrecendo.

- O quê? Fala mais alto! – Falou um pouco irritado. – Mas de qualquer forma, se você ficar aí se lamentando, vai dar em nada... Todo mundo já sabe faz tempo que Hyde não tem tanto interesse em mulheres.

- Da mesma forma que o Tetsu. – Falou da boca para fora e se irritou um pouco, mesmo que já fosse um adulto dono do próprio nariz, quando aquele maldito sentimento resolvia assolar sua mente e coração, parecia que era um moleque idiota.

- Como assim? – Ken perguntou confuso, não entendia o que o baixista tinha haver na história.

- Ah... Nada... – Se deu conta do que disse e resolveu não dizer mais nada.

-... – Parou para refletir e logo entendeu, abriu um grande sorriso maldoso. – Pelo o que eu entendi, você está se remoendo aí porque você acha que tá rolando algo entre aqueles dois?

Ken concordava que a relação de Hyde e Tetsu era muito boa e carinhosa, mas não era para tanto, até porque Tetsu estava num namoro sério fazia muito tempo com uma mulher que conheceu em um dia da folga da banda. Era coisa do Sakura ficar imaginando desculpas para não se aproximar mais do baixinho.

- Já chega... – Respirou fundo e se virou para porta tocando na maçaneta e abrindo a porta.

- Você andou se drogando, né? Todo mundo sabe que Tetsu tá de caso com uma mulher.

-... – Por mais que todos lhe dissessem aquilo, sentia que era mentira, sua mente estava louca.

- Bom, só queria vir aqui te aconselhar que será apenas pior para você ficar aí se remoendo sem tentar dar avanço no que está sentindo pelo chibi. – Levantou-se da cama e passou pelo amigo saindo do quarto bagunçado.

Sakura viu o amigo se distanciar, depois se voltou para o quarto o observando, mas com o pensamento longe. Tudo aquilo era culpa da escuridão que a cada minuto que se passava, devorava seu coração de tal forma que nem o próprio entendia. Aquele sentimento era cruel demais para existir em si.

***

Dias se passaram, contudo praticamente em nada as palavras de Ken surtiram efeito em Sakura que continuava distanciando de todos ainda mais com Hyde. Não conseguia mais conversar com o vocalista sem refletir sobre as palavras que o amigo havia lhe dito.

Por mais que ignorasse, aquilo incomodava a alma, sabia que jamais Hyde entenderia os sentimentos que tinha por si, poderia até o baixinho se irritar e ficar com extremo nojo de si e ignorá-lo, isso seria bem pior da forma em que se encontrava. Era melhor ficar da forma em que sempre foi.

Não. Não conseguia agir normalmente como antigamente depois das palavras do amigo tentar disfarçar o sentimento dentro de si, agora era bem pior, sentia como se o coração queimasse cada vez mais, qualquer instante se pegava pensando em Hyde e aquilo machucava. Noites em claro era o resultado daquilo tudo.

Enquanto isso, Hyde a cada dia que passava estranhava a mudança de humor do baterista. Percebeu que ele estava praticamente normal com o baixista e o guitarrista, mas quanto a si, parecia que toda vez que tentava ter uma boa conversa como antigamente, Sakura colocava uma grande barreira ali.

E a cada dia que passava aquilo incomodava profundamente Hyde. Não sabia ao menos porque ele estava assim consigo, até onde sabia não tinha feito nada a ele. E ver que ele o ignorava doía profundamente, se ao menos pudesse ter uma conversa normal como antigamente e perguntar o motivo da frieza do baterista, ah, com certeza poderia se acalmar.

Era um dia de show comum Hyde entrou em no camarim procurando pelo maço de cigarros, não iria fumar naquele momento, mas queria apenas saber onde estaria+, pelo menos depois do show poderia entrar no camarim e já ver seu lindo maço de cigarros. Viu que a sala estava vazia, exceto por Sakura estar ali sentado numa cadeira de olhos fechados.

Aproximou-se da mesa ao lado do de cabelos longos e não avistou seu maço de cigarros, já estava quase tudo pronto do lado de fora, estava apenas vendo alguns detalhes e quando volta para aquela sala nem se lembrava onde tinha deixado o maço. Resolveu perguntar, talvez o outro ali soubesse. Estava um pouco acanhado, mas poderia ser um bom momento de conversar, por mais que não tivessem tanto tempo assim.

