Luz Distante
1 Capítulo Único
Notas iniciais
— Gui, o que é o amor?
Era noite. O vento frio agraciava a pele daqueles que o recebiam. A lua era cheia, belíssima, como um grande olho divino observando suas criações enquanto as mesmas dormem. Não havia sinal de poluição ou nuvens no céu, sendo assim, a abobada celeste era repleta de milhares de estrelas, estas que são impossíveis de serem nomeadas ou contadas. Estas que talvez já morreram e só agora veio sua luz para embelezar a escuridão. Abaixo de tanta beleza natural, a grama se enroscava entre os cabelos de duas almas humanas.
Guilherme, o menino de cabelos castanho-escuros e olhos claros, pele branca e corpo condizente com a idade. Usava vestes completamente brancas, já levemente sujas devido a estar deitado no chão. A mesma descrição se dá as roupas de Beatriz, a garota que proferiu a pergunta. Menina de cabelos longos, castanhos e lisos, pele também branca e olhos azuis como um mar de águas claras. Um vestido branco era sua vestimenta, com um laço de mesma cor ao redor de seu pescoço. Ambos pareciam ter algo próximo dos 16 anos.
A pergunta tira Guilherme de um transe, que estava apenas a encarar o céu, quebrando o silêncio entre os dois.
— É um sentimento que une as pessoas. — Responde o rapaz.
— Isso não foi uma boa resposta. — Retruca a garota.
— Por que diz isso?
— Meu pai amava eu e minha mãe. Eu amava meu pai. Como pode ver, nós não estamos unidos. — Fala Beatriz, com o olhar fixo nas estrelas. Essa frase aperta o coração de Guilherme com uma força descomunal.
O pai de Beatriz havia morrido a menos de um mês atrás. Um câncer já havia se instaurado a muito tempo no já de meia idade senhor Tavares, tendo culminado de vez nos últimos meses. A separação foi difícil, a família de Beatriz era feliz. Unida. Todos se amavam. Até que, como se o lado errado da moeda vingasse, o manto negro da morte levou o senhor Tavares. O mês passado foi terrível para ela. Lidar com a morte do pai, manter as notas escolares, parecer bem para todos. Mas Guilherme sabia como ela estava. Como sabia.
— Desculpa... eu não queria ter jogado isso em você de novo, Gui. — Fala Beatriz, se sentindo culpada.
— Não, Bia. Eu me expressei mal. O amor é muito mais do que algo que une as pessoas.- Ambos até então não haviam tirado os olhos do céu, mas nesse momento, Bia olha pro rosto do rapaz, esperando o que ele tem a dizer. Ele continua com o olhar fixo nas estrelas. — O amor não só une as pessoas. Ele pode ser a coisa mais devastadora de todas, como pode ser a coisa mais plena. Poucas coisas são mais perigosas do que o amor. Mas poucas também são as coisas que valem mais a pena do que ele. O amor une, mas também separa. Pais de família vão para longe de casa, trabalhar em nome dos que ama. Filhos vão estudar fora em nome de uma boa condição futura pros pais. Amor é sacrificar coisas que você se acha incapaz de sacrificar. Pelo menos até precisar em nome de quem ama.
Beatriz permanece olhando para o garoto, em silêncio e com atenção. Em sua mente, Guilherme está um turbilhão de memórias. Ele lembra do dia antes do senhor Tavares morrer. Lembra de visita-lo no hospital. O estado daquele homem que o garoto tanto admirava. Era... de partir o coração e a alma ao mesmo tempo. Sua pele já não tinha o tom de antes. Era algo pálido, sem cor. Assim como o olhar. Não haviam mais cores. Apenas dor, tristeza e medo. Medo da morte? Não.
— Amor é ter medo não por si mesmo, mas por aqueles que você ama. Ter medo de deixar este mundo, deixar tudo que ele protege e vive para proteger. Amor não é um motivo para estar vivo. É um pelo qual vale a pena viver. E morrer. Talvez alguém nunca ame. Esta pessoa perdeu um pouco do que é estar vivo. Perdeu um brilho que nunca encontrará em nenhum outro lugar. Amar é encontrar tudo, mesmo não querendo nada.
