Lutando Para Amar.
4 Capítulo 3
Notas iniciais
O sol do meio-dia brilhava em sua costumeira intensidade no alto do céu, parecendo desafiar as pessoas a se expor ao seu calor escaldante.
Um idoso homem parecia ter aceitado esse desafio. Sua carroça de madeira deslizava de forma lenta pela estrada que levava para fora de seu vilarejo, ele assobiava uma melodia melancólica antiga que nem ele mesmo conhecia letra, sempre ajeitado o chapéu que o protegia do sol, que era maior que sua cabeça, ao mesmo tempo que guiava o caminho de seu cavalo.
O idoso entrou na estradinha esburacada que levava ao fim do vilarejo, e após percorrer alguns metros, conseguiu enxergar algo muito peculiar: Várias tendas douradas posicionadas próximo ao caminho que ele tinha que passar. Soldados andavam em meio às tendas e nas proximidades da floresta que cercavam o vilarejo com olhares atentos a qualquer movimento.
O homem passou calmamente pelos soldados, recebendo um olhar desconfiado e frio deles. Quando estava quase fora do acampamento montado por eles, um soldado o parou com gestos e um olhar autoritário. Ele usava uma armadura um pouco mais extravagante que as dos demais, o fato de não usar elmo revelava um rosto que podia ter sido belo um dia, mas agora era marcado por cicatrizes das batalhas que já lutou em seus valentes anos de vida.
-- Boa tarde, camponês. Se me permite pergunta, aonde estar indo?
O ancião estreitou os olhos e inclinou a cabeça, fazendo uma careta que fez com que ainda mais rugas surgissem seu rosto.
-- Quem é o senhor?
-- Apenas um oficial cumprido seu trabalho. -- O soldado disse vagamente.
-- Minha vida não é da conta de ninguém. -- O camponês resmungou rispidamente. -- Ainda mais de um desconhecido.
Um sorriso brotou no rosto levemente deformado do soldado, fazendo com que resquício de beleza surgisse na sua face. Ele tinha que admitir que a audácia do homem era admirável.
-- Não posso permitir que passe sem saber pra onde vai...
-- Não vou dizer pra onde vou, se não dizer quem você é! -- Retrucou, pronto para dar partida na sua carroça e continuar seu caminho.
O interrogador suspirou e passou a mão pelos cabelos encaracolados que já se encontravam com poucos e quase imperceptíveis fios grisalhos, tentando manter a paciência.
-- Me chamo Lúcio, comandante do exército do sereno reino dos RealisAurum. Acima de mim, apenas meu senhor, rei Victor, e o governador de todo o reino.
Lúcio levantou o olhar para o idoso, esperando que ele pedisse desculpas pela insolência ou começasse a tratá-lo com mais respeito, como todos faziam quando revelava sua autoridade. Mas o outro apenas o olhou de cima a baixo, como se ele fosse uma fruta que ele estava testando se era boa ou não antes de comprar, e disse com uma voz cheia de indiferença e uma expressão inexpressiva:
-- Pode me chama de Filipe, estou indo pegar lenha na floresta. Será que pode me deixar ir agora?
O comandante impediu que seu sorriso ficasse maior e cruzou firmemente os braços sobre o peito, tirando a mão da espada em sua cintura pela primeira vez desde que parou o ancião. Ele definitivamente tinha gostado daquele homem.
-- E precisa de uma carroça para pegar um pouco de lenha? -- Voltou a indagar Lúcio.
-- Quando eu era jovem e cheio de saúde, não. -- Filipe retrucou, ainda ríspido e indiferente. -- Mas não tenho a mesma força de quando era um rapaz e não é só "um pouco de lenha". Pretendo pegar lenha para pelo menos dois dias.
-- Hum... -- O comandante coçou o queixo, fingindo estar pensativo. -- Entendo, camponês. Se importaria se meus soldados desse uma olhada na sua carroça?
-- Claro que me importaria! -- Filipe se exaltou. -- Nunca gostei que mexesse em minhas coisas.
-- Prometo que eles não lhe darão nenhum prejuízo. -- Lúcio garantiu e, soltando um assobio agudo e ressonante, chamou quatro soldados que apenas observavam ao longe.
Os soldados ignoraram completamente os protestos do idoso e começaram a revistar a carroça. Era algo bem simples, não tinha grande engenhosidade, mas era algo muito bem feito e o capricho era notável. Não havia muito para revistar. Filipe sentiu seu sangue gelar quando eles começaram a remover o pesado pano preto que cobria o conteúdo da sua carroça.
Fechou os olhos e imaginou as cenas que sucederiam a seguir: A descoberta do casal escondido na sua carroça, o sorriso cínico nos lábios do comandante por causa do fato de ter o pego, o alívio por detrás dos olhos falsamente vazios dos soldados por terem finalmente conseguido conclui seu trabalho sem provocar a ira de seu rei, a acusação de traição e enganação e a lâmina que seria passada por sua garganta, fazendo com que sangue de gosto metálico subisse até sua boca...