- Sakura, você viu onde está meu maço de cigarros? – Hyde perguntou normalmente com um pequeno sorriso no rosto.

- Não. – O baterista abriu os olhos e encarou a parede longe a sua frente ali da sala, tentava de alguma forma se acalmar, e tudo desmoronou ao ouvir aquela doce voz de que tanto queria longe de sua mente.

- Ah, faz um tempo que saí e esqueci onde o coloquei. – Respondeu ainda sorrindo encarando o outro.

-... – Sakura olhou rapidamente para o baixinho, ficar ali meditando não daria certo, era melhor já se preparar. Levantou-se da cadeira e foi em direção a porta.

- Ah... – Hyde tentou dizer algo enquanto o outro se distanciava, mas desistiu, pelo jeito ele não queria conversa.

Ken andava em direção do camarim para chamar Sakura, quando viu o próprio saindo do local. O de cabelos longos passou reto por si e ficou sem entender, mas quando foi à porta daquela sala entendeu o motivo, Hyde estava lá dentro, com um olhar melancólico.

- O que foi Hyde? Por que tá com essa cara? – O guitarrista perguntou preocupado.

- Ah... – Hyde encarou o maior, ainda com o olhar triste. – Você sabe o que aconteceu com o Sakura? Ele anda meio frio comigo faz um tempo já... E pelo o que eu sei, eu não fiz nada para ele...

- Não se preocupe. – Aproximou-se do menor e colocou uma mão no ombro deste. – Ele só tá meio confuso esses dias e não tá a fim de falar pra ninguém.

- Mas ele anda normal com você e com o Tetsu... – Abaixou um pouco a cabeça. Ah, como aquilo nos últimos dias estava lhe incomodando profundamente.

- É impressão sua, ele tá assim com todo mundo... – Percebeu a chateação do outro. – Isso te incomoda?

- Sim... – O baixinho respondeu mais chateado. – Eu gosto muito do Sakura e me magoa com ele agindo desta forma... Parece até que eu fiz algo completamente errado para ele. É horrível essa sensação, se qualquer um de vocês fizesse isso comigo me sentiria assim. Dói por mais que eu tente ignorar.

- Não se preocupe, não é nada demais, ele só tá com alguns problemas e acaba descontando na gente. Só espere mais um pouco e logo tudo está nas mil maravilhas.

- Ok... – Naquele momento Hyde encarou o amigo com um pequeno sorriso, torcia para que tudo estivesse bem logo.

***

Após aquele dia, Sakura se penalizava completamente por não conseguir de alguma forma se livrar daquele sentimento. Aquela escuridão tomando conta de si parecia cada vez mais densa, nem mais parecia que respirava, só precisa do sol e mais nada. Se não poderia o ter, que então encontrasse o caminho fora daquela escuridão.

Percebia que a pouco a pouco o baixinho se distanciava de si, não mais tentava conversar. Certo era ele, já que o ignorava tanto, ele com tanta coisa a se fazer não perderia o tempo consigo. Se ao menos tentasse dizer uma palavra, talvez aquela dor dentro de si amenizasse e precisava dizer algo, pedir desculpas, aos outros membros da banda já havia se desculpado.

Mas talvez fosse tarde demais para consertar tudo.

Hyde entrou naquela sala já procurando com os olhos sua mochila, só então notou a presença do baterista ali. Não queria que aquilo acontecesse novamente, da última vez Sakura o ignorou saindo da sala, depois do ocorrido quase não tinha um diálogo com este e aquele momento chato estava ali presente de novo.

- Ah, não vi que você estava aí, só vim pegar as minhas coisas. – Falou calmamente, procurando a mochila que estava numa cadeira ao lado do sofá onde Sakura estava.

- Tá tudo bem. – Finalmente conseguir dizer seguindo com o olhar os movimentos do baixinho. – Eu também já estou de saída daqui.

- Ah entendo... – Foi até o objeto e o pegou jogando nas costas e se virou. – Estou de saída.

- Hyde... – Chamou pelo outro com a voz um pouco mais elevada.

- O que foi? – Hyde se virou um pouco surpreso, não esperava aquela atitude do outro.