— E se tudo isso for uma ilusão nossa, como seres humanos? E se nosso corpo cria esses sentimentos como forma de perpetuar nossa espécie? Como eu posso saber se o amor existe? — Apesar de ser uma pergunta errada na hora errada, Guilherme entende Bia. Ela está confusa. Sem amparo num mundo onde quem mais a amava, partiu. E deixou um buraco quase impossível de preencher.
Guilherme lembrava. As mãos tremulas daquele senhor sem cabelos, deitado na cama e suportado por aparelhos. Seu olhar vazio focando os olhos castanhos do menino de 16 anos. Guilherme lembrava dos momentos que teve com o senhor. Os dias em que ele e Beatriz passavam no campo, junto com suas famílias. Os filmes que o senhor Tavares pegava emprestado da locadora e devolvia meses depois. As besteiras que ele encobriu, sempre com aquele sorriso de "ele é só uma criança, deixa o menino". O senhor Tavares era especial não só para Bia, mas também para aquele garoto.
— Beatriz. Pelo que vale a pena viver? Pelo que vale a pena morrer? O que nos faz humanos? Do que é feito o espírito?
— Er, eu respondo qual primeiro? — Ela questiona, ingenuamente. Guilherme sorri.
— Amor, Beatriz. A resposta de todas essas perguntas é amor. A partir do momento que o desejo de um ser, o desejo de amar alguém, ultrapassa a vida desse ser e vai para outro indivíduo... isso é a prova de que o amor existe. Esse sentimento... que ultrapassa a morte, que vence as barreiras impostas pela natureza! É como a luz das estrelas, Bia! Ele vai ultrapassar anos, décadas! Até chegar nos olhos de outro alguém que vai adotar essa luz e vai dizer "eu também te amo"! — Guilherme aponta para o céu. Uma lágrima solitária escorre pelo olho esquerdo do rapaz, de modo que Bia, do lado direito, não teve como perceber. Ele abaixa o braço novamente. — Se o amor não existe, o que é isso?
Uma pausa se tem neste momento. Beatriz volta a observar o céu estrelado. Guilherme, continua. Continua a se lembrar. A voz trêmula do senhor Tavares ecoa pela sala vazia, como um chamado divino. "Se aproxime, filho", diz o senhor. Filho. Ele tinha Guilherme como um filho, via a si mesmo mais jovem naquele rapaz. O jovem se aproxima do pai da menina que ele amava. Sim, ele amava Beatriz. Era a coisa que ele mais amava. A sua vizinha. Sua melhor amiga. Sua "pequena luz". E seu pai, estava com a luz prestes a se extinguir. "Sim, senhor?", pergunta Guilherme. O senhor Tavares segura a mão do rapaz. Mesmo trêmulo, ele tenta usar o máximo de força, para demonstrar seriedade. Ambos estavam serenos. Como uma conversa de homem pra homem. Confiança era passada a cada respiração, cada batimento do pulso. Com sua voz calma e imponente, o senhor Tavares profere as ultimas palavras que Guilherme ouviria daquele homem que tanto tinha respeito.
"Você me promete que vai cuidar da minha filha, quando eu não puder mais?"
Beatriz e Guilherme. Bia e Gui. Apelidos carinhosos, demonstrações de afeto. Personificações de amor. A garota segura a mão do rapaz, apertando-a com força. Ainda olhando pro céu, com os batimentos cardíacos um do outro em um só ritmo, um ser, um coração; Beatriz quebra a pausa, com uma frase que foi ouvida por toda a legião dos anjos, dos querubins mais baixos, aos arcanjos e os ouvidos perfeito de Deus:
"Gui... você me ama?"
Sim. Ele a amava. Ele a amava. Ele a amava. Ele queria dizer isso. Queria olhar para ela e dizer. Mas seus olhos estavam cegos pelas lágrimas que desciam sem parar. Ele vira o rosto pro lado dela, se deitando sobre o peito da garota, em busca de consolo, carinho. Amor. Ela entende, enquanto também chora, em silêncio olhando pras estrelas, enquanto passa as mãos no cabelo do rapaz.
E Beatriz fala no ouvido do garoto:
— Realmente, Guilherme. O amor talvez realmente seja como a luz das estrelas. Ele existe a muito tempo....
"Mas eu só o vi agora."
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