-- Não encontramos nada suspeito, senhor.
Filipe abriu os olhos bruscamente, observando numa mistura de choque paralisante e alívio completo os soldados se afastarem.
-- Muito bem, senhor camponês. -- O sorriso dele parecia ser verdadeiro, mas seu olhar frio e penetrante eram como garras afiadas que queriam passar por sua alma, a rasgando se precisasse. -- Pode ir, desculpe o incômodo.
Filipe abriu a boca, prestes a responder, mas percebeu que o choque o deixou mudo. Achando completamente desnecessário falar algo, deu partida e seu cavalo, sumindo depois de alguns minutos.
-- Voltem para as suas posições! -- Lúcio ordenou, autoritário, recebendo obediência imediata dos seus soldados.
Alguns metros dali, pendurados numa árvore na beira da estradinha, Thalia e Alex observavam a cena em silêncio, conseguido ouvir poucas palavras do que era dito no interrogatório.
-- Espero que conseguimos agradecer à aquele casal algum dia. -- Alex sussurrou, fazendo Thalia assenti em concordância.
Sem mais palavras, eles desceram a árvore. Thalia tinha abandonado as roupas surradas e que eram considerados masculinas, e tinha aceitado um vestido cinza e quase todo remendado. Alex tinha optado por uma camisa de algodão azul escura e uma calça folgada que Filipe o emprestará. Ambos tinham mantido as botas de couro que ajudava em uma caminhada longa como a que estavam tendo e estava facilitando muito a descida da árvore que se refugiaram.
Quando seus pés tocaram o chão, Alex pegou o mapa que o casal tinha lhe dado e pediu num sussurro que Thalia verificasse a bússola. Com muito temor e nervosismo, confirmaram que teriam que passar pelo acampamento dos soldados para pegar o atalho que os novos amigos tinham indicado para chegar mais rápido ao reino dos Leonios.
Na ponta dos pés, eles usavam os arbustos ou invadiam as tendas vazias para se esconderem dos soldados que faziam a patrulha. Alex pensou em roubar algum dos cavalos que os soldados usavam, mas chegou a conclusão que chamaria muita atenção e deixaria rastos pelo caminho que percorreriam. Eles estavam perto do fim do acampamento, mas acabaram tendo que entrar numa das tendas quando avistaram um soldado patrulhando perigosamente perto deles, só que, não pressa, acabaram esquecendo de verificar se tinha alguém dentro do lugar.
Ambos congelaram quando avistaram Lúcio avaliando um enorme mapa de todo o território que repousava numa mesa de madeira. O comandante levantou os olhos esverdeados e levantou uma sobrancelha, um sorriso de escárnio surgindo nos seus lábios.
-- Ora, ora, ora. -- Alex acompanhou, tremendo, a mão cheia de calos agarrar o cabo da espada. -- Nós correndo atrás da caça e ela cair dentro da nossa toca.
Thalia cerrou os olhos, agarrou a mão do companheiro e encarou o homem a sua frente com os olhos brilhando audaciosos.
-- Nunca ouviu falar que a caça pode virar o caçador?
Lúcio inclinou a cabeça, avaliando atentamente a bela ruiva a sua frente. Anos aprendendo a ler as pessoas, indentificar suas fraquezas, manipulando a seu favor as qualidades, tinha sua vantagem. Ele pode ver que a mulher engolia o medo e usufruía de uma língua afiada como autodefesa para consigo mesma, era algo bastante eficaz para mentes fracas, mas poderia ser mortal com pessoas espertas e inabaláveis.
-- És uma moça muito bonita, senhorita. Também desistiria de um reino inteiro por uma noite com você. -- Disse, com um sorrisinho malicioso. Ao lado de Thalia, Alex fechou fortemente a mão que não segurava a da plebéia, a imensidão azul que era suas íris brilhando furiosas.
-- Que pena. -- Thalia sorriu cinicamente. -- Por que eu não fugiria com você nem se fosse o príncipe mais rico desse território.
Enquanto a expressão calma do comandante era substituída por uma careta de irritação, Alex avaliou milimetricamente a tenda, a procura de algo que o ajudava. Ao lado da mesa, estava uma superfície de ferro reta e lisa onde várias armas estavam penduradas, a tenda era sustentada por uma viga de madeira que estava ficada no centro da tenda, atrás da mesa que separava o casal do general. Um plano brilhou na mente de Alex, mas precisava que o comandante estivesse distraído.
-- Então, por que meu querido pai me quer de volta? Ele tem três filhas que podem me substituir. -- Ele sentiu os olhos cor-de-âmbar da companheira queimar sobre si e deu uma discreta piscadela para ela, que logo entendeu a situação.