- Me desculpe. – Disse de uma vez, já que não poderia ter os raios de luz que emanavam do outro, ao menos teria que se desculpar pela confusão que causou nos últimos dias e era uma forma de colocar as coisas no eixo.

- Hã? – O baixinho se aproximou do baterista um pouco confuso, não sabia o motivo daquela desculpa. – Por que está se desculpando?

- Todos esses dias... Eu causei problemas para vocês do nada. Então, como já pedi desculpas aos outros, estou me desculpando a você.

- Está tudo bem. – Acabou chegando perto de Sakura com um grande sorriso no rosto e depositou uma das mãos no ombro do outro. – Eu estava preocupado com você... Achei que estava passando por momentos difíceis e como você se fechou, achei melhor não lhe incomodar, ou passar minha preocupação. Mas agora eu fico feliz em saber que agora parece tá tudo bem.

-... Você estava preocupado? – Perguntou um pouco surpreso.

- Claro! Você é um bom amigo, não poderia te ignorar como se você fosse nada, você é importante para mim, Sakura.

-... – Ficou sem palavras com a declaração do baixinho, aquilo era muito reconfortante dentro de si, tinha até mesmo vontade de dizer o que sentia realmente.

- Bom, agora estou indo e você logo tem que ir também. – Hyde tirou a mão do ombro do outro e foi andando em direção da porta.

- Ah, Hyde. – Sakura se levantou e segurou o pulso do vocalista.

- O que foi? – Virou-se encontrando o olhar do outro, parecia diferente de antes tentava decifrar.

-... – Sua coragem esvaiu ao ver o sorriso do outro e o soltou. – Não é nada.

- Ok então. – Hyde desistiu daquilo, talvez fosse coisa da sua cabeça.

O baixinho saiu da sala, deixando Sakura parado observando a porta. As palavras de Hyde não foram como realmente queria, mas ao saber que ele se preocupava com si já era o suficiente e por isso decidiu deixar de lado os sentimentos que criaram aquela escuridão em seu coração. Ao menos sabendo daquilo tudo, a escuridão se tornava mais suportável. Não precisava estragar aquele momento com seus sentimentos egoístas.

***

Era uma noite fria em Tóquio, Ken e Sakura se encontravam no apartamento de Hyde, junto com este, bebendo e jogando conversa fora. Estavam de folga e precisavam relaxar um pouco daquela rotina cansativa. Tudo parecia normal novamente, sempre em pausas faziam aquele tipo de coisa.

- Ah, droga... A cerveja acabou. – Ken disse bebendo o último gole da sua lata sabia que não tinha mais na geladeira.

- Então vai comprar. – Sakura falou em meio a risos.

- Vai você. Você nunca vai quando isso acontece.

- Não precisam brigar, eu vou. – Hyde se manifestou se levantando do sofá. — Tem uma loja de conveniência aqui perto.

- Compra desta vez para não acabar. – O guitarrista falou se espreguiçando.

- Está certo. – O baixinho falou rindo enquanto calçava os sapatos e vestia um grande casaco bege.

- Droga, se o Tetsu estivesse aqui, ele poderia comprar. Ele sempre vai... – Sakura reclamou enquanto colocava a própria lata vazia sobre uma pequena mesa ao seu lado.

- Ele foi tratar da vida dele, não podemos o obrigar sempre a vir beber com a gente. – Ken falou enquanto se lembrava que o baixista disse que passaria a folga com a namorada.

- Sim, mas não tem problema né? Eu estou indo. – Hyde disse após colocar a carteira no bolso do casaco e abrindo a porta e logo em seguida a fechando.

- É impressão minha ou vocês agora estão normais um com outro? – Ken perguntou vendo a porta bater.

- Outro dia conversamos e eu me desculpei. – O outro explicou olhando para o teto.

- Apenas se desculpou?

- Sim... – Ficou um pouco sem graça com a pergunta do amigo.

- Deveria dar mais um passo, ele gosta de você. – Ken falou sério encarando o amigo.

- Ficou maluco? – Não conseguia ao menos imaginar aquela possibilidade, para Hyde, Sakura era apenas um amigo. – O álcool tá fazendo efeito em você.

- Não, Sakura. – Ken falou ainda mais sério. – Só você não percebe como ele age com você, como ele te olha. Você pensa que você estava sofrendo, mas nem se deu conta do quanto ele estava, todas as vezes que era frio com ele, pensa que o Hyde estava nem aí?

-... – O baterista se calou, nunca pensou por aquele lado.

Mesmo que estivesse naquela agonia desgraçada, naquela escuridão sem fim, não pensou como ele se sentia. Sua mente por dentro dizia que naquele dia menos tempestuoso ao se desculpar ao baixinho deveria dar mais um passo, mas o medo falou mais alto e desde então pensava naquilo. Por que não tentar? Mesmo que obtivesse um resultado negativo, não lhe custaria tentar.

Levantou-se rapidamente da cadeira e foi em direção ao seu casaco preto de couro jogado em uma cadeira, já se preparando para sair.

- Aonde vai? – O guitarrista perguntou estranhando o surpreso movimento do amigo.

- Atrás do Hyde. – Falou um pouco baixo, mas o outro escutou.

- Boa sorte. – Ken disse sorrindo, vendo Sakura sair rapidamente do local, já imaginava que no fim das contas aquilo aconteceria.

Sakura saiu na rua andando a passos rápidos, porém em poucos segundos praticamente corria ali no meio da noite, com aquelas ruas molhadas e com poças de água grandes. Nada daquilo surtia efeito nenhum dentro de sua cabeça, nem mesmo aquele frio que rachar até a alma.

Virou a esquina e logo a frente avistou Hyde parado, conversando com outra pessoa. Diminuiu os passos e quando estava mais próximo viu que não era uma conversa de conhecidos e sim um assalto. Via pelo revólver na mão de desconhecido e a palidez no rosto do vocalista que suava frio.

Não ficaria apenas assistindo aquilo, logo se aproximou com passos largos sem se importar em pisar nas poças de água.

- Hey, o que tá havendo aqui? – O moreno de cabelos longos disse tentando conter a respiração arfada.

- S-Sakura, tá... Tudo bem. – Hyde encarou o outro sentindo que as lágrimas queriam vir nos olhos, mas nem pôde dizer uma palavra, quando em questão de segundos sentiu seu corpo violentamente sendo puxado e algo metálico e frio encostado em sua cabeça.

- Não, Hyde. Não está, — Elevou mais a voz e deu um passo adiante, logo percebeu que fez a coisa errada.

- E você... — O outro ser, sujo e repugnante, passou um braço pelo pescoço do baixinho e apontou a arma a sua frente. – Se não quiser que seu amiguinho vire paçoca, passa a grana você também.

Os segundos pareciam passar como horas naquele momento, até anos, e Sakura tentava raciocinar o que poderia fazer naquele momento. Sentia o sangue borbulhar, se fosse possível naquele momento, até evaporar. Queria livrar Hyde dali que naquele momento já deixava lágrimas rolar pelo rosto.

Haveria alguma forma, e teria que agir rapidamente se não quisesse que Hyde se machucasse mais.

- Anda mané! – O homem encapuzado gritou, voltando a arma para a cabeça da sua vítima. – Ou vai querer que eu estoure os miolos dessa coisa?

Bastou aquela frase para que a trava dentro de Sakura ficasse frouxa o suficiente para a sua paciência e calma esvaíssem para fora de sua alma. Pouco ligava para si, sua maior preocupação era Hyde.

E com aquela preocupação em fração de segundos, seus pés pisaram em uma poça de água e logo partiu para cima daquele maldito que ousou tirar a paz daquele dia machucando a pessoa amada. Hyde foi ao chão a poucos centímetros de distância da onde a briga se encontrava.

Poderia ser tudo diferente naquela noite, tudo poderia ter acabado de outra forma. Tudo se silenciou após um barulho alto. Sakura olhou pra Hyde que gritava e logo sentiu uma dor no próximo ao peito esquerdo, que dor estranha aquela, até parecia que alma escapava por ali de tão grande que aquela dor.

Perdeu o equilíbrio e foi ao chão, ainda não entendia porque diabos Hyde chorava como um louco. Viu o desgraçado sair como um foguete de perto dali e na mesma velocidade o baixinho de aproximar, chacoalhando seu ombro com força e chamando pelo seu nome. Só se deu conta da situação quando viu o sangue no campo de sua visão.