-- Bem, príncipe Alexandre, se chegar aos ouvidos do rei Magnus que o noivo da sua filha fugiu com um plebéia irá declarar guerra contra nosso reino. -- O olhar reprovador daquele homem parecia querer perfurar sua alma. -- Você não quer isso, não é?
Alex deu de ombros, indiferente.
-- Meu pai me noivou com aquela princesa por que quis, não vou me culpar por algo que ele causou. Ele sabia que eu nunca quis um casamento forçado, mas isso não impediu de tomar medidas que teria consequências por minha parte. A culpa não é minha, e sim dele.
O comandante abriu a boca, prestes a dizer algo, mas Alex, vendo uma oportunidade, pôs seu plano em ação: Avançando o mais rápido que conseguia, ele empurrou a mesa, derrubando tudo que havia em cima dela, e a chutou de forma que atingisse o comandante, fazendo-o se chocar contra o chão com a mesa pressionando seu peito. Agarrando uma espada de dentro da superfície de ferro, ele contornou rapidamente o comandante que gemia tentando empurrar a mesa de cima de si e descreveu um golpe que concentrava toda sua força contra a viga que sustentava a tenda.
Agarrando a mão de uma Thalia confusa, ele a puxou para fora, enquanto a tenda desmoronava atrás de si, formando um monte de tecido dourado onde os gritos furiosos do comandante eram abafados. Alex apenas corria desesperadamente, não processava o que acontecia ao seu redor ou diminuía o ritmo, apenas apertava fortemente a mão da ruiva e corria, com a adrenalina acelerando os batimentos do seu coração e fazendo seu sangue circular furiosamente por suas veias.
Sentindo suas pernas cansadas e vendo que já estavam longe o suficiente do acampamento, Thalia firmou os pés no chão e fechou os dedos ao redor do pulso do príncipe. Com essa parada inesperada, o corpo de Alex trombou para trás, caído em cima da mulher.
-- Aíííííí! -- Ela protestou.
-- Desculpe. -- Alex se apressou em sair de cima da outra e a ajudou a ficar de pé.
Ao recuperar o equilíbrio, Thalia tratou de verificar a bússola, bufou ao perceber que tinham desviado da rota, pois demoraria o dobro do tempo para chegar ao destino que queriam.
-- Demoraremos mais do que antes, já que agora estamos a pé. -- Informou, frustada.
Alex assentiu, mas não prestou verdadeira atenção no que a companheira tinha dito. Vasculhava ansiosamente a bolsa que levava alguns poucos pertences e o que julgava precisar para a viajem.
-- Achei! -- Exclamou aliviado, por um momento achou que tinha esquecido esse item.
-- Achou o que? -- Thalia perguntou.
Alex estendeu uma pequena sacola de tecido dourado, bordado de desenhos vermelhos, como se tivesse sido tingido de sangue.
-- Isso é para você. -- Disse suavemente.
Curiosa, a ruiva estendeu a mão e pegou a sacola, sentido algo frio se remexer. Enfiando a mão morena dentro, agarrou uma espécie de cabo que pareceu se ajustar perfeitamente em sua delicada mão. Ficou surpresa ao puxar uma pequena, porém mortal e afiada, adaga de dentro da sacola.
A lâmina era prateada e brilhava refletido a pouca luz do sol que conseguia atravessar as árvores, indicado que tinha sido cuidadosamente polida. O cabo era levava as mesmas cores da sacola em que estava: Um vermelho escuro e hipnotizante como sangue, com delicados detalhes dourados o enfeitando. Sentindo ainda um pouco de peso na sacola, meteu novamente a mão dentro, tirando de lá uma aljava que parecia se encaixar perfeitamente em sua cintura, como se tivesse sido feita sobe medida.
-- Nossa... -- Thalia piscou, atordoada. -- É linda, Alex. Mas... Não sei manejar armas.
-- Não há problema, eu te ensino. Essa arma é dada para às mulheres que são membros da corte real para elas poderem se defender se forem atacadas. E... Bem... -- O nobre pigarreou e encarou os pés. -- Sou eu quem eles precisam que esteja vivo.
Thalia assentiu, entendendo a preocupação do companheiro. Se inclinando na sua direção, depositou um demorado beijo em sua bochecha esquerda, fazendo o homem corar de forma leve, porém perceptível graças a sua pele clara.
Depois de uma breve mapeamento da área para saber se não tinha nenhum guarda por perto, eles usaram o mapa que tinham para voltar para o caminho certo e logo estavam rumando na direção correta para o reino dos Leonios, com as árvores os ajudando a evitar encontros com pessoas que poderiam os denunciar para seus perseguidores.
O objetivo, que já não era fácil, se tornou mais difícil e complicado: A viajem que demoraria dias, se alastrou para semanas. Estavam mais vulneráveis e os suprimentos teriam que ser mais regados por causa que a chegada a cidadezinhas ou vilarejos seria um pouco mais cansativa.
Mas desisti não estava nos planos daqueles dois jovens unidos por algo maior que um sentimento que acelera seus corações.
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