Estava morrendo então?

Como aquilo doía, mal conseguia se mover. Respirou fundo tentando manter os sentidos no eixo.

- Sakura... – Ouviu a voz de Hyde, finalmente. – Aguente firme aí, eu vou chamar ajuda.

-... Dói tanto... – Com força de vontade conseguiu dizer o que sentia, aquela dor não era de bater o dedinho na quina de móveis, ou de se queimar, ou muito menos de se cortar enquanto cortava algum alimento, era bem pior que até respirar se tornava difícil. — Eu... Não consigo suportar essa dor.

- Aguente! – Hyde gritou com a voz chorosa, aquilo realmente só poderia ser um pesadelo.

- Eu não tô aguentando...

- Não morra! – O baixinho chacoalhou mais o amigo ferido quase lhe arrancando a vida com a força que aplicou. Seus olhos estavam tão embaçados que só via aquela mancha de sangue borrada. – Você não pode nos deixar! Imagine como todos ficarão! Eu não suportaria se você morresse!

-... – Tentava respirar, mas agora estava bem mais difícil e xingava céus e infernos por ninguém ouvir aquele escândalo, os gritos do vocalista poderia acordar qualquer um, não queria morrer.

Fechou os olhos por um momento, parecia até que doía menos ficar com os olhos fechados, parecia que logo dormiria no meio daquela escuridão.

- Sakura, fique acordado! – Hyde passou uma das mãos nos olhos banhados naquela água salgada e voltou a pousar nos ombros do outro estirado no chão, cada vez mais o baixinho ficava louco.

- Hyde... Por que está chorando? – Resolveu perguntar de uma vez, se não fosse a situação em que se encontrava, até riria. – Até parece que... É você que está morrendo...

- Oras, eu me importo com você! Não quero que você morra. – Com aquilo, deixou mais lágrimas rolarem pelo rosto até alcançar o chão com o pequeno tapete vermelho, não poderia o deixar ali e chamar ajuda mais.

Tentou dizer algo para Hyde, mas da forma que estava não conseguia nem mais falar. Sentia cada vez mais aquela vontade de fechar os olhos e esperar a dor passar. Ah, aquela dor naquele momento parecia que atingia o corpo inteiro, como se estivesse com estacas por todo o corpo. Então aquilo era morrer?

Até que não era aquele drama todo de como eram nos filmes. E não via a vida passar como um filme em fração de segundos, mundo mentiroso... Parou para pensar, só havia uma coisa que ainda não tinha feito como deveria ser feito, graça a burrice própria e minutos atrás por azar do destino.

- H-Hyde... Pare de chorar, até parece uma criança.

-Eu não consigo... Eu não quero que você morra... E por minha culpa.

- Eu... Não me importo. – Abriu um pequeno sorriso e olhou para os olhos cheios d’água do baixinho, juntou todas as forças e tomou força que nem sabia de onde tirou. Esticou o braço até o rosto do amigo tentando secar aquele mar de lágrimas– Hyde... Eu só queria... – Respirou fundo novamente. – Dizer que eu realmente... Gosto de você... Mas agora, já é tarde demais.

Parecia que daquela vez, lhe tiraram toda energia que tinha no corpo, uma simples frase lhe causou aquilo, não seria para menos no estado que estava. Fechou os olhos e sentiu os poucos a escuridão o abraçar, fora dela, só sentia pequeninos raios de sol, e uma voz gritando pelo seu nome.

Seria seu fim?

***

Estava sem dor alguma, parecia até que nem havia levado uma bala no corpo. Não entendia onde estava, mas sentia o corpo tão pesado, e não havia nada em cima de si, até porque estava em pé em um lugar familiar, aquela torturante escuridão onde sua alma esteve por um bom tempo.

Ali não parecia mais um lugar agonizante, pelo contrário, transparecia uma paz enorme, parecia até que estava de férias descansando em algum lugar bem confortável. A única coisa que incomodava era o peso no corpo.

Começou a andar perdido. Sua alma estava presa a aquele lugar, mas nunca esteve batendo perna dentro dela, nem mesmo em seus piores pesadelos estava ali, só quando sentia a tristeza bater no peito e fechava os olhos se encontrava ali.

Andava procurando uma saída, até ouvir uma voz vinda de todos os cantos, como uma trilha sonora na sua escuridão.

- Desgraçado... Tinha que fazer aquilo? Você é realmente um idiota... E agora... Não acorda...

Parou, conhecia aquela voz de algum lugar, entretanto não se lembrava de onde.

E aquele maldito peso no corpo aumentou, parecia que carregava toneladas.

Fechou os olhos por um momento, depois tentou os abrir, mas quando sua visão teve contato com o ambiente externo, fechou novamente, quem diabos acendeu a luz dali? Esperou um pouco e foi abrindo lentamente, percebeu que não era o lugar de antes, estava olhando para uma parede branca comum.

Tentou mover o corpo, mas não conseguiu, tinha algum apoiado em suas pernas. Quando viu, estranho completamente, era Hyde que estava com a cabeça escondida nos braços apoiadas em suas pernas. Onde estava afinal?

Sentiu a garganta seca e passou a observar o local estranho. Era um quarto, estava em uma cama, com uma janela grande ao lado, mas não conseguia ver a paisagem uma cortina branca grossa tampava a visão, objetos, duas cadeiras azuis. Tudo ali era branco, um mundo branco, por exceção de Hyde que vestia uma roupa escura.

-... Onde estou? – Perguntou agora encarando o amigo que quando ouviu sua voz, levantou a cabeça rapidamente se ajeitando na cadeira, logo abriu um grande sorriso.

- No hospital. – O vocalista falou enquanto limpava as poucas lágrimas do rosto e se levantou da cama e chegou mais perto do amigo. – Você foi baleado, lembra?

-... – Sentiu uma leve dor de cabeça ao tentar se lembrar, mas logo tudo voltou a memória como uma avalanche. Esperou tudo se normalizar dentro de si e respirou fundo. – Agora tô me lembrando do que aconteceu...

- Como você está? – Perguntou encarando preocupado.

- Ah, só sinto um pouco de dor no corpo... Mas e você Hyde?

- Eu tô bem, muito mais agora que você acordou. Eu estava preocupado, você estava dormindo faz cinco dias.

- Cinco dias? – Perguntou um pouco incrédulo, parecia que estava apenas cochilando por poucos minutos.

- Sim, aquele dia quando você desmaiou eu fiquei desesperado e pedi ajuda para um grupo de pessoas que estavam passando na rua e consegui avisar o Ken... Você quase morreu! – Os olhos de Hyde encheram-se de lágrimas novamente. – Quase morreu graças a uma bala que ficou alojada perto do seu coração, o que você tinha na cabeça?

-... – Não conseguia raciocinar, era até estranho acreditar que tudo aquilo aconteceu e não se lembrava de nada, e o pior de tudo era estar adormecido com todos aqueles acontecimentos. – Me desculpe... Me desculpe por ter arriscado sua vida naquela hora... Agi por impulso.

-... Tudo bem. – Hyde respirou fundo e logo voltou a sorrir, deu alguns passos próximos a Sakura e lhe deu um apertado abraço. – Muito obrigado, se não fosse por você eu nem sei o que teria acontecido... Mas não arrisque mais sua vida assim.

- Eu faria isso de novo sem pensar. – Falou enquanto correspondeu o abraço logo em seguida se penalizando por ter dito aquilo. Entretanto, tudo poderia ficar da forma que estava naquele momento.

O baixinho não conseguiu responder, sentia-se paralisado. Aquela terrível sensação, aquele aperto no peito era algo sufocante.

-.... – Respirou fundo se soltando do amigo, se chegou até aquele estado como homem, que dissesse tudo devidamente como homem. – E eu não menti... Hyde, eu realmente gosto de você.

O vocalista se soltou rapidamente do maior e encarou o chão com o rosto ainda mais vermelho. Sua mente agora girava rapidamente, se bobeasse, cairia no chão. Não entendia porque agora ouvia aquelas palavras, muito mais do amigo baterista, estava muito confuso.

Ao ver o movimento do menor, penalizou-se ainda mais. Não sabia de onde tinha tirado aquela coragem para dizer tudo aquilo. Não sabia se havia feito certo ou errado. Certo por tirar da garganta palavras que já deveriam ser ditas. Ou errado pelo próprio egoísmo e num toque de mágica, destruído uma grande amizade.

- Eu também gosto de você. – Hyde falou tentando sorrir, mas falhou naquela tarefa. – Quando me ignorou... Eu pensei que nossa amizade que tento conservar ao máximo estava perdida... E Eu não sabia nem o motivo para tentar remendar...

- Me desculpe... – Disse quase num sussurro. Sentia-se levemente confuso; – Eu... Não sabia como agir-

- Está tudo bem agora. – O vocalista falou atropelando o que o outro dizia e voltou a abraçá-lo. – Eu já fico feliz em saber que foi tudo um mal entendido afinal... Para mim já basta.

- Mas para mim não. – Teimou novamente com a própria razão, já estava confuso, mas não deixaria que a escuridão dentro de si persistisse.

- O quê? – O baixinho já se sentia sendo afogado num mar de confusão por Sakura, estava surpreso com aquilo tudo, se fosse realmente o que pensava... Não, o amigo estava dopado com remédios fortíssimos.

- Eu não quero apenas ouvir que você quer preservar nossa amizade... Ah droga... – Sentia-se num caminho sem volta. – Eu gosto de você além da nossa amizade... E eu quero ficar ao seu lado.

Naquele momento, se Sakura pudesse se enfiar novamente naquele sono profundo, o faria o mais rápido possível. Mas oras! Chegou até ali e disse todas aquelas coisas por nada? O baixinho não havia lhe dado nem um soco bem certeiro na cara ou saído correndo, só estava ali parado o encarando quieto e com a cara num tom rosa quase vermelho.

Não aguentava mais aquele silêncio cortante, aquilo lhe machucava profundamente, parecia até que havia cometido um crime. Porém seguiria em frente. Um pouco inseguro depositou as mãos no rosto de Hyde e o puxou junto de si.

Hyde pensou que naquele momento fosse morrer, seu coração batia tão rápido que se ficasse mais quieto ouviria as batidas cardíacas. Sentiu um calor intenso lhe percorrer o corpo inteiro, aquela sensação tão boa que sentiu poucas vezes, estava novamente ali, dando-lhe um boom em seu coração. Não era ruim, pelo contrário, era inexplicavelmente bom, da forma em que anos não sentiu aquele boom tão intenso dentro de si;

Sakura sentiu uma felicidade intensa quando sentiu o outro lhe correspondendo. Tantas vezes esperou por aquilo. Antes sonhos tão impossíveis no meio de sua própria agonia, agora tudo estava dentro de si ima luz daquele sentimento tão bom.

Depois de algum tempo o moreno de cabelos longos soltou e outro que estava ainda mais corado e só tinha mais uma coisa a dizer para sua agonia morrer de uma vez por todas. Se Hyde não havia lhe matado até agora, não haveria problemas.

- Eu não vou te machucar como eu fiz antes... Então, por favor, não me deixe nessa gonia que é estar sem sua luz...

Hyde por alguns momentos ficou um pouco confuso com aquilo, tentava raciocinar o que ele queria dizer. Então, ele se sentia preso em algo ruim? Como flores que desabrocham na primavera com a luz do sol.

- Eu jamais faria isso... Eu ficarei aqui, certo? Então não precisa ficar com expressão triste. – Sorriu e o abraçou novamente com um sorriso nos lábios.

Se Hyde soubesse desde o começo daquela escuridão de Sakura, com certeza não teria o deixado sofrer da forma que estava. Por mais que o incidente de cinco dias atrás foi ruim, trouxe depois frutos de alegria.

Sakura sorriu e beijou o Hyde novamente, sua alma parecia ter criado uma luz que o fazia se sentir tão bem, uma luz quente, que só Hyde poderia lhe proporcionar, lhe tirar da escuridão. Todas as dúvidas haviam se calado, sua dor e insegurança haviam morrido.

Notas finais
Gostaram, odiaram, querem me matar, comentem!
Segundo Natal que dedico uma história pra Ary, porque ela é uma amiga que foi além das barreiras do PC e essa fic nem chega aos pés de um presente digno de Natal para ela.
Para todos que chegaram até aqui, Feliz Natal e um ótimo Ano Novo.
E quem descobrir em qual música me inspirei ganha um panetone da Bauducco.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!